<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669</id><updated>2012-02-16T07:24:41.218-08:00</updated><title type='text'>Sujeito Transcendental</title><subtitle type='html'>Entre a filosofia e a retórica...</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>108</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-7279954056759063712</id><published>2012-01-01T00:00:00.000-08:00</published><updated>2012-01-06T19:11:40.802-08:00</updated><title type='text'>Protocolo cíclico (ou Da inumanidade)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dois-mil-e-doze é um ano que já começou a muito. É o protocolo de fim de mundo, o protocolo da eleição presidencial estadunidense, o protocolo astronômico do eclipse solar (dois; um anelar, em maio, e um total, em novembro), é o término do primeiro período de compromisso do protocolo de Kyoto, é o protocolo de implementação do acordo de Schengen. O protocolo do protocolo, afinal. Dentre todos, o protocolo mais praticado, que suscita mais mobilizações, mais implicação, mais-valia, mais gentes, é o protocolo das listas de responsabilidades para o ano vindouro. Claro, podemos sempre ignorar que, de um ano pra outro, nada, efetivamente, muda, visto que se trata da simples passagem de um dia a um outro dia. Ou não; como o humano e sua inteligência operam com repetições, ciclos e rotinas, o "Feliz Ano Novo" poderia, sim, marcar o ponto de virada para um outro estado de coisas (alegria, paz, saúde, dinheiro etc. &lt;i&gt;ad nauseam&lt;/i&gt;). Que seja. É este o período das famosas promessas e penitências para o novo ano, já que, como reza o espírito do capitalismo (cristão, neoliberal e, mais do que nunca, de economia integrada e &lt;i&gt;crowdfunding&lt;/i&gt;, economia &lt;i&gt;Millennial&lt;/i&gt;), alegria, paz, saúde e dinheiro só vêm com tristezas, guerras, sacrifícios e suores (uma verdade que, contada pela metade, torna-se mentira alienante). Resolvi, então, fazer a minha própria lista, mas uma lista meio diferente (e, por ser uma meio-lista, é mentirosa, mas diferentemente mentirosa). O objetivo para 2012:&amp;nbsp; buscar a inumanidade. E o que o humano inumano se torna? Divino, diabólico, animal, maquinal, atômico, cósmico, tanto faz. Inumanizar é superar a condição atual, virtualizando-a; é sair das imediaticidades, grupalidades e identidades, e abraçar os devires sem sujeito, os devires que não se sujeitam à resposta imediata, aos grupos isolados ou à mesmice do idêntico. Sem mais delongas, lanço em tópicos algumas características avulsas (existem muitíssimas, infinitas características) desta tal condição humana, mas sem muitas explicações, apenas mostrando do meu compromisso em abandoná-las ou, tanto mais humilde (e menos humano), em reconhecê-las no que ainda resta de humano em mim e em nós. Todos nós...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;1&lt;/b&gt;. Não mais confundir o &lt;i&gt;não gosto&lt;/i&gt; com o &lt;i&gt;não presta, &lt;/i&gt;o &lt;i&gt;não entendo&lt;/i&gt; com o &lt;i&gt;não está correto&lt;/i&gt;, o &lt;i&gt;não me serve&lt;/i&gt; com o &lt;i&gt;não serve a nada&lt;/i&gt;, seja em filosofia, em música, em política, em cinema... Gosto e entendimento são acoplamento estrutural, não evolucionismo cultural;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;2. &lt;/b&gt;Não mais lutar &lt;i&gt;contra&lt;/i&gt; um inimigo (Charles Chaplin &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; Buster Keaton, Barcelona &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; Real Madrid, Machado de Assis &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; Dostoiévsky, Clarice Lispector &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; Virginia Wolff, Sergipe &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; Confiança, idealismo representacionista &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; realismo materialista, ateus &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; teístas &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; agnósticos), mas &lt;i&gt;pela vida&lt;/i&gt; (abandonando o um-contra-outro, luta-se pela comédia, pelo romance psicológico, pelo esporte, pela prosa poética, pela pluralidade do pensamento, pelo espírito, pela existência);&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;3.&lt;/b&gt; Não mais psicologizar os eventos, substancializar os verbos, essencializar os acidentes ou individualizar as proposições coletivas (modelos em que um crime = um criminoso; um movimento artístico = um punhado de artistas; uma corrente de pensamento = um bando de pensadores; um gol = um craque; o amor = dois enamorados; uma governabilidade corrupta = políticos corruptos);&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;4.&lt;/b&gt; Não mais trocar &lt;i&gt;pense nisto&lt;/i&gt; por &lt;i&gt;pense isto&lt;/i&gt;, realizando a parte mais difícil dos regimes (os dietéticos, os estatais, os eclesiásticos): a de não impô-los aos de-fora;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;5.&lt;/b&gt; Não mais desqualificar o já desqualificado ou qualificar o já qualificado (falar mal, como toda a gente, da música &lt;i&gt;emo&lt;/i&gt;; comentar, como toda a gente, que "o livro é melhor do que o filme"; dizer, como toda a gente, que a reforma psiquiátrica é o que há em substituição ao modelo manicomial), visto que tanto a crítica quanto o elogio perdem sua potência quando articulados a uma rede produtora de imagens e palavras prontas, buscando, isso sim, não mais a resposta para a situação mas algo que problematize e opere no contexto inicial (dizer da história do &lt;i&gt;emotional hardcore&lt;/i&gt; e sua proposta político&lt;i&gt;&lt;/i&gt;-afetiva de rompimento com o &lt;i&gt;punk&lt;/i&gt;; falar que a adaptação d´O Senhor dos Anéis pelo Peter Jackson - ainda que tenha hiper-dimensionado alguns personagens e excluído outros - manteve o sabor épico-geográfico e a valorização da amizade trazidos pela narrativa de Tolkien; perguntar, inocentemente, se o militante já visitou um CAPS ou uma residência terapêutica alguma vez em sua curta vida);&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;6. &lt;/b&gt;Não mais aceitar, &lt;i&gt;em excesso&lt;/i&gt;, os rebotes do afeto; rio de algo que me lembra uma situação engraçada, gosto de uma música que uma pessoa querida me apresentou, não vou com a cara daquele professor que o meu veterano detesta. O fato do afeto operar por rebotes fala muito de seu caráter relacional e articulador mas, ao mesmo tempo, este rebote pode servir como ferramenta de submissão - implícita ou explícita, consciente ou não - dum corpo ao outro (ele gosta, então é bom; ele não gosta, então não o é); o perigo deste rebote é a inércia, a aprendizagem vicária a substituir os comportamentos operantes, é rirmos eternamente da mesma piada ("Alguém disse &lt;i&gt;memes&lt;/i&gt;, por aí? Não!?..."), não possuirmos gostos (musicais, cinematográficos, culinários, indumentários...) que mobilizem nossos sentidos ou prezar mais pela galera &lt;i&gt;pop&lt;/i&gt; que pelo amigo sincero;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;7.&lt;/b&gt; Não mais valorizar os processos quando o que importa é o seu produto final (prezar pela saúde e pela boa aparência elas mesmas, sendo que o seu valor vem da ação coletiva tornada possível por um corpo saudável e belo) nem valorizar os produtos finais quando o importante for o seu processo (afinal, uma boa pontuação ao fim duma avaliação nem sempre se correlaciona com o entendimento do alunado);&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;8.&lt;/b&gt; Não mais sofrer pelo inevitável mas, ao mesmo tempo, não se resignar a ele, compreendendo-o. Se a doce esposa do sujeito sempre acorda de mau-humor, ele não deve esperar os comentários graciosos que ela, de praxe, lhe faria; se tenho um copo de leite, em mãos, e o torno, voluntariamente, de ponta cabeça, não faz sentido eu chorar de raiva pelo leite que a gravidade derramou; se a casa do estudante sempre ferve de visitas, é insensato ele reclamar - consigo e com os seus - da impossibilidade que é fazer uma leitura atenta e minuciosa das suas apostilas, e isto enquanto continua no mesmo espaço, na mesma estrutura contextual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;9.&lt;/b&gt; Não mais identificar o &lt;i&gt;movente&lt;/i&gt; com o &lt;i&gt;movimento&lt;/i&gt;; interessar-se pela arte não te &lt;i&gt;obriga&lt;/i&gt; a idolatrar o artista, concordar com uma política pública não te &lt;i&gt;obriga&lt;/i&gt; a filiar-se ao partido e gostar daquele &lt;i&gt;post&lt;/i&gt; não te &lt;i&gt;obriga&lt;/i&gt; a gostar daquele &lt;i&gt;blog&lt;/i&gt;, nem daquele &lt;i&gt;blogger&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;10.&lt;/b&gt; Não mais levar os protocolos a sério. Ou não (dupla negação: lógica, dialética ou duração?...).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-7279954056759063712?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/7279954056759063712/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=7279954056759063712' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/7279954056759063712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/7279954056759063712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2012/01/protocolo-ciclico-ou-da-inumanidade.html' title='Protocolo cíclico (ou Da inumanidade)'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-6508540009504302165</id><published>2011-12-26T22:50:00.000-08:00</published><updated>2011-12-26T22:50:19.550-08:00</updated><title type='text'>Salto quântico</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-8ZFoqrjDE-s/TvlpyLadMcI/AAAAAAAAAU4/NNaOml5DJQs/s1600/capelasistina1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="300" src="http://3.bp.blogspot.com/-8ZFoqrjDE-s/TvlpyLadMcI/AAAAAAAAAU4/NNaOml5DJQs/s400/capelasistina1.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;E, num instante, tudo muda. Não se é mais o Mesmo. O que o Mesmo se torna? O totalmente Outro, o divino e numinoso Outro, o diabólico e bacante Outro. E o que o Mesmo se torna, mesmo!? Ainda não se sabe. Não se é mais o Mesmo, mas ainda não se é um outro Mesmo. É o salto no escuro do homem de fé, do cavaleiro kierkegaardiano, esse tal Outro. É o movimento do eu, o Outro. O inverso nos esclarece: quando um outro se movimenta, o eu sente que algo efetivamente real acontece, quer um objeto tenha passado em frente a seus olhos, quer ele-Mesmo, o eu, esteja se movendo frente a este outro (que não é o Outro, atenção, atenção). Essa certeza-de-realidade do movimento fica ainda maior quando o eu-Mesmo o produz, depois de ter querido fazê-lo. A contração dos seus músculos reforça ainda mais a consciência deste movimento. Significa isto que apreende, ele-Mesmo, o movimento, internamente, como mudança. Quando distingue o som do silêncio, ou mesmo de outro som, o mesmo se dá. A passagem de um estado para outro é um fenômeno real. Absolutamente real. A vida se realizando como uma sucessão de estados, como um metacinema. Do frio ao calor, da alegria à tristeza, do trabalho ao ócio, a vida muda sem cessar. Uma mudança profunda, mudança que é muito mais do que parece e aparece no telão do cinema-da-consciência. O cartesiano, ele-Mesmo, sabe que existe. Sabendo disto, que existe, pergunta o que ele-Mesmo é: uma coisa que pensa, conclui pensando. Mas quem disse que ele-Mesmo, de antemão, era uma coisa? Ser é ser-alguma-coisa? O que é Ser? Ser é pensar um objeto, Ser é conhecer o mundo extenso, Ser é o caralho, escreve Descartes. Ora, Ser é mudar, é o movimento, diz a vida, canta a vida, pois. As gentes falam do tempo - está quente, está frio, está assim, está assado (o não-assim) - como uma sequência de momentos, de estados, e de cada um desses estados como se fossem blocos. E, ao dizer que mudam, entendem a mudança como a passagem de um desses blocos para um bloco outro (que não é o Outro). No que se refere a cada estado, cada bloco, creem que é idêntico a si mesmo durante todo o tempo em que dura. Uma preleção bergsoniana: o mais estável - o mais “bloqueado” - dos estados psicológicos seria a percepção visual de um objeto exterior que permanece imóvel durante todo o tempo em que é observado. Fita-se este objeto de um mesmo lado, numa mesma angulação, com a mesma luminosidade. A visão que dele se &lt;i&gt;tem &lt;/i&gt;é idêntica à visão que dele se &lt;i&gt;teve&lt;/i&gt; no instante imediatamente anterior, com uma única diferença: a imagem seguinte está um instante mais velha. A memória está presente no objeto, empurrando o passado para dentro do presente. Sensações, sentimentos, pensamentos, desejos, nunca param de se modificar, a todo instante, visto que, se cessasse seu movimento, cessaria o próprio fluxo que constitui sua duração. A psicologia cotidiana diz que a mente - seu objeto de estudo, sua coisa-que-pensa - salta dum bloco a outro. Seria mais acertado, no entanto, afirmar que se muda e se muda, sem cessar, visto que o próprio “estado” já é mudança. A descontinuidade da vida, da experiência psicológica, só se dá fenomenalmente, pois a atenção costuma operar através de atos, postos em série. A mudança, ininterrupta, só é notada quando imprime, no corpo, uma nova ação, uma nova atitude, logo, uma nova atenção. Percebe-se, assim, uma mudança de estado. É, pois, uma violência que demarca o ponto de mutação, que separa o frio do calor, o santo do apóstata, o anjo do diabo. E se o anjo caído vira diabo, um deus caído se vira em quê? Ganha corpo e vira gente. Mas Deus deposto não chora por perder seu trono, assim como o santo não chora por ser excomungado e o poeta não chora por ser incompreendido pelo gramático. Mas, sem choro, sem reação, como Deus, o santo e o poeta saberão que mudaram de natureza e se tornaram Outro? Não se sabe (mas eles sabem). O Mesmo sabe dele e do outro (que não é o Outro...), mas só o Outro sabe de si-mesmo (que não é o Mesmo, atenção), sem pensar muito sobre isso. Se pensar, vira outro, vira o outro de um Mesmo qualquer, vira um Mesmo qualquer  e esquecerá que um dia já foi Outro. O melhor a fazer é esperar. E ver o Outro subir aos céus, mais uma vez, e virar outro Mesmo. Até que, num instante, num instante Outro, tudo possa mudar...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-6508540009504302165?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/6508540009504302165/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=6508540009504302165' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6508540009504302165'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6508540009504302165'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/12/salto-quantico.html' title='Salto quântico'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-8ZFoqrjDE-s/TvlpyLadMcI/AAAAAAAAAU4/NNaOml5DJQs/s72-c/capelasistina1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-6473983109385564233</id><published>2011-12-22T22:59:00.000-08:00</published><updated>2011-12-23T17:38:33.772-08:00</updated><title type='text'>Sou do tempo em que Merthiolate© doía</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não, o post não vai discutir o quanto o passado é melhor que nosso presente, o quanto a tradição é mais valorosa que as vanguardas atuais, o quanto a minha infância é superior à dos infantos atuais etc., etc. (esse dualismo ingênuo, que anda pululando nas imagens compartilhadas do &lt;i&gt;Facebook&lt;/i&gt;, poderia ser temática dum texto futuro, inclusive...). O que venho conversar aqui é, num resumo, a compressão espaço-temporal proporcionada pelas tecnologias do cotidiano. Ou seja, venho conversar sobre resumos. O &lt;i&gt;abstract&lt;/i&gt; de um artigo científico, por exemplo, é a redução extrema doutra experiência textual maior; a sinopse dum &lt;i&gt;blockbuster&lt;/i&gt; hollywoodiano é a síntese da crise pela qual o cenário e os personagens da película passam e têm de atravessar para retornar a sua organicidade original; um manual teórico é a concatenação de diversos pensamentos em pequenos preconceitos sobre um e outro conceito desses sistemas. A ideia pronta é um mal irrefletido, é o mal da falta de reflexão? Não exatamente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A ideia pronta é como uma ferramenta e uma ferramenta, redundando, é um algo pronto, um algo acabado, que às vezes nos convém e às vezes não. Claro, quando o primeiro sujeitinho percebeu que amarrando aquele pedregulho num pedaço de madeira firme teria ele maiores chances de abater a caça, não deu outra: todo o bando se pôs a usar e abusar do invento, quer os usuários tenham muita noção ou não da fagulha de genialidade que brotou em nosso cientista selvagem. Quando o martelo (mesmo o nietzscheano) não nos serve em nosso ofício, não se deve destratá-lo, nem jogá-lo fora, e sim guardá-lo na caixa e buscar uma outra ferramenta. Ou seja, a ferramenta é subserviente ao problema e não o inverso (o psicanalista que estupra o sofrimento do paciente e lhe deturpa os dizeres em nome do Pai teria muito o que aprender com o ferreiro pré-totêmico).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Qual é a treta em se usar os martelos sem a intuição direta de suas experiências originárias? Nenhuma. Mas, ao se usar o martelo, perde-se a inserção no campo problemático que lhe serve de condição. E daí? E daí se a motricidade é a inimiga do afeto? Não é a ação que importa, no fim das contas? Talvez no fim das contas, mas não no desenvolvimento da demonstração geométrica e na postura da equação. O esquema de Schopenhauer: se o talentoso é aquele tribal que tão bem sabe usar o martelo, o genial é aquele caçador meio desengonçado que, sem pontaria para arremessar pedras no animal, constrói uma técnica de caça - ainda que acidentalmente; principalmente em acidente - que exige mais da sua força que da sua pouca destreza; e, nessa, o martelo se faz; &lt;i&gt;fiat lux&lt;/i&gt;. O martelo se faz mas poderia não se fazer. Poderíamos ter outra ferramenta ou o caçador poderia ter sido expulso do bando devido a sua inaptidão e morrido ao relento, solitário. Mas foi essa a solução que o problema encontrou e produziu, legando àquele coletivo um novo membro, um novo atuante, ator carregado de histórias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um &lt;i&gt;resumo&lt;/i&gt; que pode nos ajudar a pensar este princípio (se problematizo, não resolvo; se resolvo, não problematizo) na História é a abordagem inédita do cinema realizada pelo dromólogo Paul Virilio, que diz da participação das técnicas cinematográficas nos grandes conflitos do século XX. Não se está a falar, tão somente, duma fusão câmera-arma. De fato, temos aparatos de mira indireta, visores telescópicos nos aviões artilheiros, veículos &lt;i&gt;travelling&lt;/i&gt;, satélites espiões. Para além disso, temos o já sabido “serviço cinematográfico dos exércitos”, a propaganda militar dirigida aos civis, através do cinema. Mas a novidade da crítica cinematográfica viriliana reside em seus comentários acerca do “serviço militar das imagens”, o conjunto das representações táticas e estratégicas dos conflitos. As “distâncias” vão sendo anuladas a partir de métodos cada vez mais rápidos de comunicação, como a estratégia militar de abreviação das informações, as fotos instantâneas e as sequências fílmicas de reconhecimento aéreo. O uso indiscriminado de materiais de transmissão instantânea promove uma maior elaboração na codificação das mensagens mentais e uma redução do tempo de retenção dessas mensagens e da possibilidade de recuperação ulterior, numa virada das antigas estratégias de combate para uma &lt;i&gt;logística da percepção&lt;/i&gt;. Antes, tínhamos o espetáculo das “armas de teatro” (mísseis, foguetes, bombas nucleares), verdadeiro princípio guerreiro de dissuasão; temos, assim, uma inversão: se a arma de destruição em massa deve ser conhecida para dissuadir, aposta-se, agora, na furtividade, na incerteza e no ocultamento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vemos, aí, subsídios para uma epistemo-técnica, uma postura frente à compressão espaço-temporal propiciada pelas tecnologias, já que, para Virilio, caberá ao homem enredado por esta logística da percepção apenas o consumo das informações produzidas pelas máquinas de cálculo e visão. Filósofo do tempo real, critica a imediaticidade que as tecnologias produzem e demandam. Neste sentido, Virilio caracteriza o cibermundo – mais atrelado ao percepto contemporâneo que as imagens cinematográficas, salientamos – como um totalitarismo global, sem fronteiras, que, justamente por ter perdido suas delimitações espaciais, não se restringe ao território (à maneira dos colonialismos, do fascismo italiano ou do nazismo). Quatro imagens fáceis de serem visualizadas que abordam os efeitos dessa logística: repassar o e-mail sem conferir a veracidade do mesmo; curtir uma citação ou compartilhar uma imagem no &lt;i&gt;Facebook &lt;/i&gt;sem, de fato, ter gostado ou sentir-se parte de nada; parabenizar, genericamente, um aniversariante que seja seu contato numa rede social qualquer; achar que o post novo daquele &lt;i&gt;weblog &lt;/i&gt;que você visita poderia ter sido menor. Se uma ameba numa solução aquosa tem um feixe de luz incidido sobre ela, imediatamente volve seu corpo para a fonte luminosa; a percepção do feixe e a ação sobre o feixe é um único e mesmo movimento, é a afirmação maior de um esquema sensório-motor, supressor do contexto, do tempo e do pensamento (logo, da subjetividade, da problematização e da invenção).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pierre Lévy discordaria desse anti-instrumentalismo. Numa abordagem tradicionalista da comunicação, o comunicar teria, como função primeira, a transmissão de informações, o contexto intervindo, apenas, como um auxiliar na interpretação das mensagens dirigidas. Mas, para Lévy, o ato de comunicar define, fundamentalmente, a &lt;i&gt;situação &lt;/i&gt;que significa e valora a troca de mensagens; agir e comunicar são sinônimos, sim, mas apenas quando consideramos o contexto como o próprio alvo da comunicação, dos atos-de-comunicação. Dentro de escalas variáveis (pessoas, aparelhos, técnicas, organizações), os atores da comunicação e os elementos das mensagens que emitem (falas, objetos, planejamentos, dispositivos) criam e recriam universos de sentido, mundos de significação. Para Lévy, essa estrutura hipertextual não dá conta, tão somente, dos processos comunicativos, mas sobretudo dos processos sociotécnicos. O hipertexto como uma metáfora para todas as esferas do real que tratem da produção e do consumo de bens e significações. Se Virilio condena a cibercultura por considerá-la a terrível encarnação dum totalitarismo desterritorializado, Lévy aposta, justamente, nesta ausência de chão para investir numa nova cultura centrada em coletivos inteligentes.&amp;nbsp; Falo, por telefone e &lt;i&gt;Live Messenger&lt;/i&gt;, com um amigo residente no Japão enquanto tomo uma xícara de café para não dormir devido ao horário já avançado; o celular separa a minha voz do meu corpo e a faz viajar distâncias inalcançáveis às minhas pregas vocais e numa velocidade maior do que a velocidade dos ventos (a conversa se dá aqui ou lá?...); a xícara de café noturna não me deixa dormir e me faz experimentar a vigília para além de seu alcance dito natural (as ferramentas são extensões de meu corpo?...); enfim: meu eu, minha alma, minha luz natural está aqui ou lá, lá longe onde a minha escrita chega, minha voz atinge, minha visão alcança? Onde estou presente? E quando? Onde está meu corpo? Sou um corpo? Sou &lt;i&gt;um&lt;/i&gt; corpo (e não dois, dez ou infinitos)?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tanto na imagem cinematográfica (filmes, seriados, documentários, telejornais) quanto nas hiper-mídias (&lt;i&gt;websites&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;chats&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;blogs&lt;/i&gt;...) temos redes sociotécnicas produtoras de significação, que se entrecruzam o tempo todo em suas potências (a televisão interativa, o &lt;i&gt;spam&lt;/i&gt; comercial, o domínio virtual privado). O problema: &lt;i&gt;como saimos de devoradores de imagens para produtores de sentido? &lt;/i&gt;Lévy e Virilio personificam dualidades que não são as de um Zaratustra: a potência revolucionária das tecnologias (o martelo a abater o bisão, o &lt;i&gt;Facebook&lt;/i&gt; a abater Mubarak) e a anestesia dos encontros e afetos propiciada pela velocidade das tecnologias (o professor especializado em dar aulas sobre a boa utilização do martelo, o internauta perdido em movimentos circulares e inengendrados no &lt;i&gt;Facebook&lt;/i&gt;). São excludentes? Deverasmente não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se quero aprender um pouco de música, posso encontrar muita informação disponível pela internet: história dos estilos, os instrumentos e a organização duma orquestra, leitura de pautas, cifragem européia, luthieria; uma simples busca no &lt;i&gt;Google&lt;/i&gt; me apresenta bibliotecas e compêndios sem fim. Pesquiso um manual de teoria musical, leio um artigo sobre o nascimento da noção de harmonia, assisto interpretações históricas no &lt;i&gt;Youtube&lt;/i&gt;, baixo CD´s diversos, converso com outras pessoas numa comunidade do &lt;i&gt;Orkut&lt;/i&gt; dedicada à música instrumental. Depois disto tudo, quando, numa roda de conversa, me perguntam &lt;i&gt;onde&lt;/i&gt; eu aprendi sobre, sei lá, "as diferenças entre o Tango e o Flamenco" ou &lt;i&gt;onde&lt;/i&gt; eu - sei lá, mais uma vez - aprendi a interpretar &lt;i&gt;Luiza&lt;/i&gt;, do Tom Jobim, daquele jeito, respondo: "na internet, oras". E esta resposta, embora correta, pode nos levar a colocar um problema inexistente, visto lidar com este misto mal-analisado que é a noção de &lt;i&gt;espaço&lt;/i&gt; (o &lt;i&gt;onde &lt;/i&gt;da questão).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensar a internet como um espaço no qual impera a livre produção de conhecimento e o compartilhamento de informações é assumir-se ingênuo se não remodelamos a própria ideia de espacialidade. Afinal, se aprendo japonês com aquele meu amigo nipônico (por telefone e &lt;i&gt;Live Messenger&lt;/i&gt;, repito) e me perguntarem na mesma roda de conversa "&lt;i&gt;onde&lt;/i&gt; você aprendeu o idioma?", seria estranho se eu respondesse "no telefone" ou "no &lt;i&gt;msn&lt;/i&gt;". O telefone e o &lt;i&gt;msn&lt;/i&gt; estruturam, isso sim, a rede cognitiva que condiciona o aprendizado (que não é o aprendizado simples de um organismo, de um eu, mas a atualização dum coletivo em virtualidade). Idem para a internet. A noção de internet pensada como um lugar só é válida se pensarmos o telefone, o livro, a televisão, a fala e tantas outras tecnologias da informação como outros lugares (o que logo nos soa como estranho, sem sentido). Se a internet for espaço seria um espaço trans-local, trans-lugar, espaço-trans-espacial, espaço ciborgue, ciber-espaço. Logo, o sujeito conectado, o ciborgue, é trans-egóico e identifica-se com o coletivo articulado de tecnologias que o condiciona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste sentido, não há nada de mais antigo que a internet (rede-entre-redes) já que essa condição ciborgue é que funda a condição humana (&lt;i&gt;je est un autre&lt;/i&gt;, diria Rimbaud). E o outro, a diferença, o trans-identitário, é sempre incômodo, doloroso e hostil. Se Beethoven tinha de dar seus pulos-de-gato para assistir os concertos de Mozart ou conseguir cópias bem transcritas da obra de Bach, o musicista de hoje só precisa visitar o &lt;i&gt;Youtube&lt;/i&gt; e o &lt;i&gt;IMSLP&lt;/i&gt;, que está tudo lá. Tanto este  tem quanto Beethoven teve acesso a informações, a redes de significação que permitem ao meu contemporâneo e permitiam ao Ludwig van produzir e consumir música, com a alarmante distinção de que o repertório de conhecimento legado ao estudante de hoje  é alarmantemente maior e de mais fácil acesso que o do cão da Renânia. Seriam os músicos da atualidade, então, potencialmente, melhores artistas que Beethoven? Não, nem ouso pensar em nada semelhante. O padre proibe o excesso pois este inibe a sensibilidade; Beethoven, na correria e no esforço ascético para ouvir e fazer som, produz afetos, encontros, coletivos inteiros. Toda a geração atual de músicos e ouvintes internautas - incluo-me aí - só precisa apertar o &lt;i&gt;play &lt;/i&gt;dum executor de mídia qualquer em seu próprio PC e é isso. A música de Beethoven dói. A minha é um esquema sensório-motor. Beethoven é profundo não por conhecer a música em demasia, mas por tecê-la em rede e por conectá-la a outras redes produtoras de vida e de diferença. Ele é a engrenagem; eu (o eu...), o botão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pareço pactuar com Virilio, não o faço rompendo com Lévy. Eles aprovariam essa promiscuidade maquínica e poligâmica que faço com ambos, acredito. Se a velocidade tecnológica sequestra e captura a subjetividade, ela também pode ser apropriada para a produção de liberdade (não o livre-arbítrio, que é apenas o ego de barriga cheia, plenamente saciado e anestesiado pelo seu coletivo). Com o martelo, o campo problemático instalado pelo bisão não mais existe; o caçador pode entregar-se à luxúria, à preguiça e ao conforto; mas, aí, já coloca possibilidades para a instauração de um novo problema (logo, de novas possíveis invenções; invenções do eu, dos objetos, do espaço, do tempo, do mundo). O &lt;i&gt;Facebook&lt;/i&gt;-rede, que promoveu no dia 25 de Janeiro deste ano uma mobilização de centenas de milhares de pessoas na praça Tahrir em protesto ao abuso das forças de segurança e das políticas do governo que empobreceram o povo egípcio, fazendo o presidente-ditador Hosni Mubarak renuciar aos seus 30 anos de poder; e o &lt;i&gt;Facebook&lt;/i&gt;-coisa, o que você utiliza pra ficar derivando improdutivamente nos espaços virtuais ("estou no &lt;i&gt;Face&lt;/i&gt;, estou no &lt;i&gt;msn,&lt;/i&gt; estou no &lt;i&gt;Twitter&lt;/i&gt;...") e rindo dos mesmos &lt;i&gt;memes&lt;/i&gt; num ritornelo infinito. Se perceber, aja: é o lema do esquema sensório-motor. A subversão desse esquema não é a imobilidade, o vazio, o caos, a entropia. O oposto do chão sólido e de sua segurança não é uma morte agonizante no mar revolto, mas os diversos barquinhos e navios, tábuas e iates, botes e trans-atlânticos, que nos levam a paragens antes desconhecidas. Revolucionar não é demolir o esquema S-M, mas apenas colocar o afeto entre um e outro e fazer a resposta durar, dar tempo à solução para que ela se mature e nos mature, nos legando não mais uma reação previsível e mecânica, mas uma ação propriamente dita. &lt;i&gt;Invenire&lt;/i&gt;...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-6473983109385564233?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/6473983109385564233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=6473983109385564233' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6473983109385564233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6473983109385564233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/12/sou-do-tempo-em-que-merthiolate-doia.html' title='Sou do tempo em que Merthiolate© doía'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-30194887515255848</id><published>2011-12-06T14:15:00.001-08:00</published><updated>2011-12-06T14:51:47.033-08:00</updated><title type='text'>Carta a um intelectual</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sou poeta, antes de qualquer coisa; mas poeta por incapacidade. Tenho certa inabilidade&amp;nbsp;para com a ordem e o decoro. Olho pra você: engomado, perfumado, todo penteado. Escreve como&amp;nbsp;um anjo. É encadeado, objetivo, cirúrgico e, como tal, é um enviado do divino. É a nossa diferença maior, inclusive. Indo direto ao assunto – o que não costumo fazer – digo que não partilhamos da&amp;nbsp;mesma caneta. Escrevo para te dizer isto, e é só (&lt;i&gt;somente&lt;/i&gt;, mas não &lt;i&gt;sozinho&lt;/i&gt;, e por não ser sozinho,&amp;nbsp;vou teimar e continuar a escrever, pra povoar isto aqui de gentes, bichos, monstros, demônios). A&amp;nbsp;sua caneta aponta para as coisas, é caneta de adequação ao mundo, de referência ao real. Se eu te&amp;nbsp;chamo de resignado? Sim! Claro! Mas não tenho muita certeza. A paixão, sim, mas não a certeza.&amp;nbsp;Duvido, mas não como filósofo. Minha dúvida não é uma &lt;i&gt;epoché&lt;/i&gt;, tampouco uma ignorância, mas&amp;nbsp;uma doença. Você fala e escreve para informar um segundo sobre um terceiro. Seu mundo é um&amp;nbsp;triângulo, seu mundo é uma trindade santíssima. Já eu não tenho um mundo meu. Sou incapaz de&amp;nbsp;organizar e decorar a vida, e faço questão de não te deixar esquecer isso. Vê só, acabei de ler um&amp;nbsp;texto seu; você fala de alguma-coisa usando o pensamento de não-sei-quem e aproximando com a&amp;nbsp;escola de não-sei-onde. Seu texto é uma aula: todos os alunos calados (ou dormindo, já que calar é&amp;nbsp;colocar os demônios pra dormir), uma cadeia de argumentos em desenvolvimento e alguma&amp;nbsp;temática obscura &amp;nbsp;a se esclarecer. Quando escrever se resume a informar e comunicar, quando&amp;nbsp;escrever se torna dar uma aula, a única lida que podemos ter com um enunciado é dizer da verdade&amp;nbsp;ou da falsidade dele. Sintaxe, morfologia, semântica, gramáticas etc, etc. É verdadeiro, é falso, é&amp;nbsp;ruído (o aluno que acorda). À sua fala que representa o mundo (epistêmica e politicamente),&amp;nbsp;apresento a minha que o constrói. Minha linguagem é ferramenta, no literal. Um martelo para&amp;nbsp;pregar, um violão para cativar, um punho para derrubar. Eu não “informo sobre o real”, &amp;nbsp;mas me&amp;nbsp;insiro nele e o afeto. Gastar saliva para só dizer da verdade (ou da mentira, que é a verdade pelo &amp;nbsp;avesso; “desconstruída”, como diria você) é muito custo para pouco benefício. Salivo e faço poesia, e isto pela minha incapacidade de organizar a casa. Sou incapaz, já o confessei, e se sou um poeta é&amp;nbsp;porque também não sei cuspir (o melhor custo-benefício da saliva, &amp;nbsp;inclusive; &amp;nbsp;nem Sócrates nem&amp;nbsp;Cálicles, mas Diógenes). Você procede pela educação (a melhor das hipóteses), pela propaganda (o&amp;nbsp;mal-por-vir) e pelo fascismo (os desejos de tirania; e falo dos cotidianos, mesmo) para construir um&amp;nbsp;Mundo Melhor. O que faço em minha anti-filosofia é trabalhar, e trabalhar coletivamente, no&amp;nbsp;incessante ofício de enxugar gelo que é construir nossas próprias histórias. Se o aluno acorda, isso&amp;nbsp;não é lá algo ruim. Os ruidosos não precisam de educação, informação, punição, que seja;&amp;nbsp;precisamos, isso sim, construir corpos que suportem esses ruídos e mundos nos quais esses ruídos&amp;nbsp;possam tornar-se voz. Se sou incapaz de submeter os infinitos mundos e transformá-los num 3, é&amp;nbsp;porque os próprios mundos não se prestam a essa tarefa. Minha incapacidade é respeito por esse&amp;nbsp;desejo. Não sou parteiro das almas, mas um mago do câncer, um terrorista biológico. Você ajuda a&amp;nbsp;dar a luz; eu, incito gangrenas. E isto porque amo, acredita? Já desisti de instruir o aluno,&amp;nbsp;contextualizar o leitor e ler os textos de outros com os meus próprios olhos, e passei a trabalhar,&amp;nbsp;inserido em meu próprio mundinho (e atento aos demais, que são bem mais que três), com minhas&amp;nbsp;próprias ferramentas, numa história (e não mais num Mundo...) melhor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-nT44IRW71jA/Tt6WjEEHjaI/AAAAAAAAAUs/-vGfp8jFeKE/s1600/escola_atenas_rafael.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em; text-align: center;"&gt;&lt;img border="0" height="275" src="http://2.bp.blogspot.com/-nT44IRW71jA/Tt6WjEEHjaI/AAAAAAAAAUs/-vGfp8jFeKE/s400/escola_atenas_rafael.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-30194887515255848?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/30194887515255848/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=30194887515255848' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/30194887515255848'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/30194887515255848'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/12/carta-um-intelectual.html' title='Carta a um intelectual'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-nT44IRW71jA/Tt6WjEEHjaI/AAAAAAAAAUs/-vGfp8jFeKE/s72-c/escola_atenas_rafael.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-1036782359768082022</id><published>2011-11-13T00:00:00.000-08:00</published><updated>2011-11-13T19:50:33.193-08:00</updated><title type='text'>Douze ou treze jours</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-1tdGylLvkfw/TsBZEUJAyLI/AAAAAAAAAUQ/HSYah7LQKYI/s1600/Renoir%252B-%252BO%252Bpescador%252B-%252B1874.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="330" src="http://1.bp.blogspot.com/-1tdGylLvkfw/TsBZEUJAyLI/AAAAAAAAAUQ/HSYah7LQKYI/s400/Renoir%252B-%252BO%252Bpescador%252B-%252B1874.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O Sol titubeia por um microssegundo, um instante, um &lt;i&gt;Kairós&lt;/i&gt;, e não sabe mais se estava a ir ou vir. É o momento dubitável por excelência, a Terra treme, os homens congelam, as pedras se calam. O crepúsculo se confunde com a aurora e o alaranjado tímido do céu não lembra se tem de avermelhar ou se vai amarelar de vez. É noite? É dia? Doze ou treze dias? Uma, dez ou cem vidas? Ao término da carta, o enamorado a lê, relê, edita, apaga, torna a escrever, volta a reler e, por fim, a sela num envelope. Pronto. Já pode atear fogo em sua obra. Zen? Não, nada de desprender-se dos desejos. Aporia budista: se a existência humana é sofrimento devido aos inúmeros desejos que não conseguimos trazer ao real, que acontece com o corpo pleno de realizações, com o corpo que tudo conseguiu realizar? Mais ainda, que acontece ao corpo cujo desejo não precisa vir à tona para ser saciado, um corpo que deseja, tão-só, desejar? O homem grego deseja cuidar de si - medicina, ginástica, dialética - para melhor cuidar dos seus; o romano, poeta do mundo privado, deseja a &lt;i&gt;pax&lt;/i&gt;; o cristão deseja afogar o desejo e, mortos, ambos ganharão a vida e o gozo na eternidade (&lt;i&gt;Chronos &lt;/i&gt;tomado por &lt;i&gt;Aeon&lt;/i&gt;...); o humanista, descrente do presente e do futuro a que ele lhe condena, reinicia a ciranda de pedra e deseja um retorno a &lt;i&gt;les bons moments&lt;/i&gt; helenos; o cientista, sobrinho-neto do humanista, deseja circunscrever o desejo dentro do seu campo visual (desejo = gado). E o enamorado - de todas as épocas, de todos os "tempos" -, aquele mesmo cujo corpo deseja, apenas, desejar? É fogo puro, este; o mesmo que, há pouco, incendiou a sua carta depois de lê-la, relê-la, editá-la, apagá-la &lt;i&gt;et cetera&lt;/i&gt;. Ama o seu desejo, ama seu amor, o enamorado, mesmo que nada de sólido (ou líquido... ou gasoso...) lhe venha daí. O cancioneiro gagueja sua melodia, o poeta transborda versos de silêncio e o pintor enquadra o seu afeto pouco lúcido. E daí?&amp;nbsp; São todos o enamorado que esqueceu de destruir as provas deste crime monstruoso, desta anti-natureza, que é o sacrifício (&lt;i&gt;sacrum facere&lt;/i&gt;...) do amor. O fogo é o elemento fátuo, é a invenção e a contravenção, matéria e luz. O enamorado é um incendiado e um incendiário. Tudo o que abraça retorna ao pó. Eis a paixão: consumir. E o amor?&amp;nbsp; E o enamorado? Não quer consumir o alheio mas sumir em seu desejo, como um suicida em plena queda livre.&amp;nbsp; É fluxo de graça e dívida, de beatitude e profanidade, de alma e de corpo. Sublime é o corpo capaz de atear o fogo do Sol num coração de homem e sublimar-lhe o espírito. Sim, o corpo sublime é epifania, é Deus feito mulher. Divina, diabolicamente divina, é a rainha amada. Ser-amada não é ser-objeto-de-amor. Assim como o cancioneiro, o poeta e o pintor são apenas o aspecto visível do enamorado, a rainha, que é fonte de amor, torna-se objeto-de-desejo quando vista pelos olhos dos aquáticos. Ser-amada é fazer o valete entregar-lhe as armas sem que este nada queira, nada deseje com isto - nem a paz, nem o reino, nem a rainha - além do amor ele mesmo, além do fogo. Arde de vida, o enamorado, e só quer crepitar. O enamorado pergunta: "doze ou treze dias?" Os homens lhe respondem: gregos, romanos, cristãos, humanistas, cientistas, cada um a sua maneira lhe dá o conselho, a resposta e o encaminhamento. O enamorado, pela primeira vez, pensa. E responde: "Que importa!? Quem se importa!?" Pra ele, sua rainha amada lhe basta. Não por a possuir, nem por ser o objeto dela - ainda que a possua, corpo e alma; ainda que por ela seja querido - mas por, devido a ela, sentir e ser, ele mesmo, o desejo sem um objeto-consumido-pelo-fogo, o fogo incansável e sibilante do Sol e o Sol a duvidar, no instante oportuno, de todo o universo. Menos do amor...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-1036782359768082022?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/1036782359768082022/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=1036782359768082022' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1036782359768082022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1036782359768082022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/11/douze-ou-treze-jours.html' title='Douze ou treze jours'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-1tdGylLvkfw/TsBZEUJAyLI/AAAAAAAAAUQ/HSYah7LQKYI/s72-c/Renoir%252B-%252BO%252Bpescador%252B-%252B1874.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-4456229729063443512</id><published>2011-11-11T11:11:00.000-08:00</published><updated>2011-11-15T18:02:50.170-08:00</updated><title type='text'>Tempos, espaços e zonas</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: inherit; text-align: justify;"&gt;Toda delimitação espacial é, necessariamente, asilar. Escola, hospital, prisão, igreja, manicômio. O teto não nos protege da chuva, tão só. Eis a logística da triagem dos corpos: na escola, o inculto (que, ao assumir-se como sabedor de coisa alguma, sairá de lá como douto e letrado em alguma coisa); no hospital, o doente (que, tratado, medicado e devidamente encaminhado, voltará esbanjando saúde); na prisão, o criminoso (que, depois de punido, terá a sua dívida expiada e o seu caráter reformado); na igreja, o pecador (que conseguirá, após uma e outra penitência, a redenção de seu espírito), no manicômio, o louco (que sairá convencido - através de eletrochoques, confinamentos, dietas forçadas, alguns tabefes e outros argumentos bem colocados - de que suas verdades não passam de delírio). E do lado de fora, que há? Há o homem. E não é à toa que, ao se falar "o homem", a imagem dum sujeito branco, adulto, bem alimentado, heterossexual, trabalhador e pai duma família de tradição nos venha à cabeça. E onde estão as mulheres? Os negros? As crianças? Os famintos? Os homossexuais? Os desempregados? Os desajustados, enfim? Estão "aprendendo" nas escolas, "se tratando" nos hospitais, sendo "reabilitados" nas prisões, "se confessando" nas igrejas e fazendo de tudo isto um pouco nos manicômios.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Um saber é a formalização duma série de dispositivos de poder. A pedagogia é a justificação das tecnologias escolásticas a modelar nossos garotos (colégios internos para preservar a pureza original do infanto, escolas técnicas que os preparam para o mercado...). A medicina é um conjunto de práticas que, mirando o corpo individual, visa fortalecer a nação (&lt;i&gt;Staatsmedizin &lt;/i&gt;alemã), organizar as cidades (&lt;i&gt;médecine urbaine&lt;/i&gt; francesa) e potencializar a produção (&lt;i&gt;occupational medicine &lt;/i&gt;inglesa). O sistema jurídico põe nas tábuas da verdade as verdades que os vencedores ditaram aos povos pilhados ("&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Quid latine dictum sit, altum sonatur&lt;/span&gt;"). A metafísica cristã, através duma ladainha salvacionista, cria sujeitos ressentidos, alheios ao mundo do sensível e resignados com os sofrimentos que (acham...) não podem evitar e as asceses que (acham...) devem se submeter. A psicopatologia, por fim, assume a infeliz missão de racionalizar o que foi, previamente, excluído dos domínios da razão (a norma do anormal, a regularidade do desviante, o comum do monstro). A política, diz Michel Foucault, é a continuação da guerra por outros meios, e os saberes, antes de tudo, vêm da necessidade em se justificar as opressões a que o homem submete o ser. O &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ser&lt;/span&gt; humano é a resultante duma malha de dispositivos; os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;saberes&lt;/span&gt; são a organização dos &lt;span style="font-style: italic;"&gt;poderes &lt;/span&gt;num discurso unificado e centralista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indivíduos ou grupos, fala Gilles Deleuze, somos todos compostos de linhas, e é sobre (ou com...) essas linhas - produtoras de indivíduos, grupos, aléns e aquéns - que devemos nos ater (ou atar... ou desatar...). Já abordamos duas, em implícito: uma linha dura, estratificada, segmentada, institucionalizada; e uma linha flexível, linha de fuga, linha de ruptura. Infância-adultez-velhice (psicologias do desenvolvimento). Trabalho-casa-trabalho-casa-trabalho-férias (modulações do mercado). Casa-escola-universidade-mercado (projeto político-pedagógico). No entanto, não se envelhece do mesmo jeito, não se trabalha do mesmo jeito, não se aprende do mesmo jeito, não se descansa do mesmo jeito, não se vive e se morre do mesmo jeito. Há, por sob esses segmentos naturalizados (termo horroroso...), "diferenças" (que não são individuais, pessoais, privadas, mas tão coletivas quanto às identidades da linha dura, mas a sua maneira própria). São os devires revolucionários que adormecem por sob os Seres da Tradição. Dois movimentos: a territorialização (o sedentário, o agricultor, o homem da escrita, o espaço árido) e a desterritorialização (o nômade, o rastreador, o homem da oralidade primária, o tempo puro). Outro dos dualismos irresolvíveis a que a filosofia nos condena? Não desta vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filosofia da diferença deleuziana é descendente direta da distinção grau/natureza feita por Henri Bergson, cuja metafísica da duração é fonte seminal à ontologia do virtual de Deleuze.  A obra de Deleuze constitui-se como uma "filosofia da diferença" visto que faz movimentos críticos frente a todo pensamento "representativo". E por movimento crítico devemos assumir a distinção mesma entre dois "pensamentos": um pensamento moral/representativo/dogmático e um pensamento sem imagem (que não se identifica a mais uma nova imagem do pensamento; não é o &lt;i&gt;novo&lt;/i&gt;, mas o&lt;i&gt; inesgotado&lt;/i&gt; ou, antes, o &lt;i&gt;inesgotável&lt;/i&gt;). Um ligeiro passeio pelo &lt;i&gt;corpus&lt;/i&gt; deleuziano (o &lt;i&gt;peccatum verum necessarium&lt;/i&gt;...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em &lt;i&gt;Diferença e Repetição&lt;/i&gt;, Deleuze apresenta quatro postulados sobre a imagem dogmática do pensamento. 1) O &lt;i&gt;Cogitatio natura universalis&lt;/i&gt;; o pensamento possui formalmente o verdadeiro e o busca materialmente; 2) tal pensamento é potencialmente compartilhado por todos os homens; 3) o modelo da recognição, exercício concordante das faculdades sobre um objeto suposto como sendo o mesmo; e, por fim, 4) a unidade de todas as faculdades no príncipio geral do "Eu penso". Já em &lt;i&gt;Nietzsche e a filosofia&lt;/i&gt;, os caracteres que constituem o pensamento dogmático são um pensador que, enquanto pensador, quer e deseja a verdade, e um pensamento que, enquanto faculdade, é naturalmente e universalmente reto; este pensamento é desviado do verdadeiro devido às forças estranhas ao mesmo – "malditas sejam as paixões da carne e os erros dos sentidos!" – que nos fazem cair no erro, tomando uma coisa falsa por verdadeira, nos legando um princípio singelo: para pensar retamente, precisamos apenas dum método que nos adeque a caminhada. Com &lt;i&gt;Proust e os signos&lt;/i&gt;, vemos Deleuze fazer dessa imagem dogmática do pensamento uma imagem racionalista da filosofia, filosofia moral e representativa, visto que constituída de pressupostos, analisando a temática do tempo em &lt;i&gt;Recherche du temps perdu&lt;/i&gt;; Marcel Proust, pela leitura de Deleuze, contrapõe este pensamento dogmático a uma nova imagem do pensamento, que enfatiza a relação entre as chamadas "forças externas", fazendo o pensamento sair de sua imobilidade e lhe provocando encontros ou, como Deleuze os chama, intercessões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do que escrevo, até aqui? &lt;span style="font-size: small;"&gt;De possibilidades para o exercício do pensar e de uma filosofia que &lt;/span&gt;não equivale à contemplação do mundo ou das ideias, nem à dialéticas intersubjetivas ou mesmo reflexõesmetódicas sobre istos e aquilos. O ofício do filósofo é forjar conceitos, é&amp;nbsp; produzir ideias, mas não a idéia do platônico, do pensamento representativo e da verdade dada, mas a diferença mesma produzida pelas intercessões&lt;span style="font-size: small;"&gt;, um rompimento das amarras da representação. Pensar é radicalizar, buscar a raiz, as gavinhas, os rizomas que dão consistência ao espaço e suas coisas.&lt;/span&gt; O conceito, em síntese, é a ferramenta do filósofo, e este se assemelha mais a um artífice cuidadoso a namorar o mármore (aquele mesmo que Platão tanto denegriu em sua politéia) do que a um mestre esteta (o padre no altar, o orador no púlpito, o professor na cátedra).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galileu, Descartes, Newton, Leibniz, Einstein, Gödel, estes matemáticos, exemplificando, não recorreram à filosofia para problematizar questões que são próprias da matemática. O mesmo para o pensamento cinematográfico de Eisenstein, Bazin ou Godard. Todos pensaram os problemas colocados por seus próprios domínios, sem recorrerem, diretamente, aos "campos da filosofia". Deleuze, ao contrário, muito utiliza de outras regiões do Ser (usando um termo de Husserl) para tecer a sua palavra, para fiar a sua conversa. O que importa nessas intercessões não são as análises empreendidas sobre tal e qual obra mas os conceitos que estas liberam à atividade filosófica. Tanto o espaço filosófico quanto os espaços "de-fora" forçam-nos a pensar, seja a favor duma constante delimitação espacial dos poderes, saberes e sujeitos, seja contra essa imagem moral e dogmática do pensamento, em prol da invenção, do coletivo e do tempo. Se o primeiro visa capitalizar seus investimentos ("o capital é o corpo-sem-órgãos do capitalista"), este último preza pela capilarização dos seus afetos, numa teoria da imanência pura.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: inherit;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: inherit; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Duas lutas, então, que não equivalem às duas linhas (a linha dura e a linha de fuga) que Deleuze nos lega: uma luta pelos estratos, pelo instituido; e uma luta pela vida e seus movimentos. A vilania e o heroísmo? Ora, lutar pela vida não é pregar a desterritorialização, o que nos condenaria ao vazio, ao não-Ser. Mais ainda, poderia nos legar o tipo de resistência que fortalece àquilo que pretende combater (as bandeiras do drogado orgulhoso da sua condição marginal, do homossexual que assume para si a condição de anormal, do idoso que luta por "espaço" no mercado de trabalho...). Pelo outro lado, lutar pelos estratos é apoiar, ainda que ingenuamente (mas nunca em inocência), as máquinas a oprimirem e docilizarem os corpos, mas não se pode, como queria Descartes, derrubar os fundamentos do erro para, sobre uma nova base, fundar os edifícios da verdade sem que, no processo, desmantelemos a nós mesmos (o sujeito não é, pois, o seu objeto?...). Se o espaço é, já, a decadência (o &lt;i&gt;Verfallen&lt;/i&gt; heideggeriano) e o tempo, por sua vez, é o fluxo indefinível, o anti-espaço e a anti-matéria (o devir de Heráclito), que podemos fazer neste mundo pendular no qual as únicas alternativas apresentadas são ou assumir-se um &lt;i&gt;ego&lt;/i&gt;, um &lt;i&gt;moi&lt;/i&gt;, e excluir dessa redoma da consciência toda a alteridade (marxismos, freudismos e sindicalismos vulgares) ou apostar na dissolução do eu-autoral, do ele-relacional, do nós-grupal e tomar um caminho que, a sua própria maneira, despreza a diferença (nietzscheanismos, deleuzismos e foucaultismos vulgares)?