sexta-feira, 9 de abril de 2010

μουσική τέχνη

Expressividade e Técnica. Dois modos de operar frente às coisas e pessoas que recheiam e revestem o mundo. Ambas relacionam-se com outra dualidade, figurativa dos modos de como o sujeito se produz nessas operações; a saber, o Amor e a Fé. O Expressivo, em toda a sua dramaticidade profunda, é antípoda do Técnico, objetivo e pragmático; o Amador, criador e criatura de sua própria arte, é enantiomorfo ao Profissional que prega e é pregado pela sua liturgia. Quatro tipologias: o Técnico Profissional, o Expressivo Amador, O Técnico Amador e o Expressivo Profissional; não categorias psicológicas de aprisionamento do pensar mas nomes de ação que representam, retrospectivamente, atributos em pacotes de linguagem. Não conceitos, mas imagens! O que nos aparece como tipos de personalidade deve ser encarado como políticas de conhecimento que podemos agenciar. Para esclarecer este pensamento que acabou de se dar em mim, uso a música - arte das musas! - como norteadora de nossa reflexão.
De início, peguemos o Técnico-Profissional. O mais inteligente de todos! E, como sabem os bons leitores deste blog, isto não foi - necessariamente - um elogio. Assume um repertório padrão. Ele sabe o que deve tocar e o faz muito bem. Estudioso, compenetrado, ordeiro, leva seu trabalho muito a sério. Músico caro! O pianista solo, o violinista spalla, a primeira soprano. O maestro! Sua música é canônica; sua composição, acadêmica. Pensa em claves e sente em escalas. De costas à vida, o maestro é homem erudito. Com um gesticular, o maestro se constrói sujeito unificado de poder, detentor de varinhas mágicas a fazer calar as pessoas e a fazer falar instrumentos. Gramático instrumental! Seu ouvido é absoluto, visto não escutar nenhuma relação fora de seu próprio círculo. Ou quadrado!
Já o Expressivo-Amador funciona numa órbita desconectada às intelectividades do maestro. É um músico das intuições. O maestro se faz músico de platéia ao purificar e afastar sua obra da mesma; o Expressivo-Amador, tomando a via inversa, constrói seu império na solidão dum quarto, mas inspirado pela multiplicidade de afetos que lhe atravessam. É o auto-didata! Músico raro, o auto-didata não segue planejamentos, ementas e objetivos em sua caminhada. Toca sozinho, para si, mas leva o mundo em cada nota que atravessa sua garganta e em cada batida que trasteja seu violão. Tímido, treme frente a um outro. Tem medo das unidades, principalmente quando espreitam em grande número. Toca e, em cada toque, é tocado; compõe e, em cada composição, é destruído e recriado. O auto-didata quase nunca expressa o que os ouvintes lhe pedem, mas sempre toca os seus ouvintes com as músicas que pedem para ser expressadas!
O Técnico-Amador é uma outra figurinha que apresento em meus pacotes de linguagem. Costuma ser, embora nem sempre, uma derivação de um dos dois tipos anteriores. O Técnico-Amador é o músico de vanguarda! Tanto o maestro pomposo que passa a sentir enjoos da altura de seu pedestal quanto o tímido auto-didata que resolve melhor articular as suas práticas. O vanguardista tem a posse dum considerável acervo teórico e duma experiência prática invejável, mas tudo isso só lhe é de valor quando possibilita movimentos. Não gosta de fazer arte sozinho e abomina lugares fechados, sejam pequeninos quartos abafados sejam teatros titânicos. Toca no e para o mundo, mas - longe de fazer de sua produção um produto - é um músico sem público. Inteligente e intuitivo, o vanguardista compõe para um ouvinte ainda por vir!
Por fim, o Expressivo-Profissional. Deste, temos inúmeros exemplares saltitantes por aí e, mesmo sendo o mais numeroso dentre os quatro, é o mais desprezado dentre todos os músicos. O Expressivo-Profissional - dizem - é um preguiçoso lânguido que não possui rigor em suas práticas e não transborda sentimentos sinceros no seu interpretar. Pensemos num luau. É noite, uma lua minguando no céu, uma fogueira que quer se apagar, algumas garrafas abertas de vinho, melhores amigos e totais desconhecidos se acomodando em círculos e - não podia faltar! - aquele cara com um Kashima desafinado a destilar alegria em cada acorde mal feito que executa. O violeiro é odiado pelo maestro por não saborear o conhecimento acumulado que os deuses em forma de homem nos legaram; é odiado pelo auto-didata por maltratar o instrumento com harmonias pobres de vida interior; e é odiado pelo vanguardista por tratar a música como objeto de consumo. O violeiro, no entanto, toca para agregar amigos, selar amizades, sanar desavenças, suscitar risadas, improvisar coros, possibilitar o programa de final de semana. Sem o violeiro, o luau não teria Graça!
O maestro produz música pura mas dá as costas à vida. O auto-didata compõe com seu próprio sangue, mas nunca o faz para fora de seu quarto. O vanguardista cria sons nunca dantes escutados, mas nem sempre se esforça em criar um mundo para acolhê-los. O desprezado violeiro, por sua vez, embora não ligue para estudos, interioridades profundas ou inovações, tá no meio das gentes. É o mais real e vivo de todos os musicistas, embora nem músico o coitado seja considerado! Pobre de sistemas teóricos, intuições sentimentais ou arroubos criativos, o violeiro é alegria pregnante, rico de relações, prágmáticas e articulações. É o verdadeiro sacerdote das musas gregas, a cantar e a encantar as multidões. A cantar e a encantar junto das multidões! Isolemo-nos para intuirmos musicalidade; registremos nossas intuições; tragamos a revolução! Mas que ninguém se esqueça de, no final de semana, fechar livros e anotações, chamar chegados e desconhecidos, abrir garrafas e bocas. O discurso se cala, numa sexta-feira à noite - ainda que chuvosa - para dar lugar à vida...

