terça-feira, 3 de maio de 2011

Lavoura Arcaica, Moderna, Contemporânea

Eu coloco uma questão. Lavoura Arcaica projeta um tal André (mas que poderia ser João, Pedro ou José) sufocado por um patriarcalismo universal e um maternalismo anestesiador. André sofre, se afeta, reage. Bergsonismo beirando a Nietzsche. Este último, mesmo, tornou-se carne na conversa-ação entre o pai e o filho, quando o pródigo à casa retorna. Filme apolítico e intimista, gritam alguns. Pergunto: onde reside o individualismo, aí? André é só André? André é um André? Ele é só? Ele é um?
É um filme que fala de afeto. Não o afeto do romântico, do mentalista e do cristão (quase a mesma coisa, os três), mas sim o plano-paisagem que vira primeiro plano. Só isso. Não o primeiro plano que parcializa, que recorta uma parte da totalidade e esquadrinha os seus interiores, à maneira dum cientista, mas o primeiro plano que transforma o próprio "objeto parcial" numa realidade independente. Primeiridade, diria o Peirce. Não é um filme que nos "fala" da alma do André, mas que nos coloca na dor do mesmo. O filme nos dói e nos pesa pois doído e pesado é o próprio afeto que arrebatou o André. O próprio afeto que o configurou e que se projeta em nós. Não a memória das coisas mas a memória nas coisas e as coisas se lançando em nós (nós-pronome-plural e nós-ponto-da-rede).
Não é um filme intimista, privado ou coisa semelhante. É apenas o afeto feito imagem. Não, não acho que o filme seja filosófico, no sentido (e apenas neste sentido) de que o mesmo discuta conceitos, apresente teoréticas ou suscite postulados. É um filme para ser discutido dentro do próprio filme, dentro da própria linguagem cinematográfica. Podemos falar de contextos históricos, referências bibliográficas, críticas à cultura e outras extrapolações, outros além-filme (extracampo?...), mas intenciono puxar - não aqui, não agora - uma discussão do filme pelos jogos de imagem que o mesmo constitui: excesso de primeiros planos "mal-decupados" (como os rostos cortados pelo enquadramento, causando um efeito de confusão semelhante ao falso raccord), o silêncio em momentos nos quais deveria haver ruído (a mãe acordando o filho, naquela dança das mãos por sob os lençois), câmeras sobre-humanas ou, mesmo, inumanas (André entrando na casa velha e a câmera o pegando de baixo do assoalho), a constituição de "espaços quaisquer" (transformação de detalhes duma cena na cena inteira; não como simples close, simples aproximação dum objeto parcial, mas a transformação desse detalhe - desse objeto - na cena inteira, tornando o fundo irrelevante e tecendo o objeto numa imagem-afecção deleuziana).
Quando falo duma análise das imagens ou dum estudo da montagem do filme, posso sugerir que o critério de julgamento para um filme ser bom ou ruim é a sua "técnica". Ou, mais ainda, que nada há para além dum filme que a sua técnica! Certo. Ou errado. Não é de técnica que falo, mas de linguagem, de linguagem cinematográfica, de classificação dos signos. Falo em "linguagem" não em seu sentido mais formalzão, saussureano (significante + significado = linguagem), mas numa alternativa para a separação do sujeito puro/significado (o "indivíduo" que assiste a película) com o objeto puro/significante (o "filme-em-si"). Linguagem semiótica, peirceana, é a que proponho.
Skinner diria (não com estes significantes...) que o ato de fala, de significação, de linguagem, é um comportamento, deveras, mas um comportamento atrelado a um circuito construído e mantido por toda uma coleção de elementos contingentes (não-necessários) a se articularem. A língua-que-fala só existe pois existe, aí, um ouvido no qual as palavras lançadas ao ar podem pousar e repousar. Uma fala é um mundo. Estudar o signo da linguagem, assim sendo, é estudar o estruturante que lhe dá condições para existir. Criticá-lo, virtualizá-lo, é mapear as suas condições de possibilidade, é re-configurar seu campo problemático. Isto se dá tanto na mais grosseira das partículas materiais quanto nas mais sublimes das artes. Agora, puxo o cinema.
Quando falo em ver o filme dentro do próprio filme, ou estudar cinema dentro do próprio cinema, não falo - tão somente, mas também - em técnica de enquadramento, em captura de movimento, em jogo de cor, em boas atuações (humanas e não-humanas), em equipamentos de gravação, em cenografia. Falo destas coisas, sim, mas não como "técnicas"; falo delas como "linguagens". De onde vieram? Pra onde querem ir? Por que assim o são? A quê servem? Tais perguntas substituem o "que é isto?" da filosofia, questão intelectual e moderna por excelência. Que é isto, o sujeito? Que é isto, o objeto?