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A linha criativa, como sempre, é pensar o terceiro excluído, que não é o meio-termo, a média ou o consenso. Além do nômade (a condição originária do homem) e do sedentário (o homem capturado pelas tecnologias de si), há a figura do migrante, ora parceiro dos revolucionários nômades, ora aliado dos confederados sedentários. Se o nômade é o forasteiro (não o estrangeiro, que é o forasteiro, o "de-fora", já capturado) a caminhar pelas areias do tempo e o sedentário é o nativo da terra, o agricultor dos espaços, o migrante é o homem das zonas, do eu-fragmentado, da gestão coletiva do espaço-tempo. A zona é sempre uma criação parcial, demanda sempre um olhar precário e deseja, antes de tornar-se permanente (permanecer é perecer, é perder a potência), tornar-se ação. A zona não entra para a História, mas a constrói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foucault conta que a onda bergsonista que assolou a França na primeira metade do século passado causou um extremo esvaziamento do espaço enquanto categoria epistêmica e política. Todo espaço é um continente, é uma instituição de asilo e de captura; o tempo é a liberdade (liberdade pra quê, mesmo?...). A zona é o espaço destilando tempo, ou o tempo moldado em espaço. A zona é o movimento ainda em operação, é o corpo (indivíduo ou grupo, tanto faz) em atuação e contato com outros corpos - corpos e sujeitos vivos, não suas contrapartes de palha, como diria Bruno Latour -, é o conceito que não pretende representar, definir ou controlar, mas afirmar, conectar e libertar os povos aprisionados nos espaços desinvestidos. Quais as minorias que ainda fervilham nos espaços totalitários que habitamos (e que nos habitam) e como podem ser apropriados para a promoção das condições de felicidade de um coletivo (cito Latour, mais uma vez)?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pergunta sem resposta. Não por ser mal-colocada ou por exigir uma tecnologia intelectual para além das atuais. É que a solução, por fim, não é discursiva, não encadeia proposições. Parodiando Kant, poderia dizer que a organização dos territórios, sem a experiência das proposições concretas com as quais pretendemos nos conectar para agir, é vazia (o Psicólogo, o Sociólogo, o Médico, o Pedagogo... áreas, campos, espaços...); mas a vivência bruta e imediata do cotidiano, sem a articulação necessária para atuar e construir, é cega. O espaço esvaziado, o monumento largado em plena praça, e o tempo cego sem saber se guiar neste coliseu dos discursos. O espaço-tempo é a zona, a barraca armada, a feira a se fazer no dito (e não só no escrito). A zona (&lt;i&gt;Kairós&lt;/i&gt;) é ação, é batalha, que periga cair tanto nos aparelhos totalitários do espaço (&lt;i&gt;Chronos&lt;/i&gt;, encarnado também em micro-aparelhos e pequenos fascismos a nos engolfar, nos legando novos totens e nos condenando a imperceptíveis tabus, segundo a segundo) quanto nos desmantelos informais do tempo (&lt;i&gt;Aeon&lt;/i&gt;, a Grande Marcha descrita por Kundera). É a vida...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-4456229729063443512?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/4456229729063443512/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=4456229729063443512' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4456229729063443512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4456229729063443512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/11/tempos-espacos-e-zonas.html' title='Tempos, espaços e zonas'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-5836618075127254554</id><published>2011-11-04T12:43:00.000-07:00</published><updated>2011-11-13T17:45:08.887-08:00</updated><title type='text'>Pelo quê você luta?</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-S3NIB4ggxAU/TrQ_QkzjUyI/AAAAAAAAAUI/1pUPEJ5SBPA/s1600/Turner+-+Erupcao+do+Vesuvio.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Trabalho é amor feito visível. E o amor, Khalil? É a vida do morimbundo (zumbi ou fantasma?...), o gozo do santo (cínico ou estóico?...), o riso do palhaço (Chaplin ou Keaton?...), a lágrima da atriz (primeiro plano ou bastidores?...), o calor gelado do avermelhadamente lindo céu azul (aurora ou crepúsculo?...), a questão colocada e resolvida (filósofo ou sofista?...). Indecidibilidade. Trabalho é amor, e amor é luta, e luta constante, integral, cósmica, de corpo, alma, espírito e verdade. E essa verdade, precisa de estudo? Estudo é luta, também, assim como o trabalho e o amor. Luta-se contra o sono, contra a vontade doutras coisas (vontade minha ou das coisas?...), contra uma avaliação, contra o texto, contra a equação e contra o problema. E essa luta, tem o seu porquê? Qual a batalha maior na qual está inserida? Em qual guerra, nativista, colonial, mundial, cósmica, está metida? O esforço tem algum sentido?&amp;nbsp; Máquina, o ser (humano?...) é. Máquina que deseja. Tédio: a histeria contemporânea. Não se luta "contra", oras. Afinal, quem é o inimigo? Luta-se contra si!? E o que se é? Se lutar é ir de encontro, o que se constrói com o sangue derramado (alheio ou próprio?...)? Luta contra o luto, luta por um "a favor de". Planta-se para comer, caça-se para comer, colhe-se para comer. O trabalho e a luta constróem comilanças. O amor é um banquete (Platão ou Xenofonte?...). Quando se deu a alienação, a inversão, a reversal? O filósofo luta "contra" o sono, mas "pelo quê"? "A favor de quê" se luta (agora, sempre agora!..)? Uma graduação, uma carreira, um "mundo melhor"? Indecidibilidade, mais uma vez. Guarda a pena e vai descansar. Ou lutar "contra" essa indefinição até que um "a favor" apareça...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-WfMDuL9ZcLA/TsByFfnpvdI/AAAAAAAAAUY/mU5EMtXjdK0/s1600/Dali3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="300" src="http://4.bp.blogspot.com/-WfMDuL9ZcLA/TsByFfnpvdI/AAAAAAAAAUY/mU5EMtXjdK0/s400/Dali3.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-5836618075127254554?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/5836618075127254554/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=5836618075127254554' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5836618075127254554'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5836618075127254554'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/11/pelo-que-voce-luta.html' title='Pelo quê você luta?'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-WfMDuL9ZcLA/TsByFfnpvdI/AAAAAAAAAUY/mU5EMtXjdK0/s72-c/Dali3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-6436674891544963441</id><published>2011-10-02T14:06:00.004-07:00</published><updated>2011-10-02T14:38:06.679-07:00</updated><title type='text'>Darstellungssystem</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Se a teoria da arte se contentasse com isso, se se considerasse satisfeita com a recompensa proporcionada por uma busca sincera, nada teríamos contra ela. Porém, quer ser mais. Não almeja ser, tão-somente, uma busca para encontrar leis: afirma haver descoberto &lt;span style="font-style: italic;"&gt;leis eternas&lt;/span&gt;. Observa um certo número de fenômenos, observa-os segundo alguns critérios gerais e deduz, disto, leis. Tal é correto pela simples razão de que, infelizmente, não parece ser possível de outra maneira. Mas, nesse ponto, começa o erro: chega à falsa conclusão de que essas leis, por corresponderem aparentemente aos fenômenos observados durante certos momentos, serão válidas também para todos os fenômenos que se produzirem no futuro. E eis aqui o mais funesto: acredita-se haver encontrado uma &lt;span style="font-style: italic;"&gt;medida &lt;/span&gt;para o julgamento da obra artística que seja válida para as obras de arte futuras. E os teóricos, mesmo sendo constantemente desautorizados pela realidade, quando consideram antiartístico "o que não soa segundo as regras", ainda assim "não abandona a ilusão". Pois o que ocorreria se não possuíssem, ao menos, o monopólio da beleza, já que a arte não lhes pertence? Qual seria o resultado se, para todos e definitivamente, ficasse claro o que - mais uma vez - é aqui demonstrado? O que lhes significaria o fato de que, na realidade, a arte transmite-se e propaga-se através das obras artísticas e não por regras de beleza?" &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;SCHOENBERG, Arnold; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; font-weight: bold;"&gt;Harmonia&lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;; Trad. Marden Maluf - São Paulo: Ed. UNESP, 2001, p. 43.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-SpeGVKug9Y0/TojZcdm3ZlI/AAAAAAAAAUE/2qmWcKWJzRA/s1600/Schoenberg-Arnold-14%255BSelf-Portrait-1951%255D.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 231px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-SpeGVKug9Y0/TojZcdm3ZlI/AAAAAAAAAUE/2qmWcKWJzRA/s320/Schoenberg-Arnold-14%255BSelf-Portrait-1951%255D.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5659012014798235218" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-6436674891544963441?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/6436674891544963441/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=6436674891544963441' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6436674891544963441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6436674891544963441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/10/darstellungssystem.html' title='Darstellungssystem'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-SpeGVKug9Y0/TojZcdm3ZlI/AAAAAAAAAUE/2qmWcKWJzRA/s72-c/Schoenberg-Arnold-14%255BSelf-Portrait-1951%255D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-2315854308433352302</id><published>2011-08-13T21:11:00.000-07:00</published><updated>2011-10-02T16:09:25.288-07:00</updated><title type='text'>Carta a um rato</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tenho as mesmas dores no fígado que tu, camarada. E, assim como tu, sou um sonhador. Desses que perdem dias, anos, vidas inteiras a planejar vinganças para aqueles que, num tempo perdido, neles se esbarraram. Gastamos litros de saliva para condenar os homens brutos - sim, os homens brutos! - impulsivos e desapegados à prudência. Homens de ação, como tu o chamas! Mas não são eles os abençoados pela natureza? Não são esses homens pouco sensatos os filhos da verdade? Se lhes ofendem, já se encontram dispostos para o chiste, o soco, a faca, o sangue, a morte e a vida; nós, os de consciência refinada, nos pomos a pensar. Se lhes suscitam desejos na carne, já se encontram dispostos para o cortejo, a bebida, as risadelas, o beijo, o coito e o gozo; nós, os de consciência refinada, nos pomos a pensar. Se lhes... Creio que tu não precisas de mais imagens e exemplos. Tuas barbas não são maiores que as minhas à toa, fato. Mas veja só: a natureza e a verdade pariu esse homem desarrazoado. Eu e tu, do contrário, fomos concebidos numa biblioteca ou num laboratório ou sabe-se lá em qual lugar alheio ao império do real. Somos um império dentro do império. Olhamos para esse homem, esse búfalo ignorante, de cima, de lado, mas nunca de frente. Não sabemos lhe afrontar e, mesmo de cima (ou de lado), sempre lhe cedemos passagem. Somos ratos, eu e tu, e por isto nos damos tão bem. A ignorância, aí, é benção, amigo. Ignorar passados, presentes e futuros não é tarefa para nós, homens de memória e de decoro. Homens de gnose e de pensamento. Devemos desenvolver a ignorância? Não, não é isso que lhe recomendo, meu velho. Temos a mania de tagarelar (ainda que seja só para nossa própria consciência) astuta e maliciosamente de tudo, de todos e além. Mas nossa maldade não ultrapassa as fronteiras da lalação. Arquitetamos nossas torturas, mas não sabemos erigí-las. Somos arquitetos, e não pedreiros. Pena. Nem a estupidez conseguimos realizar. Somos potentes, mas não reais. Cheios das virtudes, mas sem boas ações. Não temos a maldade da vida: não comemos a carne, não comemos a folha. Viveríamos de luz, se pudéssemos. Mas a vida nos devora a todos, vorazmente, insaciávelmente. A vida nos come, e nos come por detrás, a mim e a tu, também. Desconhecemos a força da ignorância e a alegria da maldade. Somos bons e, por isso, somos feios. É a feiúra do estupor, da flor que brochou, do coito que se interrompeu. Que nos resta a fazer neste mundo, já que nada sabemos fazer? E, para piorar, ainda somos feios. Só sabemos falar, eu e tu. Água numa peneira, como tu mesmo o dizes. Devemos nos calar? Sim. Sim!? Não, claro que não! Devemos é falar, mais e mais. Se é impossível (ou pior: sé é inútil!) falar das coisas - já que a coisa nos escapa a nós, homens da inteligência - falemos, ao menos, sobre essa impossibilidade de se falar das coisas. Se não sabemos usar as espátulas, preparar os rebocos e equilibrar os tijolos, que as palavras nos sirvam de ferramentas, então. Eu escrevo para tu, agora. E escrever não é apontar um estado de coisas, mas sim montar uma armadilha para o leitor, um alçapão de enunciados, como um marujo que não leva o tesouro consigo, mas rabisca e marca xis num papelão velho a habitar garrafas. Tudo isso para que seus convivas refaçam sua caminhada trôpega e povoem a ilha deserta na qual habita solitário. O ignorante não quer saber de nós, porém. Sejamos malvados, pois, e montemos nossas armadilhas para retirar-lhes o que nos foi negado: uma vida de plácida e translúcida ignorância. Se eu desejo ser um ignorante? Não. Só quero receber as visitas do continente, em minha ilha. E sorrir. E não mais ser feio. Se a ignorância do homem-búfalo não é negativa, não é ausência, a malvadez do homem-rato também não o é. É a nossa virtude maior, a armadilha, o veneno e a furtividade. Não empunhamos espadas, e sim punhais. Somos ratos e gostamos de sombra e água fresca, como todo bom punguista. Uma ode e uma recomendação à maldade, essa minha carta, caro camarada. À maldade, sim, e não à ruindade. Esta é coisa de búfalo medíocre.  Nossa ontologia roedora não nos dá coragem, certezas e caminhos. O rato é um jogador, todo bom jogador é um ratinho, e um ratinho malvado. A melhor das coisas que o rato pode aprender do seu irmão búfalo: a aposta. É substituir a sua covardia exangue não por uma coragem estúpida e ignóbil, mas pelo jogo. Malvadear não é desconstruir e prejudicar. Malvadear é armar alçapões, inúmeros alçapões, que nos suspendam da solidez e nos tornem menos ignorantes; e, ao mesmo tempo, não nos façam perder contato com a crueza do mundo que nos come por detrás. Bebe, companheiro, bebe. E piora tuas dores do fígado. Aposta. Perde tudo. Bebe mais para não esquecer de tudo isso, das tuas dores, de tuas apostas, de tua vilania. És um vilão, mas não és gente ruim, amigo. Nem eu o sou. Mas somos ratos, e ratos malvados, e ratos que apostam, e ratos que bebem. Nunca seremos búfalos: a graça não nos brindou com o dom da ignorância. Mas não tenhais inveja. Deixe-a para os simplesmente ruins. Vamos beber - vamos! - e produzir nossas próprias doenças, tirar delas nossas forças e fazer ruir as tábuas da verdade. Um brinde. Um abraço. E adeus...&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-38E8ul3slQU/Tl8jgVmDo_I/AAAAAAAAAT8/EOI8bN7wmpM/s1600/dostoievski1.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 251px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-38E8ul3slQU/Tl8jgVmDo_I/AAAAAAAAAT8/EOI8bN7wmpM/s320/dostoievski1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5647271496205444082" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-2315854308433352302?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/2315854308433352302/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=2315854308433352302' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2315854308433352302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2315854308433352302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/08/carta-um-rato.html' title='Carta a um rato'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-38E8ul3slQU/Tl8jgVmDo_I/AAAAAAAAAT8/EOI8bN7wmpM/s72-c/dostoievski1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-850243654849510482</id><published>2011-08-08T12:27:00.000-07:00</published><updated>2011-08-08T12:31:49.114-07:00</updated><title type='text'>Silence</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma vez em Amsterdã um músico holandês me disse: "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Deve ser muito difícil pra você escrever música na América estando tão longe dos centros da tradição&lt;/span&gt;". Fui obrigado a lhe responder: "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Deve ser muito difícil pra você escrever música na Europa estando&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;tão perto dos centros da tradição&lt;/span&gt;". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;John Cage&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-n9dmAQST9Y0/TkA5e_TWR-I/AAAAAAAAAT0/O9U4KpXuJLA/s1600/john_cage1.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 270px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-n9dmAQST9Y0/TkA5e_TWR-I/AAAAAAAAAT0/O9U4KpXuJLA/s320/john_cage1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5638569938019305442" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-850243654849510482?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/850243654849510482/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=850243654849510482' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/850243654849510482'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/850243654849510482'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/08/silence.html' title='Silence'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-n9dmAQST9Y0/TkA5e_TWR-I/AAAAAAAAAT0/O9U4KpXuJLA/s72-c/john_cage1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-3597226944060593827</id><published>2011-07-26T14:16:00.000-07:00</published><updated>2011-08-25T20:33:12.070-07:00</updated><title type='text'>Événementialisation!</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-BxNJNBIOeLU/TkAxzuEjWQI/AAAAAAAAATE/yhopUwXf9ag/s1600/495px-Anglo-American_card_suits.png"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 264px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-BxNJNBIOeLU/TkAxzuEjWQI/AAAAAAAAATE/yhopUwXf9ag/s320/495px-Anglo-American_card_suits.png" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5638561498078075138" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;A vida é um jogo. Uma coletânea de jogos, na verdade. Infinitos jogos, corrigindo, todos imbrincadinhos, se anulando, se fundindo, se clivando. E um jogo é um conjunto de eventos. E um evento, tomado isoladamente, é um conjunto de outros tantos jogos que, por sua vez, são estruturados, cada um, pela articulação de vários outros eventos. Parece que estou a cometer o erro a que os lógicos chamam "Círculo", deveras. Mas não. Esse círculo é virtuoso, produtor de diferença, alegria, movimento, potência e vida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Falo de Deleuze, de Spinoza, de Bergson, de Nietzsche e de todos eles, invisíveis, na última frase do parágrafo anterior. Cada um desses filósofos, mesmo, é um jogo fechadinho, com suas regras, seu tabuleiro, seus peões, suas estratégias. Eu sou um jogo, igualmente. Sou diferença, alegria, movimento e potência. Você, idem. Mas também somos - eu, você e eles - repetição, tristeza, imobilidade e ressentimento. Somos sacrifício ético e obediência moral, criatividade e tecnicismo, espiritualidade e ritualismo, a gargalhada e a cara-de-paisagem.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Jogos e eventos parecem manter entre si uma reciprocidade atômica, na qual um é parte componente do outro, e esse outro é parte componente do primeiro. Mas não é bem isso que eu quis dizer. Jogos e eventos falam muito mais de um ponto de vista - ou de uma postura cognitiva - que de uma relação entre o todo e as suas partes. Dizer de algo como jogo ou evento é dizer de um posicionamento nosso frente a esse algo. Peguemos um jogo de cartas simples - o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Solitaire,&lt;/span&gt; vulgo Paciência - para explicar o que digo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colocamos sete pilhas de um baralho enfileiradas em ordem crescente de quantidade (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, totalizando 28 cartas da esquerda para a direita), sendo que as cartas da superfície de cada monte tem a sua face voltada para cima, ao contrário das cartas embaixo dela. As 24 cartas restantes são colocadas num bolo, à parte desses sete montes. O objetivo do jogo é colocar todas as 52 cartas em quatro montes - um para cada naipe - em ordem crescente de valor e numeração (Ás, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, Valete, Rainha, Rei), manuseando as cartas das sete colunas e do bolo, que serve de "fuço". As cartas podem ser agrupadas numa destas sete colunas em ordem decrescente de valor (Rei, Rainha, Valete, 10, 9...) mas os naipes devem ser de cores opostas para que a truncagem se dê. Enfim, é um jogo cheio das minúcias, das regras implícitas e das estratégias e, mesmo que não saibamos expô-las todas, sabemos jogá-lo quando abrimos o game disponível em toda e qualquer versão do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Windows&lt;/span&gt;. Mesmo sem saber o jogo, entramos no jogo e nos divertimos! Só este fato já nos fala muito, mas vou guardar meus comentários nessa direção, por enquanto, e continuar com o baralho.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Digamos que eu faça uma jogada específica enquanto me divirto no Paciência; por exemplo, que eu encontre uma Rainha de Espadas, negra, no fuço e a coloque por sobre um Rei de Ouros, vermelho, que está numa das 7 colunas. O movimento é esse: pego uma Rainha de Espadas e a ponho sobre um Rei de Ouros. Este movimento simples é um evento e o que define todo evento é, pois, a sua simplicidade, no sentido cartesiano duma realidade subsistente, que baste a si mesma. O mesmo evento pode fazer parte de um outro jogo, atentem. Caso eu estivesse jogando &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Black Lady&lt;/span&gt; - a versão tradicional do jogo de Copas - com um amigo meu que pôs o Rei na mesa (e eu não tinha nenhuma carta de Ouros, em mãos), este mesmíssimo movimento seria uma jogada extremamente desvantajosa para ele, já que num único movimento eu o faria ganhar 13 pontos (e, no jogo de Copas, quanto menos pontos você fizer, melhor)! Caso, ao invés de Paciência ou de Copas, estivéssemos jogando Burro, eu não poderia fazer essa jogada; este evento é uma realidade impossível dentro do universo do Burro, mas é real (ainda que não se atualize, ainda que continue sendo apenas uma realidade virtual), provável e possível dentro dos universos de Paciência e Copas.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Não é à toa que o baralho use como ilustração as figuras de um reino. Uma das versões sobre o nascimento do baralho, como o conhecemos hoje, fala de um pintor francês - Jacquemin Gringonneur - que inventou as figuras e os naipes das cartas sob encomenda do rei Carlos VI, o louco. Cada um dos naipes representa uma posição social (copas para o clero, espadas para a nobreza, paus para os plebeus e ouro para a burguesia) e as imagens, de um naipe a outro, representam soldados e peões (grupos de 2 guerreiros, de 5 guerreiros, de 10 guerreiros, o "Ás" do exército...), reis (K, de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;King&lt;/span&gt;), rainhas (Q, de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Queen&lt;/span&gt;), valetes e cavaleiros (J, de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Jack&lt;/span&gt;) e, mesmo, a curiosa figura do bufão, do bobo-da-corte ou, se preferirem, do Coringa ("&lt;span style="font-style: italic;"&gt;why so serious?&lt;/span&gt;"), que não tem razão alguma no jogo (e, por isso, é a mais perigosa de todas). Estamos em pleno século XV, aí: como lidar com os constantes levantes dos camponeses, a quem a nobreza faz morrer e deixa que vivam? E a igreja em decadência, como funciona? O absolutismo monárquico, ganha o quê com isso tudo? E que nova classe de mercadores é essa, a fazer fortuna com viagens e comércios!? Velásquez faz o rei e sua dama - refletidos no espelho ao fundo - se confundirem com o observador anônimo que, no momento, fita a tela. O olho do qualquer e a pompa da realeza se confundem como sujeitos teoréticos, em diversos  jogos, mas jogos que não operam sozinhos: pintor-pintado, olho-quadro, sujeito-objeto, detalhe-foco.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-Zj6S06WeTQc/TkAyySaGCPI/AAAAAAAAATM/TMqvdNtaYco/s1600/velazquez.meninas.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 395px; height: 449px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-Zj6S06WeTQc/TkAyySaGCPI/AAAAAAAAATM/TMqvdNtaYco/s320/velazquez.meninas.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5638562572983994610" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;img src="file:///C:/Users/James/Desktop/Coisas/Biblioteca/Imagens/velazquez.meninas.jpg" alt="" /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Jogos, jogos, jogos. Cada um desses problemas são jogos que demandam respostas, movimentos, eventos, posturas, etiquetas para que continuemos a viver (com diferença, alegria, movimento e potência, de preferência). Jantar é um evento. Jantar com o bispo para que ele abençoe o condado antes da colheita é um jogo. Jantar com o duque e pedir a mão de sua filha para agregar territórios de nobreza é outro jogo. Jantar com a esposa, os cinco filhos, o cachorro e os dois cavalos, ao calor duma fogueira no quintal é um terceiro jogo. Um quarto jogo seria jantar numa taverna, quando se é um viajante e não se conhece ninguém na região. Ficar sem jantar por não conseguir esmolas o suficiente, naquele dia, é mais um jogo. Ficar sem jantar por não conseguir realizar penitências o suficiente, naquele dia, é um sexto jogo. Cada um desses jogos possui um regulamento próprio (ainda que não saibamos ou possamos listar regra por regra), personagens próprios, tabuleiros próprios, estratagemas próprios e - como não haveria de ser!? - modos próprios para a trapaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falei que o lance da Rainha de Espadas por sobre o Rei de Ouros era uma jogada impossível no mundo de Burro. Proposição falsa, a minha. A trapaça é, justamente, isto daí. É o jogo que, ao impor seus movimentos e entraves, seus podes e não-podes, coloca também buracos nos quais a ação demanda uma reação imprevista. A trapaça é a invenção no sistema fechado. Quem, ao jogar Banco Imobiliário, nunca "fuçou" o caixa indevidamente, quando todos os outros banqueiros e especuladores de imóveis estavam distraídos? Quem, ao perceber uma fila grande demais, nunca se pôs a procurar "aquele" amigo para, com isto, ganhar dois ou dez minutos do dia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jogo de Copas, o Burro, um jantar, o Banco Imobiliário, uma fila, são todos políticas de guerra. Uma guerra é um evento (o choque da espada na armadura do inimigo) e um jogo (anexação do território sarraceno às propriedades papais). O evento de golpear o inimigo faz parte de diversos jogos: a guerra santa dos templários contra os infiéis do oriente; o treinamento marcial para aprender a manusear a montante enquanto se segura um broquel; a garantia de ter a alma salva, mesmo que o corpo se perca no calor das lutas. Vários jogos, operando todos num mesmo e único instante, num mesmo e único evento. O subir e descer da espada é a atualização e o movimento de diversos jogos imbrincados a produzir soldados santos, lâminas e cotas mais leves para viagem, reservas no paraíso para os que perderam a vida na santidade e coisa e tal. Os jogos produzem eventos (verbos, o que ocorre, o que "tá pegando"), que são a manifestação dos jogos. Neste lá e cá dos jogos e dos eventos é que nascem as coisas (substantivos, indivíduos, sujeitos, objetos) e suas qualidades (adjetivos, o bom golpe de espada, o homem santo, o muçulmano feio, o mangual abençoado). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Entremos na fila, mais uma vez. Estou com pressa e utilizo do meu amigo para, assim, passar à frente de umas 20 pessoas. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas isto é um desrespeito a essas 20 pessoas&lt;/span&gt;", diria você. Discordo. Mas discordo, apenas, quanto aos números contidos na premissa. Não são 20 os desrespeitados mas, no mínimo, 21. Vinte pessoas e uma fila. Ou, ainda, poderia substituir todos esses desrespeitados por uma fila que não foi levada a sério. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas você está desrespeitando a fila&lt;/span&gt;" seria uma proposição mais adequada. Não são os sujeitos humanos, simplesmente, que são os afetados, mas é ela, a fila, que emperrou, deu bug, foi ela que não operou como deveria, por um motivo ou por outro. A fila é uma tecnologia, é um armistício, uma política de guerra construída para que possamos viver com diferença, alegria, movimento e potência nesta vida cheia de encontros. A fila, muito provavelmente, se inventou quando tínhamos muitas pessoas desejando uma mesma coisa ao mesmo tempo (mas um objeto que está disponível a todos eles; o único porém é quem irá ter um primeiro, um segundo e um terceiro acesso a eles). Se fossem só um, dois, três os desejosos, o problema poderia ser resolvido ali, cara-a-cara, no informal. Com 10, 20, 50, a situação muda. Cria-se um critério, então, acima de todos nós. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Quem chega primeiro, é atendido primeiro; quem chega em segundo, é atendido depois; quem chega em terceiro...&lt;/span&gt;" E a guerra assim se vai, a guerra se apazigua, até que um novo encontro coloque um novo problema. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;E aquele senhorzinho de 92 anos, ali? Vai ter de esperar na fila como todos nós!?"&lt;/span&gt; Tá, tudo bem, deixamos esse senhorzinho passar à nossa frente, mas só ele. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;E as mulheres grávidas? E os pais com crianças de colo? E os obesos? E..." &lt;/span&gt;E assim a vida se vai, em nosso ofício infinito e eterno de criar e recriar as filas. Fila versão 1.0, 2.0, 2.3... Versão beta, pois. &lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-LqoU1ibaTyM/TkA1Bs9-K6I/AAAAAAAAATU/Wz-ZxXX6HRQ/s1600/fila.gif"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 235px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-LqoU1ibaTyM/TkA1Bs9-K6I/AAAAAAAAATU/Wz-ZxXX6HRQ/s320/fila.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5638565036835089314" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Nenhum senhor saudável - ainda que tenha ultrapassado a marca dos 65 anos - deixará de ceder seu lugar a um jovem que esteja a passar mal, no ônibus, com o argumento de não querer desrespeitar o belo e sublime princípio da fila. Vejam só. Nossa vida consiste num trabalho de engenharia, de construir aparatos tecnológicos que bem representem, quase matemáticamente (aliás, retirem o  "quase"), nossas posturas que, num momento em específico, foram adequadas ao encaminhamento da vida e da paz. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Homo faber&lt;/span&gt;. Mas a paz, aqui, não é entendida como ausência de guerra, como puro armistício, mas como invenção&lt;span style="font-style: italic;"&gt;, &lt;/span&gt;como &lt;span style="font-style: italic;"&gt;principia individuationis&lt;/span&gt;, nos dizeres do Jung alquimista. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Todos os nossos processos legais são jogos, jogos iguaizinhos aos da fila. Todos os nossos sistemas teóricos são jogos. A arte, então! É jogo que não acaba mais. As religiões, mesmo, são conjuntos de jogos a atualizarem eventos. O Padre levanta o pão ázimo, já bento, e diz: "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.&lt;/span&gt;" O que este momento tem de ver com o tal Cristo, reunido secretamente com seus 12 amigos e à vespera de sua já sabida morte? O Padre opera jogos que atualizam eventos. Um homem benzendo o pão e tornando-se um com os seus, durante um banquete (tradição muito mais grega que judaica...). Qual a ligação entre os dois? Há uma ligação entre o evento original e o seu jogo correlato? Este jogo, hoje, ainda tem a sua razão de ser para os homens de boa vontade!? &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Não há uma resposta, visto que não há uma maneira correta de se jogar os jogos da vida. De Paciência à Filosofia Moderna, de Banco Imobiliário à Teoria da Gravitação Universal, da fila ao Código de Direito Canônico. Daí o coringa. Daí o café-com-leite! É um modo do próprio jogo dizer para não levá-lo, assim, tão a sério. De que adianta jogar corretamente se, com isso, deixamos os jogadores infelizes? De que adianta seguir a risca todo o regulamento do Banco Imobiliário se o seu irmão menor não está acompanhando vocês? De que nos adianta tomarmos todos os remédios e pípulas que embotam nossos delírios se estabelecemos uma relação de tristeza com eles? E de que adianta tocar o instrumento perfeitamente, respeitar os comandamentos, fazer uma resenha exemplar do filósofo e, enfim, ser um modelo de vida, evento, jogo e procedimento se, com isso, não nos tornamos felizes, não trazemos felicidade para os outros nem tornamos a própria vida, ela mesma, mais alegre e jovial? &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-TOyrRR_4Ht8/TkA12MaS9EI/AAAAAAAAATc/Lu4Nveg8fDE/s1600/capela-sistina-detalhe.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-TOyrRR_4Ht8/TkA12MaS9EI/AAAAAAAAATc/Lu4Nveg8fDE/s320/capela-sistina-detalhe.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5638565938628588610" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O "peso leve" e o "jugo suave" do messias. Não adianta a virtude individual (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;virtu&lt;/span&gt;, força) se não atingimos, com isto, o universo inteiro (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;cosmos&lt;/span&gt;, beleza). O cristo,  o buda, o santo, o gênio, o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;mahatma&lt;/span&gt;, não são sujeitos esforçados, mas eventos est-éticos. O jogo é a atualização dum evento. E evento, aqui, já deixou de ser um simples enxerto da totalidade. O movimento da espada, o jantar, o movimento da carta não são partes de um todo, não são pedacinhos de Lego que usamos para montar nossas tecnologias frágeis. O movimento, ele mesmo, é a expressão da mudança de um todo. O evento deixa de ser uma coisa: é, agora, evento-ação, é eventualização! Uma espada em movimento é uma guerra em movimento. Uma colherada suscinta na sopa é uma boa maneira para conquistar o sogro. A Rainha de Copas por sobre o Rei de Ouros é uma noite de bebedeira, música e muita risada entre dois ou três amigos chegados. São todos jogos. E jogos que permitem - que incentivam - a trapaça, a invenção de movimentos fora dos jogos  jogados (o que pode suscitar, mesmo, a montagem de novos jogos), quando estes não mais nos colocam no movimento da vida. Não digo para jogarmos todos os jogos fora e nos entregarmos a um suposto espontaneísmo humanista. Que nada! Digo do contrário! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aprendamos todos os jogos que conseguirmos - das cartas ao Código Penal, da Psicologia Experimental à Análise Institucional, do Cristianismo ao futebol, passando por física dos quanta, filosofia da mente, robótica, pintura renascentista, música orquestrada do século XX - mas não para sermos especialistas do saber. Isto seria jogar o jogo e ser engolfado pelos algorítmos do mesmo sem saber aonde iremos chegar com nosso esforço todo (igual ao menino que, mesmo sem saber como montar a mesa para o Paciência, dá um clique duplo no programa e se põe a mexer as cartas, pra cá e pra lá). Estudemos os jogos, construamos os jogos, joguemos os jogos. Mas saibamos trapacear. Não quando for necessário, já que necessidade é a regra, mas quando a vida demandar, pedir, nos convidar a embelezá-la, a torná-la cada vez mais diferente, alegre, movimentada e potente. E quando saberemos o momento certo? Nunca. Quem sabe é quem tem o poder, quem conhece o manual de regras que veio junto do tabuleiro, e o momento - a eventualização - não consta na programação. Aposta-se. Um jogo de apostas, é essa vida. Vamos nos divertir, então... &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-nhqDmCLQo1M/TkA3sbDxf9I/AAAAAAAAATs/H2Ad8f2mSUA/s1600/azar_o_seu.jpg"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 211px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-nhqDmCLQo1M/TkA3sbDxf9I/AAAAAAAAATs/H2Ad8f2mSUA/s320/azar_o_seu.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5638567969785216978" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-3597226944060593827?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/3597226944060593827/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=3597226944060593827' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/3597226944060593827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/3597226944060593827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/07/evenementialisation.html' title='Événementialisation!'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-BxNJNBIOeLU/TkAxzuEjWQI/AAAAAAAAATE/yhopUwXf9ag/s72-c/495px-Anglo-American_card_suits.png' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-1209945907528847794</id><published>2011-06-15T09:38:00.000-07:00</published><updated>2011-06-17T07:21:05.036-07:00</updated><title type='text'>Quer um queijo!?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nada a declarar&lt;/span&gt; é um curta do Gustavo Acioli. Foi-me impossível passar por ele sem vestir a carapuça  uma ou mais vezes. Faz pensar. Ou faz com que a gente deixe de pensar  em nome de outros que não nós. Ou - mais grave - denuncia a nossa  condição intelectual de ter de dizer algo quando, sinceramente, não  temos muita coisa interessante pra dizer. Enfim, vejam aí...&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;iframe src="http://www.youtube.com/embed/H34mLyobstc" allowfullscreen="" frameborder="0" height="349" width="425"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-1209945907528847794?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/1209945907528847794/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=1209945907528847794' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1209945907528847794'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1209945907528847794'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/06/nada-declarar.html' title='Quer um queijo!?'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/H34mLyobstc/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-5001331046426288045</id><published>2011-05-27T18:49:00.000-07:00</published><updated>2011-06-12T12:44:35.604-07:00</updated><title type='text'>Marvelous!</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-0OS6ZyNDtRM/TfRrbel-VUI/AAAAAAAAASk/ViUaUeRyRy0/s1600/marvel-heroes.jpg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 359px; height: 248px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-0OS6ZyNDtRM/TfRrbel-VUI/AAAAAAAAASk/ViUaUeRyRy0/s320/marvel-heroes.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5617232755050829122" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Depois duma sequência de filmes pedantes - nacionais e do estrangeiro, clássicos e desconhecidos, do horror ao humor - vou ao cinema para assistir a nova película da Marvel Studios: Thor. O primeiro Thor, do roteirista Larry Lieber, era "apenas" um humano com poderes semelhantes ao deus do trovão; na segunda versão, do legendário Stan Lee (que faz uma ponta em todos os filmes da Marvel, detalhe), Thor era o mimado e arrogante filho de Odin que, ao violar um tratado de paz entre os asgardianos e os gigantes de gelo, é enviado pelo seu pai à Terra para aprender o valor da humildade ("certo..."), tendo suas lembranças apagadas e encarnando no corpo humano de Donald Blake, um talentoso médico manco (Dr. House!?). A premissa do filme se aproxima mais da segunda versão, a do Stan Lee, mas sem o Donald Blake (ou quase sem). Enfim, não é do filme que vim aqui, falar. Mas, enquanto assistia o filme, lembrava de comentários antigos  dum sujeito, amigo meu, sobre a salada que é o universo da Marvel.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A primeira formação d´Os Vingadores, por exemplo: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Thor&lt;/span&gt; (um deus mimado, expulso do panteão asgardiano para a Terra dos homens pra aprender a ser homem de verdade), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Homem de Ferro&lt;/span&gt; (Tony Stark, um bilionário playboy que, investindo dinheiro e talento para a construção de armamentos, acabou ligado a uma armadura de combate que o mantém vivo, devido a seu ausente coração perdido num acidente), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Gavião Arqueiro&lt;/span&gt; (Clinton Barton, um excelente artista marcial, de mira fabulosa e exímias habilidades acrobáticas), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Wolverine &lt;/span&gt;(Logan, - ou James Howlett, para os que leram "A Origem" - um mutante com regeneração celular, garras retráteis e sentidos aguçados que participou, como cobaia, do projeto governamental Arma X), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Homem-Aranha &lt;/span&gt;(Peter Parker, um tímido porém genial estudante nova-iorquino que, após ser picado por uma aranha radioativa, adquire um físico sobre-humano, aderência e um sensor de perigo que beira à clarividência), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Hulk&lt;/span&gt; (Bruce Banner, um cientista que - atingido por raios gama enquanto salvava uma criança durante um teste militar duma bomba que ele mesmo desenvolveu - passa a se transformar num gigante verde sempre que se ira), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Capitão América&lt;/span&gt; (o líder Steve Rogers, um patriota magricela que teve seu alistamento recusado nas fronteiras e que, para contribuir com a vitória da sua nação, aceita participar como cobaia de um ainda não testado experimento para a cria do chamado Supersoldado), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vespa&lt;/span&gt; (Oi!?) e o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Homem-Formiga &lt;/span&gt;(Oi!? [2]). Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Olho para o outro lado da &lt;span style="font-style: italic;"&gt;comicbook store&lt;/span&gt; e vejo os quadrinhos da DC e a sua igualmente profusa liga.&lt;span style="font-style: italic;"&gt; &lt;/span&gt;Os integrantes originais da &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Justice League&lt;/span&gt;:&lt;span style="font-style: italic;"&gt; Superman&lt;/span&gt; (o repórter Clark Kent - ou Kal-El, o último filho de Krypton - que, com habilidades inumeráveis e inumanas, está sempre lá para salvar o dia), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Batman&lt;/span&gt; (Bruce Wayne, um bilionário que, ao ver o assassínio de seus pais quando ainda era um pivete, decide investir todo o seu intelecto, aptidão física, tecnologia e - claro! - dinheiro na batalha contra o crime), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Aquaman&lt;/span&gt; (Arthur Curry, o Rei dos Mares, filho de um faroleiro e de uma exilada de Atlântida, pode se comunicar telepaticamente com seres aquáticos, regenerar tecidos quando em contato com a água e capaz de força e agilidade descomunais em decorrência das pressões subaquáticas que costuma enfrentar), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mulher Maravilha&lt;/span&gt; (Diana, princesa das amazonas, inicialmente uma estátua esculpida pela própria rainha Hipólita de Temiscira, e animada pelos deuses; é forte como Hércules, sábia como Atena, bela como Afrodite e ligeira como Hermes), o segundo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lanterna Verde&lt;/span&gt; (Hal Jordan, piloto de testes da Força Aérea estadunidense, escolhido pelo anel de Abin Sur, um Lanterna Verde que morreu na Terra), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ajax&lt;/span&gt; (J'onn J'onzz, o caçador de Marte, sobrevivente da Grande Peste devido a uma máquina de transporte construída por um cientista humano) e o segundo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Flash&lt;/span&gt; (Barry Allen, cientista policial - à la CSI - que recebeu um banho de elementos químicos ao mesmo tempo em que era atingido por um raio [!]). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Pois bem. Expressionista algum poderia compor sinfonias mais atonais que as desses super-amigos. Harmonia impossível, esta. Como o Thor suporta o mauricinho do Homem de Ferro? Como o Batman suporta o excesso de cores, o eterno sorrisinho e o penteado sempre impecável do Superman? Como o Wolverine suporta os moralismos do Capitão América? Como o apressadinho do Flash suporta a paciência extra-terrena de Ajax? Como o Hulk suporta as eternas piadas do Homem-Aranha? Como a Mulher Maravilha suporta todos os homens da liga?  &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O Homem-Aranha escala os prédios de Nova York, cidade de movimentos, luzes e arranha-céus; tivesse nascido em Wisconsin não teria onde lançar suas teias e praticar suas acrobacias. Bruce Wayne não teria se tornado o cavaleiro das trevas se a cidade de Gothan não fosse tão obscura e tenebrosa; caso fosse um órfão na cidade de Las Vegas, seu destino seria totalmente outro. Não é à toa que Kal-El deixa de ser o fazendeiro Kent e passa a ser um super-homem quando sai dos milharais de Smallville e fixa morada na futurista Metrópolis. Cada herói não é um sujeito individual, mas é o ponto de condensação dum mundo inteiro, e só existe pois existe, antes, este mundo que lhe dá suporte. Não é um herói que suporta o outro. Mas é o mundo de cada um, enquanto uma tendência (Nova York é altura, velocidade e extase; Gothan City é pobreza, decadência e corrupção; Metrópolis é a super-população, a super-qualidade-de-vida, a super-cidade), que suporta seus próprios personagens. E são esses mundos que, por vezes, entram em crise e colidem com outros universos, abrindo a porta para a diferença. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;E quando falo diferença não falo do que distingue uma identidade de outra, mas da diferença interna, da diferença da coisa consigo mesma. Um prazer é distinto dum sofrimento, mas dentro do mundo dos prazeres posso falar em comer chocolate, escutar Beethoven, fazer sexo, ler Dostoiévski, dormir e tantas outras atividades que em nada se assemelham, todas chamadas de "prazeres" por um simples movimento intelectual e utilitário da linguagem para com a vida. Uma mesa é distinta duma cadeira, mas dentro do paradigma "cadeira" cabem a cadeira de balanço que me embalava na infância, as duras cadeiras de madeira da universidade em que estudo, a velha cadeira estofada na qual estou sentado no momento etc. Dentro de uma categoria aparentemente homogênea estão inseridas realidades tão distintas entre si quanto coisas de categorias diferentes. Busquemos a diferença nela mesma, pois! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;De início, podemos espartilhar as categorias em pacotes cada vez menores em busca desta diferença de natureza perdida. Prazeres, artes, música, música erudita, música erudita romântica, Beethoven, as obras para piano de Beethoven, as sonatas para piano de Beethoven, a sonata nº 14, o terceiro movimento - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Presto Agitato&lt;/span&gt; - da sonata nº 14, a coda estendida do terceiro movimento da sonata, os acordes quebrados ao final da coda. Desisto. Esta análise poderia durar eternamente, durar enquanto durasse a obsessão  do cientista deveras maluco que se lançou nesta empreitada. Minha loucura, porém, não caminha pela neurose e desconfio, levemente, que a diferença não está aí. Multiplicamos as identidades, afinal. Cadê a diferença mesma, a diferença da coisa, aquilo que pode definí-la sem que precisemos recorrer a esta dissecação intelectual!? A coisa parece sempre escapar, toda faceira, das minhas representações. A diferença, então, está aí: é o movimento, o movimento do conceito dentro de seu campo criador, do objeto dentro de seu laboratório, do herói, do capanga, da mocinha e do vilão dentro de seus próprios cenários e núcleos. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Qual a liga, a cola, o cimento que une o Batman e o Superman? Justiça!? Sim, também, mas não só. É a justiça (no sentido de justeza) que coloca uma coisa nesta categoria e não naquela. Batman é herói, Coringa é vilão, mas ambos são loucos a desfilarem suas fantasias e delírios pela noite gótica. O primeiro é "do bem" por estar articulado com o comissário de polícia, a imprensa local e as empresas Wayne. O outro é malvado por queimar dinheiro, usar &lt;span style="font-style: italic;"&gt;maquillage&lt;/span&gt; em demasia e rir antes do término do concerto. Batman é herói, repito. Superman, idem. Dois heróis. Que é um herói, pois? Quem sabe!? Herói é um conceito vazio e negativo, ao que parece, visto não precisar o nosso objeto nele mesmo. Define-o por oposição a outras identidades (herói é o que não é vilão, vilão é o que não é só um capanga, capanga é o que rapta a mocinha, a mocinha é apaixonada pelo herói, que é o que não é vilão...). Digo o mesmo para o prazer. E para as cadeiras. A precisão destes conceitos reside, tão somente, em sua utilidade prosaica. Mas nenhuma poesia rola nas terras pedregosas do intelecto. A amizade faz-se necessária, agora, e já pode entrar no quadro como a segunda liga. Batman não é um herói,  e sim toda uma cidade decadente e melancólica prestes a ruir - autofagicamente - devido a sua corrupção. Superman não é um herói, mas é um planeta extinto, uma cidadezinha do interior e uma megalópole mundial. Acompanhar o movimento dos personagens dentro de seus cenários é que é buscar a diferença deles &lt;span style="font-style: italic;"&gt;em relação&lt;/span&gt; com as outras coisas! Amizade. Não (somente) a amizade entre um e outro herói, um e outro  sujeito, mas a amizade entre os sistemas e planos que tornaram a  existência de um e outro deles possível.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Vamos inventar um roteiro. Quando Lex, através da Luthorcorp, tenta uma associação com as empresas Wayne que, recentemente, começaram a investir em fusão nuclear (planos de dominação mundial do careca?...) como fonte de energia barata para a população, o jornalista Clark Kent se vê na busca de documentações negociárias do bilionário Bruce, para acusar o príncipe de Gothan de corrupção e barrar uma transação econômico-política que julga nociva para todo o planeta. Pronto, esta é uma deixa para o encontro Batman/Superman. Caso o jornalista acione aparatos policiais para a empreitada, podem entrar em cena o legista Barry Allen ou o investigador John Jones. Flash e Ajax na parada. Como o enriquecimento do material radioativo está desequilibrando o bioma de todos os cinco oceanos (as fábricas estão espalhadas pelo globo, digamos), Aquaman surge para integrar a equipe. E assim ocorrem as ligas: com a amizade e a articulação de um herói com outro, mas uma amizade que revela uma amizade maior, ou melhor, uma amizade menor, molecular, quase invisível entre os seus sistemas. Gotham invade Metrópolis que polui os oceanos que desperta o interesse da imprensa que aciona instituições policiais. Polvo de mil tentáculos é o cosmos. Quando um cosmos, já bagunçado desse jeito, adentra noutro cosmo, a situação se adensa ainda mais: o Planeta Diário pede informações ao Clarim Diário sobre um laboratório enriquecedor de Urânio em Nova York. Lá vai Peter Parker atrás de fotos para o jornal e o Homem-Aranha atrás de uns capangas pra socar. Já Lex Luthor, além de tentar coligações com as misteriosas empresas Wayne, já está de olho na Stark Enterprise e suas armaduras de combate (o urânio de um, o material bélico do outro; deu certinho...). Não é um universo, nem muitos universos juntos, mas um multiverso, um mundo aberto e criativo! Mundos fractais!