quinta-feira, 18 de março de 2010

Da Fabricação à Realidade

Palavras e coisas. Entre os dois, um abismo colossal que tentamos suprimir com nossas engenharias de correspondência e representação. Com o Bruno Latour, a conversação é outra. Não mais a verticalidade do abismo entre discurso e mundo, mas a transversalidade das artérias pelas quais circulam as cadeias de transformações. O único discurso razoável e verossímel de uma mente sobre o mundo seria aquele que considerasse o maior número de relações que possibilita à ciência - e a própria mente, não mais isolada - existir! Se numa epistemologia tradicional quer-se libertar a ciência da sociedade, trata-se agora de ligar nossos saberes ao coletivo.
É comum escutarmos, pelos salmos dos estudiosos da ciência, jargões como "construção", "fabricação" e símiles no tocante à ação da ciência no mundo. Bonito, isso! Coisas, objetos, mundo; tudo é construído! Não obstante, essa metáfora bonita nos passa a idéia de que, se algo é fabricado, construído ou qualquer coisa que o valha, então este algo é falso e merece ser descontruído! "Coisa de pós-moderno frouxo!", resmungam os soldados da ciência. "Construir" e "fabricar" devem - segundo o Latour - ganhar novas significâncias, para além da analogia do mundo enquanto playground vazio à espera dos humanos brincantes.
Para a tarefa de Hércules, Latour se apropria do Mémoire sur la fermentation appelée lactique, considerado um dos textos mais importantes de Louis Pasteur. Através deste, Latour põe em ação duas narrativas: uma primeira, ontológica, sobre a conversão de atributos/desempenhos em uma substância/competência coesa (o que se aplica tanto ao ácido lático quanto ao próprio Pasteur); e uma segunda, epistemológica, acerca da construção dos fatos (e as implicações humanas e não-humanas deste desenrolar).
Logo no comecinho de seu artigo, Pasteur dita que a fermentação do ácido lático não possui uma causa óbvia. Se há algum fermento no meio desse processo, seria apenas um produto acidental e desprezível envolvido numa fermentação puramente química. Mas deixem-me situar, ligeiramente, o cenário de nossa historieta! Século XIX, círculos científicos, química de Liebig. Afirmar que um organismo vivo é o responsável por um processo de fermentação seria dar um passo atrás nas contribuições do senhor Justus e retornar às antigas explicações vitalistas que colocavam mais entraves e problemas que soluções e encaminhamentos.
Pasteur, ao que parece, pega bem essa onda. Não obstante, numa escrita abrupta, Luís grita: É ele - sim! - é ele, o fermento, que desempenha o papel principal! E, com este grito mágico, o fermento - que não passava de uma massa cinzenta aderida nos lados superiores do recipiente - torna-se, deveras, um fermento; deixa de ser nada e passa a ser alguma coisa! E o Pasteur, assim como a massa cinzenta do recipiente, também é transformado num outro, diferente daquele de antes do experimento! Este último ponto, prometo, ficará claro logo mais adiante. Tenham paciência, caros, e continuem a acompanhar nossa aventura. De começo, o leitor do artigo encara um mundo no qual o fermento/matéria orgânica é um substrato irrelevante ou mesmo decadente ao processo químico. Ao final do artigo, o leitor é transportado a um mundo no qual o fermento é uma forma de vida bem identificada e essencial ao processo químico em questão. Latour põe o problema: como Pasteur fez surgir, daquelas manchas cinzentas, uma entidade coesa (a saber, o levêdo da fermentação do ácido lático...)? Sua resposta: a nova entidade é um objeto que circula campos e mais campos de provas e transformações!
Não falei coisa com coisa, eu sei! Tentei explicar e trouxe mais confusão à saga. Mil desculpas! Uma vez mais peço mansidão aos corações dos senhores. Toquemos o barco que, assim espero, esta questão também será clareada. Sério! E, para abrir a mata rumo à essa clareira, Latour nos apresenta o seu conceito de nome de ação: uma série de desempenhos precede a criação duma competência que, no futuro, será considerada a causa destes desempenhos mesmos! Pegadinha: posso ser polvilhado, provoco reações de fermentação, turvo líquidos, consumo giz, formo depósitos, produzo gases, gero cristais e sou viscoso. Quem sou eu? Em primeiro, isto é apenas uma lista de itens que o Pasteur, provavelmente, registrou em seu caderninho enquanto traquinava no laboratório. O máximo que conseguimos tirar desta lista de itens é um ente frágil e indeterminado que, por enquanto, não passa de fruto da imaginação do Pasteur!
