domingo, 1 de janeiro de 2012

Protocolo cíclico (ou Da inumanidade)

Dois-mil-e-doze é um ano que já começou a muito. É o protocolo de fim de mundo, o protocolo da eleição presidencial estadunidense, o protocolo astronômico do eclipse solar (dois; um anelar, em maio, e um total, em novembro), é o término do primeiro período de compromisso do protocolo de Kyoto, é o protocolo de implementação do acordo de Schengen. O protocolo do protocolo, afinal. Dentre todos, o protocolo mais praticado, que suscita mais mobilizações, mais implicação, mais-valia, mais gentes, é o protocolo das listas de responsabilidades para o ano vindouro. Claro, podemos sempre ignorar que, de um ano pra outro, nada, efetivamente, muda, visto que se trata da simples passagem de um dia a um outro dia. Ou não; como o humano e sua inteligência operam com repetições, ciclos e rotinas, o "Feliz Ano Novo" poderia, sim, marcar o ponto de virada para um outro estado de coisas (alegria, paz, saúde, dinheiro etc. ad nauseam). Que seja. É este o período das famosas promessas e penitências para o novo ano, já que, como reza o espírito do capitalismo (cristão, neoliberal e, mais do que nunca, de economia integrada e crowdfunding, economia Millennial), alegria, paz, saúde e dinheiro só vêm com tristezas, guerras, sacrifícios e suores (uma verdade que, contada pela metade, torna-se mentira alienante). Resolvi, então, fazer a minha própria lista, mas uma lista meio diferente (e, por ser uma meio-lista, é mentirosa, mas diferentemente mentirosa). O objetivo para 2012:  buscar a inumanidade. E o que o humano inumano se torna? Divino, diabólico, animal, maquinal, atômico, cósmico, tanto faz. Inumanizar é superar a condição atual, virtualizando-a; é sair das imediaticidades, grupalidades e identidades, e abraçar os devires sem sujeito, os devires que não se sujeitam à resposta imediata, aos grupos isolados ou à mesmice do idêntico. Sem mais delongas, lanço em tópicos algumas características avulsas (existem muitíssimas, infinitas características) desta tal condição humana, mas sem muitas explicações, apenas mostrando do meu compromisso em abandoná-las ou, tanto mais humilde (e menos humano), em reconhecê-las no que ainda resta de humano em mim e em nós. Todos nós...

1. Não mais confundir o não gosto com o não presta, o não entendo com o não está correto, o não me serve com o não serve a nada, seja em filosofia, em música, em política, em cinema... Gosto e entendimento são acoplamento estrutural, não evolucionismo cultural;

2. Não mais lutar contra um inimigo (Charles Chaplin versus Buster Keaton, Barcelona versus Real Madrid, Machado de Assis versus Dostoiévsky, Clarice Lispector versus Virginia Wolff, Sergipe versus Confiança, idealismo representacionista versus realismo materialista, ateus versus teístas versus agnósticos), mas pela vida (abandonando o um-contra-outro, luta-se pela comédia, pelo romance psicológico, pelo esporte, pela prosa poética, pela pluralidade do pensamento, pelo espírito, pela existência);

3. Não mais psicologizar os eventos, substancializar os verbos, essencializar os acidentes ou individualizar as proposições coletivas (modelos em que um crime = um criminoso; um movimento artístico = um punhado de artistas; uma corrente de pensamento = um bando de pensadores; um gol = um craque; o amor = dois enamorados; uma governabilidade corrupta = políticos corruptos);

4. Não mais trocar pense nisto por pense isto, realizando a parte mais difícil dos regimes (os dietéticos, os estatais, os eclesiásticos): a de não impô-los aos de-fora;

5. Não mais desqualificar o já desqualificado ou qualificar o já qualificado (falar mal, como toda a gente, da música emo; comentar, como toda a gente, que "o livro é melhor do que o filme"; dizer, como toda a gente, que a reforma psiquiátrica é o que há em substituição ao modelo manicomial), visto que tanto a crítica quanto o elogio perdem sua potência quando articulados a uma rede produtora de imagens e palavras prontas, buscando, isso sim, não mais a resposta para a situação mas algo que problematize e opere no contexto inicial (dizer da história do emotional hardcore e sua proposta político-afetiva de rompimento com o punk; falar que a adaptação d´O Senhor dos Anéis pelo Peter Jackson - ainda que tenha hiper-dimensionado alguns personagens e excluído outros - manteve o sabor épico-geográfico e a valorização da amizade trazidos pela narrativa de Tolkien; perguntar, inocentemente, se o militante já visitou um CAPS ou uma residência terapêutica alguma vez em sua curta vida);

6. Não mais aceitar, em excesso, os rebotes do afeto; rio de algo que me lembra uma situação engraçada, gosto de uma música que uma pessoa querida me apresentou, não vou com a cara daquele professor que o meu veterano detesta. O fato do afeto operar por rebotes fala muito de seu caráter relacional e articulador mas, ao mesmo tempo, este rebote pode servir como ferramenta de submissão - implícita ou explícita, consciente ou não - dum corpo ao outro (ele gosta, então é bom; ele não gosta, então não o é); o perigo deste rebote é a inércia, a aprendizagem vicária a substituir os comportamentos operantes, é rirmos eternamente da mesma piada ("Alguém disse memes, por aí? Não!?..."), não possuirmos gostos (musicais, cinematográficos, culinários, indumentários...) que mobilizem nossos sentidos ou prezar mais pela galera pop que pelo amigo sincero;

7. Não mais valorizar os processos quando o que importa é o seu produto final (prezar pela saúde e pela boa aparência elas mesmas, sendo que o seu valor vem da ação coletiva tornada possível por um corpo saudável e belo) nem valorizar os produtos finais quando o importante for o seu processo (afinal, uma boa pontuação ao fim duma avaliação nem sempre se correlaciona com o entendimento do alunado);

8. Não mais sofrer pelo inevitável mas, ao mesmo tempo, não se resignar a ele, compreendendo-o. Se a doce esposa do sujeito sempre acorda de mau-humor, ele não deve esperar os comentários graciosos que ela, de praxe, lhe faria; se tenho um copo de leite, em mãos, e o torno, voluntariamente, de ponta cabeça, não faz sentido eu chorar de raiva pelo leite que a gravidade derramou; se a casa do estudante sempre ferve de visitas, é insensato ele reclamar - consigo e com os seus - da impossibilidade que é fazer uma leitura atenta e minuciosa das suas apostilas, e isto enquanto continua no mesmo espaço, na mesma estrutura contextual.

