sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Ele e Ela...

I

Era uma terça-feira como outra qualquer. Inteligência despertou cedo, alongou-se durante alguns minutos, preparou dois ovos mexidos, com pouco sal, acordou dois pães adormecidos e coou um café forte, mas bem doce. Um banho demorado e uma rápida seleção do que vestir seguiram seu banquete frugal. Empilhou cinco ou seis livros, colocou-os debaixo do braço de uma maneira meio desengonçada – como um moleque ainda não acostumado ao corpo – e foi à biblioteca. Até lá, cruzou com um e outro conhecido – visto que é homem de conhecimento – com os quais trocou um rápido aceno de cabeça. Um “bom dia” pra cá, outro pra lá. Como não se imiscuía na vida de ninguém, desejava-lhes coisas. “Bom dia” ao porteiro da biblioteca, “bom dia” aos seus companheiros de estudo, “bom dia” àquela atendente estranha que sempre sorri quando ele vai devolver os cinco ou seis tomos devorados semanalmente. Inteligência é um rapaz deveras garboso, embora pareça não ter sabedoria disto. Olhos grandes e atentos, um rosto fino sempre a carregar uma barba por fazer, passos pesados e lentos. Alto mas não muito, magro mas não muito, bonito mas não muito. De fala grave e pausada, sempre acompanhada duma retórica romana, é capaz de tornar convincente qualquer falácia que quisesse, embora se orgulhe de só anunciar verdades. Chegando às estantes empoeiradas, seleciona outros cinco ou seis livros. Um tratado de ontologia clássica, uma coletânea com poemas do Goethe, um artigo sobre a relatividade restrita, um álbum de fotografias da 2ª guerra e um e outro livro que sempre levava sem saber do que se tratava. Era sua maneira de descobrir coisas novas. O moço era – como o mesmo costuma dizer – “aberto às novidades”. Sai do acervo; ruma, novamente, à atendente estranha que não pára de sorrir enquanto o persegue com o olhar; registra os livros e vai embora. Era, como já disse, uma terça-feira como outra qualquer...

II

Inteligência desceu os degraus que levavam à área verde da biblioteca e rumou ao tronco de carvalho – a árvore do conhecimento, como o chamava – que descansava aos pés duma minúscula lagoa assustadoramente cristalina que lhe refletia o sol. Uma belíssima clareira, aquela. Era seu locus secreto de labor e oração e, como sempre acontece em todas as manhãs de terça-feira, estaria vazio à sua espera. Estaria! Falei bem! Quem era aquela criatura a ocupar seu refúgio não lhe interessava. Bastava pronunciar algumas palavras envoltas em mel e tudo estaria resolvido.

Chegando junto ao velho madeiro, Inteligência pigarreou na intenção de fazer-se notado. E notou a tal criatura que estava prestes a enxotar docemente. Uma mulher-menina, de pele demasiado branca e cabelos de ébano que caiam em ondas sobre seus ombros. Esqueceu de todo o discurso e não conseguiu dirigir-lhe a palavra. Ela virou a cabeça para enxergar a sombra furtiva que se lhe aproximava e fitou Inteligência. Este tentou sondar os olhos pequenos e fugidios da garota, mas não conseguia desvendar-lhes sentido algum. Perdeu o verbo! Sem saber o que fazer, recuou! Deu alguns passos de ré, virou-se rapidamente – quase tropeçando – e começou a debandar, apressado. Depois de cinco ou seis passos meio trôpegos, Inteligência pára como se esbarrasse num muro. Finca seus pés no chão, respira fundo, organiza algumas frases de efeito e volta ao banco improvisado. Mas improviso, ao que parecia, não era muito com ele:

- Er... Bem... É que eu... O que eu queria era... Assim...

- Intuição! - Diz com fala rápida a menina, que fazia um esforço de Hércules para não rir do curioso espetáculo apresentado pelo rapaz. Adorava rir.

- Como!? - devolve o rapaz.

- É como me chamam! Intuição!

- Mas que belo nome! Diferente, é verdade. Mas ainda sim, belo.

- E você!? Seria...?

- Ah, sim. Inteligência eu sou. Já deve ter ouvido falar muito de mim, isto é fato, mas não me custa nada trazer ainda mais esclarecimento para ti, jovem. Sou o douto dos doutos, o sábio dos sábios, o corifeu dos corifeus. Conheço tudo sobre as ciências – incluindo as furadas ciências sociais. Não tenho preconceitos! – sou especialista em todas as artes, visitei templos, sinagogas e pagodes, travei duelos com todos os gigantes da filosofia, construí sistemas e teorias sobre...

Bastou trocar algumas palavras com Inteligência e já percebeu sua engraçada compulsão em sempre fazer a conversa retornar para si. Conteu o riso, mas não conseguiu deixar de imaginar o homem tendo orgasmos ao resolver matemáticas. Estava achando insuportavelmente desinteressante toda aquela ladainha do doutor mas, não querendo magoá-lo, fez cara de quem não entendia muito bem o que ele dizia, na esperança de que o mesmo parasse sua lalação. Funcionou:

- Algum problema, criança? – falou Inteligência.

- Onanismo mental! – replicou ela a primeira coisa que lhe trouxe a memória.

- Como disse!?