&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;David Hume diz que somos o que somos pela experiência. Estou com ele. Nada há na mente que não tenha passado, primeiro, pelas nossas impressões mais simples. Uma ideia abstrata e complexa, neste esquema, seria apenas um agregado e um remanejamento dessas percepções mais fortes e imediatas. Hume explica como podemos imaginar coisas que nunca passaram pela nossa experiência: se sou capaz de imaginar um pégaso, um cavalo alado, é porque eu já tive a impressão de um cavalo e de um par de asas, proveniente de algum outro animal. Pégaso = cavalo + par de asas. Um anjo, seguindo a esteira, seria um homem com o mesmo par de asas. E aqui me separo do Hume e retomo todo o bergsonismo destilado na postagem. Um anjo ou um pégaso não é a simples resultante dum processo de adição, mas é a condensação de todo um outro universo possível do qual tais entes provém. Pégaso é castelo da princesa, é reino encantado, é grupo de aventureiros, é magia, é panteão de deuses, é grifo, manticora, dragões. Anjo é céu, é inferno, é julgamento final, é mensageiro de Deus, é guardião da alma humana, é Miguel, Gabriel, Lúcifer. Sou pela experiência, mas não a minha. Sou pela experiência do próprio mundo, que tende, evolui e dura ele mesmo.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Qual é o lance: é transformar objetos em problemas, resultados em processos criadores, espaço em tempo, substâncias em acontecimentos, categorias em diferenças. A diferença interna de uma coisa não é uma categoria que a distingue de outra. Categorias são conceitos vazios, que representam o real negativamente, dizendo-lhes o que eles não são em decorrência de sua função utilitária. Batman é herói, assim como Superman, Wolverine e Hulk. Coringa &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-hs9te_Lp9j4/TfRrvU2QD1I/AAAAAAAAASs/esTnn-vZxwA/s1600/JLA-Alex-Ross-dc-comics-663195_1024_768.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 370px; height: 269px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-hs9te_Lp9j4/TfRrvU2QD1I/AAAAAAAAASs/esTnn-vZxwA/s320/JLA-Alex-Ross-dc-comics-663195_1024_768.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5617233096032128850" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;é vilão, assim como Lex Luthor, Dentes-de-Sabre e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América. Mas Batman não é Superman. Nem o Coringa se assemelha ao Lex Luthor. Devemos talhar conceitos, isto sim, que respeitem a diferença interna da coisa, que revele a sua tendência evolutiva e fale de seus movimentos. Dizer do Batman é dizer das tecnologias políticas de Gotham City a fabricar mendigos famintos, latrocídas psicóticos, policiais corruptos e, mesmo, heróis como ele e outros: Robin, Asa Noturna, Canário Negro, Bat Girl, Comissário Gordon (é preciso ser herói, mesmo sem fantasia, pra assumir honestidade numa cidade como Gothan). Dizer do Batman é criticar, falar das condições de possibilidade de um Batman. Falar dos movimentos do mundo que tornaram um Batman possível. E, principalmente, falar das prováveis relações de amizade de  um Batman/Gotham com outros heróis possíveis/mundos virtuais. Só assim para que haja alguma justiça, alguma filosofia justa e adequada a esse mundo. E a outros mundos, também...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-5001331046426288045?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/5001331046426288045/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=5001331046426288045' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5001331046426288045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5001331046426288045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/05/marvelous.html' title='Marvelous!'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-0OS6ZyNDtRM/TfRrbel-VUI/AAAAAAAAASk/ViUaUeRyRy0/s72-c/marvel-heroes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-7093716724625797257</id><published>2011-05-03T19:35:00.000-07:00</published><updated>2011-05-08T22:15:38.357-07:00</updated><title type='text'>Lavoura Arcaica, Moderna, Contemporânea</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify; color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Eu coloco uma questão. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Lavoura Arcaica&lt;/span&gt; projeta um tal André (mas que  poderia ser João, Pedro ou José) sufocado por um patriarcalismo  universal e um maternalismo anestesiador. André sofre, se afeta, reage.  Bergsonismo beirando a Nietzsche. Este último, mesmo, tornou-se carne na  conversa-ação entre o pai e o filho, quando o pródigo à casa retorna. Filme apolítico e intimista, gritam alguns. Pergunto: onde reside o individualismo, aí? André é só André? André é um  André? Ele é só? Ele é um? &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-bsYhQxu_u88/TcDBHt8s4KI/AAAAAAAAARI/LEG6Jsbut8M/s1600/andre_lavoura_arcaica.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 219px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-bsYhQxu_u88/TcDBHt8s4KI/AAAAAAAAARI/LEG6Jsbut8M/s320/andre_lavoura_arcaica.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5602690274786336930" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; color: rgb(0, 0, 0);"&gt;É um filme que fala de afeto. Não o  afeto do romântico, do mentalista e do cristão (quase a mesma coisa, os  três), mas sim o plano-paisagem que vira primeiro plano. Só isso. Não o  primeiro plano que parcializa, que recorta uma parte da totalidade e  esquadrinha os seus interiores, à maneira dum cientista, mas o primeiro  plano que transforma o próprio "objeto parcial" numa realidade  independente. Primeiridade, diria o Peirce. Não é um filme que nos  "fala" da alma do André, mas que nos coloca na dor do mesmo. O filme nos  dói e nos pesa pois doído e pesado é o próprio afeto que arrebatou o  André. O próprio afeto que o configurou e que se projeta em nós. Não a  memória &lt;span style="font-style: italic;"&gt;das&lt;/span&gt; coisas mas a memória &lt;span style="font-style: italic;"&gt;nas &lt;/span&gt;coisas e as coisas se lançando em  nós (nós-pronome-plural e nós-ponto-da-rede). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-YOccfRSBXdE/Tca_jKpvQlI/AAAAAAAAARQ/5OWzMqMA7Hs/s1600/lavoura_arcaica1.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 229px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-YOccfRSBXdE/Tca_jKpvQlI/AAAAAAAAARQ/5OWzMqMA7Hs/s320/lavoura_arcaica1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604377397184905810" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Não é um filme intimista,  privado ou coisa semelhante. É apenas o afeto feito imagem. Não, não acho que o filme seja filosófico, no sentido (e apenas neste  sentido) de que o mesmo discuta conceitos, apresente teoréticas ou  suscite postulados. É um filme para ser discutido dentro do próprio  filme, dentro da própria linguagem cinematográfica. Podemos falar de  contextos históricos, referências bibliográficas, críticas à cultura e  outras extrapolações, outros além-filme (extracampo?...), mas intenciono puxar - não aqui, não agora - uma discussão do filme pelos jogos de imagem que o  mesmo constitui: excesso de primeiros planos "mal-decupados" (como os  rostos cortados pelo enquadramento, causando um efeito de confusão  semelhante ao falso &lt;i&gt;raccord&lt;/i&gt;), o silêncio em momentos nos quais deveria haver ruído (a mãe acordando o filho, naquela dança das mãos por  sob os lençois), câmeras sobre-humanas ou, mesmo, inumanas (André  entrando na casa velha e a câmera o pegando de baixo do assoalho), a  constituição de "espaços quaisquer" (transformação de detalhes duma cena  na cena inteira; não como simples &lt;i&gt;close&lt;/i&gt;, simples aproximação dum  objeto parcial, mas a transformação desse detalhe - desse objeto - na  cena inteira, tornando o fundo irrelevante e tecendo o objeto numa  imagem-afecção deleuziana).&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-oaPtJ6vPuJg/TcbAZ3-L22I/AAAAAAAAARY/ZdztHfNE_W4/s1600/Simone%255ESpoladore%255Eem%255ELavoura%255EArcaica.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 237px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-oaPtJ6vPuJg/TcbAZ3-L22I/AAAAAAAAARY/ZdztHfNE_W4/s320/Simone%255ESpoladore%255Eem%255ELavoura%255EArcaica.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604378337063197538" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Qua&lt;span style=""&gt;ndo falo duma análise das  imagens ou dum estudo da montagem do filme, posso sugerir que  o critério de julgamento para um filme ser bom ou ruim é a sua  "técnica". Ou, mais ainda, que nada há para além dum filme que a sua técnica! Certo.  Ou errado. Não é de técnica que falo, mas de linguagem, de linguagem cinematográfica,  de classificação dos signos. Falo em "linguagem" não em seu sentido mais  formalzão, saussureano (significante + significado = linguagem), mas numa alternativa para a separação do sujeito  puro/significado (o "indivíduo" que assiste a película) com o objeto  puro/significante (o "filme-em-si"). Linguagem semiótica, peirceana, é a  que proponho.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-x7mLBCTKrUE/TcbDQ88OkpI/AAAAAAAAARg/rbdxmKF1FZU/s1600/1078940026_76c2773ce71.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 225px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-x7mLBCTKrUE/TcbDQ88OkpI/AAAAAAAAARg/rbdxmKF1FZU/s320/1078940026_76c2773ce71.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604381482313224850" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;Skinner diria (não com estes  significantes...) que o ato de fala, de significação, de linguagem, é  um comportamento, deveras, mas um comportamento atrelado a um circuito  construído e mantido por toda uma coleção de elementos contingentes  (não-necessários) a se articularem. A língua-que-fala só existe pois existe, aí, um ouvido  no qual as palavras lançadas ao ar podem pousar e repousar. Uma fala é  um mundo. Estudar o signo da linguagem, assim sendo, é estudar o  estruturante que lhe dá condições para existir. Criticá-lo, virtualizá-lo, é mapear as suas condições de possibilidade, é  re-configurar seu campo problemático. Isto se dá tanto na mais  grosseira das partículas materiais quanto nas mais sublimes das artes.  Agora, puxo o cinema.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-T-qNQ1AYqaQ/TcbEiSFX5fI/AAAAAAAAARo/k499EGH3w24/s1600/lavoura-arcaica-cena.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 237px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-T-qNQ1AYqaQ/TcbEiSFX5fI/AAAAAAAAARo/k499EGH3w24/s320/lavoura-arcaica-cena.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604382879558133234" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Quando falo em ver o filme dentro do próprio filme, ou estudar cinema dentro do próprio cinema, não falo - tão somente, mas também - em técnica de enquadramento, em captura de movimento, em jogo de cor, em boas atuações (humanas e não-humanas), em equipamentos de gravação, em cenografia. Falo destas coisas, sim, mas não como "técnicas"; falo delas como "linguagens". De onde vieram? Pra onde querem ir? Por que assim o são? A quê servem? Tais perguntas substituem o "&lt;i&gt;que é isto?&lt;/i&gt;" da filosofia, questão intelectual e moderna por excelência. Que é isto, o sujeito? Que é isto, o objeto? &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-_atsyWCoDa8/TcbE07s6f-I/AAAAAAAAARw/_eH2jBmqFAM/s1600/lavoura6.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 237px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-_atsyWCoDa8/TcbE07s6f-I/AAAAAAAAARw/_eH2jBmqFAM/s320/lavoura6.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604383199967477730" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=""&gt;Tratar o cinema pelo lado do  sujeito (gênero dos filmes, reação da platéia, a moral da história, as  inspirações pessoais) é resumir o cinema a simples produto, a simples  coisa humana voltada para nosso consumo e posterior configuração identitária (filmes pra rir, filmes de terror,  filmes pedantes franceses, filmes de ação explosiva...). Tratar o cinema  pelo lado do objeto (técnicas de enquadramento e decupagem, escolas de  montagem, tipos de roteirização, estúdios) é transformá-lo em laboratório, em uma espécime a ser dissecada e  analisada por especialistas e sapientes do fazer cinematográfico,  distantes da massa mortal. O estudo duma linguagem cinematográfica deve  passar, pra mim, longe destes dois pólos, embora se utilize de aspectos dum e doutro, por vezes. Mas a idéia não é retratar nem os  homens ("é um filme inspirador...") nem as coisas ("o filme possui  travelings impecáveis..."), mas narrar o porquê de termos estes sujeitos  e estes objetos e não outros, porque a platéia e a crítica especializada é assim e não assado, investindo numa produção  que enriquece tanto a natureza do cinema quanto as subjetividades  humanas.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-aOtNDEkbWBg/Tcd0YF1q_1I/AAAAAAAAASI/CBRDn4Mg_FA/s1600/lavoura-arcaica-foto-6.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 237px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-aOtNDEkbWBg/Tcd0YF1q_1I/AAAAAAAAASI/CBRDn4Mg_FA/s320/lavoura-arcaica-foto-6.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604576218518847314" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=""&gt;No entanto, tratar das  subjetividades humanas ou da natureza cinematográfica, antes desse  trabalho "temporal", é danoso, insisto. Danoso no sentido de produzir indivíduos  (sujeito) e especialistas (objeto) do e no cinema. Já lidar com o cinema  enquanto um campo de signos, uma linguagem, uma duração e, só depois, retirar-lhe os sujeitos e seus  objetos, é que enriquecerá a ambos. Retomando. O dano está na produção  dum saber (todo coletivo produz um saber) que se quer desatrelado do  mundo e das relações. Ele nasce de um coletivo, como todo saber, mas se arvora como a última bolacha do pacote, tentando  dizer que é puro, coado, já que filtrou a humanidade das imundícies da  natureza, e filtrou esta das vontades e ideias humanas.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-4Rr5_xN_KNg/TcbFhqb5OMI/AAAAAAAAAR4/CxoWkbpMeLM/s1600/4806_17_jpg.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 216px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-4Rr5_xN_KNg/TcbFhqb5OMI/AAAAAAAAAR4/CxoWkbpMeLM/s320/4806_17_jpg.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604383968426801346" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Falar das paixões pelas quais um e outro da platéia foram arrebatados não é cinema, creio. Isso daí já é vida. É algo maior; não o infinitamente maior, mas o infinito mesmo. Um filme que arrebata alguém (muito melhor que um filme que arrebata a todos...) não é um bom &lt;i&gt;filme&lt;/i&gt;, mas uma boa &lt;i&gt;coisa&lt;/i&gt;. E esta discussão, ao que digo, já foge ao escopo duma discussão cinematográfica. É ética, é existencialismo, é política, é psicologia. Mas não é cinema (ao menos não por isto). Creio que falar do filme em termos de sujeito (as implicações da película em quem assiste) é ainda mais danoso que tratar das tecno-lógicas do objeto (fotografia, decupagem, montagem). Isso seria apegar-se a um (sujeito) ou outro (objeto) aspecto do cinema, dissecando-o. Falar do cinema - mas como signo ou linguagem! - é que é adentrar na própria lógica fundamentante do mesmo.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-3W0iy-XlNoU/Tcd1YRDy6yI/AAAAAAAAASQ/ejQCEUXgAPU/s1600/pdvd_072.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 237px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-3W0iy-XlNoU/Tcd1YRDy6yI/AAAAAAAAASQ/ejQCEUXgAPU/s320/pdvd_072.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604577321042504482" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Mas repito, atento, deixo claro, digo logo. Não digo que devamos saber de todos os badulaques e penduricalhos usados na construção e gravação duma cena. Só disse que, muitas vezes, ao não fazer isto, estamos saindo do cinema. Entramos na ética, na política, na psicologia (sujeito/significado) ou na estética, no estilo, na técnica (objeto/significante). "Cinemar" seria falar dos signos e linguagens que produzem tanto esses sujeitos e sentidos quanto seus objetos e símbolos. Não prego um tecnicismo, mas apenas uma fuga do sujeito empírico. Um filme que me serve, ou que serve a um e a outro, ou que serve a todo mundo, não é um bom filme, mas - de novo! - uma boa coisa. É uma boa entidade, uma boa arma política, um bom recurso terapêutico, uma boa diversão. Mas o filme possui a sua própria linguagem, seu próprio plano de conversa, que pode passar tanto por movimentos de câmera quanto por risos, tanto por maquiagem quanto por lágrimas, tanto por figurino quanto por inspirações pessoais. O que quero dizer: falar de cinema não é falar nem de um nem de outro, mas do que dá sustança aos dois. É falar do tempo antes de trazer o movimento para a cena. Consciência cinematográfica contemporânea.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-mMUxeMaPdlY/Tcd255EX1PI/AAAAAAAAASY/U-fwZzWHcEw/s1600/lavoura-arcaica-foto-3.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 208px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-mMUxeMaPdlY/Tcd255EX1PI/AAAAAAAAASY/U-fwZzWHcEw/s320/lavoura-arcaica-foto-3.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604578998229652722" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Imaginemos um saber  cinematográfico arvorado na separação S-O. Temos o saber subjetivo de um  filme, como o Lavoura Arcaica, por exemplo ("mudou minha vida", "me  identifiquei", "é uma crítica à cultura") e o saber objetivo do mesmo  ("é um filme com enquadramentos geométricos, à maneira da escola francesa..."). Essa separação S-O  prejudica o coletivo porque se cria uma corja de intelectuais cineastas  que dizem deter o saber sobre como fazer e falar sobre cinema, e um  grupo de pessoas que, despotencializadas em sua produção cinematográfica, só podem se agrupar em coletivos identitários  (curto drama, curto Tarantino, curto filmes franceses da década de 60,  curto Chaplin) se quiserem viver o cinema! Elas não podem curtir o filme  adequadamente ("vocês não entenderam o real significado das cenas...") nem fazerem seu próprio cinema, pensarem seu próprio  cinema.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-ty-nyiVf8cs/TcbF61qjIaI/AAAAAAAAASA/Se_jeyvsyXo/s1600/lav01.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 355px; height: 201px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-ty-nyiVf8cs/TcbF61qjIaI/AAAAAAAAASA/Se_jeyvsyXo/s320/lav01.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5604384400937787810" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Lavoura Arcaica &lt;/span&gt;é um prato cheio para se discutir imagem  (logo, para se discutir o mundo; as imagens do cinema revelando as  imagens do mundo; crítica cinematográfica = ontologia): imagens de percepção, imagens de agonia, imagens de  raciocínio, imagens de (re)ação, porém - mais especificamente  - imagens de afeto. Não falo que o filme me tocou e me fez  chorar e repensar meus conceitos e blá-blá-blá e coisa e tal. É um filme  cult, intelectual, elitista? Talvez. Mas não desprezemos o cânone só pela sua  sacralidade. Os santos - e não apenas os profanos - também merecem ser ouvidos, antes que os  crucifiquemos...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-7093716724625797257?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/7093716724625797257/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=7093716724625797257' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/7093716724625797257'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/7093716724625797257'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/05/lavoura-arcaica.html' title='Lavoura Arcaica, Moderna, Contemporânea'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-bsYhQxu_u88/TcDBHt8s4KI/AAAAAAAAARI/LEG6Jsbut8M/s72-c/andre_lavoura_arcaica.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-6766594487730619521</id><published>2011-04-20T19:41:00.000-07:00</published><updated>2011-04-20T19:55:44.677-07:00</updated><title type='text'>Pourparler</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-bdDW4ajatDM/Ta-cIEinhuI/AAAAAAAAARA/3mcqk5Cu_xY/s1600/hokusai1big.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 342px; height: 266px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-bdDW4ajatDM/Ta-cIEinhuI/AAAAAAAAARA/3mcqk5Cu_xY/s320/hokusai1big.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5597864524316640994" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;A vida como encontro. Não o encontro dos enamorados,  mas o choque de dois corpos quaisquer, corpos estranhos. Esbarrão. A  vida como um, dois, dez, muitos esbarrões. E é nesse atritar dos corpos  que se produz o calor e a energia da vida. Por vezes, esses choques  danificam os corpos, grafando-os de memórias e juízos. Corpo cheio de  rachaduras, é o corpo vivo. Corpo de todos nós. De tanto ser cindido, o  corpo cansa e quer des-cansar, na esperança tola de voltar a seu estado  original, pré-dano, pré-juízo. Os processos são irreversíveis, no  entanto. E, assim sendo, vai ficando cada vez mais difícil de encontrar  um corpo outro que aceite as suas cicatrizes. Duas alternativas, para o  corpo. Ou desiste de jogar o jogo dos encontros e se entrega à  imobilidade; ou se lança, mais uma vez, na imprevisibilidade dessa  dança, até encontrar um corpo segundo que aceite as suas feridas,  carregadas de história. Dois corpos a sangrarem em uníssono. Duas vidas,  dois tempos a se enlaçarem. Mas o jogo dos encontros tem a infeliz  regra de nunca acabar, de nunca se deter. Não há “pause”.  Não há represa para esse rio. Conclusão: fiquemos atentos para que o  barqueiro não passe sem nos levar com ele. Aqueronte, mesmo imortal, não  espera os corpos para sempre…&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-6766594487730619521?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/6766594487730619521/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=6766594487730619521' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6766594487730619521'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6766594487730619521'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/04/vida-como-encontro.html' title='Pourparler'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-bdDW4ajatDM/Ta-cIEinhuI/AAAAAAAAARA/3mcqk5Cu_xY/s72-c/hokusai1big.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-2267120928440127784</id><published>2011-04-11T18:27:00.000-07:00</published><updated>2011-04-17T09:26:19.515-07:00</updated><title type='text'>Nerds e a Análise Institucional (ou o porquê de meu desgosto por Shoppings Centers)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-9uSb2MhXvzI/TasSCdLx2RI/AAAAAAAAAQw/zughlVRAavU/s1600/7.jpg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 320px; height: 256px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-9uSb2MhXvzI/TasSCdLx2RI/AAAAAAAAAQw/zughlVRAavU/s320/7.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5596586795341043986" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Os dois pontos de concórdia de todas as escolas do movimento instituinte: a auto-análise e a auto-gestão. Um resumo pelo Baremblitt. A modernidade produziu demasiados conhecimentos, gerando &lt;span style="font-style: italic;"&gt;experts, &lt;/span&gt;os conhecedores maiores desta estrutura cognitiva e da sociedade por ela configurada. Estes intelectuais, por serem mantenedores da sociedade que os mantém, produtos-efeitos, acabam servindo às entidades dominantes. O médico, o sociólogo, o pedagogo e o psicólogo a serviço do gerente, do magnata, do empresário e do tecnocrata. Não deliberadamente, claro. Mas por arvorarem seus discursos num esquema científico, cartelizado, laboratorial, acabam por despotencializar os saberes mais diretamente ligados à vida e ao cotidiano, relegando-os à categoria de alternativos e rudimentares. Não há, seguindo a trilha, necessidades naturais. A necessidade dum coletivo é produzida. A própria noção de necessidade é produzida. E a demanda da mesma é modulada de acordo com as tendências do mercado. A moda, maioria matemática, torna-se acessório de beleza (mas não de est-ética; nota para um outro post). As comunidades, através deste condicionamento moderno, acabam perdendo a noção do que aspiram em realidade. Por que?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Com o saber espartilhado, foi espartilhado, também, todo o sistema circulatório a carregar os nutrientes sem os quais não há corpo social: a arte vai para a cavernas do extremo norte, a ciência se refugia nas montanhas do sul, a religião erige seus castelos sobre as nuvens, a política se olvida nos subterrâneos. Mas nada disto se maquina, se conecta. Corpo social estripado e cada vez mais estripado, dissecado, "factuado". Continuando a biópsia. No pacote das artes, o músico não toca para o literato que não escreve para o pintor que não quer representar o dançarino que não se apresenta para o cineasta. Nas literaturas, o romancista não publica para o poeta que não compõe para o blogueiro que não posta para o filósofo que não teoriza sobre o historiografista. Na poesia, o modernista ri do parnasiano que despreza o romântico que não entende o concretista que só lê suas próprias artistagens. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Matrioshkas&lt;/span&gt;. Cada um dos &lt;span style="font-style: italic;"&gt;experts&lt;/span&gt; da modernidade é responsável por uma bonequinha e, quanto menor ela for, mais especialista é o sujeito do conhecimento. Piada velha: o verdadeiro sábio, numa sociedade segmentada e centralista, é o que sabe tudo de, absolutamente, nada! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;É o médico que identifica a patologia e a normaliza, não o coletivo (antes dele, estávamos lançados à sorte, aos anti-corpos e às superstições); é o psicólogo que identifica os inaptos ao convívio social, não o coletivo (antes dele, convivíamos sem saber entre os vagabundos, esquizóides e desviantes afins); é o pedagogo que nos conduz à epísteme, não o coletivo (antes dele, não sabíamos nem "o que" aprender, que dirá "como"). É o advogado que conhece todos os mecanismos adequados para bem proceder "dentro" (antes dele, estávamos "fora", totalmente &lt;span style="font-style: italic;"&gt;away&lt;/span&gt; à civilidade) do coletivo, e não o próprio coletivo. Todos estes sustentam a sua prática num saber acima dos homens - A Medicina, A Psicologia, A Educação, O Direito - assim como um navio que lança suas âncoras nas nuvens, e não na Terra. Em nome de Deus Pai!  Para justificar relações de poder estratificadas (sempre há poder, controle e influência, da menor das células ao maior dos principados, do átomo à galáxia, residindo o problema apenas em sua estratificação  permanente; nota para um segundo post futuro) invocamos alguém de fora da ciranda - o pai de alguém, geralmente - que irá valorar todo discurso e prática de alguns (só alguns) especiais. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Não fui eu, mas Ele quem disse&lt;/span&gt;". &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Um retorno à Análise Institucional, agora. O objetivo dum analista desta natureza, grosso modo, não é o de levar um saber excelso para os infelizes e pobres de espírito, mas desencadear processos de auto-análise num coletivo em específico - uma empresa, um hospital, uma sala de aula - para que o próprio coletivo crie os dispositivos necessários a seu funcionamento. A este maquinismo imanente, e não transcendente ("&lt;span style="font-style: italic;"&gt;mamãe mandou eu escolher este daqui&lt;/span&gt;"...) chamamos de auto-gestão ("&lt;span style="font-style: italic;"&gt;mas como eu sou teimoso&lt;/span&gt;"...). Não a análise do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;expert&lt;/span&gt; que irá nos gerir, mas um processo de criação do novo pelos membros dum coletivo para o direcionamento de suas próprias articulações. Também não é a tomada de consciência marxista, mas a criação mesma de subjetividades outras, de novas mentalidades e agenciamentos do coletivo. A Análise Institucional não é uma profissão, mas uma atitude de todo e qualquer profissional frente às proposições e paradigmas que se lhe afiguram. O psicólogo e o médico, mas também o guarda e a atendente; a professora e a diretora, mas também o porteiro e a merendeira. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;De um ponto de visão central e cheio dos estratos, o nerd clássico é um esquisitão, desleixado com as aparências, impopular com as garotas, possuidor de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;hobbies&lt;/span&gt; obscuros e, claro, sempre acompanhado por um e outro amigo, igualmente esquisitão. Ele não tem o seu lugar numa sociedade dos estratos. Anti-social!? Talvez. Fora do social não quer dizer excluído dos coletivos, entretanto. É o contrário, neste caso. O nerd, de todas as figurinhas escolares - o capitão do time de futebol, a líder de torcida, o representante da turma - é o mais bem articulado com seus próprios coletivos, é o que construiu planos de consistência fora dos aparelhos de Estado. O nerd que se interessa por computadores acaba comprando revistas especializadas, visita palestras sobre engenharia de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;software&lt;/span&gt;, compra livros sobre inteligência artificial, entra em contato com acadêmicos, faz amizade com mercadores de sucata, arruma dinheiros consertando os aparelhos da vizinhança e, como sombra de todo este corpo ao sol, acaba por tirar notas excepcionais em Matemática. O nerd RPGista arruma materiais sobre narratividade e interpretação, estuda sistemas representativos de personagens, visita museus para adentrar melhor noutras culturas, tenta montar grupos de jogo com desconhecidos, passa os momentos livres viajando em leituras, começa a redigir seus devaneios em contos, aprende diversos idiomas e, como consequência, é o melhor aluno de História e Literatura do colégio. O nerd quadrinista desenvolve um senso aguçadíssimo de organização ao catalogar todos os seus &lt;span style="font-style: italic;"&gt;comic books&lt;/span&gt;, passa a acompanhar os últimos movimentos políticos por causa dum comentário do herói, faz uma pesquisa sobre termodinâmica para entender os superpoderes do vilão, tem contatos em livrarias e bibliotecas dentro e fora da cidade, desenha como ninguém, sabe explicar a relatividade restrita melhor que os seus professores colegiais e, como efeito, é o contraditório aluno com os melhores comentários nas aulas de Artes e Física. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;As três figuras apresentadas seriam rotuladas, muito tranquilamente, como nerds pelas figuras centrais do representante, do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;quarterback&lt;/span&gt; e da &lt;span style="font-style: italic;"&gt;cheerleader&lt;/span&gt;. No entanto, os três não se atravessam, necessariamente. Há a mesa dos estudiosos representantes de classe, há a mesa dos populares zagueiros do time de futebol e há a mesa das voluptuosas líderes de torcida. Não existe, por princípio, uma mesa dos nerds. Os três podem não estar sentados juntos, podem não se articular. Podem, cada um, ocupar a sua mesa solitária. Ou podem - espiões do cotidiano - se imiscuir em outras mesas, escondendo os seus obscuros segredos. O nerd-dos-computadores pode ser representante da turma 3A, o nerd-do-RPG pode ser o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Offensive Guard &lt;/span&gt;do time da escola e o nerd-dos-quadrinhos pode ser o namorado intelectual de uma das meninas da torcida. O nerd não é, nunca, parte de um grupo de nerds. Não há o grupo nerd!  &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Geeks&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;gamers&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;otakus &lt;/span&gt;e outras subdivisões são o nerd já capturado pelo esquema das mesas. É o  marginal com um crachá, o delirante já medicado com a tarja preta. Ser nerd é encadear proposições que não as faladas pelas figuras centrais. É ser, por vezes, solitário, mas nunca está só em seu coletivo articulado e consistente. Às vezes se senta com outros nerds, às vezes se senta com as figuras centrais e, às vezes, se senta sozinho. Não importa. O que o define é o mundo marginal que o mesmo criou fora dos dispositivos dominantes, ainda que os adentre vez e outra. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O nerd clássico é, em si mesmo, a realização dum coletivo. O analista institucional adentra em coletivos já configurados, querendo levar-lhes a auto-análise e a auto-gestão. O nerd assume uma função semelhante: percebe-se como parte dum coletivo de inteligências embotadas, afetos anestesiados e respostas automáticas mas, ao contrário do institucionalista, não pretende fazer irromper as forças instituintes dali mas, sim, cair fora daquele ar denso e sufocante que lhe pesa os pulmões e voar noutros ares. O nerd é um devir, um informe, uma razão nômade, uma paixão sem objeto, uma atenção flutuante. É Platão que sai da caverna mas que esquece de retornar. Ilha deserta que não se comunica com os fluxos do continente. Saída válida. O nerd, no entanto, pode perigar e deixar de ser clássico, de ser grego, e desenvolver uma agorafobia típica dos modernos. Do nerd clássico caímos no nerd moderno. O sujeito-dos-coletivos vira o menino-dos-blogs. O elfo construtor e afirmador da diferença vira &lt;span style="font-style: italic;"&gt;troll &lt;/span&gt;preconceituoso. Enquanto as figuras centrais navegam planejadamente nas redes sociotécnicas - virtuais, atuais, reais ou potenciais - e o nerd clássico deriva nas mesmas - deambulância nômade e inventiva - o nerd moderno, capturado pelos estratos, só sabe boiar. Nem estabelece relações centrais com os poderosos nem se articula com a resistência contra-conducente. É a marginalidade capturada e já executada. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;É o nerd dos &lt;span style="font-style: italic;"&gt;memes&lt;/span&gt;, dos sites de piadas prontas, dos vídeos virais, dos fóruns de discussão depreciativa. É &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Trollface&lt;/span&gt;, é &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Fuu rage&lt;/span&gt;, é &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Forever Alone&lt;/span&gt;. Este último, inclusive, é a síntese do nerd moderno. Enquanto o nerd clássico corre de lá para cá - mesmo sem se deslocar - atrás de conexões com fulanos e cicranos, puro movimento, o nerd moderno busca o conforto de sua poltrona e o alternar das realidades com um simples Alt+Tab, um Shift+Delete, um Ctrl+C/Ctrl+V. O homem dormente de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Matrix&lt;/span&gt; e a humanidade imóvel de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Wall-E&lt;/span&gt; são a máxima realização do nerd moderno ou mesmo do homem da modernidade. É estar imobilizado, em seu próprio canto, sem precisar mover um dedo sequer para resolver as problemáticas do real, já que delegou toda a responsabilidade pela sua alma aos muitíssimos&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; &lt;/span&gt;experts&lt;/span&gt; da ciência, da arte, da política e da religião, cada um dono por direito divino de um pedacinho do mundo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Chego, finalmente, onde queria chegar. E pergunto. Que é um Shopping Center? É o mundo inteiro concentrado num único espaço, respondo. Todos os estratos do universo dispostos para o nosso consumo. Conforto dos confortos. É o mundo, repito. Mundo, este, mais potencial que atual, percebam. É um mundo de espaço e tempo suspensos - mundo fora do mundo - no qual mais importa o nosso vislumbre frente a todas as possibilidades de ação disponíveis que a aquisição mesma dos produtos. Ademais, mesmo que consigamos levar um e outro objeto do nosso desejo para casa, não há relacionamento para além das lógicas do mercado. Todas as tribos a desfilarem suas modas pelos corredores dos Shoppings não são uma afirmação da diferença do mundo, mas a multiplicação de suas identidades. Não há afet-ação, não há outro, mas há sempre Um. Vários uns, encapsulados e insensíveis à diferença do outro. In-diferente é o Shopping Center aos devires de fora, às minorias, ao nerdismo clássico. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Vou ao cinema, a uma loja de instrumentos e a um restaurante, todos dentro da mesma nave espacial. O que eu, nerd moderno, ganhei: um filme, um violão novo e um estômago cheio. O que eu, nerd clássico, sempre posto na "linha fora", fora do centro, fora do Shopping Center, ganharia: conseguiria algumas cópias de filmes daquele mesmo diretor com o projetista, amigo seu, para conhecer melhor essa tal de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nouvelle Vague&lt;/span&gt;; pegaria dicas com o luthier de como lustrar o violão, lixar o cavalete e afinar sem a necessidade dum diapasão, além de tomar emprestado algumas partituras do Renascimento, tão difíceis de encontrar na net; iria até a cozinha aprender a receita com a Dona do fogão, beberia com o garçom e chamaria o dono do restaurante para ir a sua casa, provar sua moussé de cappuccino. O nerd moderno é o herói da resistência c&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-Js8BErFhrUg/TasSobbLFiI/AAAAAAAAAQ4/Ik-397pRBRs/s1600/midia1.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 360px; height: 255px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-Js8BErFhrUg/TasSobbLFiI/AAAAAAAAAQ4/Ik-397pRBRs/s320/midia1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5596587447703770658" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;apturado pelos aparelhos de Estado. É o Capitão América! Claro. O Shopping Center não é mau, assim como não são maus - por si mesmos - o saber médico, os sistemas psicológicos e os códigos penais. São as subjetividades produzidas por estes modos e seus dispositivos que aqui condeno. Subjetividades sem sistema circulatório, anêmicas, buracos negros nascidos para o consumo das coisas do mundo. Nota: eu pratico &lt;span style="font-style: italic;"&gt;shopping window&lt;/span&gt;, eu visito sites de humor e eu utilizo da medicina, da psicologia e do direito quando necessitado. Não sou um ermitão da montanha, um Buda do Himalaia ou um santo cristão. O problema: ser capturado por estas lógicas e não saber dizer "sim" ou "não" à técnica quando se deve (Heidegger?...), é ser carregado no colo, levado pelo braço, não aprender a caminhar e nem se tocar do ocorrido. É isso e só isso. E tudo isso. Enfim...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-2267120928440127784?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/2267120928440127784/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=2267120928440127784' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2267120928440127784'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2267120928440127784'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/04/nerds-e-analise-institucional-ou-o.html' title='Nerds e a Análise Institucional (ou o porquê de meu desgosto por Shoppings Centers)'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-9uSb2MhXvzI/TasSCdLx2RI/AAAAAAAAAQw/zughlVRAavU/s72-c/7.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-5372709624883637214</id><published>2011-03-17T10:03:00.000-07:00</published><updated>2011-03-25T14:21:29.713-07:00</updated><title type='text'>Mulheres de Atenas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-llN1gtZJ1RQ/TYwiuH3W_sI/AAAAAAAAAQg/00zDEJkOMPE/s1600/Mercurybyhendrickgoltzius.jpeg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 222px; height: 403px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-llN1gtZJ1RQ/TYwiuH3W_sI/AAAAAAAAAQg/00zDEJkOMPE/s320/Mercurybyhendrickgoltzius.jpeg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5587879413440511682" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Pois é, caros. Numa terça-feira que já passou, datada em 8 deste mês, se deu o Dia Internacional da Mulher, com iniciais maiúsculas e tudo o mais. Se é motivo para festejar, eu não sei. Não creio nisto. Mas assim que acordei, uma das mulheres de minha vida disparou: "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Hoje é D.I.M.!&lt;/span&gt;" Não soube o que dizer ou fazer, ficando encabulado com minha falta de tato. Eu deveria ter lembrado, certo? Disto, também não sei. Nunca senti a necessidade de demarcar uma coordenada temporal para minhas mulheres. Sempre achei, caindo no clichê pop-rock, que todo dia podia ser dia de algo, de alguém, de alguma coisa ou de coisa alguma. Dia da Mulher, pois! Penso, então. Os outros dias não o são? Caso não, de quem o são? Do homem!? Sim, ao que parece, visto ser a única peça que falta no mosaico. Os dias todos são do homem, são coisa do homem, do homem-varão, do Hermes. E não há nada mais masculino que a criação dum dia para a mulher, intuo num raciocínio ligeiro. Deixo a idéia de molho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Saindo do pensatório cotidiano, resolvo fazer uma rápida pesquisa sobre o que, afinal, se deu no 8 de março para que tal  dia passasse a representar o feminino. A história. Em 08/03/1857, tecelãs nova-iorquinas ocuparam a Cotton, fábrica de tecidos na qual trabalhavam, para resistir às condições trabalhistas que regiam a produção de então. Devir-mulher a agenciar um mundo que ainda não tem o seu lugar. Utopia. A manifestação, violentamente reprimida, causou a morte de 129 mulheres que, trancafiadas na fábrica, acabaram carbonizadas pelo ataque incendiário da polícia local. Assusto-me. Continuando a pesquisa, ademais, descubro que só em 1975 - 35 anos atrás; 118 anos depois do acontecido! - a ONU resolve oficializar a data, visando sempre reavivar o espírito daquelas mulheres que, ardentes de fogo e de revolução, queriam problematizar a sua posição no mundo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;As mulheres de Nova York não se parecem muito com as suas congêneres gregas. Chico, o bento, dizia: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas... Vivem pros seus maridos... Sofrem pros seus maridos... Despem-se pros maridos... Geram pros seus maridos... Temem por seus maridos... Secam por seus maridos.&lt;/span&gt; Muitos interpretam - e interpretar é coisa dos homens, dos  sacerdotes de Hermes - que a canção destila ironia. Outros, numa hermenêutica ainda mais profunda (o homem profundo é a falsa mulher, é o falso sensível), falam que o estoicismo da ateniense é uma metáfora para a resignação do brasileiro frente à ditadura (blá-blá-blá-e-coisa-e-tal). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O&lt;/span&gt; estudioso, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;o&lt;/span&gt; intérprete, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;o&lt;/span&gt; homem coloca essas duas possibilidades. Ou isto ou aquilo. Pode, ainda, ser aquele terceiro que esquecemos de considerar. Tanto faz. Mas o que diria a mulher, a ateniense, a esposa de sua própria situação!? &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Nada. Pois a fala se dá na praça, sempre na praça, sempre entre outras falas, e a mulher de Atenas não sai de sua casa. Vida privada, privada do espaço público dos homens. Será? &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Idiota&lt;/span&gt; era o homem que permanecia em casa, com as mulheres, e não assumia o seu papel na assembléia, junto dos outros barbados. Mas a mulher, ela mesma, não era idiota. A mulher "suportava" o homem, dava suporte a seu homem e lhe criava as condições para que ele pudesse estar nos aerópagos. A mulher é o essencial invisível aos olhos. É o ser. Enquanto os falantes estavam lá fora no jogo da política e da ética, as mulheres - do lado de dentro - cuidavam dos pequenos, dos futuros varões a ocupar a praça do porvir; cuidavam da casa para acolher as línguas cansadas ao final do dia; cuidavam do seu homem a todo o momento de sua existência, enfim. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sorge&lt;/span&gt; heideggeriano. Era assim que participavam da cidadania grega. Não aos modos de suas colegas romanas, filósofas dos bastidores, a titeritar e manipular imperadores, mas com o silêncio e a imobilidade. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Não se trata de resignação. Helena não é Amélia! Há silêncio pois a mulher é indizível. Há imobilidade pois a mulher é o puro inefável.  A língua divina é língua silente, inaudível aos ouvidos humanos. Hermes, então, traduz os ditos para que céu e terra se encontrem e se comuniquem. Hermes é deus-tradutor, deus-falador, deus-esmiuçador, mensageiro de seus irmãos divinos para os homens ao sopé do Olimpo. Socrátes muito deve suas habilidades de forja e escultura a Sofronisco, o senhor seu pai. Mas não existiria filosofia se não fosse Fenarete, sua mãe parteira. Chronos, deus-pai, precisa de Gaia, deusa-mãe, para que tudo corra nos conformes. Adão, homem-terra, precisa de Eva, mulher-semente, para arborescer. O próprio Todo Poderoso, para a realização de sua maior epifania, fez-se carne e submeteu-se a uma jovem menina que o suportou. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Pensadores de todos os tempos tentaram representar essa dualidade do real. Idealistas e materialistas, patrísticos e escolásticos, racionalistas e empiristas, dialéticos e positivistas,  espiritualistas e fisiologistas, pós-modernos e experimentalistas. Problema mais mal colocado, este. Separa-se, desde sempre, o corpo de seu espírito e montam-se trincheiras para organizar os exércitos que defenderão um ou outro dos lados. Matéria visível e seu fantasma translúcido. Homem e mulher. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Anér&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Gyné&lt;/span&gt;. Spinoza fala que Deus é a alma do universo, sendo o mundo seu corpo. Deus que é corpo palpável e alma intangível. É tudo e todos. O homem é unidade, é matéria, é ser vivo, é a soma de todos os corpos reais e, mesmo, possíveis. Hermes. A mulher é o heterogêneo, é espírito, é a vida mesma, é o elã a atravessar todos os elementos e lhes dar uma evolução comum, um plano comum, um mesmo conjunto. Afrodite. Terrível. Bela. Amante. Mãe. Deusa. Incompreensível.  &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Dizer que Chico Buarque vende menos discos que o Luan Santana pelo fato deste possuir CD´s mais baratos é uma interpretação. Dizer que a noção skinneriana de comportamento operante é uma crítica mais bem colocada ao behaviorismo metodológico do que as estruturas merleau-pontyanas por estas serem menos famosas que aquelas é uma interpretação. Dizer que a educação das crianças parisienses é mais adequada ao gênero humano que os rituais de passagem dos Cherokee devido ao resultado dos francesinhos na Escala de Binet-Simon ser maior que o dos &lt;span style="font-style: italic;"&gt;little indians&lt;/span&gt; é uma interpretação. Afrodite, porém, não interpreta. Ela manda a Psiqué aos infernos, lá onde Hermes não chega! Ao invés de preços, começa a falar de fomento à cultura, investimento libidinal midiático e ditadura militar. No lugar de argumentos mal ou bem elencados, diz de políticas departamentais nas academias. Em vez de buscar respostas nos testes psicológicos, fala de transculturalidade e antropologia simétrica. Hermes busca espaços seguros para pousar e fixar suas raízes. Afrodite temporaliza. Hermes quer categorizar. Afrodite diferencia. Hermes procura as soluções. Afrodite problematiza. Instituído e Instituinte? Nesta política da contrariedade ambos se igualam, tornam-se Instituição. Deus é Elemento do Mundo e Alma do Universo, é Hermes e Afrodite. Hermafrodita. Andrógino. Ser Integral. Corpo sem órgãos. O homem examina as peças, delineia os funcionamentos e esquadrinha os procedimen&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-RlvBqhPUWXo/TYwjI4BvNmI/AAAAAAAAAQo/Q47tYpN9Rds/s1600/Bouguereau_venus_detail.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 186px; height: 461px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-RlvBqhPUWXo/TYwjI4BvNmI/AAAAAAAAAQo/Q47tYpN9Rds/s320/Bouguereau_venus_detail.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5587879873045542498" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;tos. A mulher joga a questão para fora, articula as partes e produz o novo. Todos os dias - 1, 2, 3, 28, 31 - são do homem. O 8 de Março é da Mulher? Não. Esta não pode ter dia, hora, minuto, segundo que seja seu. Por mais que estrangulemos o tempo em intervalos menores e menores não encontraremos o invisível da mulher. Ela é o fluir. É o "entre", entre um e outro. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O 8 de Março é a mulher feita homem. É "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O&lt;/span&gt; Feminino". Mulher hermética, fechada, que perdeu seu perfume afrodisíaco. A mulher entrou no mercado de trabalho. A mulher ganhou o direito do voto. A mulher tornou-se livre pensadora. Mentira. A mulher, aí, fez-se homem e tornou-se coisa visível. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O&lt;/span&gt; Feminino", repito feito professora maternal. A economia, a política e o pensamento não se tornaram mais silenciosos com isto. Ao contrário, ganharam mais corpos. Mais elementos a serem analisados e interpretados. O homem ganha e fortalece seu poderio. Mas a mulher, memória solar cada vez mais esquecida, continua a existir para além da luz de neón dos muitos planetóides hominais. O homem é ponto material. Sistema solar, no máximo. Mulher!? É Sol, calor, paixão. Homem é boca, mulher é o beijo dos enamorados; homem é olho, mulher é a visão da aurora; homem é nariz, mulher é o perfume de pintanga dela e o pós-barba dele; homem é face, rosto, identidade, mulher é falsidade, rostidade, afecção pura. É teia de aranha, é rede virtual, é conexão, é cyborg, é máquina desejante, é híbrido, é bricolagem, é a vida do vivo, é o movimento da bala de revólver, é a alma de Frankenstein, é a surdez de Beethoven, é a impressão nas molduras de Monet, é a expressão nas películas de Murnau. Homem é homem. E nada mais...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-5372709624883637214?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/5372709624883637214/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=5372709624883637214' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5372709624883637214'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5372709624883637214'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/03/mulheres-de-atenas.html' title='Mulheres de Atenas'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-llN1gtZJ1RQ/TYwiuH3W_sI/AAAAAAAAAQg/00zDEJkOMPE/s72-c/Mercurybyhendrickgoltzius.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-606944053004667395</id><published>2011-03-03T07:15:00.000-08:00</published><updated>2011-03-08T00:01:09.528-08:00</updated><title type='text'>Blocos de duração</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Empire&lt;/span&gt;, uma revista britânica de cinema, listou - em junho do ano passado - o que considera ser os 100 melhores filmes do cinema mundial. Britânicos e estadunidenses não entraram na lista. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Au concours&lt;/span&gt;? Não creio. De qualquer maneira, fico feliz ao perceber que conheço - de vista ou de lida - mais da metade dos listados. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Fabuloso Destino de Amélie Poulain&lt;/span&gt; (Jean-Pierre Jeunet, França, 2000). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Liberdade é Azul&lt;/span&gt; (Krzysztof Kieslowski, Polônia, 1993). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Akira&lt;/span&gt; (Katsuhiro Otomo, 1988, Japão, 1988). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Asas do Desejo &lt;/span&gt;(Wim Wenders, Alemanha, 1987). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Um Cão Andaluz &lt;/span&gt;(Luis Buñuel, Espanha, 1929). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Solaris &lt;/span&gt;(Andrei Tarkovski, Rússia, 1972). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Persona &lt;/span&gt;(Ingmar Bergman,  Suécia, 1966). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Acossado&lt;/span&gt; (Jean-Luc Godard, França, 1960). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Viagem de Chihiro &lt;/span&gt;(Hayao Miyazaki, Japão, 2001). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Guardiões da Noite&lt;/span&gt; (Timur Bekmambetov, Rússia, 2004). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Regra do Jogo &lt;/span&gt;(Jean Renoir, França, 1939). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Central do Brasil&lt;/span&gt; (Walter Salles, Brasil, 1998). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Jules e Jim &lt;/span&gt;(François Truffaut, França, 1962). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Os Idiotas&lt;/span&gt; (Lars Von Trier, Dinamarca, 1998). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Clã das Adagas Voadoras&lt;/span&gt; (Zhang Yimou, China, 2004). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Persépolis &lt;/span&gt;(Vincent Paronnaud &amp;amp; Marjane Satrapi, Irã, 2007). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Vôo do Dragão&lt;/span&gt; (Bruce Lee, Hong Kong, 1972). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Adeus, Lenin!&lt;/span&gt; (Wolfgang Becker, 2003, Alemanha). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Oldboy&lt;/span&gt; (Park Chan-wook, Coreia do Sul, 2003). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nosferatu &lt;/span&gt;(F.W. Murnau, Alemanha, 1922). &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Os Sete Samurais&lt;/span&gt; (Akira Kurosawa, Japão, 1954). &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A enciclopédia musical da Editora Moderna dedica a sua terceira parte a fazer uma historiografia da música brasileira. Começa com as influências lusitanas e africanas do Brasil colônia; passa pelos eruditos e modinheiros do império; chega ao final dos mil-e-oitocentos falando de choro e maxixe; adentra no nacionalismo brasileiro; passeia pelo modernismo; discorre sobre as vanguardas; prosa sobre a era do rádio; diz do surgimento do samba e de suas escolas; visita o baião, o coco e o forró nordestinos; põe um pé no fandango do sul e o outro no cururu do norte; destaca a música instrumental de caráter elitizado; ginga na bossa nova; divulga a era da TV e seus festivais; defende o tropicalismo; lista os grandes compositores e intérpretes ainda viventes; experimenta a vanguarda paulistana; detona no rock pós-80; e termina, engraçadamente, com um capítulo dedicado aos estilos populares - axé, pagode, rap, samba-reggae, hip-hop, funk - e outro, logo seguinte, apresentando o que há para ver e ouvir na música erudita contemporânea. Que festa! Carlos Gomes, Domingos Barbosa, Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Pixinguinha, Alberto Nepomuceno, Camargo Guarnieri, Radamés Gnattali, Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Mario Reis, Orlando Silva, Emilinha Borba, Cauby Peixoto, Carmen Miranda, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Adoniram Barbosa, Paulinho da Viola, Cartola, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Garoto, Dilermando Reis, Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Raphael Rabello, João Gilberto, Tom Jobim, Baden Powell, Roberto e Erasmo, Os Incríveis, Renato e seus Blue Caps, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, João Bosco, Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Ná Ozzeti, Arrigo Barnabé, Raul Seixas, Lulu Santos, Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo, Marcelo D2, Nelson Freire, Turíbio Santos, Bidu Sayão. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A revista &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Superinteressante&lt;/span&gt;, numa edição especial publicada em Abril de 2005, anuncia os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;101 livros que mudaram a humanidade&lt;/span&gt;, dispondo-os numa linha temporal. Diz o nome original da obra, a sua nacionalidade, a área do saber na qual o livro se encaixa. As três principais informações, no entanto: do que trata o livro, quem o escreveu e, finalmente, porque o encadernado mudou o mundo. A Bíblia. Os tratados hipocráticos. A República. Confissões. O Corão. O Livro das Mil e uma Noites. A Divina Comédia. O Príncipe. Os escritos de Giordano Bruno acerca do infinito, do universo e dos mundos. Hamlet. Discurso sobre o Método. Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Tratado da Natureza Humana. A Enciclopédia, idealizada por Diderot e D´Alembert. Os Sofrimentos do Jovem Wherter. Crítica da Razão Pura. Ensaio sobre o Princípio da População. Manifesto Comunista. Madame Bovary. A Origem das Espécies. Assim falou Zaratustra. A Interpretação dos Sonhos. O Processo. Ser e Tempo. O Ser e o Nada. 1984. O Livro Vermelho. Simulacros e Simulação. Estante mais heterodoxa, esta. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Diferenças é o que não faltam nas listas acima listadas. Cinema, música brasileira e literatura. Que um pouco de fotografia nos ajude a imaginar - tornar imagem - nossos pensamentos. Vamos ao cinema, de início.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-3EDkJaBGMB0/TXWxvWdnz7I/AAAAAAAAAP4/-IIcyL13Quk/s1600/un-chien-andalou4.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 298px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-3EDkJaBGMB0/TXWxvWdnz7I/AAAAAAAAAP4/-IIcyL13Quk/s320/un-chien-andalou4.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5581562740237389746" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span&gt;Cena clássica de&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; Um Cão Andaluz&lt;/span&gt;, filme surrealista de 1928, escrito e dirigido por Luís Buñuel e Salvador Dalí.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-ouZ3TVr0UXE/TXWy_FeHamI/AAAAAAAAAQA/B_alGdGrOV4/s1600/1226695123838Akira1.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 174px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-ouZ3TVr0UXE/TXWy_FeHamI/AAAAAAAAAQA/B_alGdGrOV4/s320/1226695123838Akira1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5581564110065592930" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Akira&lt;/span&gt;, um anime cyberpunk de 1988 baseado no mangá homônimo de Katsuhiro Otomo, e dirigido pelo mesmo.&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-_E324lYD3QY/TXW0PFihkOI/AAAAAAAAAQI/b7FL-sLfjgA/s1600/8azul.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-_E324lYD3QY/TXW0PFihkOI/AAAAAAAAAQI/b7FL-sLfjgA/s320/8azul.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5581565484473618658" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span&gt;Juliette Binoche em &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Liberdade é Azul&lt;/span&gt;, filme de drama dirigido pelo polonês Kieslowski, em 1993.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-7hLv6tFu-ug/TXW1lwxahtI/AAAAAAAAAQY/3lWr7SCVq6M/s1600/amelie_poulain_nuages.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 174px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-7hLv6tFu-ug/TXW1lwxahtI/AAAAAAAAAQY/3lWr7SCVq6M/s320/amelie_poulain_nuages.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5581566973547546322" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Fabuloso Destino de Amélie Poulain&lt;/span&gt;, comédia francesa de 2001 do diretor Jean-Pierre Jeunet.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Penso eu que o surrealismo de Buñuel, as referências à cibercultura de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Akira&lt;/span&gt;, o drama profundo de Kieslowski e o riso contido da menina Poulain pouco tem de ver uns com os outros. O que têm em comum: são filmes, todos. E o que é um filme? Qual a essência comum que os mantém reunidos nesta categoria una? Digo-lhes: nada. Simples e puramente. Temos decupagem e enquadramento, trilha sonora e roteiro, personagens e cenários. O que cada um destes filmes entende por cada uma destas coisas difere tão gritantemente dos demais que só com muita ignorância e mouquice de nossa parte podemos dizer que se tratam de uma mesma coisa, que se tratam de "filmes". Se todos nos apresentam 24 fotogramas por segundo, o modo como montam, agenciam e enunciam tais imagens é díspare. Cada filme monta uma experiência diferente, configura uma noética muito particular e organiza um mundo de coisas assim e não assadas. A mulher que tem seu olho cortado por Buñuel seria parte de um experimento na Neo-Tókyo de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Akira&lt;/span&gt;. A viúva Julie  não seria tão sorumbática caso vivesse na França de Jeunet. Kaneda não teria propósitos tão bem definidos no mundo onírico de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Um Cão Andaluz&lt;/span&gt;. E a radiante Amélie não poderia co-existir com o mundo monocromático de Kieslowsli. Cada personagem, objeto, ator, jogo de câmera, plano de fundo é idêntico a seu mundo. Alocá-lo para um mundo outro causaria a entropia da parte recém-chegada, do ambiente a recebê-la ou de ambos. Choque de universos, de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;cosmos&lt;/span&gt;, de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;mundus&lt;/span&gt;. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Podemos dizer o mesmo da música e da literatura. O que faria &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=7YGy0AtJMYs"&gt;Paulinho da Viola&lt;/a&gt; na orquestra de &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=KyvxA0U44ck"&gt;Carlos Gomes&lt;/a&gt;? Como soaria o piano de &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=JigIK_M3hCw&amp;amp;feature=fvst"&gt;Ernesto Nazareth&lt;/a&gt; junto dos sintetizadores do &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=lfj9YQOhUvk"&gt;Marcelo D2&lt;/a&gt;? E se pudéssemos ouvir a &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=BdtNBxkAmIk"&gt;Ivete Sangalo &lt;/a&gt;cantando &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=veeisMvPJm8"&gt;Chico Buarque&lt;/a&gt; junto da &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=LNHf26uNfok"&gt;Bidu Sayão&lt;/a&gt;? O inimaginável, imagem impossível. Mundos que não se colam. Impossibilidade que não implica impotência, não obstante. Não se colam, mas podem se bricolar. O virtual entra em campo. Jesus se inspiraria lendo o Manifesto do Partido Comunista? Como viveria o príncipe maquiavélico na politéia platônica? O que faria Kant para consolar as angústias de Werther? Como Freud interpretaria os sonhos de Josef K. e Gregor Sansa? O que é uma música? E um livro? A resposta, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;mutatis mutandis&lt;/span&gt;, é a mesmíssima do parágrafo anterior. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;As músicas linkadas ao texto nada tem de ver umas com as outras. Os livros apontados ativam realidades distintas. A parte não é pedaço constituinte de uma estrutura maior, mas é uma visão parcial do todo. É o todo coagulado num único ponto. O &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Tao Te Ching,&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Crepúsculo&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Memórias do Subsolo&lt;/span&gt; são livros. Papel de celulose ou fibra de carneiro, impressão digital ou escrito à punho, livro religioso ou comercial. Todos os livros têm em comum algo a ser exposto (palavras, imagens, fotografias...) e uma tecnologia que lhes dê suporte (brochura, papiro, códex...). Livros, músicas, filmes ou qualquer outra &lt;span style="font-style: italic;"&gt;coisa&lt;/span&gt;, são todos blocos de espaço-tempo. Blocos de um espaço contrátil, dilatante, dobrável, e de um tempo que escorre, nunca cessa e dura. Blocos, estes, que nunca param de se chocar, alterando-se mutuamente. Kant, não sabendo como proceder com o deprimido Werther poderia, ele mesmo, entrar em desespero. O príncipe de Maquiavel planejaria um golpe de estado na aristocracia filosófica da república de Platão. Hamlet, depois de ler Heidegger e Sartre, percebe que seu problema "Ser ou Não-Ser" deve ser recolocado. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A existência não é &lt;span style="font-style: italic;"&gt;um&lt;/span&gt; mundo, mas a energia resultante do atrito entre muitos e muitos universos. Uno e verso. É uma orientação - nunca finalizável, deveras - da matéria buscar alguma ordem. Vai se juntando, juntando, juntando. Partículas, blocos, planos inteiros. O mundo tende a ignorar o fora, entretanto. Considera-o como não-eu. E o joga fora. Dom Quixote é impedido de receber as visitas do Dr. Freud, os anjos de Wim Wenders tem o seu passaporte negado para a China d´&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Clã das Adagas Voadoras&lt;/span&gt;, Michel Poiccard - o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Acossado&lt;/span&gt; - só é pego no final pois não conseguiu passagem para o Irã de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Persépolis&lt;/span&gt;, não tinha amigos no Japão d´&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Os Sete Samurais &lt;/span&gt;e não conseguiu fretar um ônibus na &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Central do Brasil. &lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Akira&lt;/span&gt;, um filme, se assemelha muito mais à música de &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=JAwo7DPUFUM"&gt;Vangelis&lt;/a&gt; e aos livros de William Gibson do que a outros filmes. Compartilham temporalidades, compartilham planos. Mas os planos, dificilmente, deixam blocos que lhe são alheios adentrarem seus domínios. Adentram de contrabando, sempre! Sorrateiros e furtivos, os estrangeiros chegam pela porta dos fundos - fingindo ser de casa - e fixam sua morada. Contam histórias de uma terra natal que não aquela. O mundo invadido, porém, nunca mais será o mesmo. Nem o bloco, pobre coitado. É &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=4rkr4kTo9nY"&gt;Zeca Pagodinho&lt;/a&gt; tocando com o &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=crL1H8INb8c"&gt;Villa-Lobos&lt;/a&gt;. É a &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=ZpNTxYtGKCg&amp;amp;feature=fvst"&gt;Legião Urbana&lt;/a&gt; invadindo uma gravação do &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=sxLPX8OmiGA"&gt;Orlando Silva&lt;/a&gt;. É &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=qTLlnY4WSSY"&gt;Arrigo Barnabé&lt;/a&gt; tocando à quatro mãos com &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=dm41HbH1wdw"&gt;Radamés Gnattali&lt;/a&gt;. É um tempo que se dobra, um rio que sobe a ribanceira, um pássaro que voa de ré. Sem saber, muito bem, aonde esses casórios inesperados podem dar. É a vida...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-606944053004667395?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/606944053004667395/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=606944053004667395' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/606944053004667395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/606944053004667395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/03/blocos-de-duracao.html' title='Blocos de duração'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-3EDkJaBGMB0/TXWxvWdnz7I/AAAAAAAAAP4/-IIcyL13Quk/s72-c/un-chien-andalou4.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-5828756250860137405</id><published>2011-02-28T06:22:00.000-08:00</published><updated>2011-02-28T08:01:00.853-08:00</updated><title type='text'>Melancolia</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-exPJPpTVhx4/TWvFEdat_7I/AAAAAAAAAPw/0TjdC5go9Ac/s1600/E.Munch%2B-%2BMelancolia.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 258px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-exPJPpTVhx4/TWvFEdat_7I/AAAAAAAAAPw/0TjdC5go9Ac/s320/E.Munch%2B-%2BMelancolia.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5578769243835334578" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fala o grego: μελαγχολία. A tristeza de Chronos, o suor de Apolo, o cansaço de Hefesto, o peso de Átlas. Bílis negra, diria o estagirita. Nem Dionísio consegue mais gargalhar. Mostra os dentes, esse cavalo vendido. Fala o grego: μελαγχολία. Mais uma palavra a enumerar o meu vocabulário vasto; vastidão, essa, tristemente solitária. Árida, tal qual a areia melindrosa sob as carruagens do sol. Pior que atravessar o deserto é nele encontrar um ou dois oásis e não ter com quem os partilhar. Veja, veja, meu nobre colega! Enxergo lagos cristalinos de água e de vida a escorrer por aquela direção! Toma a minha mão e me segue. Não, me puxa! Não sei se tenho mais forças. Está tomado pelo cansado, também? Puxemos um ao outro, então. Não, não, não é uma miragem! Acredita em mim, acredita no meu delírio. Fica, por favor. Foi-se embora. Céus! Perco a terra mas, avoado que sou, nem ligo. O fogo crepita, ardente paixão, e me consome em febre. Tenho água, mas ninguém para bebê-la, comigo. Bebo só. Puxo as minhas cordas e toco algumas notas de silêncio. Cadê a platéia? A orquestra? O ouvido, atento e amigo, a capturar minhas composições mais frescas? Com-posição. Estar-com. Hermenêutica existencial. Valei-me! O sol sibila, assobia e sai de cena. Cadê a dor? O ardor? Foi-se embora!? Corro atrás do calor, antes que anoiteça de vez, e busco o fim do horizonte. O ponto final da reta. Percorro o infinito de Zenão e de Euclides, mas nada do Sol. Solitude. Sento e choro mas, desidratado, nada mais escorre. Meus olhos sumiram! Nem notei, pois. Não tinha nada para ver, ademais. Caio numa depressão - malditas dunas! - mas logo me levanto. Limpo-me da areia. Tropeço de boca - de novo!? - e me sinto envolto pelo frio. Frescor. Frescor!? É água! Espumante, gelada, saborosa. Cuspo-lhe. Sal demais. Mas volto a enxergar. Cheguei ao fim do horizonte: é a orla, a borda, a fronteira. É água e areia, céu e terra, é o grau-zero da escrita e o infinito da duração. Procuro um perdido para lhe contar minhas muitas histórias do deserto. Encontro um outro estirado ao chão, sendo banhado pelo lá e cá do branco oceânico. Mas ele nem se mexe. Estaria morto pelo deserto? Desistiu da caminhada!? Cutuco o corpo. Imóvel. Mas ainda respira. É pior do que eu pensava, então. Escolheu dormir. Dou-lhe a volta e continuo a caminhar. Coleciono as conchas do caminho e faço uma trilha com a palma dos meus pés. O marzão as apaga. E me trás conchas novas para a minha coleção. Penso em voltar e refazer os meus passos, que nem o obsessivo a checar suas portas trancadas. Escolho seguir adiante, porém. Viro-me, bruscamente, e me choco em algo, um algo forte o suficiente para me derrubar uma terceira vez. Não sei se fala meus dialetos, mas não consigo parar de lhe fitar seus olhos. Brilhosos, eles são. Olho para mim mesmo com os seus olhos e me espanto com a beleza do prosaico. O avermelhadamente lindo do céu crepuscular, o gostosamente frio das ondas e suas escumas, o vento morno que furtivamente me toma o ar. O crônico solta seus agudos. O tempo vira espaço. Já posso fixar morada. A minha busca por beleza acabou. Já encontrei um outro. Um tu. Você. Seus olhos. Paro por aqui. Nada do que possa dizer brilha mais que tuas retinas. Mel que escorre feito as águas do deserto. Puro mel, puro doce, puro outro. Sim, é aqui que resolvo parar. Tenho histórias do deserto para lhe contar, mas não agora. Conta-me uma história doce, me faz esquecer de mim mesmo, arranca-me os olhos e põe tua visão no lugar. Chronos dá lugar ao Kairós, Apolo corre atrás de Dafne e Hefesto resolve tirar um cochilo. Dionísio não gargalha. Mas sorri...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-5828756250860137405?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/5828756250860137405/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=5828756250860137405' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5828756250860137405'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5828756250860137405'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/02/melancolia.html' title='Melancolia'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-exPJPpTVhx4/TWvFEdat_7I/AAAAAAAAAPw/0TjdC5go9Ac/s72-c/E.Munch%2B-%2BMelancolia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-4444719220363498259</id><published>2011-02-02T17:38:00.000-08:00</published><updated>2011-02-20T09:44:25.208-08:00</updated><title type='text'>O mal que não é amor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Curioso é pensar o psicopata como um afetado. Um afetado da cabeça, das idéias ou da mente, que seja. A nosologia - fisiológica, psicanalítica, cognitivista - enumera os seus caracteres: emoções superficiais, teatralidade, sedução, remorso ausente, intolerância a frustrações. O psicopata é um transtornado, um antissocial que - devido a desvios cerebrais, traumas na infância ou esquemas mentais inadequados - pode por em risco a boa vida de seus bons convivas. Certo. Mas não esqueçamos de pontuar o seu principal aspecto, aquele que o define em sua essência mesma. Quer o chamemos  de Egoísmo, Narcisismo, Egocentrismo ou tantas outras nomenclaturas, todas elas falam do mesmo: o psicopata se ama por demais! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;No final é o amor que vence, percebam. O final sempre é feliz, justo e ordenado, mesmo quando a mocinha morre no final ou mesmo que o casal predestinado não consiga ficar junto. Griffith entenderia. A vitória eterna do amor - quer queiramos, quer não; quer enxerguemos, quer não - diz, em implícito, de um circuito liberalista, burguês e capital, no qual os melhores são selecionados, os mais aptos sobrevivem e o mais sublime dos caminhos é o escolhido para dar continuidade a nossa História. O psicopata delira mundos e fundos de mentiras, ignora lágrimas e risadelas de outrem e pode agredir, machucar, matar o seu próximo por motivações que pouco nos convenceriam a fazer o mesmo. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mas por que?&lt;/span&gt;", pergunta o espírito moderno e científico do século XIX, um século que - mais do que nunca - insiste em durar. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Tá! Não é de psicopatia, capitalismo ou ciência que quero tratar, necessariamente. Façamos um plot, com isto. O mal do mundo não vem de sujeitos de ego grande que acabam prejudicando o outro, no processo de se amarem por demais. Respostazinha confortável. Não é o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;pathos&lt;/span&gt;, o grande problema. Mas a apatia, sua irmã preguiçosa, sedutora e adolescente. Dizem os desenvolvimentistas que a adolescência é etapa de crises. Mentira. A vida, ela mesma, é pura crise, marulho incessante do qual nenhum de nós pode fugir. Somos cindidos a todo momento, das nossas primeiras mitoses embrionárias ao funesto e derradeiro momento no qual perdemos os numinosos 21 gramas. O adolescente é um intermédio, um entre-dois, um médio-único, como diria um amigo. É um ponto imóvel entre dois movimentos. Ele passa por crises, verdade, mas a criança malina, o adulto chato e o velho senil também têm os seus dias de inventividade e rupturas. Todos diferem de si mesmos a todo momento. O Adolescer só faz sentido para o patrão burguês que olha para o seu guri, não mais um infanto dividoso mas ainda inapto a tomar o seu lugar nos negócios da família. Okay. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Já que começamos a adentrar no pântano da psicologia - um atalho, somente um atalho - convido os senhores a chafurdar um pouco mais nessa lama pouco fértil.  Dizem que o lótus nasce do lodo, não é verdade!? Pois bem: Freud. O aparelho da alma freudiano tem algo de interessante para a nossa discussão. Ao construir um sistema psicológico baseado num fluxo e refluxo libidinal, à maneira dum encanamento, o Sigmund nos faz pensar que o desejo é que move o mundo e nos move sobre ele. É o amor a força motriz a nos servir de elã. Seu oposto, entretanto, não é o ódio. Não irei discutir, aqui, pulsões de morte e as diferenças entre as tópicas psicanalíticas. Não sou apto a discorrer sobre tais, nem quero fazê-lo no momento. Além disto, o atalho já está se tornando mais longo que o caminho das retas. Anti-euclidiano deve ser o atalho. Bonito, isso. Certo, certo, pousando. O inverso do amor - o cimento de nossa cultura e de nossas relações - não é a fúria destrutiva, a entropia dos sistemas, o demolir das arquiteturas. A vida se opõe a morte. O movimento, ao repouso. O amor não se opõe ao ódio, mas sim à indiferença. E é essa indiferença que parasita os devires do mundo e lhe retira sua potência criadora. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Do átomo à via de leite, tudo é vida, movimento e diferença. Tudo é amor. E ódio, também. Tudo se faz, se refaz, se acaba e se reinicia. Por &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Tudo&lt;/span&gt;, entendo a soma de todas as coisas. O conjunto a conter todos os conjuntos a conter todos os elementos do cosmo. Do caosmo, diria o outro. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Tudo,&lt;/span&gt; contudo, não equivale ao &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Todo&lt;/span&gt;. Já discuti isto em algum lugar - se neste blog, eu não sei - utilizando de filósofos vitalistas, pensadores da diferença e do cinema para a empreitada. Repito-me, mas serei contido. O Todo, em resumo, é o movimento entre as partes de um conjunto. É o que evita que cada parte do conjunto, ou cada conjunto em relação a outros conjuntos, não se fechem em si mesmos. O 2, em relação com o conjunto dos números naturais; e este em relação com os conjuntos dos números inteiros, reais, racionais, até mesmo imaginários. Um conjunto não é a soma de vários elementos com algo em comum. Con-juntar é criar um procedimento, um modo de relação, uma dança. O conjunto dos números naturais é um procedimento. O conjunto das frutas cítricas é um outro procedimento. O conjunto das proparoxítonas francesas é um terceiro procedimento. É um modo de unir e reunir as imagens do universo num plano comum, e fazê-los dançar numa espiral cósmica que as junta e as separa, as divide e as comunga numa única temporalidade. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Alguns desses elementos são especiais, não obstante. São dobras deste coletivo de matérias-fluxo. São como coagulações deste sistema circulatório e movente que é o mundo. O que não é mundo é imundo, diz o latino. Roma já sabia que havia uma certa pureza no mundo, mas que não era a pureza das imobilidades de Platão. O puro é o harmonioso e o decantado. E, em ambos, nunca se faz puro em solitude. Pureza é estar com os seus, logo, mas visando não a paz. Esta é para os moribundos: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Que descanse em paz"&lt;/span&gt;! Pureza é afetar e ser afetado. E, na dança eterna dos elementos, alguns destes resolvem dar uma paradinha para esticar as pernas. A este repouso da matéria, a esta reação retardada de um elemento frente a outro, temos como consequência a chamada consciência. Também não explanarei sobre isto, agora. Só digo que um ser consciente é um ser lerdo, que não reage frente à ação recebida, mas a ela percebe, a sente por dentro, e só depois age, indeterminadamente. Encaminhamento simples e provisório, este, que será modificado em posts futuros. Por enquanto, nos contentemos com esta definição precária. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Como qualquer outro elemento da existência, o humano coexiste. Existe com outros e só existe com outros. Afeta e é afetado. O que o difere da matéria dita não-viva é a sua lerdeza, como já dito. Alguma força lhe afeta e ele não reage imediatamente, tal qual bola de bilhar. Ele processa - ou melhor - um processo se dá e o arrebata. Não são as coisas que mudam, mas nós é que somos interiores à mudança mesma. Esse processo, - cognitivo/afetivo/perceptivo/ativo/que seja - por vezes, se perde em si mesmo, como um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;loading &lt;/span&gt;eterno. É um movimento que não referencia o mundo para o qual reage, assim como a palavra do erudito. O bebê balbucia uma e outra palavra, mas todas carregadas de reais elementos do mundo. É o recém-nascido o verdadeiro universitário. Chora imediatamente, sem mediações. As coisas o afetam e ele, indefeso frente à miríade de estímulos fora do útero oceânico de sua mamãe, não sabe como reagir. Não pode reagir. É tudo forte demais. Então, ele chora. E chora até que aprenda alguma palavra sem sentido pelos lábios de seu pai burguês, aquele mesmo que inventou a adolescência. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Esse pai inventa para o seu menino brinquedos para a boca lhe calar. Que é o brinquedo senão um anestesiador dos afetos, um anulador da percepção e uma dormência das ações? Criança que é criança brinca com os seus, brinca de inventar, de cair e chorar, de gritar, de quebrar o brinquedo do pai e de se quebrar. Todo e qualquer elemento desse mundão carrega uma história. Troquemos a nomenclatura, agora. Chamarei de blocos de duração toda e qualquer unidade identificável e diferenciável das demais. Cada um de nós é um bloco de duração. O monitor, a minha frente, é um bloco, também. Um livro é um bloco de duração. Um filme. Um videogame. Uma pintura. Esse pacote de biscoito aberto, do meu lado, é um bloco de duração. As coisas são a história do universo coaguladas num ponto do espaço. Coagulação sempre parcial, visto a duração do universo sempre fluir e fluir e fluir. Os blocos, todos, se chocam incessantemente. O bloco-homem, no entanto, pode adentrar em circuitos de nada, de vazio, de vácuo, circuitos improdutivos e circulares, isolando-se da evolução criativa imanente ao universo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;É o homem do capital, o corpo-psicopata, o filho de pai burguês. A vida se quantifica e passa a ser ranqueada. Melhor e pior. O melhor: é ficar cada um na sua, em paz, vivendo em conforto, silêncio e imobilidade. Procura-se e se produz blocos e mais blocos de apatia: o cinema de encadeamento óbvio, a música de sucesso, o livro que virou filme, a conversa besta demais, a conversa produtiva demais, o humor com fórmulas, o amor sem dor. O mal não é a dor, mas a dormência que, cedo ou tarde, nos obrigará a amputar nossos membros, arrancar nossos olhos e estirpar nossos corações. Quando não mais pudermos perceber, sentir ou agir sobre a beleza das coisas, seremos bons indivíduos, mas não mais humanos. Não mais "dividuais", moventes, éticos, artísticos, filósofos, crianças. Fabricar um corpo-psicopata: estamos fazendo isso corretamente!...&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;*               *               *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Post Scriptum:&lt;/span&gt; o texto saiu maior do que o esperado. Tempo demais sem visitar estas terras, suponho. Acabei nem desenvolvendo a noção de blocos de duração, que deveria ser o carro-chefe do escrito. Uma dívida que saldarei depois, promessa...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-4444719220363498259?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/4444719220363498259/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=4444719220363498259' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4444719220363498259'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4444719220363498259'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/02/o-mal-que-nao-e-amor.html' title='O mal que não é amor'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-9106781618438627157</id><published>2011-01-15T16:59:00.000-08:00</published><updated>2011-01-22T17:42:01.557-08:00</updated><title type='text'>A natureza da duração</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TTtTTHALbzI/AAAAAAAAAPk/9BNQH2g20iA/s1600/bergson.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 266px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TTtTTHALbzI/AAAAAAAAAPk/9BNQH2g20iA/s320/bergson.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5565133352308797234" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Olho para os muitos objetos, ao meu redor. Deles, tenho noções que podem ser mais ou menos corretas, claras ou obscuras, distintas ou confusas. Posso não estar inteiramente certo da existência deles, tal qual o delírio cartesiano. Mas sei – disto, eu sei! – duma existência especial dentre as outras, uma que conheço profundamente, interiormente, indubitavelmente: a minha existência mesma. Nossa existência como a existência da qual estamos mais certos. “Qual é, neste caso privilegiado, o sentido preciso da palavra ´&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;existir´?”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; (2006, p.1).&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Assim começa a argumentação de Henri Bergson ao tratar da natureza da duração, no livro &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Memória e Vida&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;, uma coletânea de textos escritos pelo filósofo, mas editados – bricolados – pelo Gilles Deleuze, então mestre de conferências de Paris VIII. A sessão I do livro – &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;A Duração e o Método&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; – é feita a partir de recortes de quatro obras do Bergson: &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Ensaios sobre os dados imediatos da consciência&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; (uma de suas teses de doutoramento, inclusive); &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Matéria e Memória&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;A Evolução Criadora&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; e &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;O Pensamento e o Movente&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;, em ordem de publicação. Dentro da sessão I, temos estas quatro subdivisões: a) &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Natureza da duração&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;; b) &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Características da duração&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;; c) &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;A intuição como método &lt;/i&gt;[cuja resenha já foi postada, cá neste blog]&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;; e d) &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Ciência e filosofia&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;. A resenha, embora corresponda a diversos textos do Bergson, escritos e publicados em separado, será disponibilizada como um exercício de escrita unificado, linear e homogêneo, assim como os nossos estados de consciência se nos revelam. Do calor ao frio. Da alegria à tristeza. Do trabalho ao ócio. Da ação ao devaneio. Mudamos sem cessar. Essa tal mudança, no entanto, é muito mais profunda do que parece e aparece a nós. Qual a &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;natureza da duração&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;, enfim?&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Em geral, falamos de cada um desses estados como se fossem blocos. E, ao dizer que mudamos, entendemos a mudança como a passagem de um desses blocos para um bloco outro. No que se refere a cada estado, cada bloco, cremos que é idêntico a si mesmo durante todo o tempo em que dura. Tomarei um exemplo do próprio Bergson (2006), no entanto, para dizer que não há sensação, sentimento, representação intelectual ou desejo que não para de se modificar, a todo instante, visto que, se cessasse seu movimento, cessaria o próprio fluxo que constitui sua duração. Então. O mais estável – o mais “bloqueado” – de nossos estados psicológicos seria a percepção visual de um objeto exterior que permanece imóvel durante todo o tempo que o observamos. Fitemos este objeto de um mesmo lado, numa mesma angulação, com a mesma luminosidade. A visão que &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;tenho&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt; dele é idêntica à visão que &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;tive &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;dele, no instante imediatamente anterior, com uma única diferença. A imagem seguinte está um instante mais velha. A minha memória está presente no objeto, empurrando o passado – se meu ou do objeto, discutiremos depois – para dentro do presente. “Meu estado de alma, ao avançar pela estrada do tempo, infla-se continuamente com a duração que vai reunindo; por assim dizer, faz bola de neve consigo mesmo” (BERGSON, 2006, p.2).&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A mudança, ininterrupta, só é notada quando imprime, no corpo, uma nova ação, uma nova atitude, uma nova atenção. Percebemos, assim, que mudamos de estado. Saltamos dum bloco a outro. Seria mais acertado afirmar que mudamos e mudamos, sem cessar, visto que o próprio “estado” já é mudança. A descontinuidade de nossa vida, de nossa experiência psicológica, só se dá em aparência, pois nossa atenção costuma operar através de atos, postos em série. “Nossa atenção se fixa neles porque a interessam mais, mas cada um deles vem inserido na massa fluida de nossa existência psicológica inteira” (BERGSON, 2006, p.3). Durante o sono, nossas funções orgânicas se vêem diminuídas, o que modifica a superfície de contato entre o eu e o mundo-lá-fora e nos priva da faculdade de perceber um tempo homogêneo. No sonho, não mais medimos o tempo, mas o sentimos. A quantidade dá seu lugar a um instinto vago. Marca-se a diferença entre um tempo que se desenvolve no espaço e a verdadeira duração, atingida imediatamente pela consciência.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Bergson (2006) distingue, assim, um eu múltiplo – cujos momentos heterogêneos se penetram, fundem-se e se organizam – de sua sombra projetada no espaço. Um eu que dura e um eu  estanque, subdividido e substituído pelo símbolo; como este cabe feito luva nas exigências da linguagem – da vida social – vamos perdendo, pouco a pouco, o eu fundamental. A duração, no entanto, vai para além duma psicologia, sendo fato mesmo no mundo material, que se desenrola numa duração análoga à nossa.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;“&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Se eu quiser preparar-me um copo de água com açúcar, por mais que faça, terei de esperar que o açúcar derreta. Esse pequeno fato é rico em ensinamentos. Pois o tempo que tenho de esperar não é mais o tempo matemático que continuaria podendo ser aplicado ao longo da história inteira do mundo material, mesmo que esta se esparramasse de golpe no espaço. Ele coincide com minha impaciência, ou seja, com uma certa porção de minha duração própria, que não pode ser prolongada ou encurtada à vontade. Não é mais algo pensado, mas algo vivido. Já não é uma relação, é um absoluto.” (BERGSON, 2006, p.6)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O copo. A água. O açúcar. A dissolução do açúcar na água. São abstrações, diz o Bergson (2006), recortadas do Todo pelos nossos sentidos, recortes que progridem à maneira duma consciência. E continua. Quando a ciência isola um sistema de seu contexto, não realiza uma operação artificial, totalmente. Se esta atividade não tivesse um fundamento, não se explicaria porque ela é tão acertada em certos casos. E contra-indicada em outros tantos. A matéria tem uma tendência a constituir sistemas fechados, isolados, podendo ser tratados geometricamente. É por esta tendência, mesma, que Bergson (2006) a define. Mas não passa duma tendência, de fato. A matéria nunca se isola por completo, e se a ciência o faz é apenas pela comodidade do estudo, deixando as influências externas de lado. Essas influências, no entanto, são como fios que ligam tal sistema a um outro, que o engloba; a um terceiro, que os engloba a ambos; um quarto, que contém a todos estes, sendo “por esse fio que se transmite, até a mais ínfima parcela do mundo onde vivemos, a duração imanente ao todo do universo (BERGSON, 2006, p.7).&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;É o universo que dura! E durar é inventar, criar, elaborar, sem cessar. Todos os sistemas que delimitamos só duram porque estão ligados ao universo, que dura ele mesmo, havendo – neste universo – um movimento de queda (o aparecimento dos sistemas, tal qual o desvelar de um rolo, a fazer aparecer as palavras já inscritas nele) e um de elevação (um trabalho de maturação e de formação do “absolutamente novo”, inseparável do primeiro movimento).&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Dá-se o mesmo seja com a matéria bruta seja com a organizada. Bergson (2006), inclusive, mostra que uma filosofia como a sua – preocupada em resguardar a especificidade dos objetos ditos vivos – não postula um dualismo da matéria, uma distinção entre duas matérias. Diz, ao contrário, que a vida é uma espécie de mecanismo. Mas não se trata do mecanismo das partes independentes e isoláveis, e sim o mecanismo do todo, do real. Os sistemas que recortamos, destarte, não seriam simples partes, mas visões parciais do todo. No entanto, dispor estas mesmas parcialidades, lado a lado, não recomporá o sistema, assim como mil fotos de um objeto sob diferentes ângulos não recomporão sua materialidade.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Ao analisarmos, minuciosamente, um processo orgânico, encontraremos inúmeros fenômenos físicos e químicos. Mas daí não se deve concluir, tolamente, que “a química e a física devam nos dar a chave da vida” (BERGSON, 2006, p.9). Pensemos numa curva. Um elemento muito pequeno, desta curva, é quase uma linha reta, e quanto menor for esse elemento da curva sobre o qual deitamos nossa atenção, mais similar a uma reta ele será. Em cada um dos pontos da curva, inclusive, a mesma coincide com a sua tangente. A vida, do mesmo modo, é “tangente” às forças físicas e químicas. Tais pontos, entretanto, não passam de abstrações, de paradas no movimento gerador da curva. Dizer da vida como resultante de elementos físico-químicos seria afirmar uma curva como composta por linhas retas.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Agora, não nos parece razoável perguntar se a nossa duração, nossa experiência psicológica, poderia ser a única a existir? E que esta história de um universo que dura possa ser pura balela? Talvez. Mas seria o mesmo que perguntar se poderia não haver no mundo uma outra cor além da cor laranja. Uma “consciência colorida”, que simpatizasse – profunda e internamente – com o laranja, que fosse ela mesma o laranja, não sentiria a si mesma ao modo de uma análise exterior, uma suspensão no vazio, mas intuiria estar entre um vermelho e um amarelo, intuiria o contato com toda uma multiplicidade de durações, seja pra cima seja pra baixo do espectro de cor. Rumo a durações cada vez mais dispersas, a consciência transcenderia a si mesma, em direção tanto à repetição, às nossas sensações imediatas divididas em quantidades, quanto ao eterno. Não a eternidade conceitual, que é morte, mas um eterno vivo e movente. “Entre esses dois limites extremos a intuição se move e esse movimento é a metafísica” (BERGSON, 2006, p.10). &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; line-height: 150%; text-align: justify;font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;BERGSON, Henri; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A natureza da duração&lt;/span&gt;; In: Memória e Vida: textos escolhidos; trad. Cláudia Berliner; São Paulo; Martins Fontes; 2006; pp. 1-10.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; line-height: 100%; font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-9106781618438627157?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/9106781618438627157/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=9106781618438627157' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/9106781618438627157'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/9106781618438627157'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2011/01/natureza-da-duracao.html' title='A natureza da duração'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TTtTTHALbzI/AAAAAAAAAPk/9BNQH2g20iA/s72-c/bergson.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-2503355996025543260</id><published>2010-12-30T22:24:00.000-08:00</published><updated>2010-12-31T08:26:55.690-08:00</updated><title type='text'>Senhorinha</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TR2CRo9hTNI/AAAAAAAAAPM/gcGRb-EyAK0/s1600/renoir_promenade.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 254px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TR2CRo9hTNI/AAAAAAAAAPM/gcGRb-EyAK0/s320/renoir_promenade.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5556740754809900242" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dança comigo, moça! Que importa se você não tem um par de sapatos!?  Posso ficar descalço, se quiser. Pronto. Fiquei. Vem cá, agora. Conta  pra mim aqueles segredos que nem você conhece. O quê? Repete, que não  entendi. Rouquidão. Deixa eu chegar mais perto. Mais. Um  pouco mais. Isso. Fala no ouvido, agora. Um sussuro. Tremo. Continuo a  não entender coisa alguma. Mas agora estou com um sorriso estranho,  estranho e sem propósito, a estampar minha seriedade.  Sorriso bobo.  Palavra boba, esta. Bobo. Bobo! Bobo? O signo rachou. Qual o teu  encanto, feiticeira? Um pouco de mel nos olhos, uma pitada de açucar nos  lábios, algumas palavras sussurradas ao vento. Mágica das mágicas, a  tua poesia. O cotidiano se torna o mais fantástico dos mundos. Teu olhar  foge, entretanto, e não consigo desvendar-lhes o sabor. Por que? Por  que não mira a mim!? Isso, devagar. Fugiu de novo! Olha mais uma vez.  Sustenta. Sustenta a dor. Sorrimos. Mas você se vai. E vai para longe.  Estico o braço mas não te alcanço. Distante, faço arte. O romântico  enumera: uma dança, mas não tenho mais par, deveras; ponho e componho  música, mas sem um instrumento para lhe carregar; faço poesia, então,  mas não há livro que a suporte; pinto a beleza em você, mas as tintas  não bastam; esculpo seu movimento, mas ele morre - inerte - congelado no  mármore; um museu de infinitos quartos para guardar tudo isso. 15 minutos de fala e de fama. Os blocos do artista querem construir castelos no espírito de outrem.  Não para aprisioná-lo, como se acostumam os estetas. Mas para fazer com que o espírito se perca e se encontre, ria e se desespere, espante-se e compreenda.  Blocos sutis, os seus. Arte feita com os pedaços do cotidiano. Pedaços de mim, esmigalhado, esfacelado, disperso. Reunido, em suas mãos. Estou em suas mãos. Pequeninas. Não cabem muitos delírios, nelas. Principalmente os do futuro. Abomina-os. Escondo-os comigo, para não te afugentar. E continuamos no baile. Sem sapatos. E a banda toca, mais uma vez. Dança comigo, moça?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-2503355996025543260?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/2503355996025543260/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=2503355996025543260' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2503355996025543260'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2503355996025543260'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/12/senhorinha.html' title='Senhorinha'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TR2CRo9hTNI/AAAAAAAAAPM/gcGRb-EyAK0/s72-c/renoir_promenade.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-5495382295129866677</id><published>2010-12-21T14:38:00.000-08:00</published><updated>2010-12-31T14:32:26.760-08:00</updated><title type='text'>Três questões sobre ´Seis vezes Dois´</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TR5ZXo_3IQI/AAAAAAAAAPU/c_5XSvnj1SE/s1600/Gilles_Deleuze.jpg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 224px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TR5ZXo_3IQI/AAAAAAAAAPU/c_5XSvnj1SE/s320/Gilles_Deleuze.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5556977252898906370" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O pessoal da &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Cahiers du Cinéma&lt;/span&gt;, interessado em saber das opiniões dum filósofo sobre os recentes programas do Jean-Luc Godard para a televisão, entrevistou o Gilles Deleuze com este propósito, posto que este muito admirava os trabalhos do diretor. A entrevista saiu na edição de número 271 da revista, em novembro de 1976, e foi publicada no &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Conversações,&lt;/span&gt; uma coletânea de "entrevistas que se estendem por quase vinte anos", e que "não sabemos mais se ainda fazem parte da guerra ou já da paz" (p.7). É com esta entrevista  - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Três questões sobre &lt;/span&gt;Seis vezes Dois&lt;span style="font-style: italic;"&gt;  (Godard)&lt;/span&gt; - que realizamos o exercício de escrita abaixo disposto, à maneira duma resenha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Deleuze diz de como imagina Godard. Um homem só, sozinho, solitário. Uma solidão povoada, no entanto, mas não de sonhos, projetos, fantasias e sim de coisas e atos e mesmo pessoas. Solidão criativa. Godard-força! Suas perguntas nos espantam, nós espectadores, mas não incomodam a quem são dirigidas. Fala com os delirantes, mas não com as falas do psiquiatra. Nem com as do louco. Nem com as de alguém se fingindo doido. Fala com os operários, mas não com as falas do patrão. Nem com as do próprio operário. Nem com as falas dum intelectual. Nem como um diretor para com os seus atores. Godard gagueja. Não gago da fala, mas gago da própria linguagem. Só se pode ser estrangeiro numa outra lingua mas Godard, diz o Deleuze, é estrangeiro em seu próprio idioma. Antecipa-se a todos, mas não pelo sucesso. Visto sempre estar só, continua sempre em sua própria linha, ativa, quebrada, fugidia, ziguezagueante. Caso único, o Godard, visto não ser capturado pela TV. Não satisfeito em somente mostrar o seu cinema, fez esta série - o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Seis vezes Dois&lt;/span&gt;, ocupação da TV por seis vezes com dois programas - que em muito toca a própria TV. Entrevistas, mas entrevistas que povoavam a televisão duma outra maneira. Uma outra TV possível.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Pedem ao Deleuze que dê uma resposta mais diretiva, à maneira duma aula, sobre os programas do Godard. Como os percebe, os sente, como explicaria seu entusiasmo para com o programa. Deleuze aceita a encomenda, mas adverte, usando uma fórmula do próprio Godard: "não uma imagem justa, justo uma imagem" (p.53); não a ideologia, mas a prática. E diz o mesmo do filósofo: não idéias justas mas, justo, idéias. Continua. A idéia justa - significativa, dominante, ordeira, estabelecida - sempre verifica algo, ainda que seja algo-por-vir, a revolução! O "justo idéias", enquanto isso, é a gagueira nas idéias, é a questão colocada que faz calar as respostas. Devir-presente. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;E, sendo assim, o Deleuze sugere duas idéias que se atravessam, uma a outra, nos programas do Godard. A primeira diz do trabalho, e de como há por demais abstração na noção duma tal "força de trabalho", que se venderia/compraria em condições tais que estabelecem seja uma tal justiça social seja uma injustiça social de base. A pergunta do Godard, mas formulada pelo Deleuze: "o que ao certo se compra e se vende? O que é que alguns estão dispostos a comprar, e outros a vender, que não é forçosamente a mesma coisa?" (p.53). Um soldador vende a sua "força de soldador", mas não a sua força sexual, ao tornar-se amante duma senhorinha. Uma faxineira vende horas de limpeza, mas não o trecho musical que solfeja enquanto faxina. Um relojoeiro - pago pela sua "força relojoeira" - recusa pagamento pelo seu hobby de cineasta amador. Diria o relojoeiro que não quer ser pago pelo seu cinema pois "existe uma grande diferença de amor e de generosidade nesses gestos" (p.54). Mas e o cineasta, pago pelo seu ofício? Não o ama, destarte!? E um fotógrafo, que ora paga o seu modelo e ora é pago por ele? Guattari propôs, num congresso de psicanálise, que os analisandos fossem pagos tanto quanto os analistas, visto que, para além do serviço de escuta do psicanalista, há o trabalho do inconsciente do paciente. Godard pergunta, na mesma onda, qual o porquê de não se pagar aos que assistem TV, visto que as mesmas exercem um verdadeiro serviço público, ali. Todas essas questões - imagens - escanteiam a noção de força de trabalho, posto que esta isola o trabalho de seus próprios produtos, do ato criativo no trabalho, do amor ao trabalho. O trabalho não como uma criação mas como uma força produtora de bens e consumos, força abstrata reprodutora de si mesma. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A segunda idéia diz da informação. Uma professora, ao explicar uma operação matemática ou ensinar ortografia aos seus meninos, transmite informações. Nada mais improvável que isto, para o Deleuze. "Ela manda, dá palavras de ordem. E fornece-se sintaxe às crianças assim como se dá ferramentas aos operários, a fim de que produzam enunciados conformes às significações dominantes" (p.55). A linguagem não como "meio de informação", mas como um "sistema de comando". A informática criou o seguinte esquema: dum lado, a informação pura, máxima; doutro o puro ruído, interferência; entre ambos, a redundância, informação ruidosa. Deleuze, com o Godard, aponta para uma inversão deste esquema: coloca a redundância no topo, transmissão, repetição, ordens, comandos; a informação pura vem abaixo, como o mínimo necessário para que a ordem seja bem recebida; e, mais abaixo, o ruído. O silêncio. A gagueira. O grito. Um algo que escorre por entre os dedos da linguagem. "Falar, mesmo quando se fala de si, é sempre tomar o lugar de alguém, no lugar de quem se pretende falar e a quem se recusa o direito de falar" (p.56). Assim dispondo a situação, coloca Deleuze o problema: como falar sem dar ordens, sem representar algos e alguéns? E como fazer falar os que não tem esse direito, como lhes devolver os sons, e como devolver aos próprios sons seu poder contra o poder, seu valor de luta? "Sem dúvida é isso, estar na própria lingua como um estrangeiro, traçar para a linguagem uma espécie de linha de fuga" (p.56). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Godard questiona duas noções correntes: a Força de Trabalho e a Informação. Mas, Deleuze deixa claro, não se trata de dar informações &lt;span style="font-style: italic;"&gt;verdadeiras&lt;/span&gt;, nem de pagar &lt;span style="font-style: italic;"&gt;bem&lt;/span&gt; pela força do trabalho. Grifos do autor. O bom e o verdadeiro apontam para "idéias justas", ele diz, e Godard escreve FALSO do lado delas! Deleuze começa a "bergsoniar", traçando a seguinte história paralela: existem imagens. As coisas são imagens. Mas as imagens não estão no cérebro, na "cabeça". O cérebro, percebamos, é que é mais uma imagem entre tantas outras. As imagens do mundo não cessam de agir, de reagir, de produzir, de consumir entre si. Imagens, coisas, movimento. Idênticos. As imagens, no entanto, possuem um "dentro". São "sujeitos". Entre a ação sofrida e a ação executada (reação) pela imagem, há uma certa defasagem. Essa defasagem é a percepção, é a subtração da imagem do que não interessa. Perceber é subtrair. Existem imagens, ao contrário, que não são sentidas por "dentro", mas como "avesso", imagens capazes de capturar outras imagens, tomando-lhes o poder e centralizando-as. Voz de Hitler, diz o Deleuze! Graças à defasagem, destarte, configuram-se dois movimentos opostos: um, das imagens exteriores, por si mesmas, às percepções; outro, das idéias dominantes, "golpes centrais", às percepções. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Num único ato, Godard desdobra-se em dois. Quer tanto restituir a plenitude das imagens exteriores - fazer com que percebamos não menos que a imagem, mas coincidir a percepção com a imagem mesma - quanto tomar da linguagem o seu poder e fazê-la gaguejar, destilando das idéias "justas" uma e outra gota de, "justo", idéias. O primeiro capítulo do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Matéria e Memória - &lt;/span&gt;obra-prima do Bergson - trata duma querela semelhante, ao tratar a fotografia como já tirada no interior das próprias coisas e em todos os pontos do espaço. Não que Godard seja bergsoniano ou o renove. Melhor dizer que Godard, em sua própria trajetória para renovar a TV, encontrou pedaços de Bergson pelo caminho. Godard e Bergson. E Deleuze. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O "e", para o Godard - e para a filosofia deleuziana - é o que importa, ao contrário das embotadas discussões sobre o atributo das coisas, sobre sua existência, suas possibilidades e afins, s&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TR5ZpPoX1MI/AAAAAAAAAPc/vwH5NEtylHA/s1600/jean-luc-godard.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 235px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TR5ZpPoX1MI/AAAAAAAAAPc/vwH5NEtylHA/s320/jean-luc-godard.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5556977555327145154" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;empre pautadas pelo ser, pelo verbo "ser", pelo "é". O "e" não é uma simples conjunção, uma simples relação, mas arrasta consigo todas as relações, equilibrando-as e desequilibrando-as todas. A gagueira criadora: "e... e... e...", uso estrangeiro da língua, a se opor ao seu uso conforme, dominante, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;comme il faut&lt;/span&gt;, fundado sobre o ser. Diversidade e multiplicidade a destruir as identidades. Godard diz que tudo se divide em dois. Mas quando fala da manhã "e" da tarde, não diz de um ou de outro, nem de um que vira outro, nem dos dois. A multiplicidade não mora nos termos ou em seus conjuntos, por mais detalhados e numerosos que  sejam. Reside, isso sim, no "e", de natureza diversa dos elementos e dos conjuntos destes. A força não residiria num ou noutro lado do campo, mas na fronteira, nesta um-outreidade. Godard quer fazer ver as fronteiras, tornar percebido o imperceptível. Uma fronteira que não é nem um nem outro, mas um-outro, o hífen, arrastando a ambos numa evolução em fluxo, na qual não se sabe quem está em cima ou embaixo, quem vai na frente ou atrás, nem qual o destino de um e do outro. Uma política da um-outreidade é uma micropolítica das fronteiras, a combater as macropolíticas dos conjuntos fechados. A fronteira, o hífen, o "e", "onde as imagens tornam-se plenas demais e os sons fortes demais. É o que Godard fez em &lt;span style="font-style: italic;"&gt;seis vezes dois&lt;/span&gt;:&lt;span style="font-style: italic;"&gt; &lt;/span&gt;6 vezes entre os dois, fazer passar e fazer ver esta linha ativa e criadora, arrastar com ela a televisão" (p.61)...&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;DELEUZE, Gilles. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Três questões sobre ´seis vezes dois´&lt;/span&gt;; In: Conversações; Trad. Peter Pál Pelbart; Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992, pp. 51-61.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-5495382295129866677?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/5495382295129866677/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=5495382295129866677' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5495382295129866677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5495382295129866677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/12/tres-questoes-sobre-seis-vezes-dois.html' title='Três questões sobre ´Seis vezes Dois´'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TR5ZXo_3IQI/AAAAAAAAAPU/c_5XSvnj1SE/s72-c/Gilles_Deleuze.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-68053939716486162</id><published>2010-12-10T10:48:00.000-08:00</published><updated>2010-12-10T15:01:51.607-08:00</updated><title type='text'>Mercado: pontos e encontros</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-style: italic;"&gt;Breve preâmbulo. Ao vasculhar meu disco rígido, agorinha mesmo, encontrei esse relato que fiz, a respeito duma etnografia. Era parte do trabalho de conclusão da disciplina &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Psicologia Social III,&lt;/span&gt; que cursei a um ano atrás. Muito tempo, verdade. Ignoradas as distâncias temporais, gostaria de compartilhar a experiência - tanto de intervenção quanto de escrita - com os senhores. Pois bem!...&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt; * * *&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Enquanto  conversávamos – eu e meus parceiros de escrita – sobre o que  pesquisaríamos no trabalho final de nossa disciplina, foi sugerido o  Mercado Thalez Ferraz como &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;locus &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;de  intervenção. Vago demais! A escolha duma temática de pesquisa não  equivale ao delineamento do objeto de estudo. Diz Narita (2006) que é  preciso recortá-la, defini-la, limitá-la para um bom conduzimento da  coleta. Falou-se, então, nas senhorinhas que vendiam ervas na praça  central. Começamos a bem colocar o problema, embora pouca ou nenhuma  experiência anterior tínhamos em relação a tal domínio. Com nenhum  conceito a nortear nossas reflexões, sair a campo mostrou-se ação  urgente. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Fizemos, logo  de começo, uma visita em conjunto ao Mercado. Mas aqui eu deixo  registrado apenas minhas andanças pessoais, sendo a primeira destas no  dia nove de outubro, dois dias depois da visita coletiva de nossa  comitiva de pesquisadores. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Chego  ao mercado às 13:30. Carrego o sol sobre minha cabeça, mas é o almoço  recém-deglutido que mais pesa em mim. Antes de cercar as senhoras e suas  ervas no “Thales Ferraz”, resolvo fazer uma andança por todo o Mercado.  Passo por um corredor colorido e perfumado por flores. &lt;/span&gt;“&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;10 reais o vaso!”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;,  diz a Dona que me nota olhando para um buquê de jasmins. Sorrio e  continuo meu caminhar reto, até dar de vista com gaiolas e jaulas  empilhadas umas sobre outras. Passarinhos, filhotes de cachorro e um  gato com os olhos quase fechados, como que dopado de tristeza. Olho o  animal de perto e ponho alguns dedos dentro da gaiola. Ele olha para  minha mão imóvel e acaricia seu rosto nela, meio sonolento.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Saio  e sigo. A feira de artesanatos, logo a seguir, me lançou na indecisão.  Esquerda? Direita? Vou em frente? Retorno? Nem lembro o que escolhi; só  sei que rodei, rodei e rodei, meio perdido naquele lugar cheio de  matizes. Percebi que estou sendo olhado pelo pessoal do artesanato.  Talvez pensem que sou um “de-fora”, visto estar de alpargata e camisa de  botão em pleno mercado municipal! Ou, então, estranharam a minha pessoa  ter passado duas ou três vezes pelos mesmos lugares. Andar em círculos é  coisa de quem está perdido, mesmo! &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Turistas  e comerciantes almoçando lado a lado; um barbeiro a aparar os pêlos  faciais dos homens com uma senhora hidratando os cabelos das clientes na  sala vizinha; crianças correndo para dentro das lojas e velhos tentando  pô-los pra fora. Resolvi cair fora, também! Coisas demais pra enxergar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Saíndo  do mercado, dei a volta por fora e reentrei no Thales Ferraz. Cheguei  perto duma banquinha de ervas e comecei a manusear algumas folhas  estranhas. Uma senhora se aproxima; baixinha, de cabeleira loura, poucos  dentes no sorriso e muita experiência nas mãos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="western"  style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;            &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;– &lt;i&gt;Quer alguma coisa, meu filho?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;– &lt;i&gt;Er... Não, não! Mas qualquer coisa, eu chamo a senhora!&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="text-indent: 1.25cm; margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;– &lt;i&gt;Então, qualquer coisa, eu tô por aqui...&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Entrou  em sua banca, voltou com uma laranja e, notando que a fruta estava com  manchas na casca, a arremessou longe. Entra na sua lojinha mais uma vez –  número “cento-e-alguma-coisa-que-não-lembro-agora” – e retorna com  outra laranja. Começa a falar sobre limpeza e o cuidado que tinha com  comida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Pergunto eu sobre algumas daquelas ervas à mostra: um toquinho de madeira que &lt;/span&gt;“&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;é bom pra coluna, pros ossos e pro sangue”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;, uns galhos secos&lt;/span&gt; &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;que  ajudam na filtragem renal e umas bolinhas verdes que são boas contra  anemia. Cedro, limpa-pedra, jurubeba. Digo a ela que estou estudando o  mercado e que gostaria de ficar conversando um pouco com ela, pra  aprender sobre o lugar e ver como é o comércio dali. Ela, sentada e  chupando uma laranja, tira uma cesta de jurubebas de cima dum banco e me  diz pra sentar e perguntar. Começamos nossa prosa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Stella Narita (2006) coloca o &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;discurso livre&lt;/span&gt;&lt;/i&gt; &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;como  preparatório para a situação de entrevista, para a utilização de um  questionário já estruturado ou para a apreensão de dados quantitativos.  No entanto, pela &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;gratuidade&lt;/span&gt;&lt;/i&gt; &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;com  que a Dona começou nossa conversa e pelo voto de confiança que – com  este ato – ela me concedeu, resolvi apostar tão somente no discurso  livre, querendo não apenas atender meus objetivos de erudito ao  confeccionar um relato de pesquisa, mas responder a uma demanda que a  senhorinha me expunha no momento de sua fala.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Diz-me  ela, D. Maria Luciana, que trabalha por ali a uns 4 anos, e que a banca  não era dela, mas da irmã. Olho para o lado e vejo uma senhora de  cabelo curto, imponente, uma matrona de avental, a cuidar de  artesanatos: cofres, estatuetas, barquinhos, João-bobos a dividirem  espaços com folhas, galhos e troncos. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Três  mulheres – cariocas, intuo pelo forte sotaque – perguntam  entusiasmadíssimas sobre aquelas bolinhas estranhas na banca da D.  Maria. Enquanto começam a agenciar seus negócios, dou uma de estrábico  e, mantendo um olho na conversa delas, começo a vislumbrar com o olho  restante a estante de Maria Luciana. Noto uns pacotinhos estranhos  contra mal-olhado. Pergunto sobre eles e ela diz que não acredita nessas  coisas mas, como tem gente que acredita, ela vende. Diz que o negócio  das ervas é fraco, que o lucro mesmo vem dessas outras coisinhas e do  artesanato.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Fala  ela que desde que João Alves construiu o mercado de artesanatos,  próximo à praia e aos hotéis turísticos, a venda dos produtos caiu  consideravelmente, pois o turista – afirma – por ter acesso a uma feira  artesanal mais próxima da sua pousada, não visita mais o mercado. A  situação, desse jeito, ficava cada vez mais difícil. Coloco, aqui, a  Rosane Neves para falar, mas não por academicismo. Essa é uma citação  direta, sim, mas a insiro pois a menina trova sobre tais assuntos melhor  do que eu poderia cantar. Ao compor versos e odes sobre a construção do  mercado de artesanatos, intuo – com o Rosane – que&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-left: 3.97cm; margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;… &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;é  a partir do momento em que certos disfuncionamentos de uma sociedade  não são mais regulados de uma maneira relativamente informal no tecido  dessa sociedade que podemos falar de uma “problematização” do social. As  relações sociais informais não são mais suficientes para resolver tais  disfuncionamentos. Assistimos então à criação de alguns equipamentos  institucionais e, por conseguinte, de um corpo profissional  especializado que passará a se ocupar de tais disfuncionamentos (SILVA,  2004, p.14).&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="western"  style="line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Feirantes  postos em ordem pela vigilância sanitária. Assistentes sociais  transformando o fluxo do local em geometria. Estudantes psi a lidarem  com o mercado enquanto problemática. O mercado é asseptizado, com a  separação da feira turística de artesanato das filigranas realmente  locais. Os ratos são expulsos, mas junto com os ratos parece que vão-se  embora, juntamente, as clientelas. O mercado artesanal levantava um  problema a ser abordado. Penso em pesquisar a historiografia oficial da  construção e reforma dos mercados e pareá-las com a memória dos  viventes. Duplo desapontamento: em primeiro, não encontro nenhuma  referência – livro, jornal ou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;website –&lt;/span&gt;&lt;/i&gt; &lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;ao  Mercado fora da simples comunicação turística; e por fim, constato meu  pouco tempo restante em campo, o que me fez desistir à busca de  discursos conflituosos, desarmoniosos e ambíguos. Fica a deixa para uma  futura intervenção.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Entre  um e outro cliente, pergunto se ela já almoçou; responde que nunca  almoça por ali. Fazia sempre uma merenda e nada mais, pois não gostava  da comida do mercado. Percebo o Rafael, um de meus companheiros de  pesquisa, se aproximando da banca – eram umas 14:15 – e, distintamente,  me despeço de D. Maria. Digo que vou dar uma voltinha pelo mercado, mas  que ainda volto. Ela diz que tá sempre por ali se eu quisesse fazer mais  perguntas. Saio e começo a dar voltas pelo mercado, com o Rafael.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Atravessamos  o corredor de flores e comento sobre o gato solitário na gaiola.  Arrodeamos a sessão de artesanatos e, sedentos, tomamos um suco.  Lembramos uma nota feita em nossa visita anterior, sobre as lojas  funcionarem como espaço de transição entre pontos do mercado: só éramos  atendidos caso parássemos dentro do ambiente; no caso contrário,  seríamos tomados por passantes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Decidimos  visitar o Sr. Albano Franco e as ervas de lá. Uma coisa que estranhei  logo ao entrar foi a feira daquele mercado. A beleza medieval das  barracas que se adequam aos contornos da rua e dos movimentos foi  substituída pela retidão da ordem matemática. A feira tornada  instituição! Este sentimento, que já me afetava na parola de Maria  Luciana, socou-me ainda mais forte. Ponho o disco da Rosane Neves na  vitrola uma vez mais. Continuamos a andar, ao léu, pelo lugar e, mesmo  não tendo parado em nenhum vendedor, noto a profusão de produtos que  podem ser encontrados por ali. Sementes e grãos, frutas e leguminosas,  temperos e ervas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Mais  para dentro, encontramos uma sessão de pescados e, caminhando um pouco  mais, encontramos televisores, relógios, calçados, um caixa bancário do  Banese e dois guardas que, embora conversassem entre si, pareciam não  prestar muita atenção nos transeuntes. Tomamos a saída lateral do  mercado e, voltando ao Thales Ferraz, sentamos à sombra do casebre  central de informações. Terminada a visita desta sexta-feira, começamos a  conversar um pouco sobre nossas experiências.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Minha  segunda e última ida ao Mercado deu-se oito dias depois. Sábado, dia  dezessete. Estava agitado e de cabeça pesada, o que não me deixou fixar  raízes num lugar só. Logo, não colhi discursos. Só andei, andei e andei  um pouco mais. Longe de fazer disto um pesar, considero o meu jugo como  suave. A Stella (2006) faz uma rápida e sucinta distinção entre o  discurso manifesto e o conteúdo latente dos mesmos. Pega emprestada uma  aparelhagem psicanalítica para reflexão nossa. Não encontrei ditos nem  registrei escritos, mas esbarrei com indizíveis que corriam na vida  mesma do mercado. Não conversei com ninguém, deveras, mas minha andança  nervosa e incessante me deixou ver aspectos velados pela linguagem. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Desço  do ônibus meio cambaleante – eram quase 14:00 – passo pelo calçadão,  atravesso as portas fechadas e cruzo olhares com um mendigo que, logo,  desvia seu olhar do meu. Continuo num passo apressado e vejo – nas  passarelas do Antônio Franco – mesas, mesas e mais mesas a ocuparem o  lugar. Homens bebendo, mulheres conversando, casais brigando, senhores  com instrumentos, carne do sol, cerveja Pilsen.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Ando  um pouco mais apressado e adentro no Thales. Entro e, quando percebo  que tem mais gente por metro quadrado do lado de dentro, penso em sair!  Mas só penso. Pela inércia, continuo. Vejo a D. Maria, de avental, e até  que desejo falar com ela. Minha narradora oficial. Como bem colocou o  velho Benjamin, “o narrador colhe o que narra na experiência, própria ou  relatada. E transforma isso outra vez em experiência dos que ouvem sua  história” (apud Narita, 2006, p.28). Figura rara é o narrador, assim  como rara é a D. Maria. Mas, pelo meu estado de ânimo, fico com medo de  não conseguir levar adiante uma conversa decente. “&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Mas que merda! Por que resolvi vir a campo nesse estado!?!?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;” &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Confesso  que quase bradei isto em plena praça central do Mercado. E, claro, é o  mesmo que as senhorinhas e o rapaz – meus convivas no campo – pensaram.  Mas segurei a minha onda e continuei. Peço, com carinho, que o Senhor  Leitor faça o mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Acalmei  um pouco meus humores e meu passo, e fui até a passarela de flores.  Tinha tanta gente indo e vindo, tantas mesas alocadas nos arredores,  tantas conversas paralelas, perpendiculares, coincidentes, que não  consegui sentir o cheiro das flores. Andei, olhando para uma flor e  outra mas, como eu não parava os pés, ninguém parava pra me dar atenção.  Bola de neve. Antes de entrar na clareira que leva à sessão de  artesanatos, cruzei as gaiolas de animais e, pra minha surpresa, meu  amigo felino não estava mais lá. Tinha sido vendido? Morreu? Tirou o  final de semana de folga? Falar com os carcereiros seria uma boa, mas  ânimo pra falar com gente eu não tinha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Fui  à feira de artesanato. Mais gente! Senhoras abarrotavam uma lojinha de  tecidos e confecções manuais, homens com violões trocavam acordes,  famílias banqueteavam-se nos restaurantes. Tudo muito ruidoso e  movimentado, mas falo no bom sentido, desta vez. Todo mundo muito bem  posicionado. Estavam à vontade demais para serem turistas que,  geralmente, ficam irrequietos girando lá e cá. Como eu!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Ando,  passo pela banquinha de livros usados, encaro um senhor que está  afinando um violão numa mesa de bar e saio do mercado, em direção ao  beco dos cocos. Dou a volta pelo lado de fora, em direção ao “Reino de  Ogum” – meio loja, meio terreiro – mas estava fechado. Parece que os  santos também tiram folga ao final da semana. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;Volto  ao ponto de partida e dou de cara com a alegria figurada naquelas  pessoas. Uma alegria corriqueira e cotidiana. E, digo de novo, não é a  alegria besta e saltitante do turista. É coisa de gente dali. Gente  daqui! Gente nossa, ainda que a gente não seja com eles. Aponto  institucionalizações, esquadrinhamentos e territorializações. Mas o  bonito é que o espaço não consegue aprisionar a história, o  assujeitamento não consegue anular a rotina própria daquela gente e,  claro, as práticas políticas não conseguem conter a vida. O Mercado  transborda vida! Transborda a ação dum povo que, mesmo preso em  coordenadas, brincam e fazem seu próprio uso do espaço dado. Um dado  que, assim como as coletas da nossa intervenção, é produção constante de  nós mesmos...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; line-height: 100%;font-family:georgia;" align="CENTER"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Referências Bibliográficas&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western"  style="line-height: 100%;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);font-size:100%;" &gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;&lt;br /&gt;NARITA, Stella; &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Notas de Pesquisa de Campo em Psicologia Social&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;; In: Psicologia &amp;amp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Sociedade; 18 (2); mai./ago. 2006; pp. 25-31.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;SILVA, Rosane Neves da; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Notas para uma Genealogia da Psicologia Social&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;; In:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Psicologia &amp;amp; Sociedade; 16 (2): mai./ago. 2004; pp. 12-19.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-68053939716486162?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/68053939716486162/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=68053939716486162' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/68053939716486162'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/68053939716486162'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/12/mercado-pontos-e-encontros.html' title='Mercado: pontos e encontros'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-4774667146812675846</id><published>2010-11-29T19:51:00.000-08:00</published><updated>2010-12-02T19:19:46.019-08:00</updated><title type='text'>A praça e a invenção da razão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify; color: rgb(51, 51, 51); font-family: georgia;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TPR4HkDhTpI/AAAAAAAAAO0/3TrZKBR4Yac/s1600/grecia_02.jpg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TPR4HkDhTpI/AAAAAAAAAO0/3TrZKBR4Yac/s320/grecia_02.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5545189112532782738" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;No século V, antes do Cristo, a Grécia estava dividida em muitas micro-cidades, sendo Esparta a maior delas, em extensão. Pela fala de François Châtelet (1994), sabemos que todas as cidades compartilham os mesmos deuses, idiomas e traços culturais, embora guerreiem entre si; contudo, a ameaça de invasões bárbaras, pesando constantemente sobre tais cidades, cria condições para o surgimento dum espírito novo a elaborar um novo urbanismo, novas constituições e, mesmo, uma nova modalidade de pensamento, visto as antigas tradições, míticas e religiosas, não bastarem mais para a manutenção das colônias de tais cidades e da relação entre as mesmas. Esse espírito renovador toma conta, principalmente, duma pequenina cidade de menor importância, Atenas, onde surgirá o que, futuramente, chamar-se-á “democracia”, definida pela igualdade de direitos de qualquer cidadão perante a lei, tendo todos os mesmos poderes para intervir e tomar a palavra nas assembléias, decidindo o destino da cidade.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Na antiga aristocracia, as decisões eram tomadas e aplicadas pela nobreza, descendente dos deuses e duma tradição moral e militar. Já na democracia, a palavra é que ganha estatuto nobre e “quem dominar a palavra dominará a cidade” (ibidem, p.16). A democracia ateniense se restringia a seu próprio território, porém. Os bárbaros oriundos da Pérsia, não obstante, invadiram as colônias gregas por duas vezes (490 e 480 a.C.) sendo a mirrada Atenas a cidadela que travou os combates mais decisivos contra tais invasões, em especial na Batalha de Salamina. Atenas, a partir daí, torna-se modelo de governo, e o gosto pela palavra toma conta da Grécia inteira.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Châtelet (1994) usa do termo grego &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;tekhnê, &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;demarcando o sentido duplo a que o mesmo aponta – podendo ser tanto um conhecimento aplicado quanto uma produção original, tanto uma técnica quanto uma arte – para explicar a importância do desenvolvimento da palavra na cidade, acarretando o nascimento dum saber específico: a retórica. Ocupar um lugar numa tal cidade implica, necessariamente, saber falar. Em específico, saber convencer. E, como em geral ocorre, o surgimento duma &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;tekhnê&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;promove o nascimento duma profissão. Platão muito nos fala desses professores da democracia, chamando-os com uma expressão que, em sua escrita, ganhou sentido pejorativo. A retórica, enquanto conhecimento de técnicas específicas, possibilita a existência dum intelectual que sabe falar, dum profissional que domina a linguagem: eis o sofista, pois.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;A realidade social grega cria o personagem do sofista, extremamente colado a suas exigências democráticas de saber como convencer o outro. Por outro lado, havia o&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;aristocrata, representante duma tradição gloriosa, deveras, mas envelhecida e não mais articulada às exigências do real. Entre esses dois vetores, podemos situar a aparição duma figura no mínimo curiosa, oriunda – ao contrário dos estrangeiros sofistas – da própria cidade de Atenas. Entra em cena Sócrates que, para o Châtelet (ibidem), é um sofista a seu próprio modo, com a diferença de que não abre escolas nem pede dinheiro aos cidadãos com que trava suas conversas. Fala em nome de seu gênio pessoal, diz.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Sócrates é cidadão ateniense e, como tal, sério cumpridor de seus ofícios na &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;pólis&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;. Sua profissão, no entanto, é falar com seus conterrâneos. Fala por prazer, por lamentar ver seus convivas se entregarem “à imoralidade e ao gosto pelo luxo” (ibidem). Num típico diálogo platônico, podemos ver Sócrates em seus diálogos a desdizer os juízos dos seus interlocutores e desmontar suas argumentações. Fala que, para responder ao que quer que seja, é preciso saber o que está contido na pergunta, conhecer a idéia que nela se encontra e, assim sendo, dar-lhe uma representação adequada. Sócrates inventava o que, em nossos tempos modernos, chamamos de conceito (ibidem). Começa a ser inaugurada a filosofia como a conhecemos, hoje.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Com seus argumentos destrutivos, Sócrates abalava as certezas sobre as quais a cidade ateniense estava construída. Procedia com refutações sistemáticas aos aristocratas, defensores da antiga ordem; aos sofistas, mestres da democracia; e ao cidadão comum. Coloca que o número de votos não faz a verdade. Saber construir um barco ou costurar sapatos não nos torna capazes de dirigir a cidade, dizia. Destruía a argumentação moral do aristocrata, a retórica sedutora do sofista e a logística da própria democracia ateniense. Tornou-se insuportável a todos! Refutava o discurso da autoridade, a retórica do competente e a opinião da maioria. Não é a toa que foi condenado à morte por cicuta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Platão, através de Sócrates, se propõe a produzir um princípio condutor de toda ação. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;“&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Se a razão não governar, a força prevalecerá”. De onde se originou este debate pouco importa, mas no &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Górgias&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;, de Platão (apud Latour, 2001), ele é apresentado com muita clareza. O que se afigura não é a simples oposição entre razão e força, o direito e o poder, filosofia e retórica, Sócrates e Cálicles, mas o poder de um, o patrício, contra a força de muitos, a massa. Sócrates é irônico quanto ao poder de Cálicles, mas ele mesmo defende e tenta manejar um poder maior, capaz de controlar os “dez mil papalvos”: o poder da igualdade geométrica, o poder da razão, ignorado por Cálicles e pelos atenienses. A palavra filosófica se sobressai aos demais modos de dizer e se constitui como verdade. É ainda mais profundo, notem, visto constituir o próprio conceito de verdade (CHÂTELET, 1994)! Julga não somente os discursos mas, também, as condutas. Discurso totalitário!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;É neste cenário disposto que a vida social se inventa. A construção das relações éticas, diz-nos Vernant (2006), na Grécia da antiguidade, passa pela constituição dos espaços públicos a se oporem às inúmeras sociedades e confrarias secretas. Os jogos políticos, outrora restritos à nobreza, ganham a praça e tornam-se controvérsia pública. A palavra perde&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:100%;"&gt;seu estatuto ritual e se torna instrumento de debate. As leis, ainda que figurem como superioridades a guiarem o social, preservam um fundamento demótico atento às transformações e nuances da vida na &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;pólis &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;para a elas se adequarem (MACHADO, 1999). &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;a style="font-family: arial;" href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TPR4WbtKl6I/AAAAAAAAAO8/8h3vq42TkLo/s1600/atenas.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 213px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TPR4WbtKl6I/AAAAAAAAAO8/8h3vq42TkLo/s320/atenas.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5545189367989573538" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;a name="BLOGGER_PHOTO_ID_5545189367989573538"&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Essa democracia, libertária e cidadã, passa a não suportar algumas desigualdades e incoerências que ganharam atenção pública, como a escravidão numa cidade que pretende representar o exercício ético da virtude política (VERNANT, 2006). Essa crise na &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;pólis &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;grega, iniciada no século VII e prolongada até os anos seiscentos a.C., é caracterizada por uma notável dis&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;cussão sobre os sistemas a regerem nossos valores e o mundo. Nos séculos V e IV pré-cristãos, identificam&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;os um deslocamento na atenção da filosofia, tornando as questões cosmogônicas e geométricas de outrora submissas às discussões éticas, às teorias políticas e às epistemologias. A cidade grega inventa a dialética filosófica que, como vimos, anseia produzir discursos universais e totalizantes. Verdade. Mas, ainda assim, o discurso sai das academias esotéricas e das confrarias a&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;ristocráticas para ganhar a praça pública, seja a praça do sofista, o bom falador, seja a fala do filósofo, missionário do verdadeiro...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="CENTER"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;CHÂTELET, François; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;A Invenção da Razão; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;In Uma história da razão: entrevistas com Émile Noël; trad. Lucy Magalhães; Rio de Janeiro; Jorge Zahar Editora; 1994; pp. 15-33. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;HERODOTUS; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Diary of Xerxes' campaign; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;disponível em &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.livius.org/he-hg/herodotus/diary.html"&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="zxx"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;u&gt;http://www.livius.org/he-hg/herodotus/diary.html&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;LATOUR, Bruno; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;A Esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;trad. Gilson César Cardoso de Souza; Bauru: EDUSC; 2001. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;MACHADO, Leila; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;Ética&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;; In Barros, Maria Elizabeth; Psicologia: questões contemporâneas; Vitória: Ediufes; 1999. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0.5cm; line-height: 150%;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;VERNANT, Jean-Pierre; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;As origens do pensamento grego; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia,serif;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;trad. Ísis Borges da Fonseca; 16ª ed.; Rio de Janeiro: Difel; 2006.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: georgia; color: rgb(51, 51, 51);"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-4774667146812675846?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/4774667146812675846/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=4774667146812675846' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4774667146812675846'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4774667146812675846'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/11/praca-e-invencao-da-razao.html' title='A praça e a invenção da razão'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TPR4HkDhTpI/AAAAAAAAAO0/3TrZKBR4Yac/s72-c/grecia_02.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-1212461924716650730</id><published>2010-11-02T11:13:00.000-07:00</published><updated>2010-11-15T17:12:34.381-08:00</updated><title type='text'>Centro de indeterminação</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu, mesmo, separaria a trajetória do Gilles Deleuze em três fases, do mesmo modo que os doutos fazem com o Platão: uma primeira, dedicada à história da filosofia (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Empirismo e Subjetividade&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Diferença e Repetição&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lógica do Sentido&lt;/span&gt;); uma segunda, em colaboração com o Félix Guattari (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Anti-Édipo&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mil Platôs&lt;/span&gt;); e uma terceira, dedicada ao estudo do conceito - e dos afectos e perceptos que aquele comporta - através das imagens, em especial das imagens pictórica e cinematográfica (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lógica da Sensação&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Imagem-movimento&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Imagem-tempo&lt;/span&gt;). Falaria, também, da influência de certos filósofos sobre o sistema deleuziano, em especial Spinoza, Nietzsche e Bergson, dos quais o Deleuze se apropria de diversos conceitos (imanência, potência, duração) para a constituição de seu próprio pensamento. Recomendaria, para o neófito desejoso em adentrar no conjunto da obra deleuziana, a leitura de algumas entrevistas disponíveis no seu &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Conversações&lt;/span&gt;, como &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Carta a um crítico severo&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Dúvidas sobre o imaginário&lt;/span&gt; e, principalmente, seu afamadíssimo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Os intercessores&lt;/span&gt;. Lapido aqui, lapido ali, lapido acolá e construo, com todo esse meu labor de ourives-pensador a unidade do pensamento de Gilles Deleuze.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Que contraditório afirmar-se um especialista na obra deleuziana! Platão permitiria isto com a sua trajetória, já que é um pensador das identidades e semelhanças. Homem de idéias! Mas o Deleuze, que prima pela diferença e pelo movimento, pelo afeto e pelo fluxo, não se sentiria muito feliz ao me ouvir falar em "fases da trajetória", "unidade do pensamento", "leituras iniciais", "sistema deleuziano", "conjunto da obra" e outros pecados que cometi no parágrafo anterior. Ganha um doce quem descobrir a todos! E ganha uma caixa de chocolates inteira aquele que já sacou aonde esta postagem pretende chegar. Mesmo que o erre no final, pois é esta potência do falso mesma que o Deleuze pontua ao caracterizar o pensamento. Não o substantivo, mas o verbo. Pensar! E verbo sem pronome, este. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Para o Deleuze, as coisas se dão por dom ou captura. Imagem bonita. Diz o menino que a leitura dum livro de filosofia em muito se assemelha à escuta duma música qualquer. Ou a música nos convém ou não nos convém. Simples complexidade. Posso, muito bem, submeter meu corpo a uma ascese severa que me possibilite - eu, brasileiro, nordestino, classe média - a gostar de, sei lá, música clássica italiana, cançonetas do renascimento, rapsódias polonesas, estudos russos. Mas julgo muito difícil entrarmos em contato com a diferença e não lhe sermos indiferentes. A menos que, num e noutro ponto de sua trajetória, a música, o pensamento, o movimento nos capturem e nos levem com ele. Enquanto para a tradição mais carola da filosofia, o pensamento seja uma faculdade capaz de representar e represar à sua própria maneira o fluxo do real, como uma aldeia a se aproveitar das margens férteis do rio, em Deleuze intuimos um pensamento que é, ele mesmo, o rio a arrastar, em sua corrente incontrolável, os corpos que habitam as suas margens. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Pensar, pois, é realizar encontros. Seja na arte, na ciência, na filosofia. Lembro de meus tempos de católico romano - a uns 5 anos passados, mas  um passado que não mais parece me pertencer - e da força que me constrangia a buscar um embasamento melhor encadeado para as proposições que já eram verdades em mim. Descobri o Platão. Seu mundo de idéias oferecia-me um correlato perfeito da noção de paraíso, típica da cristandade ressentida. Li o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Fedro&lt;/span&gt;, o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Fédon &lt;/span&gt;e a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;República&lt;/span&gt; antes da minha adultescência, lá encontrando um bom espaço para repousar meu corpo. Mas o pensamento não para nunca! Movimento incessante. E mesmo tendo encontrado no Platão um bom amigo - daqueles cujo vocabulário tomamos de empréstimo e tudo o mais - o fluxo da vida levou-me a outros lugares. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Conheci, por acidente, o Jung. Sua teoria dos arquétipos em muito se assemelhava aos personagens conceituais da fantasia medieval, que eu conhecia dos jogos de interpretação e da literatura inglesa.  Enganado pelo caráter "RPGístico" de sua obra, acabei encantado pela sua psicologia profunda, numinosa, quase mística. Na mesma época, mantive relações com o espiritualista Huberto Rohden, a quem muito devo até no estilo de escrita. Esbarrei-me, em posterior,  nalguns escritos sobre o príncipe Sidarta. Buda informe. E, com ele, fiz nova parceria, tentando - inclusive! - apresentá-lo a meus velhos convivas. Não se deram muito bem e, com o tempo, comecei a andar mais com o Sidarta, que me apresentou novos amigos. Krishna e Lao-Tsé, seus nomes, embora o Platão ainda vivesse em mim, de alguma maneira. Nesta mesma época, entro em contato com os honrados samurais e sua ética. Depois de conviver com essa galerinha de olho puxado por algum tempo, minha permanência nos espaços da igreja romana se tornou insustentável. O pensamento em mim demandou a construção de novas espacialidades, ainda que inomináveis em mim. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Dentro da universidade, não consegui estabelecer cumplicidades a respeito do Jung. Foi deixado de lado, então, e deu lugar a outras amizades. Veio o Heidegger, o Foucault, os pré-socráticos. E, claro, o Bergson, que desde o 2º período letivo do curso de Psicologia me acompanha, mas só em recência começou a encarnar em mim. Com o Bergson, o Nietzsche, os sofistas, a Análise Institucional pós-Maio de 68, o Bruno Latour, começo a pensar o pensamento não como uma faculdade do eu, à maneira de um Descartes e sua mente-coisa-pensante, mas como um devir ininterrupto de homens e coisas, sendo a consciência, o eu, um simples relé dessa rede. Só depois dessa história toda é que o Deleuze, antes um ininteligível filósofo francês, ganhou sentido e vida em mim. É a trama tecida que sustenta o personagem e seus diálogos. É a memória que possibilita e dá suporte a uma matéria. A história-de-mim produziu um corpo capaz de suportar algo do Deleuze, assim sendo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Dizer do pensamento como um fluxo do real é um meio-termo entre a faculdade do juízo cartesiana e o pensamento acentrado esquizofrênico. O eu é como que um cristal do tempo, um fractal a recontar, a todo momento, a história do todo a lhe originar. Deleuze me diz de mim, de minha história toda. O mesmo do Bergson. E o mesmo do Platão, aquele mesmo lá no início da trajetória. Cada ponto que nossa inteligência demarca é um tijolo a carregar toda a estrutura da casa e a reinventar a história do universo em nós, cada vez que a contamos e recontamos. O eu é fruto da trama do mundo, é seu centro de indeterminação, visto não ter um passado definido, passado-baú-de-lembranças, nem um futuro determinado, visto ser acumulação da história e consequente criação de si mesmo e do universo. Sou parte do mundo, mas sou o mundo em sua plenitude, ao mesmo tempo. Sou imagem do mundo e filho da sua imaginação. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Penso, logo sou,&lt;/span&gt; diz o outro. Infere, do pensamento, uma unidade sólida e definida a lhe servir de causa. O eu como verdade indubitável, como realidade clara e distinta em si mesma! Delírio de grandeza por excelência é o eu achar-se alguma coisa, não sendo - em verdade - coisa alguma. O mundo é que pensa! Não é de uma Psicologia que precisamos, mas duma Psicopatia; não duma ciência fria para bem delimitar as partes do todo, mas duma ética afetiva que nos obrigue a tomar posição diante da diferença. Deleuze sabia disso. E o Bergson. Nietzsche também, com toda a certeza. Talvez o Platão - mentiroso político! - também o soubesse, mas rendeu-se aos confortos da identidade. Ficou na mesmice...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-1212461924716650730?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/1212461924716650730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=1212461924716650730' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1212461924716650730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1212461924716650730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/11/centro-de-indeterminacao.html' title='Centro de indeterminação'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-5569929424823165540</id><published>2010-10-08T18:47:00.001-07:00</published><updated>2010-10-09T14:59:51.120-07:00</updated><title type='text'>O erro de Husserl</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TLDjWifwEnI/AAAAAAAAAOc/J0jQGmhYLTk/s1600/Edmund_Husserl_1900.jpg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 244px; height: 305px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TLDjWifwEnI/AAAAAAAAAOc/J0jQGmhYLTk/s320/Edmund_Husserl_1900.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5526166719140205170" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Título pretensioso à beça, eu sei. Como um moleque tem a audácia de falar o que seja sobre o paizão da Fenomenologia? Husserl foi aluno do medievalista Brentano, estudou em Leipzig e Berlim, é cria direta do racionalismo ocidental de Descartes, Leibniz e Kant, doutorou-se com uma tese - incognoscível a minha pessoa, saliento - sobre o conceito de número e trabalhou, antes de forjar seu projeto fenomenológico, numa verdadeira filosofia da aritmética. Contruiu noções cabeçudas, como a Redução Fenomenológica, a Região Eidética, o Sujeito Transcendental. E, principalmente, fecundou o pensamento e lhe deu nova vida, principalmente no que toca à epistemologia e à ontologia.  São tributários diretos do Edmund a fenomenologia estrutural do Merleau-Ponty, a hermenêutica do Heidegger, o existencialismo do Sartre, a &lt;em&gt;Gestalttheorie &lt;/em&gt;dos meninos da escola de Berlim, só para citar os que já tive a decência de estudar. A oposição entre mecânica e dinâmica, partes-extra-partes e conjuntos de relações, estímulo-resposta e totalidades ordenadas - ainda presente no fazer científico das físicas, das biologias, das psicologias - tem seu débito no pensamento husserliano.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Colocando as coisas dessa maneira, aparece-nos com clareza que o título desta postagem  se deu como fruto de desentendimento da minha pessoa frente à pedreira conceitual que é a obra do Husserl. Se o for, que seja! Filosofia se faz através de desentendimentos e entraves, de qualquer maneira. No caso contrário - aquele no qual se entra tão profundamente no plano de experiência dum sistema teórico - passamos a constituir o mundo tal qual o filósofo, e nos tornamos, ademais, simples comentador deste. Prefiro, pois, minha precariedade criativa. O próprio Husserl colocava que &lt;span style="font-family:georgia;"&gt;havia um certo desejo secreto, em todo filósofo, de ser o fundador e o findador do conhecimento, entendendo por filosofar não a busca do conhecimento de isto ou aquilo, mas do que fundamenta, baseia, sustenta - chão firme, terra natal, plano de consistência  - isto e aquilo. Husserl não pergunta "o que é &lt;span style="font-style: italic;"&gt;isto&lt;/span&gt;?", mas "o que é &lt;span style="font-style: italic;"&gt;o que é&lt;/span&gt;?" &lt;/span&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Recusando tanto o terreno elameado da especulação metafísica quanto o chão duro da formalidade  positivista, Husserl segue um terceiro caminho, ansiando nos colocar no  mesmo plano da realidade, das “coisas mesmas”, como gostava de dizer. O fenômeno - conceito kantiano, atentem, embora Husserl faça seu próprio uso da ferramenta - é lastrado de  pensamento. É &lt;em&gt;logos&lt;/em&gt; ao mesmo tempo que &lt;em&gt;fenômeno&lt;/em&gt;. Não existe nenhum fato do qual possamos dizer que ele não é nada. Se não nos perguntamos &lt;em&gt;“o que é!?”&lt;/em&gt;  a um algo qualquer é porque já acreditamos sabê-lo. Todo fenômeno  traduz-se pela possibilidade de ser nomeado, designado, essencializado. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;As essências, aqui, enquanto estruturas &lt;em&gt;a priori&lt;/em&gt; do pensamento,  independem da experiência sensível, embora se manifestem através desta.  Mas tal assertiva não é, necessariamente, inovadora; Platão já criara  um mundo de idéias condicionante do sentido das coisas. A grande sacada  de Husserl foi retirar as essências de sua morada transcendente e  inteligível e fazer seu retorno às "coisas mesmas”. Coloca-as na consciência,  pois é como visada de consciência que elas se manifestam a nós. A intuição das essências, logo, não se identifica às factualidades materiais,  mas sim ao sentido ideal que lhe atribuímos, como o menino que chama de  círculo a gravura levemente oval que suas mãos trêmulas e descompassadas  desenharam. E é aqui que começo a engasgar com o husserlianismo. Antes de expor minhas desavenças com o barbudinho, acho interessante lapidar um pouco mais seu pensamento, seja para dar sentido à minha crítica, seja para prestar homenagem a este inegável - e obssessivo! - gênio. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A consciência - diria Husserl-inspirado-por-Brentano - é sempre “consciência-de-algum-objeto”, só é consciência  estando dirigida, buscando sentido, intencionando coisas. Já os objetos  só podem ser nomeados e definidos em relação a um sujeito, sendo sempre  “objetos-para-uma-consciência”. Chama-se a isto pelo bonito nome de Princípio da Intencionalidade. Até aqui, não nos parece nada além do que um Kant ou mesmo um Schopenhauer já não tenham colocado abertamente, ao lapidarem - cada um a sua maneira - uma teoria da representação. O que o diferencia dos representacionistas é que, para Husserl, as essências não existem  fora do ato de consciência que as visa e as apreende. Não há númeno! É impossível sair desta correlação sujeito-objeto – &lt;em&gt;noese&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;noema&lt;/em&gt; – já que, fora deste relacionamento, não há nem um nem outro. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Então. A consciência é constitutiva das coisas do mundo. Noética. O sujeito-todo-poderoso é que dá sentido ao real com as suas visadas de consciência. Beleza. Toda a fenomenologia husserliana é uma tentativa, assim, de descrever, delimitar, criticizar a consciência. Estudar as essências da consciência constitui, para Husserl, a fenomenologia. O próprio Husserl, no entanto, esqueceu do movimento segundo que constitui seja o mundo seja essa consciência que o constitui. Noemática. A fenomenologia de Husserl possui caráter notavelmente noético, puxando a  correlação consciência-objeto para o lado do sujeito. Sua filosofia é,  grosso modo, idealista e transcendental, visto que o mundo se dá pela  consciência que o constitui, deixando de lado o movimento oposto dessa correlação: as coisas mesmas que, articuladas entre si, configuram uma consciência! E a consciência, esta mesma constitutiva das coisas e constituída por elas torna-se, ela mesma, coisa lançada ao mundo! E este é o ponto que acho mais difícil de encaminhar. Vamos a um exemplo do próprio Husserl para clarear o pensamento. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Suponhamos uma consciência no mundo. Ou seja: pense em qualquer coisa! Um número, uma paisagem, o interior duma casa, um sentimento de medo ao andar de montanha-russa, a tensão antes duma prova importante. Pois bem! Nossa consciência, constitutiva destas coisas, vai realizar um exercício de imaginação, agora. Começemos a destruir o mundo em nossas cabeças. Quem pensou em paisagens, por exemplo, que vá apagando todas as partes que compõem a imagem, até não sobrar nada. Apaga-se o sol, o céu, o chão, as árvores,  os caminhantes. Isso, isso, isso. Façamos o contrário, desta vez. Deixemos o mundo intacto e passemos a destruir a consciência. Anulemos a percepção, a compreensão intelectual, as emotividades. Conseguiram? "Claro que não", diria o Husserl, pois ao mantermos o mundo intacto ainda estamos mantendo uma consciência - a nossa! - a lhe visar. Um a zero para a consciência neste simples embate. E, assim, conseguimos colocar, ainda que singelamente, a superioridade da consciência sobre o mundo no husserlianismo. Mas o Husserl, no processo de destruição da realidade, tem a crença intelectual de que o  Ser original veio preencher um vazio, um Nada que preexistia à existência deste Ser mesmo, um Nada que pre-existe sem precisar de explicação alguma. O Nada como uma abstração lógica, mas vazia, para fazer funcionar nossos esquemas explicativos. Fiz uma melhor discussão deste problema &lt;a href="http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2009/11/intuicao-como-metodo.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;, para os que quiserem atingir o problema mais profundamente. Os que quiserem me acompanhar na política da precariedade, que sigam em frente. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A consciência do Husserl não é coisa lançada ao mundo, mas o ser mesmo que o constitui. Platão ficaria orgulhoso. Sofistas, poetas, artistas, todo o resto da pólis olharia com estranheza para tamanho idealismo. A razão grega é filha da cidade. O &lt;span style="font-style: italic;"&gt;homo sapiens&lt;/span&gt; é, antes, um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;homo politicus&lt;/span&gt;. E a idealização da realidade coloca a vida no plano do conhecimento intelectivo. Exemplo. Estou a escutar, no momento em que escrevo estas ousadias, o novo CD que a Roberta Sá gravou, em parceria com o Trio Madeira Brasil. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Quando o Canto é Reza &lt;/span&gt;é o nome do álbum, e só têm composições do baianíssimo Roque Ferreira. Situação um. Noutro caso, eu estou sentado na primeira fileira do Teatro Tobias Barreto - aqui, pertinho de casa - vendo a Roberta interpretar &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Zambiapungo&lt;/span&gt;, uma de minhas músicas preferidas do disco. Num terceiro momento, estou num bar, na ladeira do Bonfim, escutando o próprio Roque cantar e tocar no seu violão, rodeado de vendedoras de acarajé e cocadas, baianas fogosas e manolos meio bêbados. O nosso momento número 4 é que o CD - cheio de riscos e arranhões - começou a gaguejar em todas as canções. E, por fim, no quinto contexto, eu arrumo a cifra de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Zambiapungo&lt;/span&gt; e começo a tocá-la no violão. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Cinco Zambiapungos. Em todos os casos, entretanto, um ouvinte que conhecesse este trabalho da Roberta Sá ou as músicas do Roque Ferreira, diria: "trata-se de Zambiapungo, ora", seja com a Roberta no Teatro, com o Roque no bar ou comigo, num luau. Trata-se do mesmo "conhecimento", mas não da mesma "compreensão" ou "existência". A intuição das essências, a que alude o Husserl, em geral descamba na transformação do devir em categorias transcendentes e, pior, num sujeito fora do mundo a lhe constituir. Não há nem mundo nem sujeito! Há a dança da existência, sem centros, referenciais ou idéias. A totalidade é anterior às partes, que se revelam nesta totalidade mesma! &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TLDj67vHOfI/AAAAAAAAAOs/2wfBJ3QYrTY/s1600/luz.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TLDj67vHOfI/AAAAAAAAAOs/2wfBJ3QYrTY/s320/luz.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5526167344390814194" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Enquanto Husserl pressupõe um sujeito e um mundo - duas realidades - e cria uma tecnologia filosófica para erigir uma ponte entre ambos, acho mais saudável considerar a existência como um devir para além de toda relação mecânica, ou mesmo dinâmica, entre as partes. Distinguir mecanicismo de dinamismo, como dois modelos teóricos, duma terceira opção, um campo de práticas, deve ser um próximo texto a figurar por estas bandas. Por enquanto, adianto. Não se trata de homens e coisas se relacionando, mas de imagens e figuras de luz a se atravessarem,  dobrarem-se, ganharem consistência e servirem de ecrã umas às outras. O &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Matéria e Memória &lt;/span&gt;trata, exclusivamente, dessa maluquice toda. Antes do homem e da máquina, há a interface. Bergson e Einstein ao invés de Husserl e Newton. Antes dos corpos, há a luz. Absoluta luz...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-5569929424823165540?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/5569929424823165540/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=5569929424823165540' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5569929424823165540'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5569929424823165540'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/10/o-erro-de-husserl.html' title='O erro de Husserl'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TLDjWifwEnI/AAAAAAAAAOc/J0jQGmhYLTk/s72-c/Edmund_Husserl_1900.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-257935098754313341</id><published>2010-10-02T19:59:00.000-07:00</published><updated>2010-10-02T21:21:17.268-07:00</updated><title type='text'>Comme il faut</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Véspera de eleição. Acordo tarde por ter atravessado a madrugada. Chico Buarque, fenomenologia, função parental, poesia libanesa, o Pequeno Príncipe, seriados ingleses. Conversas, sono, sonho e despertar. Um café, dois biscoitos, três minutos pra digerir isto tudo. Depois de ajeitar meu cantinho - varre poeira, recolhe traça, vasculha teias - resolvo assistir um filme, só pra descansar as idéias. Vasculho meus arquivos e ponho um Truffaut pra rodar. Bonito. Tristeza sem necessidades. Por isso, bonito. Findado o sublime, resolvo dar conta de toda a leitura atrasada que pilha e empilha sobre o chão de meu quarto. Começo a jornada. A edição de abril da &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Piauí&lt;/span&gt;, um artigo sobre a ontologia bergsoniana, algo do Merleau-Ponty sobre aprendizagem e comportamento, um conto do Lev Tolstói. Uma cerveja escura faz companhia a mim, mas não se demora em sua visita. Resolvo convidar sua prima, uma holandesa, para continuar a prosa, mas ela também insiste em não durar. Entretido com a vida do decente Ivan Ilitch, dou conta de mim como num lampejo. Compreensão profunda! Ligo o computador. Seleciono o usuário, cuja imagem de exibição é o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;vieux guitariste aveugle&lt;/span&gt;, do Picasso. Caio na área de trabalho, cujo papel de parede é um quadro pré-impressionista do William Turner. Entro no messenger e dou de cara com a mesma amável pessoinha com quem adoro compartilhar meus silêncios. E o ciclo parece se reiniciar. Conclusão: que pedante do caralho, eu sou!...&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TKgDJdT3JMI/AAAAAAAAAOU/TQOH6g4rT5o/s1600/Macaco-nerd-581.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 296px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TKgDJdT3JMI/AAAAAAAAAOU/TQOH6g4rT5o/s320/Macaco-nerd-581.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5523668403991553218" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-257935098754313341?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/257935098754313341/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=257935098754313341' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/257935098754313341'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/257935098754313341'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/10/comme-il-faut.html' title='Comme il faut'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TKgDJdT3JMI/AAAAAAAAAOU/TQOH6g4rT5o/s72-c/Macaco-nerd-581.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-8261502269954496219</id><published>2010-09-29T16:51:00.000-07:00</published><updated>2010-09-29T17:55:15.070-07:00</updated><title type='text'>O pensamento, temporalidade e a política de imagens</title><content type='html'>&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;Um ano em 10 minutos. Uma contração temporal – precária, sempre precária – se dará aqui, conosco. Bloco de espaço-tempo bergsoniano. Dispenso fotogramas, vídeos ou qualquer outro recurso de imagem, para que a própria fala se configure como imagem disparadora. Pois bem. Essa minha fala, fala em mim, é produto da pesquisa &lt;/span&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Produção de imagens e os modos de imaginação: pensamento, cinema e contemporaneidade&lt;/span&gt;, vinculada ao PIBIC, que visou analisar processos de produção-consumo de imagens, articulando-os ao acionamento da imaginação no contemporâneo. Procuramos criticizar o pensamento e os modos de produção da atividade cinematográfica contemporânea, demarcando, por fim, a disposição de encontro com um cinema que busque se constituir como uma estética que permita a coexistência temporal. Bergson, mais uma vez.&lt;/span&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Como parte desse projeto de pesquisa, foi ofertado – no 2º semestre de 2009 – a disciplina &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Tópicos Especiais em Psicologia Social e Institucional&lt;/span&gt;,&lt;/span&gt; &lt;span lang="pt-BR"&gt;na qual todos os envolvidos nesta pesquisa tomaram parte. Como objetivos a serem atingidos em sala de aula estavam o compartilhar experiências e leituras do cinema contemporâneo, discutindo sobre a produção de imagens e dimensionando, assim, possibilidades de imaginação. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Nossas conversações em sala de aula transbordaram num espaço de registro e de produção coletivos – a saber, um weblog aberto, que servia tanto como dispositivo acadêmico, visto que seriam as postagens no blog usadas como sistema de avaliação, quanto um lugar de discursos e discussões, pois o sítio eletrônico servia como extensão das prosas disparadas em sala de aula.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;Esbarramo-nos, tanto em sala quanto no blog, com filmes que confortam e põe soluções; e filmes que colocam mais perguntas que respostas. Duas modalidades do fazer cinema: películas que apertam o coração e películas que retiram o chão. Trabalharemos nisto, mais adiante. Um desvio de percurso, agora. Luis Antonio Baptista, num dos sublimes capítulos de seu A Cidade dos Sábios,&lt;/span&gt; &lt;span lang="pt-BR"&gt;discute&lt;/span&gt; &lt;span lang="pt-BR"&gt;a condição de escuta em narrativas onde o que está em jogo é a fabricação do indivíduo. Fala duma escuta clínica, definida pelo processo de ensurdecimento da realidade histórica do acontecido, buscando dar conta do que seja o verdadeiro no evento mesmo. Em posterior, aponta uma escuta solidária, marcada por uma relação, na qual os sentidos e encaminhamentos são frutos duma realização comum de forças e interesses que trabalham coletivamente.&lt;/span&gt;  &lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Um outro modo de apresentar essa discussão é apontar para os processos de produção que individualizam as experiências do viver e os modos de subjetivação marcados por uma política da coletividade. Entretanto, essas duas lógicas têm dinâmicas conflitantes nos modos de operar no tempo e no espaço. Esse conflito se revela nos termos que já dispomos: como processos que apertam o coração ou que retiram o chão. Ao invés da audição, no entanto, problematizamos aqui os modos de visão.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Cabe a mim, aqui, alguma definição desse olhar para bem colocar este problema. Poderíamos tomar o olhar como algo que produz intencionalmente o mundo e daí outros subsequentes olhares que recebem e assimilam esse mundo. Nessa relação, teríamos um super-olhar – olhar privilegiado – produzindo os modos de olhar, enxergar, ver. Um grande olho, que se faz e se quer verdadeiro, produzindo olhos. Decidimos, no entanto, por outra expressão que pontua melhor o nosso plano de experiência. Resolvemos trabalhar com a noção dum olhar parcial como força que participa dos processos de produção de sentido. A ele, designamos a expressão olhar precário.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;O olhar precário possui essa sina, eterna seara, de não se bastar, e com ela pode encontrar aquilo que seja capaz de potencializar ainda mais a parcialidade do seu alcance visual. Ou seja, o incremento da sua insuficiência, da sua precarização. É olhar que possibilita a invenção das imagens que mira e não sua decodificação. Bruno Latour nos diz: o&lt;/span&gt; &lt;span lang="pt-BR"&gt;ato de conhecer – melhor dizendo – o ato de produzir saber não está no registro do transcendental sujeito conhecedor, nem na imposição à realidade pela coisa mesma a ser conhecida. O olhar é fruto de articulações coletivas, de encontros e colisões entre homens e coisas, humanos e não-humanos. É, portanto, necessariamente precário.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;A&lt;/span&gt; &lt;span lang="pt-BR"&gt;precariedade do olhar soa e ressoa como condição para uma política por intercessores. Deleuze aponta para um modo de precarização criativo e parceiro nos modos de composição do mundo. Diz que esse olhar se opõe aos pré-estabelecidos, às formas colonizadoras. Fabulação dum povo que ainda não existe. Parece emergir, daí, a questão de como algo que ainda não é pode resistir a aquilo que já é. Vejamos. Com Nietzsche, aprendemos nós a buscar encontros e não uma extensão. Não se trata de interpretação, mas de maquinação. O que quero dizer, ainda com Nietzsche, é que antes da emergência de uma vida instrumental, havia a vida, em qualquer tempo. Antes do super-olhar, olhos. A imagem que pretendo construir: a vida normativa é quem resiste ao olhar precário, no sentido da invenção da vida. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;Caio no olhar total, agora. Olhar, este, que busca através da instrumentalização do seu próprio foco ultrapassar a sua condição de precariedade. Um olhar que busca se dispor como “O Olhar”, com aspas, &lt;/span&gt;“&lt;span lang="pt-BR"&gt;O”&lt;/span&gt; &lt;span lang="pt-BR"&gt;maiúsculo e tudo o mais, subvertendo a sua singularidade perceptiva por um modo de identificação persecutório. Panóptico. Máquina de Visão. Foucault e Virilio. Um olhar com razões que buscam se estabelecer antes da experiência do ver, para que o ver seja aqui o que se permite enxergar, aquilo que vai se dar as vistas, o verdadeiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Em resumo. Cabe, aqui, a crítica entre as forças que pontuam a condição de uma totalidade, ainda que finita e arbitrária, para as experiências do ver, o que definimos como olhar total, e uma outra condição que prima pela autonomia da imprecisão do ver e que aponta para produção de alternativas ao que está dado, o que tomamos por olhar precário. Como campo para este problema, tomamos – repito! – o cinema e duas experiências estéticas: as que apertam o coração e aquelas que retiram o chão.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;O cinema como máquina que reforça; ou acusa essa condição de controle. O cinema como um entretenimento que ativa uma experiência sensório-motora; ou o cinema que se propõe uma dimensão estética que aciona possibilidades de diferença, que busca outra dimensão temporal que não o aqui-agora, demandando assim a criação de outras articulações do real. Produção de permanências ou jogo de descaminhos. As forças que trabalham por uma captura sentimental o fazem atuando como máquinas de repetição. A sua linguagem qualifica-se pela capacidade de síntese que uma experiência estética possa produzir. O cinema-que-aperta-o-coração assume uma dimensão industrial no seu fazer, fabricando experiências áudio-visuais voltadas para demandas sensório-motoras, que funcionam ao mesmo tempo de modo genérico, quando tomando seu público por conjunto, e também particular, quando viabiliza uma sensação de intimidade com o indivíduo, que se permitira uma absorção sentimental com aquilo que passa na tela. O filme de coração apertado é muito mais um caso que uma narrativa. Um exemplo que uma experiência. Não maquina, mas diz do movimento. História que identifica, visto ser história do indivíduo. Logo, história possível de cada um de nós.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;O outro modo de cinema que disponho, aqui, é o cinema-que-retira-o-chão. Esse cinema atua noutra dimensão política, se posto em comparação com o cinema-que-aperta-o-coração. Retirar o chão é como que demandar desterritorializações, em oposição às zonas de conforto configuradas pelo cinema sensório-motor, anunciando um convite a outros possíveis territórios. É investir num tempo não disposto no instante, mas marcado por uma política do futuro do pretérito, por uma história efetiva. Nietzsche-Foucault. O filme sem chão mais desmancha que edifica, mas um desmanche que não configura dano. Nele, o imaginado subjaz ao inusitado.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;O olhar precário busca, devido a sua percepção parcial, pares para que uma visão se dê. É na parcialidade e no encontro que se dá. O super-olhar, modalidade de exercício do olhar precário, se quer absoluto, tal qual a máquina de visão do Virílio que busca a produção dum sentido de totalidade. Pretensioso, o super-olhar quer estar em todos os lugares e a tudo ver. Ambicioso, quer ver os fatos e as vísceras. O super-olhar enquanto máquina de instantâneos quer representar o real, contrapondo-se às impressões inventivas que os olhares precários, em aliança, costumam pintar. Que modalidades de encontro são possíveis é a ocupação do olhar precário. O cinema voltado para uma sensibilidade sensório-motora, entretanto, funciona como fomentador desse desejo de totalidade do olhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;Películas que apertam o coração e que retiram o chão. É a quarta ou quinta vez que disponho esse binarismo. Fala precária, esta minha. Não se trata, porém, de análise dos filmes – este é este, aquele é aquele – mas sim uma consequente aproximação dum campo de estudos que investe num modo outro de produzir olhares. Cabe-nos atentar para uma lógica problematizante, temporalizante, e buscar encontrar encaminhamentos de invenção em nossos encontros com modos outros, de abertura a uma produção – cinematográfica, psicológica, filosófica, que seja – que suscite olhares precários e ansiosos no hoje...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify; font-style: italic;"&gt;&lt;span lang="pt-BR"&gt;Fala que proferi, hoje mesmo, no vigésimo encontro de iniciação científica da UFS, a respeito da pesquisa "Pensamento, Cinema e Contemporaneidade", que participei durante o segundo semestre de 2009 e o primeiro de 2010. A pesquisa ganhará continuidade&lt;/span&gt; e, desta vez, investigará o pensamento deleuziano no que tange a questão do cinema, do tempo e do movimento e, num momento posterior, procurará dimensionar estética e politicamente o Cinema Novo em relação ao cinema clássico e de produção em escala industrial, focando a produção cinematográfica e literária do Glauber Rocha. Vamos nessa, então...&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-8261502269954496219?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/8261502269954496219/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=8261502269954496219' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/8261502269954496219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/8261502269954496219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/09/o-pensamento-temporalidade-e-politica.html' title='O pensamento, temporalidade e a política de imagens'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-5965733609431777076</id><published>2010-09-25T17:33:00.000-07:00</published><updated>2010-09-25T22:03:36.999-07:00</updated><title type='text'>Herói</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ando, e já a algum tempo, decepcionado com filmes de ação. A decepção é para com o cinema atual, deveras, mas a ação - em particular - vem me causando tremendo desgosto. Diálogos a nível sensório-motor, enquadramento e decupagem clichês, interpretações que não convencem. Nunca gostei de ofensas a minha inteligência, que nem merece tantas considerações. É a sina do filme comercial: ao invés de nos lançar numa temporalidade, numa historicidade, dispõe-nos uma sequência prévia de cenas, de fotogramas e de movimentos. É ir na onda, só que não a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nouvelle Vague,&lt;/span&gt; o ato de criação, mas a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Bad Trip&lt;/span&gt;, o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;stimuli-respond&lt;/span&gt;. O horror não sabe mais nos colocar no medo e apela para estripações e torturas. A comédia já não possui a sutileza do riso e tenta nos agradar com cenas espalhafatosas e constrangedoras. O drama não mais chora conosco e passa a narrar lições de moral e piedade. Decaida está a sétima arte, chego a pensar. Decaimento de Heideggeriano, entretanto. Interroga o Ser em termos de Ente mas, ao menos, faz a máquina funcionar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ7PZv9FpII/AAAAAAAAAN0/cbzwLf33iCw/s1600/hero03.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 220px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ7PZv9FpII/AAAAAAAAAN0/cbzwLf33iCw/s320/hero03.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5521078234479174786" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Qual não foi a minha surpresa quando, em uma de minhas visitas diárias a um site de cinema cult [&lt;span style="font-style: italic;"&gt;aka.&lt;/span&gt; um blog para cinéfilos chatos, pseudo-intelectuais, metidos a besta e arrogantes] encontro, para download, um filme com o Jet Li. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Herói&lt;/span&gt;, o nome. Franzo a sobrancelha, num sinal de incompreensão. Vejo a ficha técnica do mesmo: filme colorido, lançado em 2002, uma hora e meia da tela inicial ao crédito final, diálogos em mandarim, classificado como Ação e Drama e dirigido por um tal de Yimou Zhang. Parece ser mais um daqueles &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Wushia&lt;/span&gt;, que sempre me desagradaram pela irrealeza dos seus movimentos. Coloco para baixar, motivado por um elán-curiosidade, e faço uma aposta silenciosa de que algo bom está a me esperar, por ali. O filme começa. E termina. De A a B. Entre os pontos, entretanto, muito se deu. Tudo se deu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ7P0M7nbqI/AAAAAAAAAN8/2kbbJJq8Fjc/s1600/Her%C3%B3i1.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 213px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ7P0M7nbqI/AAAAAAAAAN8/2kbbJJq8Fjc/s320/Her%C3%B3i1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5521078688934227618" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Recebam, agora, toda uma saraivada de palavreados, xingamentos, gesticulações e correlatos enquanto eu tento pintar o filme através da escrita. Não os porei, aqui, porém. Profanariam o silêncio de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Herói&lt;/span&gt;. Há pouco diálogo, mas muito é dito. Há muito movimento, mas poucos moventes. Quase não há forma, mas a cor abunda. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Herói&lt;/span&gt; é filme pra ser visto. Necessariamente visto! Sua fotografia é radiante, multicolor, pluritemporal. Poucos corpos, mas que irradiam paletas inteiras de cor. Da cor que cega ao incolorido. Seus personagens são mundinhos vastos: a bela Neve Flutuante e o austero Espada Quebrada, a menina Lua e o tranquilo Céu, o grande imperador Qin e o protagonista Sem Nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ7QbdzVgyI/AAAAAAAAAOE/UW2K_eKPJKM/s1600/heroMovie.jpg"&gt;&lt;img style="cursor: pointer; width: 320px; height: 214px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ7QbdzVgyI/AAAAAAAAAOE/UW2K_eKPJKM/s320/heroMovie.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5521079363477799714" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="text-decoration: underline;"&gt;&lt;/span&gt;A história? Pouco importa. E não por esta ser apenas o papel de parede sobre o qual as miríficas batalhas se desenvolvem. É um filme de Kung Fu, afinal. Mas não é por isso que resisto a tecer uma sinopse. A trama é baseada numa das muitas lendas sobre a constituição do império da China. A história, no entanto, é tão só o corpo no qual a bonita narração encarna. Não é o tema, mas como ele se nos revela. O título original, 英雄 (transl. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;yingxiong&lt;/span&gt;), pode significar tanto "herói" quanto o seu plural, "heróis". Sentido duplo. Dividual. A história é o desinteressante, aqui, porque é o enlaçamento das muitas histórias - contadas e vividas - que matiza o filme. Cores, cores, cores. Sem Nome narra uma história vermelha ao ditador Qin. Este, velho de guerra, percebe a tentativa de engodo do reles Sem Nome e conta a sua versão do acontecido, todinha azul. Sem Nome, acoado por ter seu plano descoberto, revela a verdade. Branca. Multiplicidade de experiências, que não se anulam uma a outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ7RLL79YBI/AAAAAAAAAOM/sY9cgi74OYQ/s1600/heroi11.jpg"&gt;&lt;img style="cursor: pointer; width: 320px; height: 207px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ7RLL79YBI/AAAAAAAAAOM/sY9cgi74OYQ/s320/heroi11.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5521080183315849234" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Herói&lt;/span&gt; é um filme informe. A cor precisa de extensão, mas não dum corpo pra existir. O diretor Zhang, genialíssimo contador de histórias, jogou com a regra até o seu limite, levou-a ao extremo num alternar saltitante entre combates voadores e diálogos soturnos, histórias de amor e casos de traição, assassinatos e sacrifícios, claridade e negritude, águas calmas e chamas trêmulas, espadas tensas e penas viris. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Herói &lt;/span&gt;me salvou. Mostrou que ainda posso ter esperanças para com o cinema, para com a ação, a verdadeira ação criadora na sétima arte! Pouco sangue é derramado no filme, percebo. Mas o filme é violento, mesmo que não o pareça. É violento, pois nos coloca no próprio ondular zigue-zagueante da matizada narração. Uma hora e meia de Duração, de Tempo, de Violência. O corpo do espectador, de Sem Nome, dos soldados do imperador são destruídos no violento embalo da poética das cores de Zhang, e somos todos imersos na caótica ordem dos opostos. Não é dialética. É a escrita chinesa, meu amigo. Esgrima e caligrafia numa mesma mão. Espada Quebrada o sabia bem. E sabia de cor...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-5965733609431777076?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/5965733609431777076/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=5965733609431777076' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5965733609431777076'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5965733609431777076'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/09/heroi.html' title='Herói'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ7PZv9FpII/AAAAAAAAAN0/cbzwLf33iCw/s72-c/hero03.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-2240439560325139757</id><published>2010-09-23T18:39:00.000-07:00</published><updated>2010-09-23T21:49:21.040-07:00</updated><title type='text'>O Estranho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJwo-0eTjcI/AAAAAAAAANE/a82mtiFfq5s/s1600/picasso_guitar1913.jpg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 239px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJwo-0eTjcI/AAAAAAAAANE/a82mtiFfq5s/s320/picasso_guitar1913.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5520332302952140226" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Antes de tudo, não falo na condição de estranho. Não é de mim que falo. Nem de ti, nem dele, nem de nós ou mesmo daqueles, lá longe. O estranho é sobre-pronominal. Supera a condição humana e individual. É inumano e dividual, pois. Bergsonismos. Fala de percepções, ações e afecções, mas sem nenhum centro de indeterminação a lhes dar suporte. O estranho é o insuportável, sempre o insuportável. Não há "eu" que o suporte, que o contenha, embora precise dum continente para morar. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Gestalten&lt;/span&gt; que, anterior às partes, precisa das mesmas para se exprimir. Grito: antes do móvel, a mudança! A arte de Apolo embeleza o destrutivo, pesaroso e sôfrego mundo sensível do sensível grego. Anestesia. Dionísio, nem aí pra isso tudo, quer mais é esquartejar! A poesia trágica é a conciliação dos dois. É a arte da estranheza, arte que não embota mas cria. Não casa os corpos, mas pula a cerca e vai além do território cerceado.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O estranho não é afeito aos números. Um estranho aqui, uma estranha ali, um grupinho de estranhos acolá. Isto, não! Impossibilidade. O estranho é pura qualidade que toma o corpo são de assalto e o devora as entranhas. O corpo estranho é oco. Formal, mas sem interior. Artaud pariu. Deleuze criou. E - pior de tudo para este corpo sem órgãos - insiste em permanecer vivo. Respirando. Respira com dificuldade, pois não tem pulmão para filtrar o ar que outrora penetrou sua narina, hoje inexistente. O corpo oco é um corpo sem orifício. Não pode vazar, senão vira vaso. E nenhum vaso pode conter as águas tempestuosas do infinito.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Penso. Não muito, mas penso. E amo. Por amar demais, desaponto-me. Lágrima, ora. Logo, letra. Música, ao final. O corpo estranho assusta, espanta, mas isto é apenas o episódio fenomenal. É a sombra do corpo sinuoso e suado. O estranho é, antes de espantoso, um espantado. Monstro de Frankenstein que chora de horror ao ouvir sua própria voz gutural. A saúde é a vida no silêncio dos órgãos. Canguilhem, professor do Foucault, o disse bem. É não sentir o corpo, imerso no mundo como num silente oceano. O corpo estranho, necessariamente, é um corpo doente. Sua carne. Sua alma. Seu espírito é dor, anormalidade e quebrantude. O estranho causa aversão quando não sabe, ou se recusa, a entrar nos eixos. Mas, em verdade, é o mundo que lhe constrange, esmaga, espreme. Seu corpo em pús causa nojinhos e cuspidelas ascosas, mas seu sangue fervilha por debaixo da casca. Quer respirar, mas sem explodir. Conspira, então. Mas, como não tem boca, conspira baixinho, na surdina. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Fala baixo, pois. Os do alto, assim sendo, não o escutam. Que seja! Vai fazer arte, então. Mas nada de representar. O corpo estranho derruba a 4ª parede. Cinema experimental, pintura cubista, música serial. O fotógrafo usa de sua objetiva para captar os dados do real. Um lado. Alguns, mais espirituosos, fotografam dois. Outros, ainda mais profundos, conseguem captar três lados. Não é disso que se trata, escreve na areia o estranho. Não é perspectiva, sussura ao pintor; não é harmonia, soa ao músico; não é o olho, visa ao cin&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJwpKuv1UwI/AAAAAAAAANM/t2wJZCeJa1Q/s1600/Gris,+Juan+-+Homem+no+caf%C3%A9.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 230px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJwpKuv1UwI/AAAAAAAAANM/t2wJZCeJa1Q/s320/Gris,+Juan+-+Homem+no+caf%C3%A9.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5520332507573474050" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;easta. O corpo estranho estranha, mas - mais do que isso - se estranha. Trava. Mas não paralisa. Lança tudo pois está lançado no todo. E cria uma percepção, uma ação e uma afecção sem profundidade, sem dimensão, sem ponto de vista. É a própria luz - matéria da matéria - que irradia da arte do estranho. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O que quer um corpo estranho é uma pergunta difícil, porque nos parece fácil de responder. As fáceis são as piores, diz a experiência. E o estranho sempre se guia pela experiência. Nunca pelo experiente! A estética das estranhezas não quer pluriperspectivar, transdisciplinar ou multivalorar. Não é consenso, nem tampouco respeito. Não é a demonstração dos seis - 1, 2, 3, 4, 5 e 6 - lados dos dados do real. Quer, sim, o som sem instrumento e ouvido, a projeção sem anteparo e retina, e a pintura sem dimensão e realeza. Sustenta, ao limite, uma escrita que nada diz, uma música que não ambienta, uma pintura que não representa. Filme sem ecrã, cuja luz - de matizes mil - viaja e viaja pelo espaço sem esbarrar em coisa alguma. Luz invisível. Invisada.  Impercebida. Arte que nos coloca fora dos pontos de vista. Sem interpretações. Descomedida. Absoluta. Luminosa. Estranha...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-2240439560325139757?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/2240439560325139757/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=2240439560325139757' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2240439560325139757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2240439560325139757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/09/o-estranho.html' title='O Estranho'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJwo-0eTjcI/AAAAAAAAANE/a82mtiFfq5s/s72-c/picasso_guitar1913.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-2770338119423229198</id><published>2010-09-19T15:56:00.000-07:00</published><updated>2010-09-25T12:24:37.155-07:00</updated><title type='text'>Essa, daí, vai longe...</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJan9t1plbI/AAAAAAAAAM8/Azr3eW8HqcI/s1600/foucault2.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 281px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJan9t1plbI/AAAAAAAAAM8/Azr3eW8HqcI/s320/foucault2.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5518783072107599282" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-2770338119423229198?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/2770338119423229198/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=2770338119423229198' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2770338119423229198'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2770338119423229198'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/09/livrinho-de-cabeceira.html' title='Essa, daí, vai longe...'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJan9t1plbI/AAAAAAAAAM8/Azr3eW8HqcI/s72-c/foucault2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-1042121052725124469</id><published>2010-09-17T08:24:00.000-07:00</published><updated>2010-09-17T08:26:59.012-07:00</updated><title type='text'>A gente do Pó</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;“Na medida em que eu sou o produto de   uma sociedade de classe média, e  estou preocupado em fazer dramas de   classe média, eu não estou equipado  para dar soluções. A classe média   não me proveu dos meios pelos quais  resolver qualquer problema da   classe média. Eis porque me restringi a  apontar os problemas existentes   sem propor qualquer solução”&lt;/span&gt;. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;Michelangelo Antonioni, em seu primeiro filme - o documentário &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Gente del Pó&lt;/span&gt; - sobre barqueiros e ribeirinhos do vale do rio Pó...&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJOIoqxmbCI/AAAAAAAAAM0/JVNGxtTReoc/s1600/070731_OBIT_antonioniEX.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 223px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJOIoqxmbCI/AAAAAAAAAM0/JVNGxtTReoc/s320/070731_OBIT_antonioniEX.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5517904200717462562" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-1042121052725124469?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/1042121052725124469/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=1042121052725124469' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1042121052725124469'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1042121052725124469'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/09/gente-do-po.html' title='A gente do Pó'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJOIoqxmbCI/AAAAAAAAAM0/JVNGxtTReoc/s72-c/070731_OBIT_antonioniEX.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-5117327667553032716</id><published>2010-09-10T20:58:00.000-07:00</published><updated>2010-09-19T15:35:08.291-07:00</updated><title type='text'>Quadro e plano, enquadramento e decupagem</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: center; font-weight: bold;"&gt;I&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O enquadramento, simplifica Deleuze, seria a determinação de um sistema fechado. Sistema, este, que abarca uma imagem e tudo o que nela está presente - cenários, objetos, personagens - assim como um conjunto a compreender elementos e outros subconjuntos. Tais elementos são como dados, dados de conteúdo, dados de informação; por vezes numerosos, saturados, por vezes escassos, rarefeitos. A saturação e a rarefação. Duas tendências, pois. Com estes dois extremos, aprendemos que a imagem não é apenas visível, mas também legível. Se muito pouco vemos numa imagem é porque não sabemos lê-la, não sabemos bem avaliar sua saturação ou sua rarefação. Com Godard, fica explicito o uso do quadro como superfície opaca de informação, um quadro-superfície ora saturado de conteúdo ora equivalente a um conjunto vazio, a tela branca ou negra. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Enquadrar é limitar, enfim. Um tal limite pode ser definido como geométrico/matemático (composição do espaço como receptáculo no qual os corpos vem ocupar) ou físico/dinâmico (o quadro numa dependência dinâmica das cenas, imagens, personagens, objetos e afins). Com esta mesma divisão, podemos classificar o quadro quanto às partes do sistema que reúne e separa. No enquadramento matemático, o quadro é composto por distinções geométricas. É coisa simples. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Dentro de um mesmo quadro temos outros muitos quadros, diferentes entre si. Conjuntos e subconjuntos. Pessoas e coisas, indivíduos e multidões, potências da natureza e as janelas dos carros. É através do encaixe destes quadros que as partes do conjunto reúnem-se e se separam, conspiram e se fecham no quadro geométrico. O quadro dinâmico, por sua vez, nos induz conjuntos vagos divididos em zonas. Não mais o quadro objeto das divisões geométricas, mas de gradações intensivas. É a indissociação entre a aurora e o crepúsculo, o céu e o mar, a água e a terra. Aqui, o conjunto não se divide em partes sem "mudar de natureza". Não se trata de um ser divisível e do outro ser indivisível, mas de ambos serem "dividuais". Indo mais além, diz Deleuze que a tela - quadro dos quadros - dá uma medida comum ao que não a tem. A paisagem e o rosto dum personagem, o céu estrelado e a gota da chuva. Partes dessemelhantes quanto à distância, relevo, luminosidade, mas assemelhados no quadro, que assegura uma desterritorialização da imagem. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Uma coisa a mais. O sistema fechado é um sistema ótico, referente a um ponto de vista sobre os conjuntos e suas partes. Vez e outra, estes pontos de vista parecem extraordinários, sobre-humanos,  paradoxais: vista a partir do chão, de cima a baixo, câmera ascendendo. No entanto, tais visadas sempre se justificam pragmaticamente, informaticamente, confirmando a função legível das imagens para além da sua função visível. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Por fim, a noção de extracampo. O extracampo faz referência ao que, embora presente, não se vê, ouve, perceptua. O quadro, fala-nos Bazin pelo Deleuze, realiza um corte móvel através do qual os conjuntos se comunicam a um conjunto maior, mais vasto. Se um conjunto, contudo, se comunica com seu extracampo através de suas características positivadas, infere-se que um sistema fechado - por mais fechado que seja - nunca suprime o extracampo, atribuíndo-lhe existência e importância, a sua maneira. Todo enquadramento determina um extracampo. Necessariamente! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A própria matéria se define por este duplo movimento, o de constituir sistemas fechados e, ao mesmo tempo, pelo inacabamento dessa constituição. Todo sistema fechado, destarte, é comunicante. O conjunto de todos os conjuntos é uma continuidade homogênea, um universo, um plano material ilimitado. Mas não é o todo. O todo é, antes disso, o que impede cada conjunto de se fechar em si mesmo, forçando-o a se prolongar num conjunto maior e maior e ainda maior. Verdadeiro fio a atravessar os conjuntos e lhes conferir a possibilidade de se comunicarem entre si. É o Aberto, remetendo mais ao tempo e ao espirito que ao espaço e sua matéria. O extracampo, assim sendo, compreende duas naturezas: uma relativa, no caso do sistema fechado que faz referência a um conjunto que não se vê mas pode vir a sê-lo, arriscando assim suscitar  um novo conjunto não visto, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ad infinitum&lt;/span&gt;; e uma absoluta, na qual o sistema fechado se abre para o todo do universo.Deleuze usa a metáfora do fio grosso e do fio tênue para elucidar ambos os aspectos do extracampo. Quanto mais grosso for o fio que liga um conjunto (visto) a outros (não-vistos), melhor o extracampo cumpre sua primeira função (acrescentar espaço ao espaço). Quanto mais fino o fio for, menos ele reforçará o fechamento do sistema e sua distinção do exterior, realizando sua segunda função (introduzir o transespacial no sistema). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;II&lt;/span&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A decupagem é a determinação do plano. E o plano, por sua vez, é a determinação do movimento no sistema fechado. O todo, como já foi dito, é o aberto, a duração. O movimento revela, portanto, uma mudança no todo, uma articulação na duração, sendo tanto relação entre partes, quanto afecção do todo. Logo, o plano apresenta dois extremos, a saber, em relação aos conjuntos espaciais (modificações relativas entre elementos e subconjuntos) e em relação ao todo (alteração absoluta na duração). O plano, então, é intermediário do enquadramento dos conjuntos e da montagem do todo, ora tendendo a um ora a outro. Enquadramento e montagem como aspecto duplo da decupagem, que é tanto a mudança das partes dum conjunto no espaço quanto a mudança dum todo que se transforma no tempo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Como tais divisões e uniões são operadas por uma consciência, podemos dizer do plano que ele age como uma. Mas a consciência cinematográfica não é nossa, a do espectador, nem a do mocinho, na película, mas é a câmera! Humana, inumana, sobre-humana. É através da câmera que o movimento se decompõe e volta a se recompor. Podemos, inclusive, considerar certos movimentos como uma assinatura autoral, seja na totalidade dum filme ou duma obra completa, ou num movimento relativo duma imagem ou dum detalhe desta imagem. Essa análise do movimento é um programa de pesquisa indissociável da análise de autor. Poderíamos chamar a isto de estilística, inclusive. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O Deleuze repete-se e apresenta, mais uma vez, o duplo aspecto do movimento, componível e decomponível.  Esse movimento é o plano, intermediário do todo que muda e dos conjuntos com seus elementos, que não param de se converter e mudar de natureza, um no outro, outro no um. A sua grande sacada, agora, é que ele faz equivaler o plano à imagem-movimento bergsoniana - corte móvel da duração - apresentada no capítulo anterior. Bergson demostrava seu desapreço pelo cinema, julgando-o incapaz de movimento por lidar com um movimento ilusório, homogêneo e abstrato ao suceder fotogramas. Mas o movimento puro, movimento de movimentos, variando entre a decomposição e a recomposição, reporta-se tanto aos conjuntos quanto ao todo aberto que muda e dura incessantemente. E é justamente isto que faz o plano cinematográfico, ainda mais claramente que a pintura, visto que esta traz relevo e perspectiva ao tempo, enquanto o cinema exprime o próprio tempo como relevo e perspectiva. Fala André Bazin. O fotógrafo, por meio de sua máquina "objetiva", registra o movimento e o põe numa moldura. Mas o cinema não só registra o movimento como se molda sobre ele, captando sua duração. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;III&lt;/span&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Falemos do cinema primitivo. Seu quadro é definido por um ponto de vista único. O espectador a visar um conjunto invariável, não havendo comunicação de conjuntos variáveis e remetentes uns a outros. O plano indicava, unicamente, uma porção do espaço a uma certa distância da câmera, estando o movimento preso aos elementos que lhe servem de carona. Corte imóvel. Por fim, o todo, aqui, se confunde à soma de todos os conjuntos, estando o movente passando, apenas, dum plano espacial para outro, não havendo verdadeira mudança, mudança na duração. No cinema primitivo - podemos colocar esta máxima - a imagem está em movimento mas não há imagem-movimento. É contra este cinema - não cansa de atentar o Deleuze - que o Bergson tece as suas críticas. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Podemos nos perguntar, então, como a imagem-movimento se constituiu e o movimento se libertou dos elementos moventes. Duas formas: de um lado, pela mobilidade que a câmera ganhou e cedeu, de tabela, para o plano, que também torna-se móvel; por outro lado, pelo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;raccord&lt;/span&gt;, corte que designa tanto a mudança de plano quanto aos elementos de continuidade entre dois ou mais planos. Ambos os meios - formas da montagem - vêem-se obrigados a se esconder nos seus primórdios. Como bem coloca Bergson - ainda que não o tenha visto no cinema - as coisas não se definem pelo seu estado primitivo ou original, mas por uma certa tendência oculta neste estado de coisas. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Deleuze, citando &lt;span style="font-style: italic;"&gt;L´Expérience Hérétique&lt;/span&gt; do Pasolini, coloca o plano como uma unidade de movimento que compreende multiplicidades que não o contradizem. Se o todo cinematográfico é um único e mesmo plano-sequência contínuo, temos, por outro lado, que as partes desse mesmo filme são planos descontínuos e sem ligação aparente. O todo renuncia a sua idealidade unitária e se torna uma síntese realizada na montagem das partes, partes estas que se coordenam, se cortam e se recortam em ligações que constituem o plano-sequência virtual, o todo analítico, o cinema. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Raccords&lt;/span&gt; imperceptíveis, movimentos de câmera, planos-sequência de fato. A continuidade sempre se estabelece &lt;span style="font-style: italic;"&gt;a posteriori&lt;/span&gt;, o que nos mostra que o todo é de uma ordem para além dos conjuntos coordenados, sendo aquilo que impede os conjuntos de se fecharem entre si, ou mesmo de se fecharem uns com os outros. O todo surge numa dimensão que muda sem cessar. Dimensão do Aberto que escapa aos conjuntos e seus elementos. Um extracampo impossível de se filmar. O recorte, longe de romper o todo, são o ato do mesmo, que atravessa os conjuntos e suas partes que, num movimento inverso, reúnem-se num todo para além deles...&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;DELEUZE, Gilles; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; font-weight: bold;"&gt;Quadro e plano, enquadramento e decupagem; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;In: Cinema 1 - a imagem-movimento; Trad. Stella Senra; Editora Brasiliense; 1983 [original]; pp. 22-43.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-5117327667553032716?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/5117327667553032716/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=5117327667553032716' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5117327667553032716'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5117327667553032716'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/09/quadro-e-plano-enquadramento-e.html' title='Quadro e plano, enquadramento e decupagem'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-2192785979618138215</id><published>2010-09-01T21:44:00.000-07:00</published><updated>2010-09-01T21:50:42.052-07:00</updated><title type='text'>Por que Psicologia?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Koffka deixa claro, logo nos primeiros versos, que seu livro não é uma obra &lt;i&gt;de &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;psicologia, mas &lt;/span&gt;&lt;i&gt;sobre&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt; a mesma. Seus motivos: a psicologia dividiu-se em tantos ramos – diversos, ignorantes, combatentes – que causa confusão ao leigo quando imerso a tantas escolas. “Psicologias”, é o que dizem! O que nos diz o autor: o estudante de Filosofia quer conhecer os problemas e soluções que o pensamento nos legou, de ontem à hoje; o estudante de História pretende estar por dentro das relações de poder a erigir e demolir nossos castelos; o estudante de Física objetiva compreender a natureza através de sua metodologia experimental; e o estudante de Medicina deseja ter em mãos todo o poder que um conhecimento generalizado sobre a vida pode lhe legar. E o estudante de psicologia? Que quer esta criatura? Conhecer a natureza do homem!? Prever suas ações!? O Sr. Koffka não nos dá uma resposta positiva à pergunta. Tanto que só se sente justificado a escrever seu &lt;/span&gt;&lt;i&gt;Princípios de Psicologia da Gestalt &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;quando chega a uma solução sincera a este problema. Ele delineia a questão: o que alguém ganharia ao atravessar um curso de Psicologia e – mais importante – o que este sujeito teria a oferecer para a humanidade?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Um psicólogo que, através de sua ciência experimental, factuasse toda a existência humana teria um conhecimento inegável. Tudo bem. É costume atribuir mais valor a um fato objetivo que a uma teoria subjetiva. E a Psicologia só começou a entrar no terreno científico, inclusive, quando assumiu para si o projeto de busca-aos-fatos típico da ciência. Destarte, deixou de lado suas especulações imaginativas e lançou-se ferozmente a esta busca pelo saber. Mas este saber merece ser avaliado. Um conhecedor de 20 coisas sabe dez vezes mais que um outro, sapiente de apenas 2 itens. Não obstante, caso este último conheça seus dois itens em sua relação – dispondo, assim, não mais de duas unidades, mas de um todo com duas partes – saberá mais, muito mais que o primeiro, diz-nos Koffka, visto aquele só conhecer os 20 itens como unidades independentes. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Multum nom multa.