sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Apelidos e Sistemas Complexos

Pretendia, neste agora, escrever alguma coisa sobre o Ingênuo e o Irônico, dois tipos de Sujeitos (um objeto e um sujeito, melhor dizendo...) que pulularam em minha cabeça qualquer dia desses. Mas, enquanto conversava com uma colega de Goiânia, via msn, acabei bem-colocando a problemática que eu quis suscitar no post Biografias e a Boa Forma, tanto que o presente rabisco pode ser considerado uma continuação da discussão sobre biografias. Enfim...
Pensemos nos apelidos, alcunhas, pseudônimos. Eu, mesmo, possuo diversos. E - não! - não irei revelá-los todos, aqui. Apenas alguns que me são mais queridos, são os mais usados e são os menos constrangedores de serem expostos fora de seu contexto de relações. Usemos, em nossa dialética, os apelidos "James" e "TT", e os nomes de registro "Jameson" e "Thiago".
James pertence à "Máfia", um grupúsculo do curso de Psicologia da Universidade Federal de Sergipe, em sua maioria concentrados na turma de 2007. TT é amigo - muito amigo - de pessoas por demais queridas a ele, todos moradores do Conjunto Médici. Jameson é conhecido formal de algumas pessoas em determinados ambientes. E Thiago é o menino bom e comportado da família. Saltemos.
Aristóteles. Beethoven. Goethe. Einstein. Personalidades muito apreciadas por mim. E todos possuem algo em comum. São complexos. São sistemas por demais complexos! Um sistema complexo - seja na física de Ilya Prigogine ou nas humanidades de Edgar Morin - é toda e qualquer reunião, agregado, grupo que não está submetido a uma única regra, lei, imperativo. Não o carvalho imortal que nos aparece aos olhos, mas o rizoma ignorado por nossa pequenez. Aristóteles era homem de letras, tendo escrito, inclusive, um tratado sobre a Arte Poética; Beethoven, assim como todo melancólico, provavelmente se entregou à suas próprias filosofias sobre o homem e o mundo, tradição deutsch; Goethe era dedicado cientista botânico, tendo delineado, em Da Teoria das Cores, diversas observações sobre a natureza da percepção emocional e psicológica; e Einstein, em seus aprazíveis momentos de solidão meditativa, dedicava-se ao estudo do violino.
Criamos a árvore-filósofo para Aristóteles, a árvore-músico para Beethoven, a árvore-escritor para Goethe e a árvore-físico para Einstein. E ainda lhe damos o título de gênios - aqueles que inspiram e são inspirados - para fortalecer ainda mais o nosso vegetal. Criamos o carvalho eterno para definí-los, ignorando o confuso, profuso e difuso rizoma que subjaz nosso caminhar. Damos a eles, a outros e até a nós uma personalidade, uma máscara [em grego, persona], para bem interpretar neste jogo da alteridade. Cada peça, cada palco, cada cenário, exige uma personalidade, uma personagem, uma máscara independente das feições muitas por detrás do mármore.

Logo, saímos a plantar árvores por aí, sólidos vegetais, sem nos darmos conta de que o solo, o ar, os minerais, o clima, a raiz rizomática e tantas outras contingências mil é que compõem a Metaphyta. A árvore não é! Nem está, como diriam os banalizadores do devir! A árvore é apenas uma microcosmificação da floresta, unidade outra que também é relacionada a uma totalidade maior. Uma máscara maior!

A boa civilização, a alta cultura, o agregado-massa, precisam ser justos, previsíveis e representáveis e, por isso, precisamos de uma atitude, uma personalidade e um jeito de Ser. Curioso é que os nomes, na antiga e atual tradição judaica, representam a manifestação externa de uma realidade essencial interna. Por isso que profetas, apóstolos, discipulos e outros personagens afins sempre trocam de nome quando lhes é ofertado um outro papel a interpretar. Daí os nossos apelidos! Muitos! Surgidos de diversos terrenos, paragens e lugares! Complexo, né!? Mas é a partir daqui que as coisas começam a se simplificar...

domingo, 18 de janeiro de 2009

Aproximações entre a Fenomenologia Husserliana e a Teoria da Forma

“Se a idade de Matusalém me fosse concedida, quase que ousaria entrever a possibilidade de vir ainda a ser um filósofo.” (E. Husserl)

Este texto foi um de meus trabalhos de conclusão de disciplina sobre Fenomenologia, Existencialismo e Gestalt, por isso o caráter formal (logo, impessoal) do mesmo. Lida com alguns conceitos da fenomenologia de Husserl e dos teóricos da forma. Nele, eu esboço (esboço, mesmo!...) o nascimento do movimento fenomenológico e discorro sobre a Gestalttheorie. Após tais referências, faço algumas breves aproximações entre ambos os pensamentos como nos conceitos de Intencionalidade e Campo Perceptivo ou Essência e Forma, apontando suas identidades mas, também, suas contradições e rupturas como o contraste entre o idealismo husserliano e o realismo da Gestalt. Comecemos!