- Onanismo. Masturbação. Quebrar uma, entende? Bater p...

- Eu sei muito bem o que é onanismo, mocinha. Não precisa me explicar. Nem fazer gestos a respeito. Eu só... só não consegui observar com clareza e distinção o que você, em verdade, quis dizer.

- Hum... Como posso dizer? – Intuição, num enorme esforço para florear a simplicidade de seu pensamento, soltou! Você parece se perder em suas próprias idéias. Esqueceu que eu estava aqui e começou a falar sozinho. Ou pra todo o Universo. Ou pra ninguém. Dá tudo na mesma.

Inteligência fez cara de desinteresse às colocações da menina quando – em verdade, e isto Intuição sabia – ele não tinha entendido muito bem o que ela lhe jogou. Alguns segundos de silêncio decorreram, mas Inteligência não gostava muito dele. Não gostava de coisas que não lhe diziam nada. Então o quebrou:

- Serei claro, direto e objetivo, minha dama. Todas as terças-feiras, eu desperto cedo, alongo-me durante alguns minutos, preparo dois ovos mexidos, com pouco sal, côo um café forte, mas bem doce, tomo um banho demorado e seleciono, rapidamente, o que vestir após minha frugal refeição. Empilho os cinco ou seis livros que semanalmente retiro da biblioteca,...

A menina não quis atrapalhar o monólogo do bom moço e voltou a sua atividade de antes: olhar o sol e as nuvens que, seguidas umas das outras, formavam um curioso desfile de animaizinhos de pelúcia. O céu projetado na Terra! No entanto, foi interrompida uma vez mais:

- Você está a me escutar, mocinha!?

- Ora! Falava comigo?

- Que incompreensível é você, menina! Não liga para o que os outros dizem?

Desta vez, quis quebrar o nariz do moço. Mas resolveu falar no idioma dele:

- Serei clara, direta e objetiva. Primeiro, pára de falar como um idoso esclerosado! Sou tão ou mais velha que você! Segundo, pára de falar sozinho e vê se escuta o que tenho a te dizer! Terceiro...

Uma longa pausa se fez...

- Pois não?

- Sei lá! Não sou muito boa em esquematizar minhas impressões. Mas – enfim! – seja um pouco mais sucinto. Só peço um pouco mais de simplicidade. Ou, então, cala a boca!

Inteligência se espantou por tão pungente comentário ter sido feito com um sorriso agridoce nos lábios da garota. Além disso, ninguém nunca tinha refutado suas conclusões nem tampouco o mandado ficar em silêncio. Um “cala a boca” lhe era novidade. A presença daquela menina se lhe afigurava como incômoda. Era uma insolente incômoda, esta jovem! Num trabalho de síntese, Inteligência reuniu suas opiniões numa frase relativamente curta. Ei-la:

- Escuta-me! Todas as terças-feiras, eu venho até esta clareira para me deleitar em meus estudos sobre a natureza das coisas. E você, aqui, está a interromper as minhas atividades. Pronto. Falei!

Intuição quis dar-lhe parabéns – sinceramente – pelo seu esforço, mas evitou fazê-lo visando não enfurecer aquele homem que não a compreendia. Disse, com um sorriso desconcertante:

- Posso me levantar e partir se for da sua vontade, mas não sem antes fazer duas colocações.

- Faça-as!

- Ah, vou deixar pra lá palavrinhas bonitas! Esse lance aí de “natureza das coisas”... Coisa de gente pedante, sabe? E...

- Defina pedantismo.

- Hum...

- Posso criar uma definição positiva, se for de seu interesse. Pedante não seria aquele que, rico em saberes, é malquisto por aqueles de pouca profundeza espiritual?

- Gostei não!

- Então, defino o pedante como aquele que, conhecendo a verdadeira natureza das coisas, costuma dar lições aos demais. Impô-las, se você preferir, mas ainda tenho predileção pelo “dar lições”...

- Essa eu achei vaga demais. Deixa ver, aqui... Pedante como aquele que quer se impôr à natureza, mas dela mesma nada sabe... O pedante quer dar lições à natureza! Acho a minha mais legal!

- Está dizendo que nada sei sobre as coisas que falo?

- Não! Só disse que você nada sabe sobre as coisas que acha falar.

E sorriu.

- Mas...

- Ainda não terminei. Faltei falar da segunda parte. A mais importante, por sinal.

- Que seria...?

- O dia de hoje! Hoje é quarta, não terça...

E sorriu, mais uma vez. Levantou-se e foi-se embora...

III

Inteligência chegou em casa, abismado...

Como pôde trocar a Terça pela Quarta!?!?!?

...

IV

Inteligência despertou cedo, alongou-se durante alguns minutos, preparou dois ovos mexidos, com pouco sal, acordou dois pães adormecidos e coou um café forte, mas bem doce. Detalhe. Não era terça-feira! Resolvera ir à biblioteca na quarta, seguindo uma esperança vaga e bruxuleante de encontrar mais uma vez àquela menina. Não conseguia focar-se em seus estudos rotineiros, pois a imagem da outra se fazia presente a todo momento em sua consciência. Sentia-se doer por não conseguir mais se debruçar sobre as letras impressas. Sentia-se doer por não poder compreender àquela menina. Sabia que estava apaixonado, mas não ousou colocar isto em linguagem. Preferia pensar que, encontrando-a novamente e entendendo seus desígnios, a paz seria novamente derramada sobre ele.