Seu Luís, não obstante, esmera-se para dar um estatuto ontológico à massa cinza que bordeia o recipiente. Mas do mesmo jeitinho que não basta ao bom candidato mostrar seu talento para ser considerado um ator, não basta fazer coisas para ser uma coisa! É necessário um contato, um peixe, uma ação por fora do palco, um ato por detrás das cortinas! Pasteur não hesita em mexer seus pauzinhos para pôr seu candidato sob os holofotes e compara o seu funcionamento, seu estilo de atuação, ao do já consagrado lêvedo de cerveja. A massa cinzenta recorre a um ator já estabelecido nos palcos da academia e, de mancha viscosa, passa à condição de entidade biológica, podendo inclusive ser organizada taxonomicamente. Não é, tão somente, um caso de transporte de informações que se transformam, mas é o próprio fermento que possui sua história de alterações ontológicas, passando de uma lista de atributos vagos à uma substância plena e viva!
Um ator se define através de suas atuações. Inferência simples, esta. E, para que o fermento bem-atue, o cientista elabora testes para o atuante mostrar quem é e como interage com outros atuantes. As cortinas do laboratório-cenário são levantadas por Pasteur para que seu novo candidato possa ser testado nesse mundo artificial. Desempenhos agregam-se numa competência! A mancha torna-se "O Lêvedo do Ácido Lático"! Num movimento posterior, a peça é encenada aos colegas acadêmicos de Pasteur, que dão o veredito quanto ao espetáculo. Noutros termos: há um primeiro teste, que se resume num conto de fadas, uma historieta linguística; um segundo teste, que é a configuração duma situação (aparentemente) não-linguística (tubos de ensaio, o fermento, o próprio Pasteur e seus ajudantes); e um terceiro, que é a tentativa de Pasteur - nos dois testes anteriores - em atribuir a competência do fermento ao próprio fermento, e não a sua habilidade retórica em inventar um teste para revelar um novo ator!
Um experimento, destarte, é um texto escrito para ser avaliado por outros para saber se é, tão somente, um texto. Caso a prova final seja bem-sucedida, entende-se que o texto não é, simplesmente, literatura ficcional, e que há verdade por detrás dele. O ator prova sua competência e o autor da novela, claro, também é modificado no processo; se Pasteur, através de seus testes, ajudou o fermento a se revelar para o mundo, o fermento ajudou Pasteur a ganhar uma medalha, a publicar um artigo e a se afamar na academia!
O fermento muda, Pasteur muda, a academia muda. Mas o que é exigido, no meio de tanta mudança, é a estabilidade do fermento. Não importa o quão engenhoso foi Pasteur ao criar seus dispositivos artificiais, os testes de seus colegas devem atribuir a invenção do fermento ao próprio fermento. Fato e artefato. Deste lado, as coisas são construidas; daquele, não há artificialidade nas coisas. E aqui esbarramos no principal entrave dos conceitos "construir" e "fabricar": tudo o que acontece, no vocábulo da ciência, é a descoberta do que já estava lá, seja "lá" a natureza ou a sociedade ou o que quer que seja. Um experimento - fabricado e não-fabricado ao mesmo tempo, saliento - enquanto "descoberta do que já estava lá" sempre vai apresentar um buraco, uma incógnita para a compreensão da originalidade na ciência. Para tampar este buraco, temos numerosas arquiteturas: a natureza exterior, sujeitos transcendentais, paradigmas sociais. A novidade científica, entretanto, se dá porque o experimento não é um "jogo zerado" ou um playground vazio à nossa espera; desvelamentos, a priorismos e potencialidades são apenas rebocos para sustentar um prédio destinado a ruir.
A ciência evolui por meio do experimento. Verdade. Mas o experimento não é uma descoberta, mas um evento circunstancial e histórico; história, esta, de humanos e não-humanos. Um evento no qual todos os envolvidos saem diferentes de como entraram: vide o fermento e Pasteur e mesmo a química acadêmica! Experimento enquanto evento e evento enquanto transformação. Espero, com este post, ter trazido alguma luz - ou, ao menos, não obscurecido de vez - à discussão desempenhos/competência para, assim, poder entrar de vez na temática de construção de fatos e o conflito - enfrentado pelo Pasteur - entre construtivismo e realismo...
LATOUR, Bruno; “Da Fabricação à Realidade"; In: A Esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos; trad. Gilson C. C. de Souza; Bauru, SP: EDUSC, 2001; pp. 133-148.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O Almoço dos Barqueiros