9. Não mais identificar o movente com o movimento; interessar-se pela arte não te obriga a idolatrar o artista, concordar com uma política pública não te obriga a filiar-se ao partido e gostar daquele post não te obriga a gostar daquele blog, nem daquele blogger.

10. Não mais levar os protocolos a sério. Ou não (dupla negação: lógica, dialética ou duração?...).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Salto quântico


E, num instante, tudo muda. Não se é mais o Mesmo. O que o Mesmo se torna? O totalmente Outro, o divino e numinoso Outro, o diabólico e bacante Outro. E o que o Mesmo se torna, mesmo!? Ainda não se sabe. Não se é mais o Mesmo, mas ainda não se é um outro Mesmo. É o salto no escuro do homem de fé, do cavaleiro kierkegaardiano, esse tal Outro. É o movimento do eu, o Outro. O inverso nos esclarece: quando um outro se movimenta, o eu sente que algo efetivamente real acontece, quer um objeto tenha passado em frente a seus olhos, quer ele-Mesmo, o eu, esteja se movendo frente a este outro (que não é o Outro, atenção, atenção). Essa certeza-de-realidade do movimento fica ainda maior quando o eu-Mesmo o produz, depois de ter querido fazê-lo. A contração dos seus músculos reforça ainda mais a consciência deste movimento. Significa isto que apreende, ele-Mesmo, o movimento, internamente, como mudança. Quando distingue o som do silêncio, ou mesmo de outro som, o mesmo se dá. A passagem de um estado para outro é um fenômeno real. Absolutamente real. A vida se realizando como uma sucessão de estados, como um metacinema. Do frio ao calor, da alegria à tristeza, do trabalho ao ócio, a vida muda sem cessar. Uma mudança profunda, mudança que é muito mais do que parece e aparece no telão do cinema-da-consciência. O cartesiano, ele-Mesmo, sabe que existe. Sabendo disto, que existe, pergunta o que ele-Mesmo é: uma coisa que pensa, conclui pensando. Mas quem disse que ele-Mesmo, de antemão, era uma coisa? Ser é ser-alguma-coisa? O que é Ser? Ser é pensar um objeto, Ser é conhecer o mundo extenso, Ser é o caralho, escreve Descartes. Ora, Ser é mudar, é o movimento, diz a vida, canta a vida, pois. As gentes falam do tempo - está quente, está frio, está assim, está assado (o não-assim) - como uma sequência de momentos, de estados, e de cada um desses estados como se fossem blocos. E, ao dizer que mudam, entendem a mudança como a passagem de um desses blocos para um bloco outro (que não é o Outro). No que se refere a cada estado, cada bloco, creem que é idêntico a si mesmo durante todo o tempo em que dura. Uma preleção bergsoniana: o mais estável - o mais “bloqueado” - dos estados psicológicos seria a percepção visual de um objeto exterior que permanece imóvel durante todo o tempo em que é observado. Fita-se este objeto de um mesmo lado, numa mesma angulação, com a mesma luminosidade. A visão que dele se tem é idêntica à visão que dele se teve no instante imediatamente anterior, com uma única diferença: a imagem seguinte está um instante mais velha. A memória está presente no objeto, empurrando o passado para dentro do presente. Sensações, sentimentos, pensamentos, desejos, nunca param de se modificar, a todo instante, visto que, se cessasse seu movimento, cessaria o próprio fluxo que constitui sua duração. A psicologia cotidiana diz que a mente - seu objeto de estudo, sua coisa-que-pensa - salta dum bloco a outro. Seria mais acertado, no entanto, afirmar que se muda e se muda, sem cessar, visto que o próprio “estado” já é mudança. A descontinuidade da vida, da experiência psicológica, só se dá fenomenalmente, pois a atenção costuma operar através de atos, postos em série. A mudança, ininterrupta, só é notada quando imprime, no corpo, uma nova ação, uma nova atitude, logo, uma nova atenção. Percebe-se, assim, uma mudança de estado. É, pois, uma violência que demarca o ponto de mutação, que separa o frio do calor, o santo do apóstata, o anjo do diabo. E se o anjo caído vira diabo, um deus caído se vira em quê? Ganha corpo e vira gente. Mas Deus deposto não chora por perder seu trono, assim como o santo não chora por ser excomungado e o poeta não chora por ser incompreendido pelo gramático. Mas, sem choro, sem reação, como Deus, o santo e o poeta saberão que mudaram de natureza e se tornaram Outro? Não se sabe (mas eles sabem). O Mesmo sabe dele e do outro (que não é o Outro...), mas só o Outro sabe de si-mesmo (que não é o Mesmo, atenção), sem pensar muito sobre isso. Se pensar, vira outro, vira o outro de um Mesmo qualquer, vira um Mesmo qualquer e esquecerá que um dia já foi Outro. O melhor a fazer é esperar. E ver o Outro subir aos céus, mais uma vez, e virar outro Mesmo. Até que, num instante, num instante Outro, tudo possa mudar...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sou do tempo em que Merthiolate© doía

Não, o post não vai discutir o quanto o passado é melhor que nosso presente, o quanto a tradição é mais valorosa que as vanguardas atuais, o quanto a minha infância é superior à dos infantos atuais etc., etc. (esse dualismo ingênuo, que anda pululando nas imagens compartilhadas do Facebook, poderia ser temática dum texto futuro, inclusive...). O que venho conversar aqui é, num resumo, a compressão espaço-temporal proporcionada pelas tecnologias do cotidiano. Ou seja, venho conversar sobre resumos. O abstract de um artigo científico, por exemplo, é a redução extrema doutra experiência textual maior; a sinopse dum blockbuster hollywoodiano é a síntese da crise pela qual o cenário e os personagens da película passam e têm de atravessar para retornar a sua organicidade original; um manual teórico é a concatenação de diversos pensamentos em pequenos preconceitos sobre um e outro conceito desses sistemas. A ideia pronta é um mal irrefletido, é o mal da falta de reflexão? Não exatamente.