Retornando à árvore do conhecimento, lá estava Intuição. Sentada à beira d´água, tinha em mãos um bloco de notas e um lápis. Estava a fazer desenhos e rabiscos da paisagem local, mas nunca terminava algum. Fechou o caderno e deu um sobressalto quando notou a aproximação de Inteligência:

- Nem se incomode que eu já estou de saída...

- Não, não, por favor, fique. Era com você mesma que eu queria tratar.

- Hum... Tá bom, então! Pode falar.

- Er... Bem... É que eu... O que eu queria era...

- Se isto é uma cantada, não está funcionando muito...

Soltou a menina, com um sorriso angélico que não casava com a situação.

- Poderia ser um pouco menos sucinta? Preciso criar a atmosfera adequada para o meu discurso.

- E por que não cria um discurso pra atmosfera de agora? – Aproximou-se do jovem, mantendo uma distância de, no máximo, um palmo entre ambos, e emendou – Diz aí! O que você quer?

- Quero... quero você! O que faço para ter você em meus braços?

- Ter alguém nos braços não é muito diferente do que ter alguém nas mãos...

- Preciso ter você. Necessito da tua companhia. Não tens piedade da minha pessoa?

- Hum... Não muito...

- O que você quer que eu faça para que, juntos, possamos ficar?

- Você poderia parar de falar frases tão salpicadas de vírgulas...

- Posso me esforçar nisso, se você quiser...

- Foi uma piada, querido. Olha só, não quero exigir nada de você.

- Então, você aceita que eu a possua!?

- Hum... Não!

Antes que o silêncio se tornasse constrangedor, Inteligência irrompeu:

- O que é preciso para a nossa união, então?

- Sei lá! Tempo, talvez...

- Tempo...

Inteligência olhou para o lago, viu o sol refletido e desapareceu a passos largos...

V

Uma semana depois, Inteligência retorna à árvore do conhecimento. Intuição não estava lá...

VI

Inteligência acostumou-se a visitar a biblioteca também às quartas-feiras. Sentia-se realizado em sua interioridade última por aprender a manusear, tão habilmente, os dias da semana. Mas ainda não tinha se acostumado àquela atendente a lhe perseguir com as pupilas. Não gostava muito de ser analisado, o homem. Cavoucando fundo em suas lembranças, tentou encontrar algum ponto a servir de nexo àqueles olhares, esperando que alguma Razão cósmica lhe revelasse os Seus desígnios para com ele. Talvez ele estivesse a dever dinheiro à criatura, só podia! Mas era um sujeito muito sério com os números e, disto, ele não se esqueceria.

Desceu os 7 degraus para se chegar à árvore do conhecimento e, surpreso, encontrou lá a moça Intuição. Apressou o passo, numa mistura quase cômica de Largo e Presto. Expressava uma alegria boba ao ver a menina, mas nem tanto. Continuava o seu andamento quando, meio afobado, lhe dirigiu a palavra:

- Onde esteve, estas Quartas-feiras todas!? Vim aqui, ao teu encontro, mas nunca te encontrava! Gostaria de uma resposta tua, menina. Vamos, vamos, responde-me!

- Continua falador como sempre... Vê só... Eu nunca disse que ficaria aqui à te esperar, disse?

Verdade. E, por ser verdade, Inteligência se calou. Ela, piedosa do bom moço, acariciou-lhe a face e o ego.

- Fica assim, não... Olha só, vou te dar uma dica que poucos, acredito, devem conhecer: se você queria se encontrar, se esbarrar, se chocar comigo, por que não me falou? Por que não falou a mim!?

Ele parou e começou a analisar aquele novo princípio geral e categórico que lhe grafava o corpo. Ela riu, embora não estivesse achando a graça daquela cena.

- Façamos o seguinte, minha dama! Disse que queria tempo, certo? Pois é justamente isto que lhe peço. Dá-me um tempo e te construirei as maiores maravilhas da humanidade. Aguarda-me!

- Espera aí! Eu...

Inteligência não deixou a graça falar e foi embora...

VII

O tempo passou. Inteligência, no entanto, não soube precisar quanto. O mundo muito mudou desde o seu último contato com Intuição, mas ele sempre foi alheio aos entes intramundanos. Tinha preparado grandiosos presentes, e já conseguia ver o momento em que os mostraria à graciosa menina. Saboreava seu desjejum. Va-ga-ro-sa-men-te. Nunca, em toda a sua história de cafés da manhã, tinha passado tanto tempo à mesa. Tomou um banho ligeiro, para compensar, mas discompensou ao escolher um vestuário adequado à ocasião. Saltou os degraus da biblioteca e saiu correndo para a árvore do conhecimento. Abobalhado, deu de cara com o tronco vazio. Desolado, ficou imóvel, como em todos os momentos nos quais não sabia se mover. Olhava para um lado e para o outro, maquinalmente. Intuição, que, num banco de madeira bem em frente ao lago via todo aquele débil desenrolar, não riu nem se apiedou do homem. Estava era indignada com a cegueira de Inteligência e, assim, formulou sua primeira lei universal: Inteligência é burro demais! Demais! DEMAIS!!!