A Fenomenologia e o Princípio de Intencionalidade

Por filosofar, entendemos a busca não dum conhecimento específico, mas de seu fundamento, origem, ponto de partida. Há um certo desejo secreto, no filósofo, de ser o fundador e o findador do conhecimento. O pensamento de Husserl destinou-se, assim, a solucionar a problemática do positivismo, abalado quanto a sua pretensa objetividade e validez universal, resultando numa crise não só filosófica, mas das emergentes ciências humanas, utilitárias do modelo das ciências naturais, e das próprias ciências duras.

As ciências do homem – ou ciências morais, como a elas Husserl se referia – em especial a Psicologia, são por ele censuradas por terem tomado os métodos das ciências da natureza, ignorando a especificidade de seu objeto, lidando com as atividades humanas como se se tratasse duma realidade física. Como conseqüência, reduzimos os princípios diretores do homem a simples fenômenos naturais, o que aniquila toda e qualquer forma de conhecimento. Como, exemplificamos, poderíamos traduzir os princípios da lógica em termos psicológicos, visto que o psicólogo utiliza tais princípios em sua explicação?

Recusando tanto a especulação metafísica quanto a formalidade positivista, Husserl segue um terceiro caminho, ansiando nos colocar no mesmo plano da realidade, das “coisas mesmas”. O fenômeno é lastrado de pensamento. É logos, ao mesmo tempo que fenômeno. Não existe nenhum fato do qual possamos dizer que ele não é nada. Se não nos perguntamos “o que é!?” a um algo qualquer é porque já acreditamos sabê-lo. Todo fenômeno traduz-se pela possibilidade de ser nomeado, designado, essencializado.

Um fato sempre visa um sentido. Destarte, notamos que a intuição das essências não se identifica às factualidades materiais, mas sim ao sentido ideal que lhe atribuímos, como o menino que chama de círculo a gravura levemente oval que suas mãos trêmulas e descompassadas desenharam.

As essências, aqui, enquanto estruturas a priori do pensamento, independem da experiência sensível, embora se manifestem através desta. Mas tal assertiva não é, necessariamente, inovadora; Platão já criara um mundo de idéias condicionante do sentido das coisas. A grande sacada de Husserl foi retirar as essências de sua morada transcendente e inteligível, “retornando às coisas mesmas”. Coloca-as na consciência, pois é como visada de consciência que elas se manifestam a nós.

Deriva-se, daí, o Princípio da Intencionalidade. A consciência é sempre “consciência-de-algum-objeto”, só é consciência estando dirigida, buscando sentido, intencionando coisas. Já os objetos só podem ser nomeados e definidos em relação a um sujeito, sendo sempre “objetos-para-uma-consciência”. Assim sendo, as essências não existem fora do ato de consciência que as visa e as apreende! Igualmente inconcebível é sairmos desta correlação sujeito-objeto – noese e noema – já que, fora deste relacionamento, não há nem um nem outro.

Estudar e descrever as essências da consciência constitui, para Husserl, a fenomenologia. Não a consciência enquanto objeto da psicologia, mas aquela que é intuitivamente constitutiva do mundo.

A Gestalt e o Campo Perceptivo

Ehrenfels, precursor da teoria da forma, exemplifica o que ele chama de Qualidade Formal com a invariabilidade de uma canção transposta em outro tom. O mesmo exemplo serve para ilustrar a noção de Estrutura, definida como uma entidade autônoma de dependências internas.

Na transposição melódica, todos os elementos foram alterados, embora a canção permaneça, para nós, a mesma, devido à invariabilidade da proporção entre tais elementos, e não pela natureza de cada nota, tomada isoladamente. Para os psicólogos da Gestalt, a Forma – como acima foi definida – torna-se molde de explicação para todos os fenômenos psíquicos. Inteligência, memória, expressão, são todas vistas dentro desta lógica perceptual.