A ideia pronta é como uma ferramenta e uma ferramenta, redundando, é um algo pronto, um algo acabado, que às vezes nos convém e às vezes não. Claro, quando o primeiro sujeitinho percebeu que amarrando aquele pedregulho num pedaço de madeira firme teria ele maiores chances de abater a caça, não deu outra: todo o bando se pôs a usar e abusar do invento, quer os usuários tenham muita noção ou não da fagulha de genialidade que brotou em nosso cientista selvagem. Quando o martelo (mesmo o nietzscheano) não nos serve em nosso ofício, não se deve destratá-lo, nem jogá-lo fora, e sim guardá-lo na caixa e buscar uma outra ferramenta. Ou seja, a ferramenta é subserviente ao problema e não o inverso (o psicanalista que estupra o sofrimento do paciente e lhe deturpa os dizeres em nome do Pai teria muito o que aprender com o ferreiro pré-totêmico).

Qual é a treta em se usar os martelos sem a intuição direta de suas experiências originárias? Nenhuma. Mas, ao se usar o martelo, perde-se a inserção no campo problemático que lhe serve de condição. E daí? E daí se a motricidade é a inimiga do afeto? Não é a ação que importa, no fim das contas? Talvez no fim das contas, mas não no desenvolvimento da demonstração geométrica e na postura da equação. O esquema de Schopenhauer: se o talentoso é aquele tribal que tão bem sabe usar o martelo, o genial é aquele caçador meio desengonçado que, sem pontaria para arremessar pedras no animal, constrói uma técnica de caça - ainda que acidentalmente; principalmente em acidente - que exige mais da sua força que da sua pouca destreza; e, nessa, o martelo se faz; fiat lux. O martelo se faz mas poderia não se fazer. Poderíamos ter outra ferramenta ou o caçador poderia ter sido expulso do bando devido a sua inaptidão e morrido ao relento, solitário. Mas foi essa a solução que o problema encontrou e produziu, legando àquele coletivo um novo membro, um novo atuante, ator carregado de histórias.

Um resumo que pode nos ajudar a pensar este princípio (se problematizo, não resolvo; se resolvo, não problematizo) na História é a abordagem inédita do cinema realizada pelo dromólogo Paul Virilio, que diz da participação das técnicas cinematográficas nos grandes conflitos do século XX. Não se está a falar, tão somente, duma fusão câmera-arma. De fato, temos aparatos de mira indireta, visores telescópicos nos aviões artilheiros, veículos travelling, satélites espiões. Para além disso, temos o já sabido “serviço cinematográfico dos exércitos”, a propaganda militar dirigida aos civis, através do cinema. Mas a novidade da crítica cinematográfica viriliana reside em seus comentários acerca do “serviço militar das imagens”, o conjunto das representações táticas e estratégicas dos conflitos. As “distâncias” vão sendo anuladas a partir de métodos cada vez mais rápidos de comunicação, como a estratégia militar de abreviação das informações, as fotos instantâneas e as sequências fílmicas de reconhecimento aéreo. O uso indiscriminado de materiais de transmissão instantânea promove uma maior elaboração na codificação das mensagens mentais e uma redução do tempo de retenção dessas mensagens e da possibilidade de recuperação ulterior, numa virada das antigas estratégias de combate para uma logística da percepção. Antes, tínhamos o espetáculo das “armas de teatro” (mísseis, foguetes, bombas nucleares), verdadeiro princípio guerreiro de dissuasão; temos, assim, uma inversão: se a arma de destruição em massa deve ser conhecida para dissuadir, aposta-se, agora, na furtividade, na incerteza e no ocultamento.

Vemos, aí, subsídios para uma epistemo-técnica, uma postura frente à compressão espaço-temporal propiciada pelas tecnologias, já que, para Virilio, caberá ao homem enredado por esta logística da percepção apenas o consumo das informações produzidas pelas máquinas de cálculo e visão. Filósofo do tempo real, critica a imediaticidade que as tecnologias produzem e demandam. Neste sentido, Virilio caracteriza o cibermundo – mais atrelado ao percepto contemporâneo que as imagens cinematográficas, salientamos – como um totalitarismo global, sem fronteiras, que, justamente por ter perdido suas delimitações espaciais, não se restringe ao território (à maneira dos colonialismos, do fascismo italiano ou do nazismo). Quatro imagens fáceis de serem visualizadas que abordam os efeitos dessa logística: repassar o e-mail sem conferir a veracidade do mesmo; curtir uma citação ou compartilhar uma imagem no Facebook sem, de fato, ter gostado ou sentir-se parte de nada; parabenizar, genericamente, um aniversariante que seja seu contato numa rede social qualquer; achar que o post novo daquele weblog que você visita poderia ter sido menor. Se uma ameba numa solução aquosa tem um feixe de luz incidido sobre ela, imediatamente volve seu corpo para a fonte luminosa; a percepção do feixe e a ação sobre o feixe é um único e mesmo movimento, é a afirmação maior de um esquema sensório-motor, supressor do contexto, do tempo e do pensamento (logo, da subjetividade, da problematização e da invenção).