Levantou-se para ir embora mas, ao notar seu movimento, o moço exclamou:

- Ah! Aí está você, minha cara!

- Escuta! Eu...

- Vem, vem! Tenho muitas coisas a te mostrar, minha menina!

E interrompendo-a mais uma vez, levou-a velozmente a seu primeiro presente. Um castelo. Um castelo! Suas portas eram de prata, as janelas eram reforçadas com pedras de diamante e as cúpulas, dantescamente altas, eram cobertas com ouro. As torres do casarão eram tão altas que mal se podia ver-lhes as extremidades. Atingiam o céu – pensou Intuição – mas nada tinham de ver com ela, cá na Terra. Inteligência, animado, abriu as portas do castelo para lhe mostrar o interior. Orgulhava-se dos móveis de carvalho, dos baús de esmeraldas, dos vasos de porcelana. Intuição entrou na construção. Achou-a muito grande! E abafada! E detalhada demais!

- Pra quê tudo isso!?

- Para você, minha dama!

- Minha dama, minha cara, minha menina... Não sou sua! E responda o que eu lhe perguntei! Pra quê tudo isso?

- Ora, não gostou do salão? Dos armários? Dos baús? Dos vasos?

- Sei lá! Eles são muito pouco... muito pouco vazios.

- Fale mais sobre.

- É tudo muito legal. Muito bonito, mesmo. Mas... Salões, armários, baús, vasos... É o vazio deles que é importante... Não as coisinhas brilhantes que a gente coloca ao redor. As coisas são o vazio! Cadê o vazio daqui?

Inteligência fez uma pose reflexiva. Mas, não entendendo, passou ao próximo tópico.

- Tudo bem, tudo bem! Venha conhecer, então, seus outros presentes.

Ele tentou puxá-la pelo braço, mas num movimento languidamente fugidio, Intuição passou para o outro lado dele. Foram à porta apontada por ele e entraram. Era uma sala circular, cujas paredes esculpidas em baixo relevo representavam a figura dum homem correndo – vários homens impressos e expressos em posições diferentes, um após outro, davam a sensação de um único homem em movimento – e, no centro, a estátua duma bela mulher. Intuição.

- Quem é esta, aí no meio?

- Você!

- Não! Eu tô aqui, do seu lado! Quem é essa daí?

- Ora, você!

- Enfim... E que sala é essa?

- Este é o meu amor por você. Não vê que estou a correr, desesperadamente, em busca de ti?

Pela primeira vez, ela tinha ficado totalmente indiferente a um comentário de Inteligência. Antes que pudesse exprimir qualquer coisa, o outro saiu da sala e começou a subir as escadarias, rumo aos andares superiores. Chamou-a com um movimento de braço, para que a seguisse. Foram até uma sala de jantar, adornada com um quadro enorme que tomava toda a parede em frente à porta. Era uma pintura da árvore do conhecimento, com ela sentada no velho madeiro e ele de pé a ministrar-lhe alguma lição. A moça ia até falar alguma coisa, mas desistiu. Resolveu sair correndo mas, como desconhecia as arquiteturas construídas por Inteligência, acabou por se perder. Caiu numa biblioteca enorme, cujas estantes abarrotadas de livros e mofo iam até o telhado. Inteligência entrou logo depois.

- Maravilhosa, não é!?

- Não diga que escreveu tudo isso pra mim?

- Não, não! Como poderia eu, ao escrever livros, provar o meu amor? Que comentário estranho, o seu...

- Podemos sair daqui, então?

- Ainda não! Não lhe escrevi um livro mas lhe preparei um poema! Está aqui em algum lugar...

Intuição sorriu gostosamente. Inteligência logo dispersou seu devaneio.

- Aqui está!

E lhe atirou um calhamaço enorme, em papel manteiga.

- Que merda é essa!?!?!?

- Ora, é o meu poema para você. Exatas 1024 estrofes alexandrinas, com rimas ricas em todos os versos e chaves de ouro a fechar todos os parágrafos. A narrativa, deixando minha modéstia de lado, é igualmente fantástica e conta a história de...

A moça notou que havia um piano no canto esquerdo do aposento e foi até lá. Não sabia tocar, mas adorava martelar as coisas. Deixou o menino lá, falando sozinho. Era o que ele estava fazendo desde o começo, afinal. Sentou-se num banquinho circular, levantou a tampa do piano, retirou-lhe o pano vermelho a cobrir-lhe as teclas e começou a vislumbrar aquela imensidão de possibilidades. Inteligência parou a seu lado, alguns segundos depois.

- Gostou do Steinway?

- É o nome do seu piano!?

- É a linhagem dele! O Steinway, em minha relevante opinião, é um dos melhores pianos de cauda já concebidos. Todos os seus instrumentos são milimetricamente mensurados, hermeticamente pesados e, óbvio, são estupidamente caros. O que é bom não dura pouco, mas é – infelizmente – para poucos. Mas... Como sabia que seu próximo presente era uma música?

Intuição ficou esperançosa. Por mais longa e enfadonha que seja a música feita para ela, ainda assim era uma música feita para ela! Com um movimento nos olhos, Inteligência pediu para a moça ceder-lhe o lugar. Ela levantou-se, ansiosa. Ele, então, girou o banco até que este revelasse um receptáculo. Retirou de lá um amontoado de papéis. E entregou a ela.