O Campo Perceptivo, aqui, não é um agregado desordenado de elementos no qual o sujeito do conhecimento ordena com seu pensamento, mas o próprio campo já é pré-ordenado, per si, em formas distintas e pregnantes. A forma não deve sua estrutura senão a si mesma!

Para os teóricos da forma, a consciência aparece, sim, como elemento organizador, mas ela não é, de modo algum, origem do campo. Um campo que é tanto percepção quanto ação. Percepção, pois função das necessidades orgânicas e suas visadas para o ambiente. Ação, pois função da percepção como movimento adaptativo. Vale salientar! O termo “campo” deve ser entendido não como metáfora, mas como descrição. É no sentido físico – puramente físico – que o campo deve ser compreendido.

Encontros

Se definirmos essência como o modelo invariante dentre toda a diversidade do sensível, será compreensível aliá-la à idéia de forma e de estrutura. Para o próprio Husserl, a essência – sempre idêntica a si mesma – mesmo submetida a todas as variações noemáticas, nos permite captar estes objetos como sendo sempre o mesmo. Entretanto, na essência, o objeto, como sentido ideal, é produzido pela visada de consciência, enquanto a forma da Gestalttheorie seja uma realidade não tão somente psíquica, mas igualmente física ou, até mesmo, puramente física, que se impõe à consciência como pré-existente a toda atividade de análise e síntese.

A Gestalt, holística e dinâmica, concebe um dado fenômeno como determinado por vetores da totalidade do campo. Essa concepção de espaço dinâmico – fisicamente dinâmico! – nos permite definir variáveis passíveis de previsão e controle, dando ao estudo das formas psicológicas o mesmo rigor científico da dinâmica galileana. Para Husserl, no entanto, reduzir a visada de consciência e o princípio de intencionalidade a simples fenômenos psicofísicos seria fazer psicologismo, redução dos princípios diretores do homem a factualidades naturais.

A fenomenologia de Husserl possui caráter notavelmente noético, puxando a correlação consciência-objeto para o lado do sujeito. Sua filosofia é, grosso modo, idealista e transcendental, visto que o mundo se dá pela consciência que o constitui. Já a teoria da forma mostra-se naturalista – noemática – pois é a consciência que vem a ser absorvida e definida pelas estruturas naturais! Husserl foca o sujeito, puro e transcendental, enquanto a Gestalttheorie desenvolve sua retórica em cima das estruturas do objeto. Um vislumbra as idéias. O outro, a matéria. Heidegger acentua, ao contrário, a própria relação consciência-mundo, sendo esta a mesma interpretação de Merleau-Ponty. Mas esta já é uma outra história...

Bibliografia

DARTIGUES, André; O que é a fenomenologia?; Trad. Maria José I. G. de Almeida; 7ª edição; São Paulo; Centauro; s/d.

KÖHLER, Wolfgang; Psicologia da Gestalt; Trad. David Jardim; Belo Horizonte; Itatiaia; 1980.

RIBEIRO, Jorge Ponciano; Gestalt-Terapia: Refazendo um Caminho; São Paulo; Summus; 1985.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Biografias e a Boa Forma