Pierre Lévy discordaria desse anti-instrumentalismo. Numa abordagem tradicionalista da comunicação, o comunicar teria, como função primeira, a transmissão de informações, o contexto intervindo, apenas, como um auxiliar na interpretação das mensagens dirigidas. Mas, para Lévy, o ato de comunicar define, fundamentalmente, a situação que significa e valora a troca de mensagens; agir e comunicar são sinônimos, sim, mas apenas quando consideramos o contexto como o próprio alvo da comunicação, dos atos-de-comunicação. Dentro de escalas variáveis (pessoas, aparelhos, técnicas, organizações), os atores da comunicação e os elementos das mensagens que emitem (falas, objetos, planejamentos, dispositivos) criam e recriam universos de sentido, mundos de significação. Para Lévy, essa estrutura hipertextual não dá conta, tão somente, dos processos comunicativos, mas sobretudo dos processos sociotécnicos. O hipertexto como uma metáfora para todas as esferas do real que tratem da produção e do consumo de bens e significações. Se Virilio condena a cibercultura por considerá-la a terrível encarnação dum totalitarismo desterritorializado, Lévy aposta, justamente, nesta ausência de chão para investir numa nova cultura centrada em coletivos inteligentes.  Falo, por telefone e Live Messenger, com um amigo residente no Japão enquanto tomo uma xícara de café para não dormir devido ao horário já avançado; o celular separa a minha voz do meu corpo e a faz viajar distâncias inalcançáveis às minhas pregas vocais e numa velocidade maior do que a velocidade dos ventos (a conversa se dá aqui ou lá?...); a xícara de café noturna não me deixa dormir e me faz experimentar a vigília para além de seu alcance dito natural (as ferramentas são extensões de meu corpo?...); enfim: meu eu, minha alma, minha luz natural está aqui ou lá, lá longe onde a minha escrita chega, minha voz atinge, minha visão alcança? Onde estou presente? E quando? Onde está meu corpo? Sou um corpo? Sou um corpo (e não dois, dez ou infinitos)?

Tanto na imagem cinematográfica (filmes, seriados, documentários, telejornais) quanto nas hiper-mídias (websites, chats, blogs...) temos redes sociotécnicas produtoras de significação, que se entrecruzam o tempo todo em suas potências (a televisão interativa, o spam comercial, o domínio virtual privado). O problema: como saimos de devoradores de imagens para produtores de sentido? Lévy e Virilio personificam dualidades que não são as de um Zaratustra: a potência revolucionária das tecnologias (o martelo a abater o bisão, o Facebook a abater Mubarak) e a anestesia dos encontros e afetos propiciada pela velocidade das tecnologias (o professor especializado em dar aulas sobre a boa utilização do martelo, o internauta perdido em movimentos circulares e inengendrados no Facebook). São excludentes? Deverasmente não.

Se quero aprender um pouco de música, posso encontrar muita informação disponível pela internet: história dos estilos, os instrumentos e a organização duma orquestra, leitura de pautas, cifragem européia, luthieria; uma simples busca no Google me apresenta bibliotecas e compêndios sem fim. Pesquiso um manual de teoria musical, leio um artigo sobre o nascimento da noção de harmonia, assisto interpretações históricas no Youtube, baixo CD´s diversos, converso com outras pessoas numa comunidade do Orkut dedicada à música instrumental. Depois disto tudo, quando, numa roda de conversa, me perguntam onde eu aprendi sobre, sei lá, "as diferenças entre o Tango e o Flamenco" ou onde eu - sei lá, mais uma vez - aprendi a interpretar Luiza, do Tom Jobim, daquele jeito, respondo: "na internet, oras". E esta resposta, embora correta, pode nos levar a colocar um problema inexistente, visto lidar com este misto mal-analisado que é a noção de espaço (o onde da questão).

Pensar a internet como um espaço no qual impera a livre produção de conhecimento e o compartilhamento de informações é assumir-se ingênuo se não remodelamos a própria ideia de espacialidade. Afinal, se aprendo japonês com aquele meu amigo nipônico (por telefone e Live Messenger, repito) e me perguntarem na mesma roda de conversa "onde você aprendeu o idioma?", seria estranho se eu respondesse "no telefone" ou "no msn". O telefone e o msn estruturam, isso sim, a rede cognitiva que condiciona o aprendizado (que não é o aprendizado simples de um organismo, de um eu, mas a atualização dum coletivo em virtualidade). Idem para a internet. A noção de internet pensada como um lugar só é válida se pensarmos o telefone, o livro, a televisão, a fala e tantas outras tecnologias da informação como outros lugares (o que logo nos soa como estranho, sem sentido). Se a internet for espaço seria um espaço trans-local, trans-lugar, espaço-trans-espacial, espaço ciborgue, ciber-espaço. Logo, o sujeito conectado, o ciborgue, é trans-egóico e identifica-se com o coletivo articulado de tecnologias que o condiciona.

Neste sentido, não há nada de mais antigo que a internet (rede-entre-redes) já que essa condição ciborgue é que funda a condição humana (je est un autre, diria Rimbaud). E o outro, a diferença, o trans-identitário, é sempre incômodo, doloroso e hostil. Se Beethoven tinha de dar seus pulos-de-gato para assistir os concertos de Mozart ou conseguir cópias bem transcritas da obra de Bach, o musicista de hoje só precisa visitar o Youtube e o IMSLP, que está tudo lá. Tanto este tem quanto Beethoven teve acesso a informações, a redes de significação que permitem ao meu contemporâneo e permitiam ao Ludwig van produzir e consumir música, com a alarmante distinção de que o repertório de conhecimento legado ao estudante de hoje é alarmantemente maior e de mais fácil acesso que o do cão da Renânia. Seriam os músicos da atualidade, então, potencialmente, melhores artistas que Beethoven? Não, nem ouso pensar em nada semelhante. O padre proibe o excesso pois este inibe a sensibilidade; Beethoven, na correria e no esforço ascético para ouvir e fazer som, produz afetos, encontros, coletivos inteiros. Toda a geração atual de músicos e ouvintes internautas - incluo-me aí - só precisa apertar o play dum executor de mídia qualquer em seu próprio PC e é isso. A música de Beethoven dói. A minha é um esquema sensório-motor. Beethoven é profundo não por conhecer a música em demasia, mas por tecê-la em rede e por conectá-la a outras redes produtoras de vida e de diferença. Ele é a engrenagem; eu (o eu...), o botão.