Tratar o cinema pelo lado do sujeito (gênero dos filmes, reação da platéia, a moral da história, as inspirações pessoais) é resumir o cinema a simples produto, a simples coisa humana voltada para nosso consumo e posterior configuração identitária (filmes pra rir, filmes de terror, filmes pedantes franceses, filmes de ação explosiva...). Tratar o cinema pelo lado do objeto (técnicas de enquadramento e decupagem, escolas de montagem, tipos de roteirização, estúdios) é transformá-lo em laboratório, em uma espécime a ser dissecada e analisada por especialistas e sapientes do fazer cinematográfico, distantes da massa mortal. O estudo duma linguagem cinematográfica deve passar, pra mim, longe destes dois pólos, embora se utilize de aspectos dum e doutro, por vezes. Mas a idéia não é retratar nem os homens ("é um filme inspirador...") nem as coisas ("o filme possui travelings impecáveis..."), mas narrar o porquê de termos estes sujeitos e estes objetos e não outros, porque a platéia e a crítica especializada é assim e não assado, investindo numa produção que enriquece tanto a natureza do cinema quanto as subjetividades humanas.
No entanto, tratar das subjetividades humanas ou da natureza cinematográfica, antes desse trabalho "temporal", é danoso, insisto. Danoso no sentido de produzir indivíduos (sujeito) e especialistas (objeto) do e no cinema. Já lidar com o cinema enquanto um campo de signos, uma linguagem, uma duração e, só depois, retirar-lhe os sujeitos e seus objetos, é que enriquecerá a ambos. Retomando. O dano está na produção dum saber (todo coletivo produz um saber) que se quer desatrelado do mundo e das relações. Ele nasce de um coletivo, como todo saber, mas se arvora como a última bolacha do pacote, tentando dizer que é puro, coado, já que filtrou a humanidade das imundícies da natureza, e filtrou esta das vontades e ideias humanas.
Falar das paixões pelas quais um e outro da platéia foram arrebatados não é cinema, creio. Isso daí já é vida. É algo maior; não o infinitamente maior, mas o infinito mesmo. Um filme que arrebata alguém (muito melhor que um filme que arrebata a todos...) não é um bom filme, mas uma boa coisa. E esta discussão, ao que digo, já foge ao escopo duma discussão cinematográfica. É ética, é existencialismo, é política, é psicologia. Mas não é cinema (ao menos não por isto). Creio que falar do filme em termos de sujeito (as implicações da película em quem assiste) é ainda mais danoso que tratar das tecno-lógicas do objeto (fotografia, decupagem, montagem). Isso seria apegar-se a um (sujeito) ou outro (objeto) aspecto do cinema, dissecando-o. Falar do cinema - mas como signo ou linguagem! - é que é adentrar na própria lógica fundamentante do mesmo.
Mas repito, atento, deixo claro, digo logo. Não digo que devamos saber de todos os badulaques e penduricalhos usados na construção e gravação duma cena. Só disse que, muitas vezes, ao não fazer isto, estamos saindo do cinema. Entramos na ética, na política, na psicologia (sujeito/significado) ou na estética, no estilo, na técnica (objeto/significante). "Cinemar" seria falar dos signos e linguagens que produzem tanto esses sujeitos e sentidos quanto seus objetos e símbolos. Não prego um tecnicismo, mas apenas uma fuga do sujeito empírico. Um filme que me serve, ou que serve a um e a outro, ou que serve a todo mundo, não é um bom filme, mas - de novo! - uma boa coisa. É uma boa entidade, uma boa arma política, um bom recurso terapêutico, uma boa diversão. Mas o filme possui a sua própria linguagem, seu próprio plano de conversa, que pode passar tanto por movimentos de câmera quanto por risos, tanto por maquiagem quanto por lágrimas, tanto por figurino quanto por inspirações pessoais. O que quero dizer: falar de cinema não é falar nem de um nem de outro, mas do que dá sustança aos dois. É falar do tempo antes de trazer o movimento para a cena. Consciência cinematográfica contemporânea.
Imaginemos um saber cinematográfico arvorado na separação S-O. Temos o saber subjetivo de um filme, como o Lavoura Arcaica, por exemplo ("mudou minha vida", "me identifiquei", "é uma crítica à cultura") e o saber objetivo do mesmo ("é um filme com enquadramentos geométricos, à maneira da escola francesa..."). Essa separação S-O prejudica o coletivo porque se cria uma corja de intelectuais cineastas que dizem deter o saber sobre como fazer e falar sobre cinema, e um grupo de pessoas que, despotencializadas em sua produção cinematográfica, só podem se agrupar em coletivos identitários (curto drama, curto Tarantino, curto filmes franceses da década de 60, curto Chaplin) se quiserem viver o cinema! Elas não podem curtir o filme adequadamente ("vocês não entenderam o real significado das cenas...") nem fazerem seu próprio cinema, pensarem seu próprio cinema.
Lavoura Arcaica é um prato cheio para se discutir imagem (logo, para se discutir o mundo; as imagens do cinema revelando as imagens do mundo; crítica cinematográfica = ontologia): imagens de percepção, imagens de agonia, imagens de raciocínio, imagens de (re)ação, porém - mais especificamente - imagens de afeto. Não falo que o filme me tocou e me fez chorar e repensar meus conceitos e blá-blá-blá e coisa e tal. É um filme cult, intelectual, elitista? Talvez. Mas não desprezemos o cânone só pela sua sacralidade. Os santos - e não apenas os profanos - também merecem ser ouvidos, antes que os crucifiquemos...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Pourparler