- Não me diga que...

- Aí está a sua música!

E sorriu amarelamente. Intuição não quis mais ficar naquele espaço que nada tinha de ver com ela e, ligeira, tentou sair da sala. Inteligência foi detê-la e, esbarrando-se, ambos caíram ao chão. Ficaram por alguns segundos caídos no chão, um sobre o outro, como que numa dança imóvel. Intuição estava por cima, desta vez. Fitou-o nos olhos. Inteligência falou-lhe, quase que num sussuro:

- Você... você é pesada!

A menina se levantou. Ajeitou as vestimentas. Fez um aceno de despedida com a cabeça e abandonou a sala. Antes que ela se fosse por completo, Inteligência gritou:

- Eu só queria ter você comigo!!!

E esperou resposta.

- Você sempre me teve, idiota! Sempre me teve ao seu lado. Mas sua grandeza me sombreia e sua retórica doce não me deixa falar. Você nunca olhou pra mim! Eu é que sempre te busquei durante todo o tempo, mas você estava sempre ocupado com suas próprias coisas.

- Mas...

- Mas é o caralho! Você fez um castelo enorme, esculturas, pinturas... Mas e eu!? Onde entro nessa história!? Você diz que me quer a seu lado, mas eu só habito ou suas lembranças empoeiradas ou seu futuro ideal. Você nunca me deixa te dar nada. Nunca me olha direito quando está comigo.

Silêncio.

- Agora, por exemplo! Olhar pra mim, agora, é o melhor presente que você pode me dar. Só agora você pode fazer coisas em mim, pra mim, comigo. Esse é o presente que eu quero. Esse é o presente.

Ele chorou.

Ela sorriu.

Eles riram...

VIII

(...)

IX

Era uma sexta-feira. Inteligência, na biblioteca, recebeu novos olhares e sorrisos da atendente. Ele a olhou de volta. E sorriu...

domingo, 30 de agosto de 2009

O Escafandro e a Borboleta

Derrame. Paralisia. Desespero. Jean-Do, editor da Elle, é homem de imagens, aparências e movimentos que - inesperadamente! - se encontra enclausurado em sua própria carne. Escafandro! Seu pensamento quer ganhar o discurso; seus afetos, a ação; ambos querem correr, saltar e voar tal qual o verme melindroso a habitar o casulo. Borboleta! Longe das moralinas, o Sr. Bauby não faz de seu corpo frágil e indefeso um motivo justo para piedades e dramas afins. Afinal, não é a matéria que nos interessa - para longe com as quantidades! - mas os dois pilares que dão sentido à existência de nosso morimbundo: memória e imaginação! Com a primeira, fundamenta! É na memória que o corpo se liga ao passado, ao que já foi presente mas que - de alguma maneira - ainda é. Com a segunda, rompe! A imaginação é a quebra mesma dos esquemas pré-vistos e re-petitivos, lançamento rumo a um futuro que se faz no agora! O trampolim e o salto! E, mesmo na imobilidade débil de nosso agonista, vemos o seu tempo passar e passamos com ele. Passamos não rumo a um passado que já se desfez, mas a uma temporalidade perdida que ainda dura em nós. Vida! Jean-Do, mesmo sem corpo, é vida! É arte que não imita, mas produz! É movimento grácil, mesmo que em seu balé - belo, sôfrego e apaixonante - só hajam piscadelas...

sábado, 15 de agosto de 2009

Kant!