Se pareço pactuar com Virilio, não o faço rompendo com Lévy. Eles aprovariam essa promiscuidade maquínica e poligâmica que faço com ambos, acredito. Se a velocidade tecnológica sequestra e captura a subjetividade, ela também pode ser apropriada para a produção de liberdade (não o livre-arbítrio, que é apenas o ego de barriga cheia, plenamente saciado e anestesiado pelo seu coletivo). Com o martelo, o campo problemático instalado pelo bisão não mais existe; o caçador pode entregar-se à luxúria, à preguiça e ao conforto; mas, aí, já coloca possibilidades para a instauração de um novo problema (logo, de novas possíveis invenções; invenções do eu, dos objetos, do espaço, do tempo, do mundo). O Facebook-rede, que promoveu no dia 25 de Janeiro deste ano uma mobilização de centenas de milhares de pessoas na praça Tahrir em protesto ao abuso das forças de segurança e das políticas do governo que empobreceram o povo egípcio, fazendo o presidente-ditador Hosni Mubarak renuciar aos seus 30 anos de poder; e o Facebook-coisa, o que você utiliza pra ficar derivando improdutivamente nos espaços virtuais ("estou no Face, estou no msn, estou no Twitter...") e rindo dos mesmos memes num ritornelo infinito. Se perceber, aja: é o lema do esquema sensório-motor. A subversão desse esquema não é a imobilidade, o vazio, o caos, a entropia. O oposto do chão sólido e de sua segurança não é uma morte agonizante no mar revolto, mas os diversos barquinhos e navios, tábuas e iates, botes e trans-atlânticos, que nos levam a paragens antes desconhecidas. Revolucionar não é demolir o esquema S-M, mas apenas colocar o afeto entre um e outro e fazer a resposta durar, dar tempo à solução para que ela se mature e nos mature, nos legando não mais uma reação previsível e mecânica, mas uma ação propriamente dita. Invenire...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Carta a um intelectual


Sou poeta, antes de qualquer coisa; mas poeta por incapacidade. Tenho certa inabilidade para com a ordem e o decoro. Olho pra você: engomado, perfumado, todo penteado. Escreve como um anjo. É encadeado, objetivo, cirúrgico e, como tal, é um enviado do divino. É a nossa diferença maior, inclusive. Indo direto ao assunto – o que não costumo fazer – digo que não partilhamos da mesma caneta. Escrevo para te dizer isto, e é só (somente, mas não sozinho, e por não ser sozinho, vou teimar e continuar a escrever, pra povoar isto aqui de gentes, bichos, monstros, demônios). A sua caneta aponta para as coisas, é caneta de adequação ao mundo, de referência ao real. Se eu te chamo de resignado? Sim! Claro! Mas não tenho muita certeza. A paixão, sim, mas não a certeza. Duvido, mas não como filósofo. Minha dúvida não é uma epoché, tampouco uma ignorância, mas uma doença. Você fala e escreve para informar um segundo sobre um terceiro. Seu mundo é um triângulo, seu mundo é uma trindade santíssima. Já eu não tenho um mundo meu. Sou incapaz de organizar e decorar a vida, e faço questão de não te deixar esquecer isso. Vê só, acabei de ler um texto seu; você fala de alguma-coisa usando o pensamento de não-sei-quem e aproximando com a escola de não-sei-onde. Seu texto é uma aula: todos os alunos calados (ou dormindo, já que calar é colocar os demônios pra dormir), uma cadeia de argumentos em desenvolvimento e alguma temática obscura  a se esclarecer. Quando escrever se resume a informar e comunicar, quando escrever se torna dar uma aula, a única lida que podemos ter com um enunciado é dizer da verdade ou da falsidade dele. Sintaxe, morfologia, semântica, gramáticas etc, etc. É verdadeiro, é falso, é ruído (o aluno que acorda). À sua fala que representa o mundo (epistêmica e politicamente), apresento a minha que o constrói. Minha linguagem é ferramenta, no literal. Um martelo para pregar, um violão para cativar, um punho para derrubar. Eu não “informo sobre o real”,  mas me insiro nele e o afeto. Gastar saliva para só dizer da verdade (ou da mentira, que é a verdade pelo  avesso; “desconstruída”, como diria você) é muito custo para pouco benefício. Salivo e faço poesia, e isto pela minha incapacidade de organizar a casa. Sou incapaz, já o confessei, e se sou um poeta é porque também não sei cuspir (o melhor custo-benefício da saliva,  inclusive;  nem Sócrates nem Cálicles, mas Diógenes). Você procede pela educação (a melhor das hipóteses), pela propaganda (o mal-por-vir) e pelo fascismo (os desejos de tirania; e falo dos cotidianos, mesmo) para construir um Mundo Melhor. O que faço em minha anti-filosofia é trabalhar, e trabalhar coletivamente, no incessante ofício de enxugar gelo que é construir nossas próprias histórias. Se o aluno acorda, isso não é lá algo ruim. Os ruidosos não precisam de educação, informação, punição, que seja; precisamos, isso sim, construir corpos que suportem esses ruídos e mundos nos quais esses ruídos possam tornar-se voz. Se sou incapaz de submeter os infinitos mundos e transformá-los num 3, é porque os próprios mundos não se prestam a essa tarefa. Minha incapacidade é respeito por esse desejo. Não sou parteiro das almas, mas um mago do câncer, um terrorista biológico. Você ajuda a dar a luz; eu, incito gangrenas. E isto porque amo, acredita? Já desisti de instruir o aluno, contextualizar o leitor e ler os textos de outros com os meus próprios olhos, e passei a trabalhar, inserido em meu próprio mundinho (e atento aos demais, que são bem mais que três), com minhas próprias ferramentas, numa história (e não mais num Mundo...) melhor.

domingo, 13 de novembro de 2011

Douze ou treze jours

 