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A ciência volta seus esforços para reduzir o número de proposições e assertivas das quais podemos derivar os fatos que conhecemos. Princípio de economia. Um exemplo: sabemos todos que um corpo pesado chega mais rápido ao chão que um corpo leve. Este fato é complexo, no entanto. Um fato simples – objetivado – seria a afirmação de que todos os corpos caem com a mesma velocidade no vácuo. Deste fato simples, podemos derivar o fato complexo cotidiano (a diferença de velocidade na queda dum lápis e duma folha de papel, inferimos, se deve ao atrito, que inexiste no vácuo) mas a recíproca é falsa. A ciência, econômica, fica com o fato simples mas, daí, a própria noção de fato é problematizada. Pensemos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Considera-se o progresso científico como o aumento do número de fatos conhecidos. Conhecimento de &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;multa&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;. A simplicidade a que almeja a ciência não é no sentido de tornar o saber cada vez mais fácil para aprendizagem, mas sim de construir um sistema cada vez mais coeso, fechado e unitário. Fórmula de tudo! O Koffka, por sua vez, coloca o saber científico noutro plano, visto que ao conhecermos um fato entramos em contato com muitos outros fatos a partir do primeiro. Conhecer, para ele, é considerar a interdependência de todos os fatos. Conhecimento de &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;multum&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Óbvio, este projeto de encontrar a ordem unitária para todos os fatos é inatingível. O sistema nunca se completa. Fatos novos pululam a todo momento e resolvem fazer companhia aos antigos, quebrando a unidade do sistema. O próprio progresso do saber científico se deu através de seu espartilhamento, em muitas e muitas especializações. Se houve aumento no número de ciências - coesas e independentes entre si – pergunta-se qual a relação entre elas. Como podemos derivar &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;multum&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt; do &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;multa&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt; é a pergunta que o Koffka coloca, delegando esta tarefa à própria ciência.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;É possível uma conduta sem ciência. Todas as coisas nos enunciam, como que por si, o que são: a maçã quer ser comida; o vinho, degustado; o trovão, temido. Esta é a postura do homem primitivo, diria o cientista. O processo de pensamento – desvinculação do homem à linguagem da vida – destrói esta unidade do mundo, desenvolvendo categorias, classes e leis. A existência concreta, porém, não cabe nas ordens do pensar. A vida transborda. A ciência lega a si mesma o direito de sujeitar a ação humana a seus processos mas, muitas vezes, tais processos não nos indicam uma trilha definida para bem seguirmos. A razão revela a verdade, mas uma verdade que não nos orienta para uma boa conduta. A busca por orientação, ansiando ser satisfeita, descambou, para o autor, no dualismo ciência-religião. A ciência, desintegrando a vida, nega aquilo que proferimos aos domingos. Uma tal atitude revela-se nociva, e não à religião. Caso mantida, bloqueará o progresso da própria ciência em sua questão essencial; afinal, uma ciência progride não agregando fatos individuais, mas ao formular teorias gerais e significativas. A Psicologia koffkiana é, neste sentido, “teórica”, visto intuir os fatos dentro do sistema ao qual eles pertencem.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Resumindo, a função da verdadeira ciência não é fragmentar o mundo, mas reintegrá-lo, indicando nossa posição no mundo e nos bem relacionando com as coisas que nos cerceiam. E a Psicologia tem uma função especial neste projeto de integração, a saber a articulação entre a natureza inanimada, a vida e a mente. A relação entre estas três instâncias nos apresenta alguns problemas. Koffka apresenta dois tipos de soluções – o materialismo e o vitalismo - para estas questões mas, adiantando, rejeita ambas em nome duma terceira.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O materialismo diz que o problema é inexistente, negando a existência de substâncias – matéria, vida e mente – e reduzindo todas à matéria que, combinada nas mais diversas formas, originou a vida. Pensar e sentir tornam-se movimentos atômicos. O erro reside na discriminação arbitrária cometida pelos materialistas entre os três conceitos. Aceitam um e negam os demais, usando como justificativa o êxito sistêmico e prático da ciência. No vitalismo, apontamos três abordagens: a primeira, cartesiana, coloca a vida e a matéria inanimada dum lado e o espírito do outro; a segunda funde a vida e o espírito, considerando-os impulsionados por um elán distinto da matéria; a terceira mantém a trindade e estabelece atividades diferenciadas para cada uma das substâncias. O problema da solução vitalista é que ela não é uma solução, mas uma recolocação do problema. Claro, ao fazer este movimento mostra-se superior ao materialismo mas, ainda assim, propõe apenas uma nova terminologia ao problema e a vende como solução.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Ambas as alternativas são rejeitadas pelo Koffka que, observando as ciências da natureza, da vida e da mente, extrai de cada uma delas conceitos para a forja de sua psicologia: das ciências naturais, pega a idéia de quantidade; das ciências da vida, invoca a ordem; das ciências da mente, pede emprestada a noção de significado.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A fórmula matemática quer estabelecer uma relação entre o número abstrato e o processo que pretende descrever. Neste sentido, a descrição quantitativa não se opõe à qualidade, visto indicar uma processualidade, uma condição, sendo apenas uma maneira de representá-la.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Quanto à ordem, fala-se da mesma quando cada um dos objetos questionados está numa posição determinada pela relação com outros objetos. Koffka rejeita o mentalismo, assim como o materialista o faz, mas não abandona a noção de ordem, típica dos vitalistas. Faz parceria com os dois e trai a ambos. Soluciona o problema colocando a ordem como uma característica da natureza mesma, da física, podendo aceitar o conceito nas ciências da vida sem recorrer a uma força especial responsável pela ordenação dos viventes. Se o materialismo rouba da vida seu caráter ordeiro, a teoria gestáltica a atribui à matéria inanimada.&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Já a noção de significado – elucidada pelas hostes celestes do Wertheimer – é capturada pela teoria da Gestalt para referir-se às formas científicas. Através de nossas observações e experimentos, descobrimos regularidades e formulamos leis. A lei, entretanto, é apenas um enunciado factual. É prática, verdade. Mas não tem significado algum! Nenhuma lei fisiológico-comportamental pode explicar um momento histórico-cultural, irredutível ao movimento de suas partes isoladas. Não &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;o quê&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;, mas &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;por que&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Visando integrar quantidade e qualidade, mecanismo e vitalismo, explicação e compreensão, a Psicologia da Gestalt introduz na ciência a articulação matéria-ordem-significado, salvando os conceitos da vida e da mente de sua condição ficcional. A vida corre por fora dos moldes da ciência, que a ignora. Se a Psicologia puder agenciar o encontro entre ambos, estarão estabelecidas as bases para um conhecimento no todo, que envolva tanto o átomo quanto o teatro, tanto as amebas quanto a produção musical, tanto nossas práticas puras no laboratório quanto nossas mais significativas condutas sociais... &lt;b&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;KOFFKA, Kurt; &lt;/b&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;Por que psicologia?; &lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;b&gt;In Princípios de Psicologia &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;b&gt;da Gestalt; Trad. Álvares Carvalho; São Paulo; Cultrix; Editora da USP; 1975; pp.15-35.&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-2192785979618138215?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/2192785979618138215/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=2192785979618138215' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2192785979618138215'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/2192785979618138215'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/09/por-que-psicologia.html' title='Por que Psicologia?'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-6376346109287684503</id><published>2010-08-27T22:42:00.001-07:00</published><updated>2010-08-27T22:45:03.990-07:00</updated><title type='text'>Retardados</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/THiiDy-OnyI/AAAAAAAAAL4/mlarhFrXgAI/s1600/Ret.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 394px; height: 264px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/THiiDy-OnyI/AAAAAAAAAL4/mlarhFrXgAI/s320/Ret.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5510332330193887010" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Todo mundo conhece um...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-6376346109287684503?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/6376346109287684503/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=6376346109287684503' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6376346109287684503'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6376346109287684503'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/08/retardados.html' title='Retardados'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/THiiDy-OnyI/AAAAAAAAAL4/mlarhFrXgAI/s72-c/Ret.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-1190896274515276423</id><published>2010-08-27T19:36:00.000-07:00</published><updated>2010-08-31T20:24:31.959-07:00</updated><title type='text'>Teses sobre o movimento - Primeiro comentário de Bergson</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: center; font-weight: bold;"&gt;I&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;O prólogo deixa claro, logo de início. O &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Imagem-movimento&lt;/span&gt; é muito mais um livro de lógica que um livro sobre cinema, uma taxionomia imagética e signalética que referencia o filósofo Pierce. Mas este primeiro volume da obra trata dos elementos de apenas um desses conjuntos, ficando a imagem-tempo como objeto duma segunda parte do trabalho. Outrossim, Deleuze faz parceria com seu conterrâneo Bergson que, apesar de suas críticas ao cinema, forja o conceito que dá nome ao livro, conceito este usado pelo Deleuze para tratar da própria imagem cinematográfica, o que coloca o autor de cinema no plano do artista - o pintor, o arquiteto, o músico - mas também do pensador. O autor de cinema é um pensador que pensa não com conceitos, mas com imagens: imagens-tempo e imagens-movimento. Mas tornam-se compreensíveis os incontáveis filmes vazios de conteúdo e sentido com os quais nos esbarramos, se considerarmos economias e indústrias a impedir o autor-pensador de realizar seu trabalho. Adentremos no capítulo um.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O movimento não é o espaço percorrido, mas o próprio ato de percorrer. Se o espaço é passado, o movimento é presente. Se o espaço é divisível - infinitesimalmente! - o movimento não se divide sem que se torne, ele mesmo, espaço. Das três teses de Bergson sobre o movimento, esta é a mais referenciada e, embora ofusque as demais, não passa de intróito a elas. Um outro modo de se enunciar esta tese seria o dito de que não se pode reconstituir o movimento através de posições espaciais ou instantes temporais, ambos recortes imóveis do real. Se temos dois cortes a se sucederem, sejam duas posições no espaço sejam dois instantes no tempo, o movimento se fará sempre entre os dois. E por mais que dividamos, subdividamos, espartilhemos o espaço-tempo perderemos o movimento, pois este nunca se dá numa coordenada abstrata, mas numa duração concreta. Bergson, no seu &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Evolução Criadora, &lt;/span&gt;aponta para a chamada ilusão cinematográfica. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O cinema, para Bergson, nos oferece um movimento falso. Sucedâneo de cortes imóveis. O curioso, para o Deleuze, é o fato de Bergson dar um nome tão moderno - "cinematográfico" - a uma ilusão tão antiga quanto à consciência. Diria Bergson que o cinema, ao reconstituir o movimento, apenas reproduz o modo de funcionamento da nossa percepção natural, pois sempre que intencionamos pensar, exprimir ou somente perceber o movimento, fazemos cinema. Os paradoxos do Zenão como produção cinematográfica! O cinema, para o Bergson, não passa de reprodução duma ilusão constante e universal da consciência. Será mesmo? &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Vinte e quatro imagens por segundo. Ao corte imóvel do cinema, chamamos fotograma. Mas o que o cinema nos revela não é o fotograma, mas uma certa imagem-média a qual acrescentaria movimento. Não um movimento abstrato resultante da sucessão de cortes imóveis, mas um corte móvel enquanto dado imediato da consciência. Uma imagem-movimento! A noção de corte móvel/imagem-movimento como um para-além da percepção natural, foi trabalhada pelo Bergson no seu &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Matéria e Memória&lt;/span&gt;, onze anos antes da publicação do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Evolução Criadora&lt;/span&gt;. Que houve, então, a levar o Bergson a esquecer de seu genial conceito e fazê-lo condenar - ainda que suscintamente - a produção cinematográfica, anos depois? &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A novidade sempre surge num campo que ainda não a comporta - elemento que transcende o conjunto - devendo evidenciar de si as semelhanças com os demais elementos deste conjunto para dele não ser expulsa. O bergsonismo, ao invés de buscar o eterno, coloca o problema da produção do novo. Bergson fala que o caráter de novidade imprevisível, típico dos viventes, não aparecia nos organismos primordiais, visto que a vida, de início, era obrigada a imitar a matéria. Deleuze, do mesmo modo, toma partido do cinema. Diz que, na sua aurora, o cinema era obrigado a imitar a percepção natural. A câmera fixa, o espaço imóvel, o tempo abstrato. A emancipação do cinema da percepção natural se dá pela montagem, câmera móvel. A máquina de filmagem não mais se confunde com a máquina de projeção. O plano espacial torna-se temporal. O cinema deixa de representar a percepção natural e passa a corresponder à imagem-movimento bergsoniana. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Recapitulação. Uma crítica às tentativas de reconstituição do movimento através de cortes imóveis e temporalidades abstratas. Uma crítica do cinema  como reprodução da percepção ilusória que temos do devir. E a apresentação dos cortes móveis/planos temporais/imagem-movimento, que tão bem definem, para o Deleuze, o cinema. Passemos a nossa segunda tese.&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;II&lt;/span&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O erro, para Bergson, está em se querer reconstituir o movimento através de cortes imóveis, instantes, posições ou que seja. Isto nós já expomos e compreendemos. Mas, ainda no &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Evolução Criadora&lt;/span&gt;, Bergson distingue dois modos de se cair na ilusão, a saber, a maneira antiga e a maneira moderna. Na antiguidade, o movimento era concebido como a passagem duma forma imóvel e eterna para uma outra. Pontos privilegiados. Já a modernidade não lida com instantes privilegiados, mas com o instante qualquer. Não se trata mais duma síntese inteligível das poses formais transcendentes, mas duma análise sensível dos cortes materiais imanentes. Deleuze nos apresenta seus exemplos: a astronomia kepleriana, a lei dos corpos galileana, a geometria cartesiana e o cálculo newtoniano-leibniziano. O comum entre todos é a reconstituição do movimento pela sucessão mecânica, em oposição à antiga dialética transcendente das poses. "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;A ciência moderna&lt;/span&gt;" - como lindamente dispôs o Bergson - "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;deve se definir sobretudo pela sua aspiração de considerar o tempo uma variável independente.&lt;/span&gt;" &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O cinema, para Bergson, é fruto desta mesma árvore moderna. Deleuze entra em cena, mais uma vez, e coloca o cinema - e o desenho animado - como um sistema que reconstitui o movimento através duma sucessão de instantes quaisquer - momentos equidistantes - que cria a impressão de movimento. O fotograma não é uma foto acabada, mas uma imagem que está, a todo momento, se fazendo e se desfazendo. Eisenstein já propunha o "patético", levando uma cena ao seu ápice e a fazendo colidir com uma outra. Paroxismo. Diz Deleuze que o instante cinematográfico não equivale a poses transcendentes ansiosas por realização, mas a pontos singulares pertencentes ao movimento mesmo. Dialética moderna, essa, do Eisenstein. Nem arte nem ciência, nem antiguidade nem modernidade. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Seja através de poses transcendentes ou de cortes imanentes, torna-se impossível reconstituir o movimento porque, em ambos, atribuímos uma totalidade, enquanto no movimento real o todo não é dado. Ao lidar com o movimento invocando momentos deve-se considerar a produção de novidade. Assim como Bergson recoloca a filosofia - legando à ciência uma nova metafísica - Deleuze se utiliza da segunda tese de Bergson para colocar o cinema não como um reprodutor de ilusões, mas como modelo duma nova realidade artística. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;III&lt;/span&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por fim, a terceira tese: assim como o instante é um corte imóvel do movimento, o movimento é um corte móvel da duração, duma totalidade. Que seja, o movimento é a mudança mesma nessa duração ou totalidade. O célebre exemplo bergsoniano do copo de água com açucar, contido no &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Evolução Criadora, &lt;/span&gt;pode nos elucidar. Antes de tomar a solução, devo esperar que o açucar se dissolva por completo. Sentença simples mas não simplória. Há uma passagem qualitativa da água-onde-há-açucar para a água-com-açucar, movimento que exprime uma mudança no todo. Se agitamos a água com uma colher parecemos tão somente acelerar o movimento mas, neste gesto, modificamos a totalidade incluíndo, nela, a colher, sendo este novo movimento acelerado uma expressão da mudança no todo. Se no plano da ilusão lidamos com cortes imóveis e a impressão de movimento decorrente destes, temos - no plano do real - o movimento como corte móvel a exprimir uma mudança qualitativa no todo. Ao esperar o copo de água com açucar parar de reagir, está expressa aí a minha realidade espiritual, duração concreta.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O erro da ciência moderna - e dos saberes antigos - é buscar o todo no plano das eternidades. Muitos são os que afirmaram a impossibilidade de se conhecer o todo, o que se desenvolve na sentença de que o todo é uma noção sem-sentido. Mas para Bergson, o todo é impassível de conhecimento não por istos e aquilos, mas por mudar, inovar e durar sem cessar. Se eu, um vivente, sou uma totalidade tal qual o universo, não é à maneira dum microcosmo fechado como um universo dado e acabado, mas sou aberto ao mundo e o mundo ele mesmo é o Aberto! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O todo é relação e a relação não é uma propriedade dos objetos, mas lhe é sempre exterior. O todo, ou os todos, não são como conjuntos. Um conjunto é fechado, definido e artificial. É sempre um conjunto de partes. O copo de água, usado como exemplo, é um conjunto: a água, o copo, a colher do Deleuze. Isto não é o todo, mas um conjunto. O todo, criação incessante, se dá como devir espiritual. O copo, a água e a colher são abstrações do todo, recortadas pelos meus sentidos e desvelando-se em forma de consciência. Este recorte artificial, transformação da totalidade aberta num sistema fechado não deve ser encarado como simples ilusão.  As fórmulas da primeira tese ganham, aqui, novo formato. As partes de um conjunto fechado são cortes imóveis, sendo os estados sucessivos calculados num tempo abstrato, enquanto a abertura da totalidade corresponde ao movimento real duma duração concreta, sendo os movimentos equivalentes aos cortes móveis que atravessam o sistema fechado. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O movimento é duplo. Passa por entre as partes e, ao mesmo tempo, exprime o todo. Divide a duração em múltiplos objetos e conjuntos e os reúne de novo na duração. Cai a ficha sobre a profundeza do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Matéria e Memória&lt;/span&gt;: não há, apenas, a imagem instantânea, o corte imóvel, mas imagem-movimento, corte móvel da duração, numa relação de mudança para além do movimento mesmo...&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;DELEUZE, Gilles; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; font-weight: bold;"&gt;Teses sobre o movimento - Primeiro comentário de Bergson; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;In: Cinema 1 - a imagem-movimento; Trad. Stella Senra; Editora Brasiliense; 1983 [original]; pp. 9-21.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-1190896274515276423?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/1190896274515276423/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=1190896274515276423' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1190896274515276423'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1190896274515276423'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/08/teses-sobre-o-movimento-primeiro.html' title='Teses sobre o movimento - Primeiro comentário de Bergson'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-8558546201963623211</id><published>2010-08-10T08:51:00.000-07:00</published><updated>2010-08-10T15:01:25.501-07:00</updated><title type='text'>Meio-amargo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes dos 20, já era moço dedicado às filosofias. E dos bons! Formei e me formei em bons espaços, grandes o suficiente para se brincar de pique-esconde. Lá, travei debates com almas gigantes, com as quais aprendi a apanhar. E, mais importante, vivi encontros maravilhosos com os mais brilhantes sóis. Tinha a cabeça nos céus e, mesmo andando sempre um ou dois palmos acima do chão, estava atento ao doloroso concreto - velho amigo de todas as quedas! - sob os meus sapatos gastos. Ainda em juventude, escrevo uma tese: critico alguma coisa usando o pensamento de não sei quem propondo uma nova prática para não sei onde. Coisa bonita, bem amarradinha. Estudei, conversei e discuti, por demais. Tive muitas dores de estômago mas, finalmente, tornei-me homem doutor. Construi amizade com muitos e inimizades com todo o resto. Acontece. Fruto da estabilidade. Depois de algum tempo, só ajeitando papéis, a escrita me retorna. Começo a dissertar sobre filósofos e artistas. Corrijo-me. Não "sobre", mas "entre". Não falo do já falado nem replico o já aplicado. Tenho o bom gosto de sempre querer o diferente. Talvez por isso eu não seja um intelectual: eu penso, pois! Começo a me afamar. Se isto é bom ou ruim, nem sei. Nem quereria saber destes problemas falsos. De falsidades, bastam-me as minhas. Meus livros, escritos no silêncio ruidoso que costuma me incomodar, começam a circular por aí. E por aqui. E por lá, também. Vai, inclusive, mais longe que as bandas de lá e precisa passar por tradução e tudo o mais. Permito-o, com alguma tranquilidade. Espaços são construídos sobre o meu nome e o tempo corre através deles. Envelheço! Satisfeito com o já feito e moído das constantes batalhas, meu corpo resolve descansar. Minhalma, no entanto, vaga por aí. Vaga a ponto de assistir - anos, décadas, talvez séculos depois! - um menino lendo um - e só um, saliento - dos textos que escrevi. Texto lido longe de onde nasci, muito tempo depois que morri e numa lingua que nunca aprendi. O moleque dá seu veredicto: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Esse cara é um idiota! Não escreve coisa com coisa...".&lt;/span&gt; Desconfio que seja um problema crônico. Inteligência estudiosa, talvez. Fosse ele um surfista relaxado, saberia esperar o melhor momento para entrar na onda. Que coma areia, então! Viro e me reviro, pra poder descansar em paz mas, depois de uma dessas, quero mais é um pé pra puxar. Acho que já chegou a hora de escrever um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;post morte&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;m&lt;/span&gt;. Nunca mais publiquei algo inédito, mesmo...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TGHJutxw-SI/AAAAAAAAALw/9yAqzZ8maWs/s1600/Deleuze.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 246px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TGHJutxw-SI/AAAAAAAAALw/9yAqzZ8maWs/s320/Deleuze.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5503902024022948130" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-8558546201963623211?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/8558546201963623211/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=8558546201963623211' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/8558546201963623211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/8558546201963623211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/08/meio-amargo.html' title='Meio-amargo'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TGHJutxw-SI/AAAAAAAAALw/9yAqzZ8maWs/s72-c/Deleuze.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-4788342984738344744</id><published>2010-08-08T18:34:00.000-07:00</published><updated>2010-08-08T18:38:47.229-07:00</updated><title type='text'>Get a Life</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TF9cB2w-gsI/AAAAAAAAALo/itH8ScVEkjQ/s1600/mario+%2833%29.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 213px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TF9cB2w-gsI/AAAAAAAAALo/itH8ScVEkjQ/s320/mario+%2833%29.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5503218456620597954" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TF9bmD24WRI/AAAAAAAAALg/0A3-prif7GU/s1600/mario+%2833%29.jpg"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-4788342984738344744?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/4788342984738344744/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=4788342984738344744' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4788342984738344744'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4788342984738344744'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/08/get-life.html' title='Get a Life'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TF9cB2w-gsI/AAAAAAAAALo/itH8ScVEkjQ/s72-c/mario+%2833%29.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-8736760742235826356</id><published>2010-08-05T17:37:00.000-07:00</published><updated>2010-08-08T17:51:49.761-07:00</updated><title type='text'>Spiral</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Você está acompanhada, mas quem liga!? Continuo a te mirar com olhos de vidro, como que tomado por uma esperança santa de participar do seu mundo. Delírio fanático, sei disso. Mas você não para quieta, mulher! Mulher com cara de criança. Ou uma criança que, de contrabando, entrou num corpo de gente grande. Não importa: suas mãos pequenas te denunciam! Lá e cá, cá e lá. Gesticulam, apontam, zunem. Sua boca fala pouco e - abro o jogo - não entendo muito o que ela quer. Suas mãos é que não param de me dizer coisas e coisas e mais coisas. Num movimento brusco, quase violento, você me assusta. Percebo sua cara de gozo. Ri, pode rir! E, agora, você levanta! De pé, a boca permanece fechada mas as mãos resolvem se abrir, talvez querendo afastar qualquer aproximação indevida. Percebo um tique sutil nos seus lábios. Algumas idéias começam a se tecer, em mim, e começo a flutuar. Você senta. Levanta de seu banco, mais uma vez, e senta de novo. E suas mãos se calam. Disperso pelo silêncio, sou forçado ao pouso. Os seus convivas começam a falar, agora. Belos discursos, mas maduros demais. São adultos, creio. Suas mãos proseiam, mais uma vez e - de punho em riste - socam o armário à sua frente! Levo outro susto. E outro. E mais outro! Começo a ficar desconfortável. Penso eu que a mulher deva ser louca. Mas talvez ela o seja porque eu pense por demais. Os dedos de menina começam a dançar. Balé russo, valsa vienense, rock and roll, fusion! A dança ganha velocidade, mais e mais. Celeridade demais, diz o maior dos dromólogos. Pergunto-me o porquê de tudo isto. Porque ela pode, a provável resposta! Criaturinha insuportavelmente cativante, essa mulher. As luzes acendem e todos vão embora. Cansado, demoro a partir. Vou-me. Mas volto, qualquer dia desses...&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TF9Q8vhgdwI/AAAAAAAAALY/dHyA4yDD7Jo/s1600/images.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 183px; height: 275px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TF9Q8vhgdwI/AAAAAAAAALY/dHyA4yDD7Jo/s320/images.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5503206274149414658" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-8736760742235826356?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/8736760742235826356/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=8736760742235826356' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/8736760742235826356'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/8736760742235826356'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/08/spiral.html' title='Spiral'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TF9Q8vhgdwI/AAAAAAAAALY/dHyA4yDD7Jo/s72-c/images.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-3340581263007845328</id><published>2010-07-31T12:26:00.000-07:00</published><updated>2010-08-01T22:21:09.457-07:00</updated><title type='text'>Um-outreidade: o barroco e eu</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TFZTTmb71QI/AAAAAAAAALI/rZRiI58agJA/s1600/20070822klpartmsc_69.Ies.SCO.jpg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 320px; height: 245px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TFZTTmb71QI/AAAAAAAAALI/rZRiI58agJA/s320/20070822klpartmsc_69.Ies.SCO.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5500675591079974146" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Dando continuidade à discussão iniciada no post anterior, puxo um outro exemplo para que a imagem do um-outro fique melhor lapidada, ao mesmo tempo em que preparo a casa para a vinda dum post futuro, sobre o que é que se faz disso tudo. Se, antes, apresentei dois personagens ficcionais para ilustrar o conceito, conto agora uma experiência pela qual estou atravessando: o embate violento e sanguinário entre a minha pacífica pessoa e o dragão hermético que é a música barroca. Rufem os tímpanos! &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Barroco quer dizer "disforme", diz o dicionário. Esse termo foi usado, até meados do século XIX,  para nomear - pejorativamente - as formas artísticas por demais carregadas, ornamentadas, incrementadas e cheias de fru-fru. Foi idéia do povo moderno tranformar o palavrão num conceito e aplicá-lo a uma coordenada temporal específica, caracterizada por sua estilística rebuscada. O Barroco musical - demarcação de historiador - nasce com o surgimento da ópera e do oratório, no começo dos anos 1600, e falece juntamente com Händel e Bach, em 1750.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Muito estudei para escrever sobre o Barroco. Visitei inúmeros sites e li diversos livros para a empreitada... Tá, tudo bem! Fui na Wikipédia e folheei uma modesta enciclopédia sobre história da música, confesso. No entanto, mesmo me articulando, apenas, com estas duas fontes, obtive uma quantidade incrível de conteúdos desejosos de serem passados adiante: a divisão sócio-política do século XVII e como a arte barroca se distinguia duma classe a outra; a influência do racionalismo científico na música da época; as inovações musicais do Barroco, como o baixo contínuo e o conceito de tonalidade; a importância da música instrumental e suas novas formas, como a sonata, a suíte, a fuga e o concerto; o investimento em instrumentos de boa capacidade melódica, como o violino e o cravo; a aparição de novos personagens no cenário musical, como o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;virtuose&lt;/span&gt;, o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;luthier&lt;/span&gt;, o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;castrati&lt;/span&gt;, o mecenas. E isto sem mencionar as já manjadas contradições típicas do espírito barroco, verdadeiras relações um-outro: o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;piano&lt;/span&gt; e o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;forte&lt;/span&gt;, o solista e a orquestra, a letra e a música, o vocal e o instrumental, o religioso e o profano, o lento e o rápido, o sério e o bufo. Cada um dos tópicos renderia escritos e mais escritos! Como estou mais preguiçoso que o de costume não detalharei nada disso. Importância não implica obrigatoreidade, certo? Fiquemos com o necessário. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Meu exangue parágrafo não é suficiente para que os amigos construam uma imagem do Barroco, definido pelo seu rigor e prolixidade. Aos mais animados, sugiro uma pesquisa: Monteverdi, Scarlatti, Albinoni, Vivaldi, Bach, Telemann, Purcell, Händel, Couperin. Escolham - ao menos! - dois dos senhores listados e façam uma viagem por algumas composições. Aos mais fatigados, dou três informações: o Barroco musical não utiliza de muitos acordes, visto a harmonia ser construída pela própria melodia; o Barroco musical aposta na música conjunta - orquestras e grupos de câmara, por exemplo - em oposição aos solitários bardos renascentistas; o Barroco musical, por fim, possui um andamento rítmico bem definido e, por que não dizer, repetitivo. Pois bem! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Para os que não sabem, eu toco um pouco de violão. Mas - abro o jogo - meu instrumento preferido é o pianoforte. O violão, embora consciente do seu papel de segunda opção, mantém boas relações comigo. Tive aulas formais de piano quando guri mas, não tendo o corpulento móvel a minha disposição, preferi debandar para as cordas. Tendo pouca orientação com o novo instrumento, só pude aprender a tocar de minha própria maneira: partituras para piano, bares, classicismo italiano, chorinho, Tárrega, Baden Powell, Andres Segovia, Raphael Rabello, manuais de música, blogs especializados, amigos, paixões, bebedeiras e luais compunham um coletivo vivo a acompanhar minha solidão. Destarte! Como seria o encontro entre a aristocracia barroca e o tempo roubado dos sambas e das bossas!? Como um violão judiado e mestiço soaria uma música ariana!? Como um instrumentista solitário - acostumado a tirar e por notas, acelerar e frear compassos, repetir o que não deve e pular o que não curte - encararia um estilo pontual, formal e grupal!? E é esse o encontro um-outro do escrito: eu e o barroco. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Montei com uns amigos, a alguns meses atrás, um projeto musical. Coisa nova em minha estética, visto sempre ter recusado convites para tocar em conjunto. A música era coisa muito séria a mim e, por isto mesmo, não deveria ser formalizada em grupos, estilos ou apresentações.  Seriedade, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ma non troppo&lt;/span&gt;. Coisa de misantropo, ao que parece. Ou de apaixonado, o que é quase a mesma coisa! E mesmo sacando a pegada das músicas, tendo as partituras em mãos e treinando com afinco cada uma delas, eu não me desempenhava tão bem durante os ensaios coletivos quanto nas dedilhadas   em isolado. Mesmo apresentações simples para alguns amigos não pareciam tão gloriosas quanto os meus toques, quando estou só. Foi nessa experiência que resolvi marcar um encontro com o Barroco e ver no que este esbarrão resultaria. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Recapitulando. A música barroca constrói a harmonia - Dó com sétima aumentada, Lá com Nona, Si diminuto, Mi menor! - não com acordes, mas no andamento da própria melodia; visa - sendo geral - grupos musicais; e possui um ritmo constante - quase matemático! - no andamento de suas composições. Pareando comigo. Um pianista frustrado que toca violão, um instrumento reconhecidamente harmônico (ainda que eu me arrisque mais na melodia); sempre exercitou sua música distante de outros musicistas (ainda que goste de ver outros tocarem); e tem mania de alterar o andamento das pautas que lê (ainda que curta a escrita das partituras). Encontro tenso. As mãos tremulam. O cabelo, em desalinho, começa a coçar. Um se irrita com a falação do outro, e o outro desgosta da retidão do um. Os corpos se incomodam. Param. Mexem-se. Sentem-se rasgar. Inferno! Mas até no inferno - adornando - ainda há algum ar para respirar. Link com o post anterior: Se o Barroco está para Chiaki, eu estou para Nodame-chan (salvo, claro, o fato da menina possuir uma ginga musical imensuravelmente superior a minha). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O encontro entre Chiaki e Nodame produziu mudanças num, noutro e no mundão relacional dos dois. Mas &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Chiaki-Nodame&lt;/span&gt; não são nem duas unidades fechadas a se influenciarem nem uma única unidade resultante da relação. Não é uma coisa - nem duas! - mas um "entre". Disse isto, no texto anterior, e o repito! Símile é a relação "entre" a minha pessoa e o Barroco. Não dois pontos individuais, mas uma rede de hecceidades. Eu, violeiro romântico, passo a serializar um pouco mais a minha música, assim como o sujeito lírico deixa de poesia e p&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TFZTlaKs2fI/AAAAAAAAALQ/oXleJ2dZUXw/s1600/picasso_three_musicians_moma.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 291px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TFZTlaKs2fI/AAAAAAAAALQ/oXleJ2dZUXw/s320/picasso_three_musicians_moma.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5500675897024109042" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;assa a prosear, intuindo ser um pouco mais compreendido pelos demais. O Barroco, referência circulante viva e independente de todos os humanos, passa a fazer parte de meu repertório e falatório, ganhando existência noutras cadeias de proposições que não as minhas ou as de um e outro erudito perdido, pelas bandas de lá. Verdadeiras negociações de guerra. Quanto mais alguém se enganou na vida, mais ele dá lições. Deleuziando! Um e outro ganham, mas não é simples aprendizagem mútua. Um-outreidade é isso aí! É encontro que não ensina, não corrige e tampouco aponta caminhos. Mas temporaliza os espaços, desinternalizando a diferença - transformando a in-diferença em afeto -  entre uns e outros e colocando problemas que não devem ser solvidos por nenhuma das partes, mas pelo coletivo derivado de toda essa articulação caótica e nem um pouco ordenada entre homens e mulheres, períodos históricos e auto-didatas, teorias acadêmicas e a galera normal do nosso dia-a-dia...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-3340581263007845328?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/3340581263007845328/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=3340581263007845328' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/3340581263007845328'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/3340581263007845328'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/07/um-outreidade-o-barroco-e-eu.html' title='Um-outreidade: o barroco e eu'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TFZTTmb71QI/AAAAAAAAALI/rZRiI58agJA/s72-c/20070822klpartmsc_69.Ies.SCO.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-6862966747730946210</id><published>2010-07-25T19:56:00.000-07:00</published><updated>2010-07-26T22:53:17.095-07:00</updated><title type='text'>Nodame Cantabile</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TE5zgy5Z3lI/AAAAAAAAAK4/-0ublXIDS-Y/s1600/nodame-cantabile-1.gif"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 242px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TE5zgy5Z3lI/AAAAAAAAAK4/-0ublXIDS-Y/s320/nodame-cantabile-1.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5498459202321505874" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Gosto de coisas duais. Coisas duplas. Quase falsas. Não é das contradições dos românticos que falo, porque estes ou querem cobrir o mundo  efervescente com o véu gelado da razão humana ou querem fazer dos afetos a potência motora de toda e qualquer eventualidade. Nem Hegel nem Freud. Talvez por isto goste tão publicamente do Bergson e começo, em segredo, a tomar afeição pelo Bachelard. Ciência, método e rigor dividindo o palco com arte, poesia e criação. Não um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ou &lt;/span&gt;outro. Nem um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;e&lt;/span&gt; outro. Mas um outro! Ou "um-outro", para os que gostam de conceitos bonitinhos. Talvez seja nessa um-outreidade (valei-me!) que se situe meu apreço por Nodame Cantabile, um anime sobre música erudita.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;E já se revela, aí, a primeira mostra de um-outreidade em Nodame Cantabile. Falas histéricas, olhos esbugalhados e reações inesperadas fazendo conjunção carnal com platéias silenciosas, ouvidos atentos e partituras. Um casamento que, numa primeira visada, teria tudo para descambar num divórcio, e sem separação de bens. Mas não! Animações e eruditismos conseguiram - como em poucas vezes - fazer um casal casadinho, casal-um-outro! E um trabalho tão bonito carrega duas personagens igualmente bricoladas, ainda que gritantemente diferentes. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Chiaki-sama e Nodame-chan. O ordeiro e a caótica. O perfeccionista e a desleixada. O maestro e a professorinha do jardim. O barroco rebuscado e o jazz desconexo. A leitura na pauta e a composição inventiva. Diferenças! E diferença, na minha escrita, não se opõe a semelhança, mas a indiferença! Vejamos. O primeiro encontro, ainda que invisível, de nossos heróis se dá na escola superior de música na qual ambos estudam. Chiaki, logo após discutir feiamente com seu orientador, começa a andar apressado pelos corredores do prédio e escuta, vindo de uma das salas de treino, o segundo movimento da sonata para piano nº 8, de Beethoven, a famosa Patética. Esse hipnotizante movimento, um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Adagio Cantabile&lt;/span&gt;, é conhecido pelo seu ar de tranquilidade e leveza, fruto dum encontro um-outro entre o andamento pesado e moroso dos adágios e o tempo flexível e carregado de legatos das canções. A execução que Chiaki escutava, no entanto, estava interpretada em &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Capriccioso Cantabile&lt;/span&gt;. Uma Super-Canção! Saltitante, imprevisível, desordenada! Mas, mesmo desordenada, não estava errada. Isso Chiaki assumia. Era apenas um encontro outro do  parido por Beethoven. Diferente! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O segundo encontro Chiaki-Nodame - que pode ser considerado um prolongamento do primeiro -  se dá quando a menina Nodame, ao voltar para casa, encontra Chiaki desmaiado de bêbado à frente de sua porta. Acaba levando-o para dentro de seu apartamento; um verdadeiro aterro, principalmente quando comparado à perfeição métrica e higiênica do lar do mocinho que, por sinal, é seu vizinho. Ao acordar, Chiaki dá de cara com o corpo que deu vida a tão caprichosa interpretação da Patética, tocando a mesma bela e imprevisível canção, mar de beatitude a preencher um quarto cheio de lixo. Assustado, corre dali o mais rápido que suas pernas, bambas de ressaca, permitem. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O desenrolar da narrativa toma um caminho muito característico dos mangás &lt;span style="font-style: italic;"&gt;shoujo&lt;/span&gt;: Nodame se apaixona - loucamente - por Chiaki, que pouco lhe dá bola. As situações decorrentes, porém, sempre insistem em colocá-los juntos. O que nos interessa: Chiaki, devido a um trauma de infância, não consegue viajar de avião ou navio, o que o impossibilita de ir à Europa; já Nodame, mesmo sendo dona duma pegada musical invejável, tem como sonho ser uma professorinha maternal. Ambos pla&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TE5zvmShmxI/AAAAAAAAALA/c3TBdlcj5gQ/s1600/nodame_cast.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 247px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TE5zvmShmxI/AAAAAAAAALA/c3TBdlcj5gQ/s320/nodame_cast.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5498459456635247378" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;nejam, mas nenhum consegue caminhar. Chiaki, preso ao Japão, não pode construir sua desejada carreira de maestro e Nodame, instável e imprevisível, não conseguiria nem se dedicar ao piano erudito nem tomar conta das crianças, que tanto ama. É aí que um e outro se enlaçam. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;As postagens daqui, do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sujeito&lt;/span&gt;, em geral querem sempre fazer uma apologia à criação, ao novo, ao imprevisto. Os visitantes usuais deste cantinho devem até estar esperando uma comparação entre o intelectivo Chiaki e a intuitiva Nodame, e como esta é superior a aquele por isto, por aquilo e por mais tantas outras coisas. Mas não! Hoje, quero falar do encontro. Chiaki-Nodame. Chiaki nada seria sem a Nodame, e a Nodame nada produziria sem o Chiaki. O arrogante Chiaki, preso a suas próprias pautas, passa a olhar para o lado humano da música, aprendendo que reger orquestras é, antes de tudo, escutar as pessoas. A maluquinha da Nodame, em contraparte, passa a escutar as referências inumanas que por aí ressoam, deixando de compor - a todo momento - em cima das músicas de outrem. Dessemelhanças que se fazem diferença! O casal não se ignora. Não se fazem unidades separadas, nem um 2 fechadinho. Mas se permitem afetar! Produção de diferença, em si e no outro. Chiaki recebe uma transfusão de vida, verdade! Mas Nodame aprende - antes de mostrar seu repertório - a escutar o que é que os outros tem a lhe dizer...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-6862966747730946210?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/6862966747730946210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=6862966747730946210' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6862966747730946210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/6862966747730946210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/07/nodame-cantabile.html' title='Nodame Cantabile'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TE5zgy5Z3lI/AAAAAAAAAK4/-0ublXIDS-Y/s72-c/nodame-cantabile-1.gif' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-4610250846891134288</id><published>2010-07-19T18:09:00.000-07:00</published><updated>2010-07-20T00:49:02.800-07:00</updated><title type='text'>Ouvido Absoluto e Relatividades</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TEVUABVkgcI/AAAAAAAAAKo/zAwpzwPIaBQ/s1600/musica0.jpg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 273px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TEVUABVkgcI/AAAAAAAAAKo/zAwpzwPIaBQ/s320/musica0.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5495891279611199938" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Numa conversa com um amigo, por esses dias, falava eu sobre a infinidade criativa da música. Ou &lt;span style="font-style: italic;"&gt;na&lt;/span&gt; música. Mas enfim! Dizia que a música, assim como qualquer manifestação inventiva do homem e do mundo, possuia inesgotáveis possibilidades; meu adversário de idéias, fazendo frente a minhas discursivas apaixonadas, argumentava que as possibilidades sonoras a usarem toda a escala cromática - um sistema serial de 12 notas, que são a totalidade de sons que um instrumento temperado pode executar numa oitava - tenderiam a um fim, assim como as sequências numéricas decorrentes duma análise combinatória. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Percebo, então, que estamos usando termos diferentes, mas que respondem ao mesmo nome, em nossa prosa. Como toda criança que não sabe o que fazer num momento decisivo, trago para a conversa alguns mestres para que os mesmos falem da Matéria e da Memória, mas o resultado foi um desfile de conceitos vagos e pedantes que transformaram uma boa conversa de bar numa chata palestra de cátedra que terminou sem perguntas; não porque o falante, de seu púlpito, trouxe luz à caverna, mas porque transformou em escrita una toda a sonoridade coletiva daquele evento. O momento torna-se instante. A festa vira foto. Cometo o mesmo assassínio temporal que eu condenava durante meu discurso de acusação, o que ficará claro no decorrer da postagem. Espero!&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Imaginem uma partitura em branco. E, para os que nada entendem de notação musical, tentarei ser o mais claro possível na explicação. Coloquemos a mesma em quatro por quatro. Ou seja, dentro de cada compasso da partitura teremos quatro espaços, indicados pelo numerador, sendo que cada um deles vale uma semínima, valor de duração equivalente ao 4 do denominador. Revisão puramente contextual: uma semínima dura um quarto do tempo duma semibreve, metade do tempo duma mínima, o dobro do tempo duma colcheia, o quádruplo duma semicolcheia. Paremos por aqui. Na nossa pauta, em 4/4, "cabem" 4 semínimas. Como cada semínima vale duas colcheias, poderíamos substituir as 4 semínimas por 8 colcheias. Ou por 3 semínimas e 2 colcheias. Ou 2 semínimas e 4 colcheias. Ou 1 semínima e 6 colcheias. E isto em ordens diversas: SSCCCC, SCSCCC, CCSSCC e CSCSCC são algumas das muitas possibilidades de combinação de 2 semínimas e 4 colcheias num compasso em 4/4. Reflitam. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Poderíamos substituir, dentro deste mesmo compasso, cada nota por uma pausa. Existem pausas com valores equivalentes a todas as durações, da morosa Máxima, usada nas notações antigas,  à histérica Quartifusa, que vale 1/32 de semínima! Ao invés de fazer soar, então, podemos calar. Vê só! Dentro de cada valor, poderíamos tocar 12 notas (Dó, Dó sustenido, Ré, Ré sustenido, Mi, Fá, Fá sustenido, Sol, Sol sustenido, Lá, Lá sustenido e Si) ou optar por calar. 13 possibilidades. Num compasso em 4/4, ocupado apenas por valores de semínima, eu posso ter 13x13x13x13 combinações musicais. E isto num instrumento temperado de apenas uma oitava! Um violão, de três oitavas, ou um pianoforte, de sete, multiplicam os possíveis. Para os neuróticos obssessivos curiosos em levar a brincadeira adiante, façam as contagens com todas as combinações possíveis de valores, da Máxima (8t) à Quartifusa (t/128), levando em consideração as 12 notas da escala cromática e as costumeiras pausas. Eu, que sou menino, paro por aqui. Pra deixar a atmosfera menos pesada, proponho um exercício de imaginação diferente, uma viagem para outros lugares. Quatro, em especial. Um bar, um teatro, um quarto e um outro teatro.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nogueira acorda cedo, pela seis, e começa a afinar seu cavaco. Depois dum café reforçado, separa algumas cifras e passa na casa do Joca, pra por a conversa em dia. Vão juntos, minutos depois, ao "Choro do Zé", onde costumam passar o sábado inteiro. Caixas de cerveja, uns velhos isolados no canto, cachorros bebendo a água da sarjeta. Estão lá o Paulão, o Batata, o Clóvis. Nogueira, já meio ébrio, cansa de tocar seu cavaco, vai pro violão e, desacostumado aos trastes grandes do instrumento, puxa uma música do João Bosco, que é seguida pelo Joca com seu pandeiro maroto.