Quando, dentre as opções que me foram ofertadas no grupo de pesquisa, escolhi estudar e discorrer sobre Kant, não imaginava a seara na qual eu estava me metendo. Ao ler os títulos de suas obras, sessões e capítulos, espantei-me: doutrina transcendental dos elementos, arquitetônica da razão pura, analítica dos princípios, dialética da razão prática, juizo teleológico! Resolvi encarar a fera, mesmo temendo suas garras e presas, achando que tudo não passava duma finta para espantar aventureiros incautos. O bicho, no entanto, era poderoso, contrariando as minhas suspeitas! Golpes e mais golpes foram desferidos, mas o tarrasque continuava inabalável! Resolvi abandonar a arena e ir buscar ajuda naqueles que já o enfrentaram e sairam vivos da batalha. Depois de alguma instrução, voltei à caverna e - após algumas horas de mais sanguinolência - demos por empatado o combate. Revelo agora, aos amigos de campanha, minhas cicatrizes, queimaduras e demais marcas que o monstro imprimiu em mim.
Kant é figurado, pelos grandes corifeus da história da filosofia, como idealista crítico ou idealista transcendental, sendo sua filosofia considerada um ponto de ruptura com o saber ocidental, tal qual uma "revolução copernicana" na história do pensamento. Vários pontos da trajetória pessoal de Immanuel mereceriam ser comentados aqui, a título de colocar seu sistema como fruto da história. E - claro! - fofoquinhas acadêmicas nunca são demais! Mas evito tal empreitada, visto que a mesma não é essencial a uma exposição do corpo teórico kantiano (embora dê uma matizada no mesmo...).
O pensamento do filósofo era centrado no racionalismo de Leibniz e na física newtoniana, fato evidente em seus escritos iniciais, nos quais concebia o universo como um sistema harmônico regido pela matemática. Pouco a pouco, seu contato com os empiristas ingleses - David Hume, principalmente - levou-o a adotar uma posição crítica diante da relação conhecimento-realidade, típica do racionalismo.
Como dizia Hume, o conhecimento tem origem na experiência. Kant concorda. Foi até desperto de seu "sono dogmático" por Hume, chegou a afirmar. Mas, para Kant, isto não significa que o saber dependa unicamente da experiência sensível. Segundo ele, a realidade física é a posteriori - a partir da experiência, por indução - sendo um erro atribuir a este mundo de diversidades sensíveis algum princípio universal. Toda ciência racional, dizia, deve ser fundamentada em princípios a priori, dedutivos e independentes da experiência.
Os historiadores descrevem três Kants: o primeiro é dedicado às matemáticas e às ciências naturais; o segundo começa a se interessar pela filosofia e pelo conhecimento, confluindo nas temáticas que resultarão no criticismo do terceiro Kant. É este último, e seus três principais trabalhos, que nos interessam: A Crítica da Razão Pura (1781), a Crítica da Razão Prática (1788) e a Crítica do Juízo (1790), visto que neste período de sua obra, Kant sintetiza - e supera! - as duas grandes correntes de pensamento da sua época, a saber o racionalismo e o empirismo, além de pretender tornar a filosofia compatível com os saberes físico-matemáticos de então.
A Crítica da Razão Pura é a teoria do conhecimento de Kant, na qual formula uma filosofia com aspirações à validade universal, mas distante da metafísica racionalista. Kant nos diz que todo conhecimento sobre a realidade sensível vem, originalmente, da experiência, cujos dados se estruturam graças às intuições da sensibilidade - o tempo e o espaço - que não são propriedades das coisas mesmas mas formas segundo as quais o intelecto representa a realidade. Num segundo momento, tais representações se ordenam segundo as categorias do entendimento - formas a priori da razão - espécie de moldura das experiências singulares. Destarte, não há a coisa-em-si, a coisa tal como ela é, mas fenômenos, as coisas tais como são percebidas e elaboradas por nossa faculdade do entendimento. O conhecimento, aqui, torna-se síntese entre as formas do intelecto e os conteúdos da experiência. A ponte entre ambos - diria Kant - é a imaginação, entendida como faculdade criadora. No entanto, quando a razão se aplica a conceitos que não podem ser apreendidos pela sensibilidade ("Deus" ou "alma", em exemplo) são produzidas as "ilusões da razão" ou, mais diretamente, simples especulações metafísicas que devem ser distintas do conhecimento objetivo.
Na Crítica da Razão Prática está exposta a doutrina ética kantiana, base para a demonstração duma ordem transcendente sem que fosse necessário recorrer às especulações metafísicas. A ética, em Kant, não precisa dos dados da sensibilidade; logo, não pode cair em "ilusões". Para Kant, a consciência moral é um dado tão evidente quanto os corpos da física de Newton. Ela seria a razão aplicada à ação, uma ação que seria moral - razão pura prática! - quando regida por imperativos categóricos, e não por imperativos hipotéticos, tais quais as punições da lei. Deixemos que o próprio Kant enuncie o seu imperativo categórico: "Age de tal modo que o motivo que te levou a agir possa tornar-se lei universal". A aceitação pelos homens da lei moral é - diz Kant - prova de que existe uma ordem que transcende o sensível, cujo fundamento único é a existência de Deus. Deduz, assim, a metafísica; não da ciência e dos sentidos, mas da ética.
E, por fim, falemos da Crítica do Juízo. Sendo suscinto, aqui Kant analisa a "beleza" e a "finalidade" enquanto inerentes ao homem, mas também como não explicáveis pela experiência mesma. A intuição estética, enquanto faculdade, sintetiza a imaginação sensível e o entendimento da razão, possibilitando que a razão se torne sensível e a sensibilidade prove da razão.
O kantismo é etapa decisiva e fecunda na história do pensamento ocidental. Que nenhum profano o negue! Kant foi ponto de partida para a moderna filosofia alemã (Fichte, Schelling, Hegel, Schopenhauer...) e provoca ressonâncias em diversas correntes no hoje: os idealistas realçam o caráter criativo dado por Kant à razão humana, os positivistas assimilaram sua crítica à metafísica e os fenomenólogos beberam da problemática sujeito-objeto levantada pelo filósofo. Pena que seu pensamento, na busca por rigor e fundamento, seja extremamente absolutista e pretensamente universal. Coisa de filósofo, mesmo! Sua própria vida era caracterizada por uma rotina notável. Nunca viajou a mais de 100 Km da pequenina Königsberg, sua cidade natal; nunca se atrasou a um compromisso - salvo duas vezes, sendo uma delas durante acontecimentos revoltosos da Revolução Francesa; e, segundo dizem, sempre que aparecia à porta de casa para o seu passeio vespertino, os vizinhos podiam acertar os relógios: eram - exatamente! - três e meia da tarde...