O Sol titubeia por um microssegundo, um instante, um Kairós, e não sabe mais se estava a ir ou vir. É o momento dubitável por excelência, a Terra treme, os homens congelam, as pedras se calam. O crepúsculo se confunde com a aurora e o alaranjado tímido do céu não lembra se tem de avermelhar ou se vai amarelar de vez. É noite? É dia? Doze ou treze dias? Uma, dez ou cem vidas? Ao término da carta, o enamorado a lê, relê, edita, apaga, torna a escrever, volta a reler e, por fim, a sela num envelope. Pronto. Já pode atear fogo em sua obra. Zen? Não, nada de desprender-se dos desejos. Aporia budista: se a existência humana é sofrimento devido aos inúmeros desejos que não conseguimos trazer ao real, que acontece com o corpo pleno de realizações, com o corpo que tudo conseguiu realizar? Mais ainda, que acontece ao corpo cujo desejo não precisa vir à tona para ser saciado, um corpo que deseja, tão-só, desejar? O homem grego deseja cuidar de si - medicina, ginástica, dialética - para melhor cuidar dos seus; o romano, poeta do mundo privado, deseja a pax; o cristão deseja afogar o desejo e, mortos, ambos ganharão a vida e o gozo na eternidade (Chronos tomado por Aeon...); o humanista, descrente do presente e do futuro a que ele lhe condena, reinicia a ciranda de pedra e deseja um retorno a les bons moments helenos; o cientista, sobrinho-neto do humanista, deseja circunscrever o desejo dentro do seu campo visual (desejo = gado). E o enamorado - de todas as épocas, de todos os "tempos" -, aquele mesmo cujo corpo deseja, apenas, desejar? É fogo puro, este; o mesmo que, há pouco, incendiou a sua carta depois de lê-la, relê-la, editá-la, apagá-la et cetera. Ama o seu desejo, ama seu amor, o enamorado, mesmo que nada de sólido (ou líquido... ou gasoso...) lhe venha daí. O cancioneiro gagueja sua melodia, o poeta transborda versos de silêncio e o pintor enquadra o seu afeto pouco lúcido. E daí?  São todos o enamorado que esqueceu de destruir as provas deste crime monstruoso, desta anti-natureza, que é o sacrifício (sacrum facere...) do amor. O fogo é o elemento fátuo, é a invenção e a contravenção, matéria e luz. O enamorado é um incendiado e um incendiário. Tudo o que abraça retorna ao pó. Eis a paixão: consumir. E o amor?  E o enamorado? Não quer consumir o alheio mas sumir em seu desejo, como um suicida em plena queda livre.  É fluxo de graça e dívida, de beatitude e profanidade, de alma e de corpo. Sublime é o corpo capaz de atear o fogo do Sol num coração de homem e sublimar-lhe o espírito. Sim, o corpo sublime é epifania, é Deus feito mulher. Divina, diabolicamente divina, é a rainha amada. Ser-amada não é ser-objeto-de-amor. Assim como o cancioneiro, o poeta e o pintor são apenas o aspecto visível do enamorado, a rainha, que é fonte de amor, torna-se objeto-de-desejo quando vista pelos olhos dos aquáticos. Ser-amada é fazer o valete entregar-lhe as armas sem que este nada queira, nada deseje com isto - nem a paz, nem o reino, nem a rainha - além do amor ele mesmo, além do fogo. Arde de vida, o enamorado, e só quer crepitar. O enamorado pergunta: "doze ou treze dias?" Os homens lhe respondem: gregos, romanos, cristãos, humanistas, cientistas, cada um a sua maneira lhe dá o conselho, a resposta e o encaminhamento. O enamorado, pela primeira vez, pensa. E responde: "Que importa!? Quem se importa!?" Pra ele, sua rainha amada lhe basta. Não por a possuir, nem por ser o objeto dela - ainda que a possua, corpo e alma; ainda que por ela seja querido - mas por, devido a ela, sentir e ser, ele mesmo, o desejo sem um objeto-consumido-pelo-fogo, o fogo incansável e sibilante do Sol e o Sol a duvidar, no instante oportuno, de todo o universo. Menos do amor...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Tempos, espaços e zonas

Toda delimitação espacial é, necessariamente, asilar. Escola, hospital, prisão, igreja, manicômio. O teto não nos protege da chuva, tão só. Eis a logística da triagem dos corpos: na escola, o inculto (que, ao assumir-se como sabedor de coisa alguma, sairá de lá como douto e letrado em alguma coisa); no hospital, o doente (que, tratado, medicado e devidamente encaminhado, voltará esbanjando saúde); na prisão, o criminoso (que, depois de punido, terá a sua dívida expiada e o seu caráter reformado); na igreja, o pecador (que conseguirá, após uma e outra penitência, a redenção de seu espírito), no manicômio, o louco (que sairá convencido - através de eletrochoques, confinamentos, dietas forçadas, alguns tabefes e outros argumentos bem colocados - de que suas verdades não passam de delírio). E do lado de fora, que há? Há o homem. E não é à toa que, ao se falar "o homem", a imagem dum sujeito branco, adulto, bem alimentado, heterossexual, trabalhador e pai duma família de tradição nos venha à cabeça. E onde estão as mulheres? Os negros? As crianças? Os famintos? Os homossexuais? Os desempregados? Os desajustados, enfim? Estão "aprendendo" nas escolas, "se tratando" nos hospitais, sendo "reabilitados" nas prisões, "se confessando" nas igrejas e fazendo de tudo isto um pouco nos manicômios.
Um saber é a formalização duma série de dispositivos de poder. A pedagogia é a justificação das tecnologias escolásticas a modelar nossos garotos (colégios internos para preservar a pureza original do infanto, escolas técnicas que os preparam para o mercado...). A medicina é um conjunto de práticas que, mirando o corpo individual, visa fortalecer a nação (Staatsmedizin alemã), organizar as cidades (médecine urbaine francesa) e potencializar a produção (occupational medicine inglesa). O sistema jurídico põe nas tábuas da verdade as verdades que os vencedores ditaram aos povos pilhados ("Quid latine dictum sit, altum sonatur"). A metafísica cristã, através duma ladainha salvacionista, cria sujeitos ressentidos, alheios ao mundo do sensível e resignados com os sofrimentos que (acham...) não podem evitar e as asceses que (acham...) devem se submeter. A psicopatologia, por fim, assume a infeliz missão de racionalizar o que foi, previamente, excluído dos domínios da razão (a norma do anormal, a regularidade do desviante, o comum do monstro). A política, diz Michel Foucault, é a continuação da guerra por outros meios, e os saberes, antes de tudo, vêm da necessidade em se justificar as opressões a que o homem submete o ser. O Ser humano é a resultante duma malha de dispositivos; os saberes são a organização dos poderes num discurso unificado e centralista.