"Depois de tantos anos, o único personagem que ainda não consegui captar é a moça com o copo de água. Ela está no centro e, no entanto, está fora."
"Talvez seja diferente dos outros..."
"Hã? Em quê!?"
"Não sei."
"Quando era pequena, não devia brincar muito com outras crianças. Talvez nunca!"
"..."
"..."
"...talvez seja porque está pensando em alguém."
"Em alguém do quadro?"
"Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar, e sentiu que eram parecidos."
"Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes."
"Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
"
E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?"

terça-feira, 9 de março de 2010

Fabuloso Destino

"Psiu... Psiu... Queria saber mais, hein?"
"Vocês a conhecem?"
"Claro que a conhecemos
. Ela nos colocou no bolso da sua blusa! Contra o seio!"
"Ela
é bonita?"
"Nada mal! Nada mal. Nada mal... É linda! Não, é bonitinha. Não, é linda!... Não, é bonitinha..."
"E o que ela quer de mim?"
"Está dura. Quer uma recompensa pelo álbum... Ou também coleciona fotos 3x4... Isso! E, como já tem a gente, quer nos trocar por um zarolho de óculos!"
"..."
"Claro que não, cretino! Ela está apaixonada!"
"Mas nem a conheço..."
"Claro que a conhece!"
"Desde quando!?"
"Desde sempre!... Em seus sonhos..."

segunda-feira, 1 de março de 2010

Impressões

Dêem uma olhadinha na pintura abaixo. É o Impression, Soleil Levant (1872), do Claude Monet. Recomendo que os senhores ampliem a imagem e dispendam alguns segundos de seu dia para saborear a obra...