domingo, 26 de julho de 2009

Pontos e Processos

Num primeiro momento, discutimos sobre a Boa Nova do Cristo - segundo João - e as implicações decorrentes de suas traduções várias. Em um instante segundo, falamos sobre Heidegger e - mais uma vez - sobre traduções. Com este post, viso criar uma terceira imagem para bem fechar nosso colóquio. Poderia até dizer que os três artigos criam uma única e mesma imagem, devendo ser lidos numa única torrente de pensamento.
Agora, pensemos não só em João ou em Heidegger, mas em todo e qualquer objeto de pensamento que se nos afigure em nossa alma. Fórmulas, pinturas, orações, sistemas, melodias, brasões, mapas, balés, ritos... Qualquer conceito científico-filosófico, qualquer produto poético-artístico, qualquer dito metafísico-teológico. Resumindo: qualquer coisa que se manifeste enquanto uma coisa! Um ente-imagem! Um conceito manipulável! Mas o conceito, enquanto categoria espacializada, é apenas uma organização arbitrária dum fluxo caótico, uma parada no fluxo do tempo, a ponta do processo. Pedirei emprestada, agora, uma metáfora do mirífico Schopenhauer para bem ilustar nosso texto-imagem.
Um acadêmico, ao registrar uma obra qualquer, passou por afetos e sentimentos muitos que não sobressaem na palavra escrita. Leu isto e aquilo, conversou com Fulano e Sicrano, descobriu algumas coisas e se confundiu com algumas outras. E tudo isto resulta numa obra! Suas experiências podem ser pareadas com um suculento banquete: frutas, carnes, sucos, vinhos e - claro - boa companhia. É por esta situação que um cientista, um artista, um místico ou um filósofo passam quando estão a produzir. Eles saboreiam! E o que a nós resulta é, tão somente, a "obra" depois do jantar. O cocô morto e inerte que, com muita pompa e orgulho, manipulamos, cheios de vaidades e arrogâncias.
E é nisto que poderíamos resumir todos as nossas filosofias, todas as nossas sinfonias, todos os nossos ritualismos, toda a nossa ciência e sapiência. Tudo é merda!!! Conhecer bem as "obras" de Platão e Bergson, Beethoven e Baden Powell, Jesus de Nazaré e Mahatma Gandi é apenas assumir-se possuidor de diversos cocôs! Somos escatologistas especializados! Por mais saborosos os alimentos consumidos, por mais saudável a dieta à mesa, por mais agradáveis as pessoas a dividirem o pão, tudo o que nós consumimos é o produto final de alguém que resolveu "obrar".
Mas apontar a natureza baixa de todos os nossos produtos conceituais não implica que devamos nos livrar de nossas obras - passadas e porvindouras - para todo o sempre. Estou apenas sugerindo que olhemos para as alturas. Esta metáfora do Schopenhauer, por exemplo. Ele a escreveu no gigantesco Parerga e Paraliponema, que foi editado e traduzido - aqui no Brasil - numa pequena coletânea de textos entitulada A Arte de Escrever, cujo volume foi comprado e lido por um amigo meu que, posteriormente, comentou-a comigo. Apenas um pequeno coliforme deve ter chegado a mim: este é o pensamento ao qual somos tentados a assumir. Se ele é verdadeiro!? Sim e não! Vejamos.
Estou estudando, de forma auto-didática, o idioma alemão. E muitos são os que se espantam quando o descobrem, geralmente por terceiros que aumentam ainda mais a importância do fenômeno. Mas imaginemos que este que vos fala seja, neste exato momento, transportado magicamente à Alemanha. Meu ridículo, grosseiro e teórico conhecimento da língua germânica de nada me servirá! E mesmo que eu consiga dominar o deutsch com fluidez e maestria antes do teleporte, este conhecimento em nada me diferenciará dos demais! Um saber que, de tão banal, nem seria considerado como saber por outrem.
O que não quer dizer, obviamente, que meu alemão seja inútil. E é este o ponto a ser apontado em nossa discussão. Aprender sobre platonismo, sinfonias românticas, cristianismo essênio, termodinâmica, estatuaria helenística, budismo tibetano ou qualquer outra merda não é, de todo,
um ofício vazio. Todos estes pontos não querem ser um em-si a nos glorificar diante dos homens. Os pontos querem ser ligados!
Aprender coisas e mais coisas, saberes e mais saberes, merdas e mais merdas, é como aprender um idioma! Tanto nos possibilita a comunicação com um sujeito outro quanto nos mostra uma nova forma de encarar as coisas mesmas. Aprender coisas, quaisquer que sejam, só nos é interessante quando nos dá aquele toque no espírito, um frio na espinha, uma sensação de ser lançado no desconhecido. A imagem, a palavra e o conceito são apenas obras. São pontos finais. Mas pontos que querem, em nós, desencadear processos originais. A imagem quer virar imaginação; a palavra, ação; e o conceito, afeto. O que a prosa deseja é ser um pouco mais de poesia...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O porquê de eu não ser inteligente...