Não gosto de biografias. Ponto! Em verdade, eu até gosto... Só não acredito nelas! Quer dizer... Eu acredito no descrito, no im-presso, no ex-presso pelas biografias, mas é que... Bem, mostrarei algumas micro-narrativas para, depois, iniciarmos nossa discussão:
"A" foi uma criança intuitivamente metódica. Adorava contrariar crendices e descontruir ilusões, sentindo certo prazer em passar por debaixo de escadas ou cruzar gatos pretos. Gostava, sempre, de conhecer as razões de todos os efeitos, embora nunca partilhasse suas dúvidas com ninguém, visto que era desgostoso com as respostas simpórias que lhe davam por ser "só uma criança". Cresceu, assim, em seu mundinho particular, criando sistemas sobre as pessoas, teorias sobre o mundo e planos para o universo, em toda a sua megalomania adolescente. Quando adulto, adentrando no saber acadêmico, encanta-se pelo livre pensar, pelo conhecimento e por sua controvertida história, tornando-se um filósofo da ciência, um epistemólogo."
"B" foi uma criança incrivelmente avoada. Sem aptidões esportivas, notas extraordinárias ou tato social, seus pais o dispuseram, desde tenra idade, a aulas particulares de piano. Demonstrando boa performance para sua idade, "B" foi tido como "talentoso" por sua professora. Quando pré-púbere, desiste do piano, acreditando ser a música uma realização parental, não sua! Um ou mais anos depois, resolve estudar violão - por sua vontade - com um tutor, abandonando as aulas meses depois, mas ainda abraçando seu recém-adquirido gosto pelas melodias. Auto-didaticamente, continua seus estudos no violão e volta a estudar piano. Adentra numa universidade - destino de todo homem bom! - mas abandona sua graduação para dedicar-se inteiramente a música, trabalhando, hoje, como compositor."
"C" foi uma criança notadamente religiosa. Levava muito a sério os discursos de santidade e beatitude, de bondade e de beleza, que o sacerdote proferia. Almejava santidade pois, acreditava, era este o primeiro passo para um mundo melhor. "Devemos sempre buscar a Deus" ou "devemos ser perfeitos em nossas ações" eram freqüentes chavões seus, como um navegante que mira a estrela mais longíncua visando um porto para seguro ficar. Ao adolescer, conhece doutrinas outras e abandona a Igreja, visto que - dizia - o amor de Deus não está restrito a instituições. Torna-se doutor, homem de reconhecimentos, mas troca tais honrarias por uma vida nômade, verdadeiro missionário ecumênico."
"D" foi uma criança exageradamente sentimental. Sensível ao extremo, apaixonava-se com muita facilidade. Gostava de emoções fortes, de situações inesperadas, de calor humano, embora tímido, reservado e solitário. Em juventude, época dos amores, pouco se envolvia com garotas, demasiados eram seus sonhos e devaneios. O que poderia-ter-sido ou o que poderá-ser lhe eram mais importantes que o que agora era. Criativo, de escrita jovial, dedica-se às letras e às humanidades, tornando-se romancista."
Pois bem! Quatro sujeitos. Quatro estórias. Quatro linhas. Vamos deixar as historietas de molho, por alguns instantes, e pegar um novo caminho. Falemos da Gestalt.
Imaginemos um macaco trancafiado numa jaula. Acima de sua cabeça, encontra-se um cacho de bananas, além de seu alcance e, fora da jaula, uma longa vareta. O macaco, aqui, problematiza a realidade (peço perdão aos existencialistas puritanos...): ele quer o cacho de bananas e, neste instante, seu mundo se resume a isto! Seu campo perceptivo começa a se arranjar, des-arranjar, re-arranjar, até que o problema se bem-coloque. O macaco tem (perdão aos essencialistas, desta vez...), assim, uma compreensão interna, um in-sight, e fecha sua estrutura, sistematiza sua boa forma, configura sua Gestalt. Estende sua mão para fora da jaula, pega a vareta e colhe as bananas. Percepção. Percepto e ação!
Para se fechar a Gestalt, precisamos de um intuito, de uma direção, de um sentido. Precisamos de um ponto de chegada, um objetivo subjetivo, para começarmos a caminhar. Organizamos as condições materiais, agrupamos os elementos e, deste modo, criamos uma totalidade maior que suas partes. Damos sentido ao inerte. Produzimos o dado. Significamos a factualidade. Possibilitamos um des-envolvimento, uma cronologia dos momentos únicos, um registro da vida. Bio-grafia! Como se uma vida pudesse ser assim disposta, em trajetos, cursos e causalidades! Nossos quatro sujeitos - creio que os senhores já tenham desconfiado - são a mesma pessoa! São quatro recortes de sua infância, tecidos junto a algumas possibilidades de seu futuro. São o novelo de meu ego, desagregados para compreensão e alinhados para registro. Sou escrito, sou formado, sou posto como resposta aos outros e a mim mesmo. Sou eu. Sou um Eu...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O Jogo do Contente