Comecemos, agora, a descrever o quadro. Um esquife com duas pessoas. Outra embarcação, mais ao longe. Um pôr do sol. Seu reflexo nas águas calmas. Um velho porto. Pedras no horizonte... E continuaríamos a analisar o quadro até a exaustão - nossa ou da pintura! - tentando figurar todos os seus objetos e transformando a simplicidade da pintura do Monet num discurso intelectualóide sobre arte, estilística e coisas afins. Observem cada um desses objetos tomados em isolado. O barquinho. O sol. A água. O porto. As pedras. A luz. Tomadas separadamente, não passam de manchas disformes e sem delineamento. São borrões feios, tais quais os desenhos dum pré-escolar!
E é neste mesmo comprimento de onda que residem as críticas do pintor e escritor Louis Leroy feitas ao quadro: "Impressão, Nascer do Sol - eu bem o sabia! Pensava eu, se estou impressionado é porque lá há uma impressão. E que liberdade, que suavidade de pincel! Um papel de parede é mais elaborado que esta cena marinha." O termo "impressão", usado para depreciar a arte de Monet, foi aproveitado pelo mesmo e por seus colegas para batizar esta revolução criadora pela qual a arte atravessava. O movimento impressionista, como ficaria conhecido, rompe com o passado! Pinceladas soltas, o uso de massas de cor e de formas pouco definidas não objetivavam representar a realidade, mas suscitar as impressões da mesma no espírito do esteta!
O impressionismo pictórico seduz pela luz e pela cor, não pela forma. Nova linguagem! Intuição transcendente e sensação visceral num mesmo golpe de pincel, ansioso em destruir formalidades. O impressionista foge da pintura fotográfica e das técnicas mecânicas de representação do real e se lança na impressão sensorial que cria a realidade mesma em nós. O artista, aqui, não é um simples copiador das aparências sensíveis - oh, poeta platônico! - mas um criador das idéias no espírito! Olho o quadro do Monet: "um barquinho tosco, um sol tosco, um mar tosco!", discursa o fotógrafo em mim, analisando as geometrias presentes na pintura. Olho de novo, sem meus óculos de erudito. E sou impressionado pela imagem, pelo Todo da imagem! Não falo da soma de suas partes, nem duma totalidade gestáltica. O Todo é aquilo que extrapola qualquer formalização do sentir, qualquer discurso sobre o ser, qualquer espacialização do tempo!
Falo o mesmo do impressionismo musical, que tem Claude Debussy como principal representante. Outros músicos fantásticos, como Ravel, Fauré, Dukas, d´Indy e Satie também costumam ser apresentados como participantes deste grupúsculo, mas só Debussy foi um "impressionista puro". Suas músicas repudiam a ortodoxia acadêmica e as boas regras para compor. Seus acordes não fazem o papel tradicional de base harmônica, mas adquirem um novo status de sonoridade, sons que valem por si mesmos! Suas escalas vão além das tonalidades clássicas, sendo notável em algumas de suas inspirações - como a Suíte Bergamasque - o bom uso de antigos modos medievais ou de exóticas escalas orientais. A quarta e última parte desta suíte, Passepied, ou o Pagodes, introdução das Estampes, são boas audições para se sacar estas palavras frias.
O que quero dizer com isto tudo!? Garanto aos senhores meus amigos que não é demostrar a superioridade do impressionismo a respeito das outras estilísticas e escolas de arte. Bach, Rembrandt, Albinoni, Caravaggio, Mozart, Fragonard, Haydn, Watteau, Beethoven, da Vinci, Chopin, Delacroix... Todos eles nos causam "impressões". Claro que causam! Como poderia eu negar isto e conceder apenas a Debussy e Monet o status de artistas? Jamais! Mas é no impressionismo que a arte adquire novo status qualitativo, sendo toda a tradição técnica, formal e quantitativa submissa ao passado-duração que se re-atualiza e se re-cria no presente!
As formas são possuídas pelos profissionais, em resposta a uma demanda de época sobre como se deve e como não se deve fazer. O impressionista, sendo assim, não professa a sua fé no cânone. É um amador! Domina as formas - sim, senhor! - mas com elas se deixa levar, como uma criança abobalhada dentro do casarão do avô a fazer arte nova nas velhas mobílias. Não toca, mas é tocado! Não pinta, mas seu mundo é agraciado com novas matizes! Seria maldade colocar o impressionismo como ponto último de gradação da arte. Estaria eu negando todo o post que escrevi e todo o papo de criação e novidade que tanto toco neste weblog. Outra maldade interessante seria, levando a sério o comentário anterior, considerar todos os dragões que citei no parágrafo de cima como profissionais com características impressionistas. Uma sentença tão falaciosa e mal-colocada que me causa estranheza pensar-me intuindo a mesma! Barroco, rococó, neo-classicismo, pré-romantismo. Formas de época mas formas a posteriori, discurso do futuro sobre um tempo de outrora. O bom artista não segue época, estruturas, categorias, transcendentalismos e pacotes afins, embora utilize dos mesmos pra guardar suas impressões. É um homem adulto e amadurecido, mas que insiste em fazer arte como uma criança brincante, seja borrando telas, seja martelando pianos, seja na sua cotidianice embaçadora... Impressionem!...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Você acredita na realidade?