Indivíduos ou grupos, fala Gilles Deleuze, somos todos compostos de linhas, e é sobre (ou com...) essas linhas - produtoras de indivíduos, grupos, aléns e aquéns - que devemos nos ater (ou atar... ou desatar...). Já abordamos duas, em implícito: uma linha dura, estratificada, segmentada, institucionalizada; e uma linha flexível, linha de fuga, linha de ruptura. Infância-adultez-velhice (psicologias do desenvolvimento). Trabalho-casa-trabalho-casa-trabalho-férias (modulações do mercado). Casa-escola-universidade-mercado (projeto político-pedagógico). No entanto, não se envelhece do mesmo jeito, não se trabalha do mesmo jeito, não se aprende do mesmo jeito, não se descansa do mesmo jeito, não se vive e se morre do mesmo jeito. Há, por sob esses segmentos naturalizados (termo horroroso...), "diferenças" (que não são individuais, pessoais, privadas, mas tão coletivas quanto às identidades da linha dura, mas a sua maneira própria). São os devires revolucionários que adormecem por sob os Seres da Tradição. Dois movimentos: a territorialização (o sedentário, o agricultor, o homem da escrita, o espaço árido) e a desterritorialização (o nômade, o rastreador, o homem da oralidade primária, o tempo puro). Outro dos dualismos irresolvíveis a que a filosofia nos condena? Não desta vez.

A filosofia da diferença deleuziana é descendente direta da distinção grau/natureza feita por Henri Bergson, cuja metafísica da duração é fonte seminal à ontologia do virtual de Deleuze. A obra de Deleuze constitui-se como uma "filosofia da diferença" visto que faz movimentos críticos frente a todo pensamento "representativo". E por movimento crítico devemos assumir a distinção mesma entre dois "pensamentos": um pensamento moral/representativo/dogmático e um pensamento sem imagem (que não se identifica a mais uma nova imagem do pensamento; não é o novo, mas o inesgotado ou, antes, o inesgotável). Um ligeiro passeio pelo corpus deleuziano (o peccatum verum necessarium...).

Em Diferença e Repetição, Deleuze apresenta quatro postulados sobre a imagem dogmática do pensamento. 1) O Cogitatio natura universalis; o pensamento possui formalmente o verdadeiro e o busca materialmente; 2) tal pensamento é potencialmente compartilhado por todos os homens; 3) o modelo da recognição, exercício concordante das faculdades sobre um objeto suposto como sendo o mesmo; e, por fim, 4) a unidade de todas as faculdades no príncipio geral do "Eu penso". Já em Nietzsche e a filosofia, os caracteres que constituem o pensamento dogmático são um pensador que, enquanto pensador, quer e deseja a verdade, e um pensamento que, enquanto faculdade, é naturalmente e universalmente reto; este pensamento é desviado do verdadeiro devido às forças estranhas ao mesmo – "malditas sejam as paixões da carne e os erros dos sentidos!" – que nos fazem cair no erro, tomando uma coisa falsa por verdadeira, nos legando um princípio singelo: para pensar retamente, precisamos apenas dum método que nos adeque a caminhada. Com Proust e os signos, vemos Deleuze fazer dessa imagem dogmática do pensamento uma imagem racionalista da filosofia, filosofia moral e representativa, visto que constituída de pressupostos, analisando a temática do tempo em Recherche du temps perdu; Marcel Proust, pela leitura de Deleuze, contrapõe este pensamento dogmático a uma nova imagem do pensamento, que enfatiza a relação entre as chamadas "forças externas", fazendo o pensamento sair de sua imobilidade e lhe provocando encontros ou, como Deleuze os chama, intercessões.

Do que escrevo, até aqui? De possibilidades para o exercício do pensar e de uma filosofia que não equivale à contemplação do mundo ou das ideias, nem à dialéticas intersubjetivas ou mesmo reflexões metódicas sobre istos e aquilos. O ofício do filósofo é forjar conceitos, é  produzir ideias, mas não a idéia do platônico, do pensamento representativo e da verdade dada, mas a diferença mesma produzida pelas intercessões, um rompimento das amarras da representação. Pensar é radicalizar, buscar a raiz, as gavinhas, os rizomas que dão consistência ao espaço e suas coisas. O conceito, em síntese, é a ferramenta do filósofo, e este se assemelha mais a um artífice cuidadoso a namorar o mármore (aquele mesmo que Platão tanto denegriu em sua politéia) do que a um mestre esteta (o padre no altar, o orador no púlpito, o professor na cátedra).

Galileu, Descartes, Newton, Leibniz, Einstein, Gödel, estes matemáticos, exemplificando, não recorreram à filosofia para problematizar questões que são próprias da matemática. O mesmo para o pensamento cinematográfico de Eisenstein, Bazin ou Godard. Todos pensaram os problemas colocados por seus próprios domínios, sem recorrerem, diretamente, aos "campos da filosofia". Deleuze, ao contrário, muito utiliza de outras regiões do Ser (usando um termo de Husserl) para tecer a sua palavra, para fiar a sua conversa. O que importa nessas intercessões não são as análises empreendidas sobre tal e qual obra mas os conceitos que estas liberam à atividade filosófica. Tanto o espaço filosófico quanto os espaços "de-fora" forçam-nos a pensar, seja a favor duma constante delimitação espacial dos poderes, saberes e sujeitos, seja contra essa imagem moral e dogmática do pensamento, em prol da invenção, do coletivo e do tempo. Se o primeiro visa capitalizar seus investimentos ("o capital é o corpo-sem-órgãos do capitalista"), este último preza pela capilarização dos seus afetos, numa teoria da imanência pura.