Não existe, creio eu (e como é bom crer...), nenhuma vivalma que não se encante à alegria sardenta da menina Pollyanna! Para os que não a conhecem (e nestes eu não quereria crer...), procurem torná-la presente em suas vidas o mais urgente possível!!! Uma dose deste tônico não faz mal a ninguém; cura-nos até de nós mesmos, acreditam!?
Pollyanna é um romance estadunidense do começo do século passado, e - façam caras e bocas, agora! - alveja crianças e garotas. Sim, pessoas! Estou falando de literatura infanto-juvenil feminina! Li recentemente o romance (e sua primeira continuação, o Pollyanna Moça...) e faço aqui minha segunda confissão! Chorei como um bebê (ou uma criança, ou uma garota...) em partes certas da narrativa. Nem o jovem Wherter ou o velho Fausto conseguiram lágrimas tantas. Coisa de criança, mesmo...
Não vou fazer sinopses. Caso queiram saborear a história, leiam a história mesma. Eu, mesmo, não conseguiria recriar o sorriso de Pollyanna em alguns poucos parágrafos. Leiam a história e deixem que Pollyanna se crie para vocês! Minha persona só saberia exagerar pois, sem exagerar - diria o Padre - eu estaria mentindo! Prefiro, assim, exagerar - gerar para fora, criar para além - à minha própria maneira!
Falemos, em primeiro, da tia Polly. Bondosa, bela e justa, é verdade - como todo bom platônico deve ser - mas igualmente imperativa, casmurra e estreita! Bondade, beleza e justiça da ordem do categórico, do que deve ser feito. Dever, aliás, é palavra séria para Polly Harrington. É seu chavão, sua ladainha litúrgica, seu ritornelo existencial. Um dever organizado, dever do pré-visto, do incontestável, do esperado.
A Srta. Harrington, no entanto, não esperava que sua jovial sobrinha entrasse, in-comodasse e re-comodasse tanto sua vida. E, desde que Pollyanna chegou à mansão dos Harrington, Polly se encontra em situações imprevistas, inusitadas, inesperadas. Portas a bater, janelas abertas, casa iluminada. Tudo por causa de um tal jogo do contente; e deste jogo terei de falar.
O pai de Pollyanna, pastor evangélico, era muito pobre, vivendo e sobrevivendo graças a doações. A menina, que esperava ganhar uma boneca como presente, recebeu um par de muletas. Chorava por estar precisando de uma boneca, não dum par de muletas! Não conseguindo conter lágrimas - pobre Pollyanna - seu pai a consolou de forma criativa. Ela devia ficar contente - disse - justamente por não precisar das muletas. E foi assim que o jogo se deu pela primeira vez.
Toda vez que algo de ruim acontecia à Pollyanna, ela via o que tal tragédia carregava de bom, e ficava contente por isso! Pollyanna vivia o jogo do contente e o ensinava, propagava, demonstrava. Não como dever, mas como poder! Não ensinava com letras, sermões e moralismos afins, embora utilizasse a palavra em demasiado. A menina transbordava o jogo do contente!
O que deve ser salientado na menina, em seu jogo, no romance, não é a tal lição de otimismo que o resumo da contra-capa pretende vender. A novidade do jogo é - justamente! - a novidade. É a abertura dentro do sistema fechado, é o imprevisto dentro das previsões, é a invenção de novas regras para o jogo-de-si! Talvez por isto as crianças nos soem tão irritantes. Fogem a qualquer programação nossa! Pulam por sobre nossas normas, correm de nossos limites, pisam em nossos mandamentos... E riem!!!
Polly Harrington e Pollyanna. Um Platão bem Kantiano e um Sócrates ácido de tão Nietzscheano. A forma da estrutura e a força da entropia. A rotina do relógio e a hora do recreio. A resolução do problema e a traquinação que cria o mesmo. Adoro dualismos, mas acho que já chega. Chega de escrever e representar o jogo do contente. Jogo que é jogo deve ser jogado! É presente, no presente, como presente...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Simplesmente Amor...

Assisti, hoje, Love Actually. Uma narrativa que em muito me lembra outros filmes rizomáticos como Babel ou Crash. Movimentos, forças e intensidades atravessando corpos mil, configurando e desconfigurando histórias, relações, afetos, idéias. Corpos cruzados, descruzados, entrecruzados; corpos que se confundem, que se conflitam, que se constroem e se destroem, uns aos outros, outros ao Um.

O filme não se confunde às tradicionais tramas-rede, que parecem sentir um certo prazer na desilusão, no desmonte, na descrença. Love Actually é comédia romântica, por mais contra-aditório que uma tal classificação possa ser, soar e ressoar. A frugalidade da risada, o momento da piada, o instante da brincadeira, andando lado a lado à eternidade dum beijo. Chronos e Kairós andando de mãos dadas, andando em Largo e Presto, Scherzo e Cantabile, di molto ma non troppo. A comédia romântica é um de meus gêneros favoritos, justamente por ser processual, passagem, ponte. Para-doxa é a comédia romântica; vai além de seus personagens, de suas sagas, de seu desfecho. Sai de si e vem para nós. Encanta, ilude, inspira. Cria a ilusão mais real, o mito mais bem montado, a fé mais verdadeira. Para-doxo é o produto da comédia romântica. Minhas damas, meus cavalheiros, apresento-lhes o amor...