Esse questionamento, aparentemente absurdo, dá nome ao primeiro capítulo dum livro elaborado para dar conta da querela – A Esperança de Pandora – tratando de maneira original a já gasta discussão sujeito-objeto, inserindo nela a conceituação de humano e não-humano. Latour, recomodando suas interpretações iniciais ante semelhante pergunta - feita por um amigo psicólogo seu - e ao perceber a desconcertante diferença apregoada entre cientistas e “estudiosos da ciência” pelos organizadores da Wenner-Grenn Foundation, coloca que o fato de estudar um assunto não significa que se o esteja atacando. Astrônomos não desprezam as estrelas, imunologistas não se opõem aos anticorpos e biólogos não odeiam a vida.
Se seus estudos científicos vingaram em algo, pensava ele, seria justamente em ter trazido realidade à ciência, não o oposto. Ao invés duma objetividade pálida, Latour demonstrava que a prática de laboratório tinha história, cultura, vida, sangue! Mas percebeu sua ingenuidade pouco depois. O que chamava de “acréscimo de realismo à ciência” era chamado, pelos cientistas, de “ameaça ao apelo da ciência, um modo de reduzir-lhe o grau de verdade e as pretensões à certeza". Não há, no mundo inteiro, uma única situação na qual alguém possa ouvir, normalmente, a nossa pergunta inicial, a mais estranha das perguntas. “Você acredita na realidade?”. Perguntar se alguém crê na realidade só se dá no caso de alguém que se distancia a tal ponto do real que o medo de perdê-lo se torne justificável. E é a história intelectual desse medo que Latour esboça no desenrolar de sua escrita.
Essa pergunta esquisita já fora, de certa forma, posta por Descartes, ao inquirir como a mente podia estar “absolutamente” segura de um objeto do mundo exterior. Ao formular o problema, Cartesius inviabilizou a única resposta razoável: estamos “relativamente” seguros dos objetos com a nossa lida cotidiana dentro da prática laboratorial. O caminho traçado pelo francês – a título de curiosidade, Deus – para restabelecer o contato de sua mente sem corpo com o mundo exterior era um tanto longínquo. Em busca dum atalho, algumas pessoas se perguntavam se o mundo não poderia nos enviar, diretamente, informações capazes de gerar imagens estáveis do mundo em nossas mentes.
Entretanto, com este aparentemente novo problema colocado, os empiristas seguiram pela mesma estrada. A tábula rasa dos empiristas é tão desconectada quanto a mente cartesiana. O cérebro extirpado, exigindo equipamentos para a manutenção de sua vida artificial, troca um kit de sobrevivência por outro. Se antes tínhamos Deus, agora temos uma mente bombardeada por um mundo reduzido a estímulos sem sentido, mente que extrai destes mesmos estímulos todo o necessário para formar e reformar o mundo!
Os filósofos, para não voltarem atrás e tomarem um outro caminho até abandonam a exigência de certeza absoluta e improvisam uma solução para salvaguardar um pequeno pedaço da realidade exterior. Essa rede neural de associações dos empiristas mostra-se incapaz de fornecer, por si mesma, uma imagem do mundo exterior. Isso provava, para eles, filósofos, que a mente (ainda extirpada e separada da realidade, vale salientar), tira “de si mesma” tudo o de que necessita para construir suas histórias. O a priori kantiano, vendido como a revolução copernicana no pensamento, é uma ficção científica bizarra que nem Descartes, Hume ou Deus poderiam imaginar. Para Kant, é o mundo (exterior) que gira ao redor da mente (extirpada), sendo esta que dita as leis universais, mas leis que tirou de si mesma e sem a ajuda de ninguém!
As pessoas, não muito mais tarde, perceberam que esse tal sujeito transcendental – como Kant o chamava – era, tão somente, uma ficção explanatória, uma posição de compromisso num acordo para evitar a perda do mundo ou o abandono pela busca da verdade absoluta. Sai o planetóide kantiano e, em seu lugar, entra a “sociedade”. A mente escultora da realidade cede passagem às categorias e representações sociais. Latour, porém, faz quatro adendos quanto à substituição do Ego pelo Socius.