É engraçado ser visto como um arrogante por nutrir afinidades com um pensador hermético como o Heidegger. Ou - até pior! - ser considerado inteligente por esta razão. Fala o Goethe pelos lábios de Wherter que os prosaicos o consideram por demais devido à seu intelecto, seus dotes artísticos ou sua retórica, mas é de seu coração que ele unicamente se orgulha; e este ninguém conhece! Saint-Exupéry transborda vida através do Petit Prince: "L´essentiel est invisible pour les yeux"! Fala Paulo de Tarso dos ditos indizíveis. Comenta Sidarta sobre o silêncio do Nirvana. Proclamam homens e mulheres sobre a ilusão do eu pensante - do Ego Cogito Cogitatum! - que insiste em nos dar uma unidade egóica mesma a nos identificar e cristalizar a invenção em nós.
Antes de pôr em movimento o pensamento, peço desculpas por tanto tempo sem nada escrever. Fui acometido pela síndrome de final-de-período que costuma assolar os acadêmicos e universitários: avaliações, ensaios, artigos, relatórios. Diz Bergon que o tempo é aquilo que impede que tudo seja dado de uma só vez. Parece que dessa vez Chronos resolveu aloprar tal qual seu irmão mais novo e me enviou tormentas, geadas e chuvas numa mesma estação da colheita, o que frutificou numa enfermidade que ainda insiste em fixar morada em mim. Mas voltemos a nossa programação...
Seria interessante que processassemos nossa conversa na mesma viagem do texto anterior, sobre o versículo inicial do afectivo evangelho joanino. Vão lá, dêem uma lida e caiam aqui de novo, pois é justamente sobre processos, viagens e afetos que trata o "dificílimo, prolixo e incompreensível" Heidegger. Tomemos como exemplo dois termos sinônimos usados em sua fenomenologia hermenêutica: o Dasein e o Inderweltsein.
Dasein é normalmente traduzido por "Presença" nas edições brasileiras, o que corresponde - deveras - a uma transliteração fiel do vernáculo cotidiano. Façamos algumas observações, entretanto. Dasein é Da-Sein. Da é advérbio de lugar, e significa "aí". Sein é o substantivo "Ser". Isto fica ainda mais claro no conceito correlato Inderweltsein. In e der, juntos, formam um locativo e Welt equivale ao nosso substantivo "Mundo". Numa tradução mais proximal da terminologia utilizada, poderíamos usar "Ser-aí" para Dasein e "Ser-no-Mundo" para Inderweltsein. Estas, inclusive, foram as opções escolhidas em edições mais recentes - e felizes! - das obras heideggerianas. Outra opção de tradução, ainda, é manter a nomenclatura original dos conceitos. Muito comum é pegar algum texto do/sobre o Heidegger e encontrar o Dasein mesmo por lá.
Minhas ressalvas! Quando um alemão pronuncia, escuta e lê Dasein, ele não entra num mesmo estado de espírito que eu entrei, num exemplo particular, ao ler "Presença", dado o caráter individualista da palavra "Presença" a contrastar com a transcendência de si e o lançar-se ao outro que Heidegger quis sugerir com os nomes utilizados! Tampouco quando li "Ser-aí" ou "Ser-no-Mundo" eu entrei na mesma temporalidade do germânico do Dasein e do Inderweltsein, visto que os nomes brasis são notadamente artificiais, ao contrário dos cotidianos termos germânicos. Por fim, utilizar a terminologia original - Dasein, Dasein, Dasein - pode causar um efeito encantatório no leitor brasileiro, que se deixa sugestionar por uma palavreta nova a alimentar sua verborragia.
Como, então, transformar está dilemática que se nos afigura num problema resolvível? O Conjunto Solução que eu encontrei: procurar ler Heidegger no original, em alemão! E já imagino as caras, bocas, feições e perceptos que se deram nos senhores: "que arrogante-filho-da-puta!" ou "caramba, mó inteligente esse bicho!" ou, ainda, "esse daí quer mostrar que sabe mais do que realmente sabe!" Frases que - não só as creio como já as saboreei - pululam na alma de outrem! Mas não se trata de simples pedantismo, nem de intelectualismo elevado. Muito menos se trata de mostrar que sei mais do que sei em Espírito e em Verdade, visto que este movimento não ambiciona analíticas conceituais ou demais produtos da inteligência. O que viso é, simplesmente, atingir o movimento, o fluxo, a vida que tentou alcançar vôo através do filósofo numa gaiola de palavras.
Heidegger não é, simplesmente, "inteligente pra caralho" ou "desnecessariamente rebuscado" nem "quer esconder o vazio da sua interioridade psíquica numa retórica incognoscível aos intramundanos"! O que ele fala não é do plano do prosaico, do lógico ou do intelectual, mas sim do poético, do artístico e da intuição. Buscar ler Heidegger em alemão é, destarte, aproximar-se da criação original que se deu no autor, que se constitui na obra mesma que, nele, escolheu se manifestar! O que importa, aqui, não é o ponto inicial da ignorância total nem o ponto final da sapiência cósmica, mas o traçado feito duma coordenada à outra. O próprio Heidegger, saliento, faz constantes citações a textos em grego, com seus caracteres originais, como alguns diálogos platônicos e, principalmente, registros aristotélicos... E isto sem apresentar uma tradução! "Miserável!", gritam alguns. Mas ele sabe que nenhuma palavra, conceito ou imagem podem representar a pura presença do Ser no homem. Ele sabe que não se "pega" a idéia sem o esforço de se debruçar sobre livros, rever opiniões e substituir valores. Posso até melhorar minha assertiva: não é a taverna ao final da empreitada que alimenta o aventureiro, mas a caminhada angustiante é que o fez crescer...