Pais e filhos. Maridos e esposas. Pais de família e amantes. Astros de rock e agentes publicitários. Primeiro-ministros e suas secretárias de Estado. Irmã e irmão. O menino tímido e a menina popular. Patrão e empregada. O solteirão e a mulher do seu melhor amigo. O desprezado sem-noção e seu Accent of Gentleman. Tanto amor, tanto afeto, tanta... Tanta coisa que nenhum grego, nenhum kantiano, nenhum moderno ousaria classificar esses entrelaçamentos. Relações demais para se discutir. Só nos basta vivê-las, por mais piegas, moralista ou puritana que toda esta pretensa lição possa parecer e aparecer. Interpretar demais a vida (principalmente as de outrem...) nos toma o tempo para saboreá-las, para sabê-las, para sê-las. E deixar de viver vidas, afetos e amores é disciplina na qual sou especialista...

Confesso sentir alguma dificuldade em encerrar este assunto. Iniciar amores é complicado mas - vocês devem saber - terminá-los é que dói de verdade. Dói porque desilude, desmonta, desconstrói. É triste. Ironicamente triste. Coloca-nos diante de um nada existencial, diante de nossas antigas ruinas para que, diante delas, choremos! E rimos de tanto chorar, pois tudo isso é contraditório e paradoxal. É nesse riso, nessa comédia, que construimos uma outra vida qualquer, um novo amor, uma nova rede, atada e já pronta para ser desatada... Sabem, parece exagero falar tudo isso de um filme; de uma ficção, olhem só! Mas falar de amor, sem exagerar, não é falar de amor. Ou então é melhor calar. O amor é, simplesmente, amor...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Sistemas Teóricos e Políticas Cognitivas (ou o porquê da minha não-filiação a nenhuma teoria psicológica...)

Como estudante de Psicologia, sou freqüentemente inquerido - por colegas ou não - sobre que abordagem metodológica eu pretendo utilizar ou que temáticas eu gostaria de abordar. "Você, que gosta de viajar, vai ser fenomenólogo, né!? Existencialista, talvez! Se bem que já te peguei lendo uns livros de Bergon e Deleuze pra sua pesquisa... Falando nisso, sua pesquisa é sobre idosos, acertei!? Pretende continuar abordando essa temática? Já sei, vai virar Junguiano!!! Eu lembro como você só falava de Jung no primeiro período. Além disso..." E a lalação continua ad infinitum, até que a pessoa se canse de cavar uma terra sem os tesouros que ela procura ou até que eu lhe devolva uma retórica qualquer, mesmo que desprovida de sentido para ela. É engraçado como as pessoas se encantam com os malabares da palavra, com os jogos da retórica, com a ciranda dos signos. E eu, confesso, encabeço esta lista de pessoas engraçadas. Comecemos, assim, falando da palavra...
Mudando de ares, viajemos à Grécia. Visitaremos os Helenos clássicos, para precisar nossa coordenada espaço-temporal. Na Grécia pré-socrática, conceitos como Verdade e argumentação lógica estavam reduzidos ao discurso e à beleza retórica. Falo "reduzidos" - deixo claro! - sem a intenção dum juízo de valor qualquer. Bebendo da genealogia nietzscheana [vide post anterior], vemos que a própria noção de Aletheia, verdade ideal, imortal, imutável, pode ter nascido com Platão e sua visão matemática do real. Foi a Dialética Platônica (que difere, em muito, da Ironia Socrática, mas esta é uma outra história...) que trouxe a idéia de Episteme, de essência, de transcendência. Antes do surgimento da Filosofia como heroína do conhecimento, dissipadora do erro e esclarecedora da verdade, tinhamos, tão somente, uma tal retórica filosofante, um convencimento pelo encanto, uma realidade poética. Eis o movimento sofístico, que tem Górgias como seu maior representante.