Em primeiro, tal substituição não refez a caminhada trôpega realizada até aqui e distanciou ainda mais o sujeito de seu mundo exterior; se antes as pessoas ficavam isoladas em suas próprias categorias, agora estão trancafiadas dentro de seus próprios grupos sociais. Segundo, esta mesma sociedade não passa dum agregado em série de mentes extirpadas; muitas e muitas mentes, mas todas funcionando isoladamente na contemplação do tal mundo exterior. Em terceiro, Latour pontua o comprometimento do que Kant propôs de melhor, a saber a universalidade de suas categorias a priori; as mentes individuais, desvinculadas umas das outras e do mundo, cedem às mentes coletivas e à cultura, tal qual prisioneiros que, antes separados uns dos outros por celas individuais, isolam-se cada vez mais em prisões diferentes e desconexas. Por fim, a razão quarta: o medo da tirania da massa! Em resumo, “é a ressonância desses dois medos, a perda de um acesso certo à realidade e a invasão da massa, que tornou a pergunta ao mesmo tempo tão injusta e tão séria”. Sobre o medo do governo da massa, discorreremos pouco mais adiante.
Um dos engodos em forma de solução tão comumente assumidos diante dessa trama é aceitarmos com prazer a perda das certezas. Possuímos uma velha posição e todo defeito dela é visto como qualidade. Perdemos o mundo, ficamos presos à linguagem, foi-nos tomada toda a certeza absoluta. E bate-se palmas à isso! Não avançamos um milímetro desde Descartes: a mente continua em sua cuba, desvinculada do resto e a contemplar o mundo através da parede de vidro de seu receptáculo. Há aqueles que gargalham gostosamente da situação toda, felizes pela sua livre construção de narrativas e histórias, mas continuam prisioneiros acorrentados a descer, jubilosamente, as escadas de sua danação.
Uma segunda solução, brilhante, foi proposta. Ei-la: retiramos apenas parte da mente de sua cuba, colocamo-a num corpo e lançamos este corpo no mundo que – coisa boa! – já não é mais uma realidade a ser contemplada, mas uma extensão viva de nós mesmos. Já não dispomos de uma mente em contato com o exterior mas sim de um mundo vivo ligado a um corpo intencional. Infelizmente... essa operação divide a mente em pedaços ainda menores. A fenomenologia, por tratar apenas do “mundo-para-uma-consciência-humana”, nos dá uma nova separação: de um lado, o frio e inumano mundo da ciência; doutro, o mundo humano das instâncias intencionais, rico e dinâmico, mas separado e ignorante ao que as coisas são em si e para si mesmas.
Caso a fenomenologia deixasse a ciência correr em sua própria trilha, o sentido oposto, seria ainda pior. A mente feita cérebro, o homem feito fenômeno natural e a filosofia feita neurologia. Trocaríamos a história humana por uma luta darwiniana pela adaptação a uma realidade que – vejam só! – nem conhecemos. Regressar o caminho tomado soa-nos perigoso por causa do medo do governo da massa já mencionado. Retomemos este ponto.
Como disse Latour, dois medos inspiraram seu amigo a fazer aquela estranha pergunta. O primeiro é o medo do cérebro extirpado em perder contato com o mundo exterior, cuja história acabamos de delinear. O outro, o medo da massa, tem uma história mais antiga, originada no velho “se a razão não governar, a força prevalecerá”. De onde se originou este debate pouco importa, mas no Górgias, de Platão, ele é apresentado com muita clareza. O que se afigura não é a simples oposição entre razão e força, o direito e o poder, filosofia e retórica, Sócrates e Cálicles, mas o poder de um, o patrício, contra a força de muitos, a massa. Sócrates é irônico quanto ao poder de Cálicles, mas ele mesmo defende e tenta manejar um poder maior, capaz de controlar os “dez mil papalvos”: o poder da igualdade geométrica, o poder da razão, ignorado por Cálicles e pelos atenienses. Latour, desconfortável no tocante à idéia dum mundo exterior, pergunta: “por que gravar essa mente solitária com a tarefa impossível de descobrir certeza absoluta ao invés de conectá-la a circuitos que lhe forneceriam todas as certezas relativas de que ela necessita para conhecer e agir?”