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Sara é violinista e mestre de concerto duma orquestra de repercussão global, mesmo sendo a mais jovem do grupo de cordas. Exigente consigo mesma, treinou duro para alcançar sua posição, visto ter nascido em família pobre e nunca ter tomado aulas. Nenhum membro da orquestra - aristocrática - sabe do seu berço. Entra no palco com seu vestido vermelho, destoante do negro pinguim usado pelo resto da orquestra; cumprimenta o maestro Vieira; olha a platéia, acomodada em suas fofas poltronas; fecha os olhos e começa a melodiar o primeiro movimento da Primavera, de Vivaldi.&lt;/span&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Gomes é aluno de guitarra clássica e toma aulas com Seu Silva, um professor parti&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;cular. Seu objetivo é adentrar num conservatório musical mas, pra isso, pretende entrar em contato com noções básicas do seu instrumento e adquirir algum manejo da teoria musical. Nervoso, tira seu violão da capa e começa a interpretar um estudo em Sol Maior do Ferdinando Carulli, em uníssono com o seu tutor - o que considera muito difícil - visto sua  interpretação ser bem diferente do toque rubatado de Seu Silva.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Luís entra no palco e ruma ao piano. Recebe uma salva de palmas. Pretende tocar Villa-Lobos em sua apresentação do festival &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Avant-garde&lt;/span&gt; de música moderna mas, como uma surpresa de abertura para a platéia, interpreta 4´33´´, do John Cage, permanecendo quatro minutos e meio em posição de ataque, mas em completo silêncio durante toda a execução da obra.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt; &lt;/span&gt;O que aprendemos com Nogueira, Sara, Gomes e Luís? Só um tolo não perceberia que a música do Nogueira e o Choro do Zé são unha e carne. Que o Prada escarlate e a infância pobre de Sara é que matizam as cordas do seu violino. Que Gomes e Seu Silva, mesmo tocando a mesma música, tocam músicas diferentes. Que Luís não está em silêncio, pois o ruído dos pigarros e sussuros no &lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TEVUWP9woaI/AAAAAAAAAKw/gAR6M6ZhAr4/s1600/musica-dog1.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TEVUWP9woaI/AAAAAAAAAKw/gAR6M6ZhAr4/s320/musica-dog1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5495891661494985122" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;teatro é que fizeram música, diria o chinês! A partitura, tecnologia de inteligência, não abarca a história. Transforma em sucessão de sons e silêncios o que é, em verdade, uma coexistência de eventos. As desculpas intelectuais: se Nogueira e Joca percussionam diversamente das valsas bem compassadas, diz-se então que estão a sincopar; Sara, persistente, aprendeu a arte do violino mesmo em condições adversas a tal; Gomes e Seu Silva tocam a mesma música, mas com expressividades diferentes; e John Cage é um experimentalista idiota! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Se partirmos da escrita musical, numa pauta, estaremos corretos em comparar a música a uma sequência numérica. Compreensível. Mas seria o mesmo que afirmar, numa analogia,  que todo o pensamento já está pré-colocado e destinado a um fim, visto só possuirmos 26 letras para combinar em palavras soantes. A atividade musical, sempre eventual, só atingirá seu fim quando cessar as relações que possibilitam essa criatividade coletiva de homens, mulheres, roupas de grife, cerva gelada, teatros silenciosos, platéias sibilantes, quartos escuros, violões desafinados. A música não como sons que se sucedem, mas como mundos que se agenciam. Sejam as dobras musicais que a história tão bem delineou - Barrocos, Românticos, Impressionistas - sejam as esquinas escuras que, pintadas de povo, camuflam-se dos registros intelectuais... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;P.S.: E eu nem entrei nos méritos da música microtonal. Fica pra uma próxima...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-4610250846891134288?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/4610250846891134288/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=4610250846891134288' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4610250846891134288'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4610250846891134288'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/07/ouvido-absoluto-e-relatividades.html' title='Ouvido Absoluto e Relatividades'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TEVUABVkgcI/AAAAAAAAAKo/zAwpzwPIaBQ/s72-c/musica0.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-1637387985128516309</id><published>2010-07-12T23:17:00.000-07:00</published><updated>2010-07-12T23:30:22.494-07:00</updated><title type='text'>Ethos</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;style type="text/css"&gt;  &lt;!--   @page { margin: 2cm }   P { margin-bottom: 0.21cm }  --&gt;&lt;/style&gt;&lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Tá!  Começo puxando o Bauman e aquele lance da conduta moral que ele  pega do Levinas. Como era, mesmo!? O paradoxo em se falar duma  necessidade da moral, a morte da ética quando pedimos por  argumentos para justificá-la – palavra com muitos sentidos! Tenho  que trabalhar isso, no texto – e o des-propósito da moral, visto  ser a mesma uma manifestação criativa típica da humanidade.  Depois, articulo isso com a Beatriz Sarlo e a idéia do colecionador  às avessas, que ela traz. Ué, cadê!? Não tô encontrando! Devia  ter marcado a página. Merda! Enfim, depois procuro isso. Cadê meu  rascunho? Aqui! O colecionador às avessas não deseja objetos, mas  atos de compra-e-venda. Pronto! E isso, eu ligo com a Heliana Conde  e sua proposta duma narrativa eventual, que ela constrói usando o  Foucault, que constrói seu trabalho usado o Nietzsche.  Demolir os  castelos&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;  da metafísica e deter-se nos bairros baixos e singulares. Bonito,  isso! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Heliana-Foucault-Nietzche!  Não, apaga, apaga! Peraí! Essa idéia de eventualização – ou  seria melhor citar em francês, mesmo? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Événementialisation!  &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Nada,  é pedante demais! – eu poderia ligar com a temporalidade suspensa  dos Shoppings Centers, que a Beatriz comenta. E, falando em tempo,  acho que uma pitadinha de Bergson no trabalho não fará mal. Isso!  Genial! E, pra ligar o menino ao Bauman, eu posso usar uns  parágrafos da Hanna Arendt sobre política, já que ela tem um  pézinho na fenomenologia do Heidegger. Sempre quis parear Bergson e  Heidegger! E aqui, nesta parte, a Beatriz fala da identidade  transitória do ato de consumo e de como os objetos nos significam.  Dá pra puxar os não-humanos do Bruno Latour e falar da política  de intercessores do Deleuze, também! Mas eu penso, penso, penso e  penso mais um pouco. Aaah! Quanto mais eu penso, menos consigo  escrever! Não fiz nada, até agora, e o trabalho é pra ser  entregue próxima semana! Fodeu, velho!  Nem uma gotinha sequer de  tinta consigo espremer das minhas penas. Consegui juntar esse monte  de gente, que é o mais difícil, mas não consigo escrever nada!  Céus!!!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Monte de gente!? Você ficou  trancado em casa o final de semana inteiro. E sozinho! Bebeu!? Ou  endoidou de tanto estudar?&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Nada! Tenho um ensaio sobre  ética pra entregar e, mesmo com boas idéias – porque eu as  tenho! – não consigo preparar nada que seja bacana.&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Vai fazer uma outra coisa,  então, e esfria a cabeça. Como comprar pão, por exemplo. Acabei  de preparar um café, mas percebi que o pão de ontem acabou. Vai lá  na padaria, pra mim.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Posso, não! Tenho de acabar o  trabalho e, logo mais, encaminhar outros problemas da universidade,  mulher.&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Tá bem, “homem”, mas  você acabou de dizer que não consegue produzir coisa alguma. Além  disso, comprar pão é mais importante que escrever seu trabalho,  não!?&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Claro que não! É um trabalho  sobre Ética, com “E” maiúsculo! Que pode ser mais importante  que isso? Volta a assistir o William Bonner e me deixa terminar o  escrito.&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Começar”,  você quis dizer. Enfim... O Jornal tá pior que o de costume, hoje!  Metade das notícias é sobre aquele goleiro do Flamengo. É Bruno  pra cá, Bruno pra lá... E olha que as eleições já estão aí!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  E qual o problema?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Como assim, “qual o  problema”!? Um Jornal que se diz Nacional, vê se pode!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Mas o Bruno é uma figura  pública. Não vejo nada demais, nisso...&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;O Bruno é uma figura  célebre, bem. Não pública! Figura pública é um outra coisa,  atrelada e articulada com os processos políticos, com os movimentos  que interessam à nação e seus habitantes!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  De qualquer maneira, ele é  popular!&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Também não! O que é  popular vem do povo. Cria e se cria no povo, no meio das gentes.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Lá vem...&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Tá! Se não quer conversar,  não conversa. Mas vai comprar o pão, ao menos!?&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Já disse que não posso! Tô  escrevendo!&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Então, me mostra o que você  já escreveu.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Sacanagem, isso. Você sabe que  ainda não escrevi nada!&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Mostra os rascunhos, ao  menos. Deixa eu ver... Bauman... Levinas... Hum... Certo. Heliana  Conde... Foucault... Mais Foucault...Huhum... Hum...&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  E aí!? Que achou?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Bonito.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Legal a proposta, né!?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Não disse “legal”. Disse  “bonito”. Você pegou um monte de cores diferentes, esparramou  numa tela, deu um formato reconhecível e apreciável... Uma obra de  arte! Mas daí você pendura na parede dum museu, junto com outros  quadros pintados, por você ou não, que seja. Um dia, alguém entra  no museu, por acidente ou não, que seja, e dá de cara com sua  tela. Olha, entende, gosta e, depois de comentar com os colegas ao  lado sobre a pintura, vai pra casa, viver a sua vida. Acho eu que  você deva gastar sua tinta com coisas mais urgentes. Nossa casa  anda precisando duma mão, por exemplo.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Nunca entendo as suas  histórias... Como assim?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Pão! Não temos pão. E você  não está fazendo nada, agora.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Essa sua conversa já tá me  dando raiva...&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Minha, não! Nossa! E ela já  está me dando é fome. Meu caso é pior! Como é que é aquela  música do João Bosco, mesmo!? Aquela, do ronco da cuica...&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Tá, tá! Algo mais?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Claro que sim, amor. Vamos  falar sério. Esse Bergson já encheu, né!?&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  É o quê!? Tá fumada!? O  Bergson, mesmo tendo nascido a mais de 100 anos atrás, continua  atualíssimo! Escrevia sobre cinema, matemática, relatividade  restrita, neuropsicologia, bioética... Ouxe!  Com 23 anos, já era  professor dum Liceu, minha amiga! A tese de doutorado do cara é  referência para a filosofia vitalista, até hoje! Era diplomata,  também, e interviu diretamente na Primeira Guerra! Resolveu um dos  grandes problemas de Pascal! Ganhou um Nobel! Era amigo de William  James! Era casado com a prima de Marcel Proust!&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Ei, ei, ei! Calma, aí! Nem é  disso que se trata. Não quero saber se as bolas dele são maiores  do que as suas. O que eu tentei dizer mas você não deixou – como  sempre! – é que, não importando o assunto, seja ciência,  religião, a copa do mundo, cerveja, uma receita de macarronada,  enfim, você sempre arruma um jeito de tascar o Bergson na conversa.  Seu pensamento é invertido!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Hein?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;É. Você não pega uma  experiência e, dela, tira um discurso; mas parte do blá-blá-blá  da teoria e tenta colocar as coisas dentro dela. É o que eu sempre  achei engraçado no Platão. A vida só faz sentido quando ela  corresponde a uma idéia! Tosco demais, pra mim. Você começa do  fim, do céu, mas nunca termina no chão. Como o Platão e o Bonner.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Entendi, de começo, mas agora  voei! Como que o William Bonner entrou na conversa?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Hoje, mesmo, ele só falou do  Bruno e do gorro da Fátima. Uma tragédia e uma comédia. E eu com  isso!? Mas não! Eu querendo saber de Dilma e Serra, e o que eu  recebia eram notícias dum tal polvo que sempre acertava o placar  dos jogos. Azar dele, que não participou de bolão! Você, que é  psicólogo, deve se empolgar ao ver que questões individuais  suscitam mais interesse que os assuntos coletivos. Não entendo  isso!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  O Sennet dedica um livro só pra  isso. Posso arrumar um exemplar pra você, se quiser. Mas não  mudemos de assunto. Tenho um trabalho a terminar e...&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;A  começar”!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Que seja! Vai me ajudar a  construir o trabalho ou vai ficar aí, falando e falando e falando?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;O especialista em monólogos,  aqui, é você, bem.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Como disse?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Você, como todo intelectual,  não sabe conversar. É você que fica falando e falando e falando!  Seu adversário de idéias se dá por vencido, muitas vezes, não  porque você foi convincente ao trazer realidades pra ele, mas  porque sua fala se torna um desfile de conceitos, autores e teorias  que acaba levando o ouvinte à exaustão.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  !…&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Nem faça essa cara, porra!  Você sabe que é verdade. Aliás, acho que você não consegue  tocar seu trabalho pra frente porque, mesmo no meio de muitos, você  sempre se faz sozinho. É Deus, você!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Como assim, sozinho!? Estou  cercado de autores, de livros, de...&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;De homens e coisas? Humanos e  não-humanos? Invocar o Lévy e o Latour não vai te livrar dessa.  Você se cerca de outros deuses, mas nada de carne e de sangue perto  de você. Prova disso é que, sem carne nem sangue, não há  comunhão nem pão!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; font-weight: normal;"&gt;  Isso não foi um argumento,  foi!?&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;"&gt;  &lt;i&gt;Não! Mas foi um trocadilho  bonito, diz aí!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Já  entendi. Deixa que vou comprar o pão! Afinal, até Arquimedes  precisou descansar e deixar o trabalho de lado pra pôr termo em seu  problema.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Esse  aí insiste em convidar pra festa quem não tem nada a ver com ela.  Até grego aparece; eu, hein!? Enfim... Aproveita e traz leite!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Peraí...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Que  foi, agora?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Já  que é pra falar duma experiência que me afeta, posso falar sobre  essa nossa conversa. Falar sobre o pão, veja só!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Interessante!  Mas não vejo como essa discussão – que é muito ética, pra mim  e pra você – possa interessar outros que não estão aqui, com a  gente.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Ora!  Eu vou à padaria, falo com o seu Joaquim, troco umas palavras com  os clientes, escuto suas conversas, vejo o que está sendo vendido e  comprado... Daí, volto pra casa e escrevo uma narrativa sobre os  modos de se fazer pão na pós-modernidade! Que acha?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Francês  demais pro meu paladar!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Uma  pesquisa etnográfica de longa duração, então! Como tenho de  entregar o trabalho, logo agora, preparo o projeto da pesquisa como  trabalho da disciplina. Mas me comprometo a fazer uma observação  participante, durante um ano, sobre o trabalho nas padarias. Posso  coletar informações sobre os diferentes tipos de pães; quem são  os principais fornecedores de ingredientes, na região; tirar fotos  dos consumidores...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Aí  já é um texto pra inglês ler, amor! Informação que não acaba  mais. Você publica um amontoado de respostas para uma pergunta que  não faz muito sentido pra ninguém, além de você.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Olha  o Bergson aí, de novo!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;…&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Que  cara é essa!?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Não  falo mais nada...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Tá  bom, tá bom. Parece que o jeito é voltar para o quarto, me  trancar, e escrever um ensaio simples. Mas, como a idéia é boa –  e sempre é! – pode virar artigo. Ou um livro. Ou um tratado em  três volumes! Já tenho até nome: “O Pão Ázimo como  Possibilidade Fenomênica para o Espírito Constitutivo do Ser”!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Que  cara é essa!?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Vou  te bater!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Pois!  Quando, finalmente, encaminho meu trabalho, você reclama!?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Doido,  você não é alemão no inverno pra ficar trancafiado em casa. Vê  só, você me preparou um Blanquette de veau com vinho Rosé, um  Flan de Chocolate com creme e uma Kartoffelsalat com cerveja. Mas um  cafézinho com pão que é bom, nada!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;E  eu é que levo a fama por esnobar vocabulário. Além do mais, como  dizem os filósofos analíticos, só usamos metáforas quando não  sabemos do que estamos falando.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Não  são esses mesmos analíticos que dizem que o seu Bergson não faz  filosofia?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Er...  Bom... Vou logo na padaria, senão não pego pão fresco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;E  leite!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Tá  certo, mas... Você tolheu todas as idéias que eu tinha para a  confecção do ensaio. Faço o que, agora!?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Não  sou eu que tenho de responder. Essa ética, daí, não é filha  nossa.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Francês...  Inglês... Alemão... Tenho de fazer uma filosofia à brasileira, é  isso?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Rapaz...  O Jackson do Pandeiro cantava uma música que era bem isso. Mas acho  que não é nem dele. Enfim! Você quer fazer um samba-rock, mas o  boogie-woogie passa longe do pandeiro e do violão. Essa sua  filosofia à brasileira tá mais pra um chiclete com banana que  qualquer outra coisa.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Eu  tenho que tão somente sambar, então?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;font-family:georgia;" &gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Não,  porque o samba só interessa pra quem tá na batucada.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Mas  ir na onda do Tio Sam também não seria muito adequado...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Verdade!  Acho que é nesse espaço do meio, bem aí, que você devia  trabalhar. Nem gringo nem bairrista. Acredito que seu trabalho deva  ser fazer – escrevendo ou não – um problema seu ganhar um  sentido para os outros, e não tacar respostas e mais respostas para  uma problemática que nem existe no mundão lá fora. Coloque o  problema e deixe que as respostas – sempre no plural! – surjam;  não por geração espontânea, mas como um trabalho coletivo. Não  sei se isto daria um trabalho sobre Ética – com “E”  maiúsculo, como você diz - mas daria um trabalho ético.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Que  foi!?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;E  eu vou falar mais o quê, depois disso? Foda, viu!? Só posso é  xingar, porque palavra nenhuma cabe mais...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Fica  assim não, fio. Escreve um ensaio com o conteúdo da nossa conversa  e entrega como trabalho final da disciplina. Missão completa!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;"&gt;  &lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Não  posso escrever sobre isso. Não agora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Então...  Ah, sei lá. Escreve um conto, querido.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Você  mesmo disse que sou um especialista em monólogos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Mas  também é muito bom em guiar uma conversa pra conclusão que você  deseja. Seu ponto final vem sempre antes dos predicados e sujeitos.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Isso  não foi um elogio, foi!?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="text-align: justify;" face="georgia"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Não!  Mas eu te amo, ainda assim, bem.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Saco...  Vou comprar o pão, agora...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Amor!&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Oi!?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;ul style="font-family: georgia; text-align: justify;"&gt;&lt;li&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Não  esquece o leite...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-1637387985128516309?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/1637387985128516309/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=1637387985128516309' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1637387985128516309'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/1637387985128516309'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/07/ethos.html' title='Ethos'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-4362709174551454919</id><published>2010-07-11T23:41:00.000-07:00</published><updated>2010-07-11T23:50:48.980-07:00</updated><title type='text'>La pensée 68</title><content type='html'>Um francês, um inglês e um alemão foram encarregados de fazer um  estudo sobre o camelo.&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O francês foi ao zoológico, onde passou cerca de meia hora.  Interrogou o funcionário, jogou um pão pro camelo, cutucou-o com a ponta  de seu guarda-chuva e, quando voltou para casa, escreveu para o seu  jornal um artigo cheio de tiradas picantes e espirituosas.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O inglês, com um material de acampamento, montou uma tenda em um país  do Oriente e trouxe, depois de uma estadia de dois ou três anos, um  grosso volume cheio de fatos fora de ordem e sem conclusão, mas de um  real valor documental.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Quanto ao alemão, cheio de desprezo pela frivolidade do francês e  pela ausência de idéias gerais do inglês, se fechou no seu quarto para  redigir uma obra em vários volumes intitulada &lt;em&gt;A idéia do camelo a  partir da concepção do eu&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TDq7JbHM2YI/AAAAAAAAAKY/2y1EyrjQZ5A/s1600/camelo+mostrando+a+lingua.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TDq7JbHM2YI/AAAAAAAAAKY/2y1EyrjQZ5A/s320/camelo+mostrando+a+lingua.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5492908466102917506" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-4362709174551454919?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/4362709174551454919/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=4362709174551454919' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4362709174551454919'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4362709174551454919'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/07/la-pensee-68.html' title='La pensée 68'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TDq7JbHM2YI/AAAAAAAAAKY/2y1EyrjQZ5A/s72-c/camelo+mostrando+a+lingua.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-5857288957783773907</id><published>2010-06-27T19:02:00.000-07:00</published><updated>2010-08-05T19:55:20.626-07:00</updated><title type='text'>Vuvuzelas!</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TCgE_UjO0FI/AAAAAAAAAKQ/aMZW2laIQyg/s1600/Vuvuzela.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 354px; height: 476px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TCgE_UjO0FI/AAAAAAAAAKQ/aMZW2laIQyg/s320/Vuvuzela.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5487641631845699666" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;a href="http://www.sedentario.org/colunas/teoria-da-conspiracao/vuvuzelas-enchendo-o-saco-desde-1660-28493"&gt;Pobre São Jerônimo...&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-5857288957783773907?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/5857288957783773907/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=5857288957783773907' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5857288957783773907'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/5857288957783773907'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/06/vuvuzelas.html' title='Vuvuzelas!'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TCgE_UjO0FI/AAAAAAAAAKQ/aMZW2laIQyg/s72-c/Vuvuzela.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-347896919914111211</id><published>2010-06-17T19:51:00.000-07:00</published><updated>2010-06-18T17:37:21.123-07:00</updated><title type='text'>As Coletividades Pensantes e o Fim da Metafísica</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma substância unitária, racional e atenta para focar todas as dobras do mundo, que se apresentam como claras e distintas possibilidades de escolha a nossa livre faculdade do arbítrio. Essa é a alma caduca e nada humana que Descartes tanto trabalhou para lapidar, e que nós - pelas bandas de cá - já cansamos de malhar. Freud - outro que adoro mal falar - propõe um modelo do psiquísmo que até tem suas interessâncias. Uma delas é a diversidade de instâncias que compõem seu aparelho anímico, interagindo e negociando de maneira mais ou menos conflituosa. O que a psicanálise introduziu na vida emocional, a psicologia do contemporâneo o fez no plano do cognitivo. Coloquemos duas teses desta psicologia que fazem oposição à alma cartesiana: um, a multiplicidade da mente; dois, a limitação da consciência. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A unidade da alma é questão diretamente ligada à inconsciência das operações mentais. Se todas as funções psíquicas estivessem sob o jugo da consciência, suporíamos uma linguagem comum às diferentes partes da mente. Entretanto, se a vida psíquica situa-se quase inteiramente fora da zona da consciência, a tese da multiplicidade da mente passa a fazer mais sentido, visto que tais diferentes partes não partilham da mesma lógica de funcionamento. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Marvin Minsky, pesquisador de inteligência artificial da MIT, sugere a mente como o agrupamento de milhares de agentes em agências, que competem, cooperam e conversam entre si por recursos limitados, divergência de objetivos e situações afins. O psiquismo é pintado como uma sociedade cosmopolita, não um sistema coerente e harmônico reduzido a uma substância una. Muitos artistas - de Platão a Nietzsche, de Freud a Jung, de William James a James Hillmann, de Deleuze a Guattari - retratam, cada um com suas matizes, a mesma sociedade profusa que ferve por detrás do véu de cada pensamento frio. Piaget pode ter entendido a inteligência como um conjunto de habilidades lógico-matemáticas aplicáveis a todos os domínios do viver. Howard Gardner, por sua vez, espartilha o problema e sugere múltiplas inteligências para além da geometria: linguística, musical, espacial, corporal, inter e intrapessoal. Boa notícia descobrir que não somos ignorantes como um todo! Multiplicamos as formalidades, verdade, mas favorecemos pensar as pessoas como grupos, e o psíquico como uma sociedade da mente. Tratar a alma como substância individual seria como facultar julgamentos sobre um grupo sem uma boa distinção das partes que o compõem. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Um coração, um olho ou uma mão cumprem seu papel numa estrutura sistêmica. Assim sendo, Noam Chomsky proposiciona a existência de órgãos mentais. Argumenta: e por que o cérebro seria a única entidade indiferenciada do mundo biológico!? Este pontuamento anula uma teoria da aprendizagem que se proponha comum a todos os domínios do psíquico, já que cada órgão da mente possui seu próprio desenvolvimento histórico independente dos demais. Entrando na onda de Chomsky, Jerry Fodor fala de módulos cognitivos que funcionam fora da zona de controle da consciência. A faculdade linguística e os módulos perceptivos podem ser tomados como exemplo. Enquanto escrevo este texto na janela de edição de postagens do blogspot, passo meus olhos pelos parágrafos grifados num livro e escuto a sinfonia Eroica. Sou incapaz de passar os olhos pelo livro e ver uma simples sequência de impressões negras e rabiscadas. Também constato a minha impossibilidade de escutar uma simples sequência ruidosa a ser executada pelo Windows Media Player. Sou obrigado a, olhando para o livro, ler e perceber algumas sentenças chave do capítulo, como &lt;span style="font-style: italic;"&gt;sociedade cosmopolita&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;modularidade mental&lt;/span&gt; ou &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ecologia cognitiva&lt;/span&gt;, assim como também sou obrigado a, apertando o ícone &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Play/Executar&lt;/span&gt; do meu reprodutor de mídia, escutar a terceira de Beethoven regida pelo perfeccionismo de Toscanini. Tais módulos escapam à consciência! São seus resultados que chegam até a zona de atenção mental, mas os processos operados não são nem um pouco transparentes no tocante a qualquer tentativa de controle dos mesmos. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;E o que seria a consciência, para bem precisarmos nossa discussão? Sendo curto, mas grosso: é o agente responsável pela enunciação da memória de curto prazo. Nossa cognição processa inúmeras operações ao mesmo tempo, mas é difícil estar consciente a vários eventos ao mesmo tempo. Tais operações, por estarem fora do campo da atenção, são inconscientes. E, por escaparem da vontade, são automáticas; o que nada tem de ver com o determinismo típico de nossas inteligências eletrônicas. Determinismo e automatismo não são sinônimos. Os processos são classificados como autônomos, justamente, por serem independentes uns dos outros. Grande parte da mente é - neste e somente neste sentido - maquinal, visto que composta por inúmeradas partes e peças e pedaços. É este automatismo inconsciente que cria condições para a sobrevivência de nossas unidades biológicas. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Mecanismo, inconsciência, multiplicidade, exterioridade. Todos formam a base constitutiva da vida mental. Partindo daqui, não seria de todo estranho inferir a participação de mecanismos e processos não biológicos na formação do pensamento - dispositivos técnicos e instituições sociais, em exemplo - o que torna impossível fazer do pensamento a resultante duma substância única e transcendente. Uma ecologia cognitiva deve ocupar o lugar das antigas metafísicas! Subjetividade e objetividade não podem ser categorias puras e bem definidas pois, de um lado, temos inúmeros mecanismos e objetos operando na produção das subjetividades e, doutro, as objetividades constituídas pelo imaginário e pelo suor dos homens. O id fala, mas não a lingua de Freud ou de Lacan. Falamos, mas não cuspimos, tão somente, recalques, traumas e complexos porém multidões inteiras - de pessoas e de coisas - que falam em nós. Dando um passo com nossa outra perna, podemos fazer uma segunda inferência: não há mais estranheza nenhuma em pensar que um grupo ou uma instituição pensem, visto ser o pensamento a realização dum coletivo!&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Pensar, numa frase, é um devir coletivo de homens e coisas. Assim como os aparatos cognitivos individuais, os dispositivos sociais também são encapsulados. Imaginemos uma empresa e alguns de seus setores. O pessoal do secretariado, o pessoal da contabilidade, o pessoal da comunicação. Os dois primeiros podem ser substituídos por, digamos, softwares computacionais, enquanto o último pode ser dispensado pelo uso de correios eletrônicos. Isto porque tais segmentos burocráticos intencionam - quase fenomenologicamente! - funcionar como máquinas. Tanto o cérebro quanto o socius são compostos por muitos e muitos módulos maquinais encapsulados. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A consciência gosta de se apresentar como o mais importante aspecto da inteligência, mas nem de longe representa a sua essência! Ela pode ser considerada, isto sim,  uma interface entre o organismo e o que lhe é ambiente, interface enquanto manutenção do seu próprio funcionamento e do seu sistema cognitivo. Os processos conscientes - controlados - são menos céleres que suas contrapartes automáticas, mas compensam a falta de potência com flexibilidade. Esta flexibilidade sensível também está presente nos grupos. Não como consciência, claro, mas por meios outros que tomam a sua função; um debate visando chegar a uma deliberação pode ser tomado como exemplo. Na biologia do cérebro, a nível neuronal, a multiplicidade das entidades e seu funcionamento paralelo e inconsciente são traços constitutivos da arquitetura cognitiva. A consciência, ao bradar "eu penso, eu existo, eu sou", reclama para si uma importância que pertence a um agenciamento social, complexo, cósmico que ultrapassa seus limites encapsulados e individuais, não passando dum simples ponto desta ecologia cognitiva que é o pensamento. A consciência é individual, mas o pensamento é coletivo! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Mesmo agora, quando admitimos que grupos humanos possuem sua cognição, ainda resistimos à idéia dum coletivo misto, que abarca não só pessoas, mas coisas. E pulula a pergunta: como é que, diabos, uma coisa poderia participar da inteligência!? É fácil caírmos na solução da passividade objetal, considerando os instrumentos enquanto extensões inertes de nossa mente. A alma humana, entretanto, não é um núcleo central ao redor do qual as tecnologias da inteligência circulam, mas é o agenciamento aparentemente sistêmico desses inúmeros satélites. Não o sol, mas todo um universo de frágeis relações a se coadunarem! O que seria da grandiosa mente, por exemplo, sem a linguagem - misto sujeito-objeto - fruto e árvore das conversações, dos nossos grupos sociais, das nossas tecnologias da memória? &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;As tecnologias da inteligência estão fora de nós. Tudo bem! Digito este texto em meu modesto PC, processado por um Intel Celeron 220; seguro um livro meio amassado do Pierre Lévy, publicado pela editora 34; e, tendo acabado a Eroica, pús-me a escutar o álbum &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Awake&lt;/span&gt;, do Dream Theater. Entidades claramente distintas de mim, de você e delas mesmas. Não obstante - uso a conjunção preferida do Dr. Cooper! - o advérbio "fora" nos parece - a mim e ao Pierre - mal colocado, sendo preferível a partícula "entre". Afinal, escrevo numa postagem que (assim espero) será lida por outrem, em seu computador pessoal; leio e comento um livro escrito por um judeu tunísio que mora na França; aprecio uma música em mp3 (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;The Silent Man&lt;/span&gt;, a balada do  CD) editada pela Elektra Records, uma das muitas gravadoras da Warner. Os objetos não só conectam os sujeitos, mas estruturam a rede cognitiva que permite a sua existência. Mesmo quando sozinhos e de mãos vazias estamos na presença de muitos, sejam homens, mulheres, infantos e velhos, sejam falas, regras, lógicas e imagens. O sujeito só o é na imbricação dos objetos! Sujeitos atravessados de objetividade e objetos recheados de subjetividade, numa rede louca, complicada, heterogênea, imenso entrelaçamento articulado de subjetividades fractais e tecnologias intelectuais! Homens-coisas...&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;LÉVY, Pierre; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;As coletividades pensantes e o fim da metafísica&lt;/span&gt;; In As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática; Trad. Carlos Irineu da Costa; Rio de Janeiro; Ed. 34; 1993; pp.163-175.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-347896919914111211?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/347896919914111211/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=347896919914111211' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/347896919914111211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/347896919914111211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/06/as-coletividades-pensantes-e-o-fim-da.html' title='As Coletividades Pensantes e o Fim da Metafísica'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-4170662349766945004</id><published>2010-06-17T00:06:00.000-07:00</published><updated>2010-06-18T17:13:03.591-07:00</updated><title type='text'>O que eu aprendi com Sigmund</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um sintoma é o substituto duma  satisfação libidinal que, recalcada, permaneceu em latência. O recalque  se dá quando o eu, submetido às ordenações superegóicas, recusa-se a  pactuar com um desejo provocado no isso. Esta resistência pode ser  pensada como um movimento defensivo que o organismo adota contra um  processo interno, de maneira semelhante às defesas utilizadas contra os  estímulos de fora. O psiquismo, quando assolado por algum perigo  externo, foge, retirando o investimento da percepção do objeto perigoso e  angustiante ou, ainda, inibindo certas funções do eu de maneira tal a  tornar impossível a percepção deste objeto mesmo. O recalque é um  equivalente desta tentativa de fuga, mas para um perigo oriundo do  próprio aparelho psíquico. &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt; A concepção freudiana do  funcionamento da alma, acima disposta, cria condições para se pensar uma  terapêutica diferente dos sistemas semiológicos e fisicalistas ao  recolocar os limites entre normalidade e patologia, visto que põe a  neurose como o modelo de funcionamento normal do psíquico. Freud,  destarte, estabelece uma clínica sobre uma compreensão patológica  erigida não sobre o sintoma, mas sobre seu funcionamento; qual o desejo  recalcado que, numa satisfação substitutiva, deu origem a este sintoma;  e, por fim, qual o motivo do recalque.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sua obra, originalmente dedicada aos  médicos que praticavam suas observações, faz-nos pensar sobre alguns  pontos de nossas atuais práticas Psi. Se escrevia para médicos, hoje  fala a psicólogos. Num texto de 1912, Freud aponta alguns macetes  técnicos que adquiriu com sua própria experiência de trabalho. Numa  primeira recomendação, pede que evitemos anotações durante o atendimento  clínico, mesmo que estejamos responsáveis por vários e vários  pacientes, muitas e muitas experiências num mesmo dia. A atenção,  devendo flutuar, não deve privilegiar uma e outra informação produzida  na clínica. Fixando-se os pontos, nos arriscamos a só descobrir o que,  de alguma maneira, já sabíamos!&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt; Essa atenção, suspensa e  flutuante, é uma espécie de contraparte à exigência analítica, feita ao  paciente, de tudo comunicar e nada selecionar. A atividade do analista  não é a escrita, mas a escuta. Sua consciência é sempre focada, deveras,  mas deve estar abandonada à memória inconsciente. O trabalho de  interpretação analítica não consiste em registrar informações, mas em  estar aberto à elaboração das lembranças junto ao paciente.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A sapiência  do analista não deve ganhar ares de ambição terapêutica, mas deve estar  voltada a garantir esta relação inconsciente, impessoal, entre analista  e analisado. Fala-se dum tal distanciamento emocional na prática  analítica, mas não se trata de embotamento afetivo, e sim da evitação de  especulações no curso da análise que, além de desencaminhar a produção  de lembranças e pensamentos, cai numa pedagogia moralizadora do sujeito  que desnorteia o paciente – agora objeto de conhecimento acadêmico – em  seu próprio sofrimento. Antes do falante, o ouvinte...&lt;/div&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TBwKn3fzxoI/AAAAAAAAAKI/LIyPquXzayI/s1600/freud.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 233px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TBwKn3fzxoI/AAAAAAAAAKI/LIyPquXzayI/s320/freud.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5484270126258964098" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-4170662349766945004?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/4170662349766945004/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=4170662349766945004' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4170662349766945004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/4170662349766945004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/06/o-que-eu-aprendi-com-sigmund.html' title='O que eu aprendi com Sigmund'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TBwKn3fzxoI/AAAAAAAAAKI/LIyPquXzayI/s72-c/freud.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-8787920806272837884</id><published>2010-06-02T19:47:00.000-07:00</published><updated>2010-06-02T19:57:32.697-07:00</updated><title type='text'>Discursos, discussões e eu aqui, com meus botões...</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homenzinho por detrás do espelho com seu &lt;i&gt;joystick&lt;/i&gt; a me  controlar. Elucubrações, metafísicas, conspirações! Paranóia!!! Quem o  colocou ali? Quem fez o design do seu controle? Quem obedece suas  ordens? Quem o ordenou a ordenar? Estaria eu, na platéia, a coadunar com  seus estratagemas? Estaria eu, ao visitar tal anfiteatro, patrocinando  dramas? Fazer parte da platéia é entrar no jogo? Boicotar as  apresentações também seria jogar? Fujo do espetáculo por não querer ser  boneco ou por temer, remotamente, que o controle caia em minhas mãos?  Será que posso chorar frente a isso? Posso rir, então? Posso falar? E me  calar? O que posso, afinal? O que podemos, então!? Levantar-me e sair  durante a sinfonia seria indelicado? Seria ainda mais indelicado ficar  sentado quando aquilo me desinteressa por demais? Se não posso agir,  como devo fazer? Como fica o dever frente a um direito que é meio  esquerdo? Ou seria meio esquerda? Meia esquerda, talvez? Futebol?  Militância? A bola rola no teatro? E as bandeiras vermelhas? São  visíveis no escuro? Será que o espetáculo tem, mesmo, que continuar?  Será que o teatro vai, sem remédio, permanecer no escuro? Será que eu  posso, algum dia ou só agora, parar de apertar meus botões?... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 251px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TAcZ31RTkAI/AAAAAAAAAKA/ueTBToNx62Y/s320/teatro21.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5478375918702661634" border="0" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;P.S.: escrevi este parágrafo no blog &lt;/span&gt;&lt;a style="font-style: italic;" href="http://psinema.blogspot.com/"&gt;Imagens e Imaginação&lt;/a&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;, num dia qualquer de setembro do ano passado; o escrito possui um contexto de enunciação muito preciso mas, creio eu, casa muito bem ao comprimento de onda do meu agora... &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-8787920806272837884?l=sujeitotranscendental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/feeds/8787920806272837884/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5982725159272541669&amp;postID=8787920806272837884' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/8787920806272837884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5982725159272541669/posts/default/8787920806272837884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sujeitotranscendental.blogspot.com/2010/06/discursos-discussoes-e-eu-aqui-com-meus.html' title='Discursos, discussões e eu aqui, com meus botões...'/><author><name>J. Thiago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448188639885593641</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TJ61n7piKjI/AAAAAAAAANU/s2wmaXR4hVQ/S220/Picasso+-+Vieux+guitariste+aveugle.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TAcZ31RTkAI/AAAAAAAAAKA/ueTBToNx62Y/s72-c/teatro21.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5982725159272541669.post-2108133202497302432</id><published>2010-05-22T17:26:00.000-07:00</published><updated>2010-05-30T23:38:15.248-07:00</updated><title type='text'>Por um discurso vivo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TANW0TTxEPI/AAAAAAAAAJo/6aJ_ZHFQHgc/s1600/estudo+renoir.jpg"&gt;&lt;img style="float: left; margin: 0pt 10px 10px 0pt; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TANW0TTxEPI/AAAAAAAAAJo/6aJ_ZHFQHgc/s320/estudo+renoir.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5477317028349022450" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;A vida dói. Guerra! Viver é parto eterno, lançamento à diferença, salto no escuro, território desbravado, encontro de corpos. Produção de relações, atritos, choques, movimentos, intensidades. É sangue que pulsa. Explode, transborda e irriga! Viro a moeda, agora. O discurso anestesia. Paz! Discursar é tranquilizar inquietações, fixar identidades, construir caminhos, demarcar terrenos, separar joio e trigo. Produção de absolutos, ideais, separações, estáticas, quantidades. É vinho que paralisa. Deprime, nos faz falar demais e dá ressaca!&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Depois da dramatização, conto minhas pessoalidades. Escrever, para mim, é tarefa por demais difícil. E não falo do ofício bilaquiano de tolher a palavra como se lapida um diamante. Não estou falando de métricas, harmonias ou de palavras pedantes. Mas falo da tentativa - sempre vã - de recriar a minhalma noutros corpos que não o meu. Sofro ao escrever como um asceta que faz seu sacrifício. Sofro porque trabalho e, na labuta, tento não só representar o pensamento em mim para os outros mas, no processo, criar um mundo em mim e para mim mesmo. É transformar em psicologia o vento que passa, o rio que corre, o fogo que canta e a terra que treme.&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;E, nessa onda, tento sempre usar uma terminologia diferente dos falatórios e escritórios cotidianos. Quando uma crítica ao positivismo começa a se tornar lugar comum, começo a  discorrer sobre o progressivismo; quando a mobilização estudantil ganha ares de comício, passo a articular proposições; quando a política nos aparece como coisa grandiosa, chega o momento de falar das pequenas éticas. Social vira Coletivo, Identidade vira Subjetivação, Metodologia vira Deambulância. Daí, os senhores me perguntam: "Pra quê!?" &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A questão não é tão elementar quanto o Sr. Holmes acredita. Não é (somente) a inflação de meu ego arrogante que está em jogo. Evitemos psicologizar os eventos sem necessidade e - diria o meu pensador favorito - coloquemos os conceitos em termos de Duração. O tempo que dura é um tempo que incomoda, angustia e impacienta. E é isto que a minha pessoa propõe quando fala pedantemente na praça com os seus convivas. A música não quer ser tocada - puro abuso! - mas sim tocar. A voz do profeta nada tem de ver com as ladainhas litúrgicas que, eras e eras após a enunciação do enviado, tentam reproduzir na assembléia passiva a atividade que se inventou a céu aberto! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Nossos bebês saboreiam muito bem esta verdade, visto sempre apontarem os objetos a que querem referenciar enquanto pronunciam seus primeiros balbucios. Recém emersos da vida, adentram no mundão das formas com a sabedoria excelsa do concreto. Quando crescem - triste, isso - aprendem o discurso. Sua palavra simples não mais aponta mundos, mas faz referência a si mesma. Blá-blá-blá, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;et cetera&lt;/span&gt;, tal, artigos acadêmicos, cartas teológicas, tratados artísticos. Vício de linguagem é ísso, aí! Piagetianos que me desculpem - ou não, tanto faz! - mas a criança não se des-envolve rumo a um adulto completo e perfeito, tal qual semente aristotélica a atualizar potencialidades; a gente grande é que ainda guarda um pouco da malinice do guri. Sendo pedante, falo da coexistência dos tempos ou - diria o meu pensador favorito [2] - da Memória. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Não se trata de representação, mas de sempre fazer presente o movimento  característico da vida. Os livros mais vivos são aqueles viajantes, de leitura inicialmente árida ou que não pareçam fazer referência à nossa existência mesma. Mas é o contrário que se dá, pessoas! Acompanhem a receita: pegamos uma experiência ontológica, cósmica, coletiva, processual ou &lt;span style="font-style: italic;"&gt;whatever &lt;/span&gt;e a transformamos numa competência psicológica; esta faculdade mental - unificação espacial dos processos - é, então, retirada do corpo; fora dum mundo e sem um corpo, a levamos a&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TANXF5Ve3xI/AAAAAAAAAJw/BVSvxosMA0M/s1600/461.jpg"&gt;&lt;img style="float: right; margin: 0pt 0pt 10px 10px; cursor: pointer; width: 238px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_5yyT7133eDg/TANXF5Ve3xI/AAAAAAAAAJw/BVSvxosMA0M/s320/461.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5477317330614542098" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;o fogo alto dos sistemas filosóficos para uma melhor purificação e deixamos descansar no mundo dos discursos. Tic-Tac, Tic-Tac e Tcharam! Uma mente quentinha, pronta para consumo. Uma mente que, justamente por não pertencer mais à vida, não reconhece quando apontamos para ela. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Se a vida dói, um discurso vivo deve - igualmente - causar dor. Deve ser difícil de escutar e pesado demais para se pronunciar sem gaguejos. Rasga gargantas e ouvidos, dedos e olhos. Um discurso vivo é sempre temperado com maionese; faz viajar pois exige um esforço para além do intelectual ou - diria o meu pensador favorito [3] - suscita Intuições. Blanchot fala do livro por vir; Deleuze, do escritor do futuro; Foucault, bêbado de Nietzsche, escreve por uma história efetiva. Todo discurso - seja fala, seja escrita - deve evitar cair no falatório ou no escritório do homem mediocrático. Superar a condição humana e trabalhar numa existência que faça nossas mais enraizadas certezas se tornarem arbitrariedade: esse é o trabalho do discurso vivo! Apontar à vida que corre e escorre enquanto falamos e escrevemos. O poeta escreve, mas cria e se cria numa existência poética antes de sacar a pena. O orador fala mas, antes de pôr em tópicos a sua alma, mergulha na vida comunitária que lhe dá o que falar. Calar nunca! Mas discursar sempre com a mente no corpo, com o corpo no mundo e com o mundo jogado entre tantos outros mundinhos...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5982725159272541669-2108133202497302432?l=sujeitotranscendental.blogspot.