Os sofistas, em geral, e Górgias, mais especificamente, eram receosos em aceitar valores absolutos dado seus contatos com culturas outras, etiquetas outras, deuses outros. Todas estas representações não passavam, para ele, de construções lingüísticas, de jogos de palavras, de ficções, cuja razão-de-ser não estava, simplesmente, na representação das coisas, mas na própria criação delas! É neste sentido que, para Górgias a palavra é poética (do grego poyesis, criação). Nada há sob o véu das palavras. Não há o ser-em-si por detrás de nossos fenômenos. É na palavra, na poesia, na retórica, que o mundo se cria e recria para nós.
Adotando tal perspectiva do conhecimento, é inviável aceitar a existência duma realidade pura e bela para além de nossa percepção, mas não é por causa disso que caímos num relativismo exagerado, num oba-oba conceitual, no qual a verdade só depende dum discurso bonitinho e bem musicado. Tal visão de mundo em muito se assemelha à intencionalidade fenomenológica, à biologia cognitiva, à cartografia sentimental e a outras conceitualizações contemporâneas, mas não pretendo entrar nestes termos, ao menos neste post. Para Górgias, o bom discurso é aquele que almeja - para além de convencer multidões - o bem da pólis e, tão somente, o bem da pólis.
Tomemos, rapidamente, alguns sistemas da psicologia. O Gestaltismo e suas leis da boa forma. O Behaviorismo e suas regras de condicionamento e reforço. A Psicanálise e o seu inconsciente. A Epistemologia Genética e a sua equilibração. Todos, para Górgias, seriam simples jogos retóricos. Ao discutirmos os termos desta ou daquela teoria, não estaríamos falando de pessoas e suas experiências singulares. Estaríamos, isso sim, brincando com a própria palavra, com o próprio conceito, com uma categoria ideal longínqua e independente do humano. Toda teoria, todo sistema, todo método, pressupõe o transcendentalismo. No caso da Psicologia, busca-se sempre os invariantes da cognição. Cria-se um humano ideal, imutável, essencial e anseia-se presentificá-lo vezes várias e várias, visando não o humano singular, frágil e choroso, mas sua versão imortal, como arquitetura psíquica. Substitui-se a presença pela re-presentação, a liberdade pelo in-cômodo, a vida verde da imanência pela pós-vida branca da transcendência.
Utilizar uma abordagem teórica ou temática não se resume a adotar uma perspectiva de um humano numinoso, natural, dado à observação. Ser psicanalista não é apontar recalques, resistências ou outras instâncias psíquicas. É criar o próprio inconsciente no homem e jogar com suas próprias regras! Regras estas, claro, com fundamento in re. Um dado que não é dado, mas produzido! Assim, justifico a minha falta de opção teórica, mesmo amando-as todas, mesmo assumindo sua funcionalidade. Criar um determinado humano é abertura à possibilidade de previsão e controle deste mesmo humano. Mas é, igualmente, fechar-se à criação, à invenção, ao não pre-visto. Tratar a cognição, a mente, a alma, através duma teoria sistêmica só se justificaria se a cognição mesma fosse igualmente fechada num sistema. E o homem - Oh, bicho complexo! - tem sempre a mania de diferir de si mesmo...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Nietzsche, a Genealogia e a História