. E aponta sua resposta: “é para evitar a multidão desumana que temos de confiar em outro recurso não-humano, o objeto objetivo intocado por mão de homem”.
Nem a massa lá embaixo, nem o mundo lá fora. Não se deve temer perder o acesso ao mundo ou uma força superior contra a massa. Não se deve sentir falta da certeza, a menos que queiramos dominar o povo. Quando nos recusamos a pôr as disciplinas científicas nessa querela sobre quem deve dominar o povo, o realismo retorna, mas um “realismo mais realista”, de um mundo híbrido de humanos e não-humanos, pessoas e deuses, estrelas e elétrons, usinas nucleares e políticas de mercado.
No entanto, a sensação de que uma guerra científica está em movimento é inegável. Os cientistas estão sempre atentando sobre a necessidade de lançar ponte entre essas duas culturas, debate este que tem sua origem numa divisão de trabalho entre os dois lados de uma trincheira bordeada no próprio Campus. A originalidade dos estudos científicos, propostos por Latour, é combater ao mesmo tempo estas duas purificações. Aos cientistas, afirma que quanto mais conectada ao coletivo uma ciência estiver, mais precisa, verificável e sólida tornar-se-á. Aos humanistas, diz que quanto mais não-humanos partilharem existência com humanos, mais humano um coletivo será. Indo de um partido a outro, e traindo a ambos, Latour insiste tanto na “história social das coisas” quanto na “história coisificada dos humanos”, contrariando as crenças e reflexos condicionados a que tanto epistemologistas e humanistas cultivaram em seus anos de adestramento.
Latour, incisivamente, fala da passagem da Ciência para o que chama de Pesquisa (ou Ciência Nº 2). A Ciência é fria, distante, objetiva e pretensamente necessária. A Pesquisa, sua irmã mais nova, é incerta, aberta e está sempre às voltas com coisas insignificantes para a Ciência, como dinheiro, condições de trabalho e reconhecimento entre pares, sendo indistinto a ela tanto o humano quanto o não-humano. Quando fala, no entanto, de híbridos e miscelâneas afins, Latour parece seguir o mesmo caminho daqueles prisioneiros acorrentados a empreender uma descida ao inferno e a não ligar muito se as palavras referem-se ou não às coisas. O mesmo, no entanto, coloca: assim como há uma batalha travada entre os resmungões de guerra fria da Ciência e o modelo da Pesquisa, há uma outra luta se desenrolando nas chamadas humanidades: o que, frouxamente, é chamado de pós-moderno versus aquilo que o Latour chama de não-moderno. Se o primeiro preza por uma “desconstrução”, a ordem do segundo é desenvolver, afirmar e construir.
A luta pró ou contra a verdade absoluta, o relativismo ou a construção social não é o importante. Não é a relação palavras-mundo que aqui interessa, mas a política de coisas decorrente da tarefa de extrair o “cosmo” de uma “desordem”. Latour não pretende reduzir a ciência à “mera construção social pela massa convulsa”, mas aposta neste seu meio de libertar as ciências da política ou, ao menos, dessa política apolítica da razão, acordo entre epistemologia, moralidade, psicologia e teologia que, em seus esforços para estabelecer fatos, refinavam a antiga questão de como controlar melhor as pessoas...

LATOUR, Bruno; “Você acredita na realidade?”; In: A Esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos; trad. Gilson C. C. de Souza; Bauru, SP: EDUSC, 2001; pp. 13-37.


terça-feira, 5 de janeiro de 2010