Duas lutas, então, que não equivalem às duas linhas (a linha dura e a linha de fuga) que Deleuze nos lega: uma luta pelos estratos, pelo instituido; e uma luta pela vida e seus movimentos. A vilania e o heroísmo? Ora, lutar pela vida não é pregar a desterritorialização, o que nos condenaria ao vazio, ao não-Ser. Mais ainda, poderia nos legar o tipo de resistência que fortalece àquilo que pretende combater (as bandeiras do drogado orgulhoso da sua condição marginal, do homossexual que assume para si a condição de anormal, do idoso que luta por "espaço" no mercado de trabalho...). Pelo outro lado, lutar pelos estratos é apoiar, ainda que ingenuamente (mas nunca em inocência), as máquinas a oprimirem e docilizarem os corpos, mas não se pode, como queria Descartes, derrubar os fundamentos do erro para, sobre uma nova base, fundar os edifícios da verdade sem que, no processo, desmantelemos a nós mesmos (o sujeito não é, pois, o seu objeto?...). Se o espaço é, já, a decadência (o Verfallen heideggeriano) e o tempo, por sua vez, é o fluxo indefinível, o anti-espaço e a anti-matéria (o devir de Heráclito), que podemos fazer neste mundo pendular no qual as únicas alternativas apresentadas são ou assumir-se um ego, um moi, e excluir dessa redoma da consciência toda a alteridade (marxismos, freudismos e sindicalismos vulgares) ou apostar na dissolução do eu-autoral, do ele-relacional, do nós-grupal e tomar um caminho que, a sua própria maneira, despreza a diferença (nietzscheanismos, deleuzismos e foucaultismos vulgares)?

A linha criativa, como sempre, é pensar o terceiro excluído, que não é o meio-termo, a média ou o consenso. Além do nômade (a condição originária do homem) e do sedentário (o homem capturado pelas tecnologias de si), há a figura do migrante, ora parceiro dos revolucionários nômades, ora aliado dos confederados sedentários. Se o nômade é o forasteiro (não o estrangeiro, que é o forasteiro, o "de-fora", já capturado) a caminhar pelas areias do tempo e o sedentário é o nativo da terra, o agricultor dos espaços, o migrante é o homem das zonas, do eu-fragmentado, da gestão coletiva do espaço-tempo. A zona é sempre uma criação parcial, demanda sempre um olhar precário e deseja, antes de tornar-se permanente (permanecer é perecer, é perder a potência), tornar-se ação. A zona não entra para a História, mas a constrói.

Foucault conta que a onda bergsonista que assolou a França na primeira metade do século passado causou um extremo esvaziamento do espaço enquanto categoria epistêmica e política. Todo espaço é um continente, é uma instituição de asilo e de captura; o tempo é a liberdade (liberdade pra quê, mesmo?...). A zona é o espaço destilando tempo, ou o tempo moldado em espaço. A zona é o movimento ainda em operação, é o corpo (indivíduo ou grupo, tanto faz) em atuação e contato com outros corpos - corpos e sujeitos vivos, não suas contrapartes de palha, como diria Bruno Latour -, é o conceito que não pretende representar, definir ou controlar, mas afirmar, conectar e libertar os povos aprisionados nos espaços desinvestidos. Quais as minorias que ainda fervilham nos espaços totalitários que habitamos (e que nos habitam) e como podem ser apropriados para a promoção das condições de felicidade de um coletivo (cito Latour, mais uma vez)?

Pergunta sem resposta. Não por ser mal-colocada ou por exigir uma tecnologia intelectual para além das atuais. É que a solução, por fim, não é discursiva, não encadeia proposições. Parodiando Kant, poderia dizer que a organização dos territórios, sem a experiência das proposições concretas com as quais pretendemos nos conectar para agir, é vazia (o Psicólogo, o Sociólogo, o Médico, o Pedagogo... áreas, campos, espaços...); mas a vivência bruta e imediata do cotidiano, sem a articulação necessária para atuar e construir, é cega. O espaço esvaziado, o monumento largado em plena praça, e o tempo cego sem saber se guiar neste coliseu dos discursos. O espaço-tempo é a zona, a barraca armada, a feira a se fazer no dito (e não só no escrito). A zona (Kairós) é ação, é batalha, que periga cair tanto nos aparelhos totalitários do espaço (Chronos, encarnado também em micro-aparelhos e pequenos fascismos a nos engolfar, nos legando novos totens e nos condenando a imperceptíveis tabus, segundo a segundo) quanto nos desmantelos informais do tempo (Aeon, a Grande Marcha descrita por Kundera). É a vida...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Pelo quê você luta?

Trabalho é amor feito visível. E o amor, Khalil? É a vida do morimbundo (zumbi ou fantasma?...), o gozo do santo (cínico ou estóico?...), o riso do palhaço (Chaplin ou Keaton?...), a lágrima da atriz (primeiro plano ou bastidores?...), o calor gelado do avermelhadamente lindo céu azul (aurora ou crepúsculo?...), a questão colocada e resolvida (filósofo ou sofista?...). Indecidibilidade. Trabalho é amor, e amor é luta, e luta constante, integral, cósmica, de corpo, alma, espírito e verdade. E essa verdade, precisa de estudo? Estudo é luta, também, assim como o trabalho e o amor. Luta-se contra o sono, contra a vontade doutras coisas (vontade minha ou das coisas?...), contra uma avaliação, contra o texto, contra a equação e contra o problema. E essa luta, tem o seu porquê? Qual a batalha maior na qual está inserida? Em qual guerra, nativista, colonial, mundial, cósmica, está metida? O esforço tem algum sentido?  Máquina, o ser (humano?...) é. Máquina que deseja. Tédio: a histeria contemporânea. Não se luta "contra", oras. Afinal, quem é o inimigo? Luta-se contra si!? E o que se é? Se lutar é ir de encontro, o que se constrói com o sangue derramado (alheio ou próprio?...)? Luta contra o luto, luta por um "a favor de". Planta-se para comer, caça-se para comer, colhe-se para comer. O trabalho e a luta constróem comilanças. O amor é um banquete (Platão ou Xenofonte?...). Quando se deu a alienação, a inversão, a reversal? O filósofo luta "contra" o sono, mas "pelo quê"? "A favor de quê" se luta (agora, sempre agora!..)? Uma graduação, uma carreira, um "mundo melhor"? Indecidibilidade, mais uma vez. Guarda a pena e vai descansar. Ou lutar "contra" essa indefinição até que um "a favor" apareça...