“A genealogia não se opõe à história como a visão ativa e profunda do filósofo ao olhar de toupeira do cientista; ela se opõe, ao contrário, ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. Ela se opõe à pesquisa da origem” (Foucault).
Sim, uma resenha, ora bolas! O primeiro post - pois introitos não contam - será uma resenha de um texto do Foucault que, grosseiramente falando, é uma resenha do Genealogia da Moral, de Nietzsche. Resenha de uma resenha, vejam só! Mas aqui, aproveito pra escrever coisas da academia com o meu jeitinho peculiar de imprimir-exprimir idéias. Deixo registrado: cinco professores meus já falaram que minha linguagem é por demais poética, cadenciada, dramática!... Enfim, muita retórica e pouca objetividade! Afinal, é pecado deixar-se transparecer em um escrito científico. Nada de sentimentos em relatórios experimentais, nada de intuições em metodologias específicas, nada de mim para o outro. Sem mais filigramáticas, comecemos...
Ursprung. Encontramos, em Nietzsche, dois usos do termo. Um, enquanto busca do “aquilo mesmo”, origo da moral e da culpa, da lógica e do conhecimento. Outro, coloca a origem como invenção, artifício, fabricação. Tal distinção torna-se necessária para entendermos o porquê da recusa de Nietzsche à Ursprung, à pesquisa de origem.
O genealogista – com os pés na história e repudiando a metafísica – aprende que, por detrás do véu das coisas não há nenhuma realidade numinosa. Não há nenhuma veritas aeterna, nenhuma essência absoluta, nenhum segredo a ser velado ou desvelado. Melhor dizendo, encara que sua essência foi – tão somente – construída por figuras, forças e atravessamentos outros que nada tem de ver com uma identidade pura a ser encontrada no gênese. Se na teleologia metafísica encontramos – no começo das coisas – a preciosa perfeição duma essência pura e luminosa, na genealogia histórica destrinchamos uma verdade da ordem do discurso.
Fazer genealogia, assim, não é aventurar-se rumo aos tesouros ideais da origem. Ao contrário, é abandonar as formas da metafísica e deter-se no singular, no acidente, no acaso. É demolir os castelos da teleologia e dirigir-se aos bairros mais baixos. É referir-se aos episódios mais simplórios e, sem pudor, apontar as personas envolvidas. Destarte, termos outros – como Herkunft e Entestehung – traduzem muito melhor a atividade genealógica do que a ambivalente Ursprung.
Entendemos Herkunft como a “proveniência”. Não a já gasta pertença ao grupo, ao sangue, à tradição. Não falamos, aqui, de reencontrar nos indivíduos, em suas idéias ou em seus ideais traços duma categoria maior que permita classificá-lo junto a outros, mas sim numa desconstrução de si, no desembaraçamento da rede de marcas que se nos entrecruzam. A Herkunft não funda conhecimentos. A proposta da pesquisa da proveniência é – justamente – agitar, fragmentar, mostrar a diferença no que se julgava uniforme. Verdadeira análise da articulação corpo-história, visto que é no corpo que se dão os desejos e as quedas, os movimentos e os desfalecimentos. Corpo atado e desatado, marcado e arruinado de história.
Entestehung, designamos como “emergência”. Ponto de surgimento. A metafísica acredita numa destinação escatológica que busca, desde a origem dos tempos, desde o surgimento das coisas, vir à tona. Na genealogia, entretanto, trazemos à luz os sistemas de submissão, o jogo das dominações, o lugar de afrontamento. Conceitos como liberdade, diferença de valores, lógica ou mesmo a Verdade tiveram o seu nascimento na história. História, esta, de homens contra homens, classes contra classes, dominantes contra dominados. É da guerra, do conflito, do combate que nascem as regras do jogo, que vêm para fundar – e não findar! – a violência. O grande jogo da história é, vemos aqui, aprender tais regras e utilizá-las contra aqueles que as tinham imposto. Interpretar deixa de ser buscar a realidade oculta da origem e passa a ser apoderar-se das regras do jogo – que, vale lembrar, não possuem significação em si – e moldá-las numa nova regra, num novo jogo.
A história teleológica – história atemporal – a tudo julga com uma pretensa objetividade, rumo à verdade eterna, à alma imortal, à consciência imutável. O genealogista escapa desta seara, visto que seu trabalho não se funda sob um céu absoluto. Saber, poder, conhecer – genealogicamente – não é reencontrar nem, tampouco, nos reencontrar. É construir e desconstruir, continuação e descontinuação de nosso ser sem Ser. Não se dissolve as singularidades em categorizações ideais, mas recria-se e faz-se ressurgir a “coisa” no que ela tem de única. Sem princípios originais. Sem destinações últimas. Apenas o acaso e a necessidade. Sem mais. Longe das formas elevadas, dos tipos nobres e das idéias puras, encontramos o corpo, visceral, cru, vivo. Assumindo-se perspectiva, a genealogia também se assume como uma pesquisa de baixa extração. A tudo aceita. A nada diferencia. Da plebe para a plebe.
A genealogia, enquanto sentido histórico, é assumidamente antiplatônica. É – primeiramente – paródica, carnavalesca, criadora e destruidora da realidade, opondo-se à história-reminiscência. Em segundo, é dissociativa e – novamente – destruidora da identidade, visto que não pretende encontrar as origens de um Eu qualquer, mas fazer aparecer as forças que nos atravessam, proibindo-nos toda máscara, toda tradição, todo essencialismo. Por fim, genealogia é destruição – mais uma vez, destruição! – do próprio sujeito epistêmico, do próprio eu-que-conhece, visto que todo saber é fundado em tal perspectiva do conhecimento.
Retornamos, assim, à recusa inicial do Nietzsche genealogista à pesquisa de origem. Abomina-se a Ursprung, mas não a pesquisa-proveniência ou a pesquisa-emergência. Seja Herkunft ou Entestehung, “a veneração dos monumentos torna-se paródia; o respeito às antigas continuidades torna-se dissociação sistemática; a crítica das injustiças do passado pela verdade que o homem detém hoje torna-se destruição do sujeito do conhecimento pela injustiça própria da vontade de saber” (Foucault, p.37).

FOUCAULT, Michel; Nietzsche, a Genealogia e a História; In Microfísica do Poder; org. e trad. Roberto Machado; Rio de Janeiro, Editora Graal, 1979, PP.15-37