A vida como encontro. Não o encontro dos enamorados, mas o choque de dois corpos quaisquer, corpos estranhos. Esbarrão. A vida como um, dois, dez, muitos esbarrões. E é nesse atritar dos corpos que se produz o calor e a energia da vida. Por vezes, esses choques danificam os corpos, grafando-os de memórias e juízos. Corpo cheio de rachaduras, é o corpo vivo. Corpo de todos nós. De tanto ser cindido, o corpo cansa e quer des-cansar, na esperança tola de voltar a seu estado original, pré-dano, pré-juízo. Os processos são irreversíveis, no entanto. E, assim sendo, vai ficando cada vez mais difícil de encontrar um corpo outro que aceite as suas cicatrizes. Duas alternativas, para o corpo. Ou desiste de jogar o jogo dos encontros e se entrega à imobilidade; ou se lança, mais uma vez, na imprevisibilidade dessa dança, até encontrar um corpo segundo que aceite as suas feridas, carregadas de história. Dois corpos a sangrarem em uníssono. Duas vidas, dois tempos a se enlaçarem. Mas o jogo dos encontros tem a infeliz regra de nunca acabar, de nunca se deter. Não há “pause”. Não há represa para esse rio. Conclusão: fiquemos atentos para que o barqueiro não passe sem nos levar com ele. Aqueronte, mesmo imortal, não espera os corpos para sempre…

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Nerds e a Análise Institucional (ou o porquê de meu desgosto por Shoppings Centers)

Os dois pontos de concórdia de todas as escolas do movimento instituinte: a auto-análise e a auto-gestão. Um resumo pelo Baremblitt. A modernidade produziu demasiados conhecimentos, gerando experts, os conhecedores maiores desta estrutura cognitiva e da sociedade por ela configurada. Estes intelectuais, por serem mantenedores da sociedade que os mantém, produtos-efeitos, acabam servindo às entidades dominantes. O médico, o sociólogo, o pedagogo e o psicólogo a serviço do gerente, do magnata, do empresário e do tecnocrata. Não deliberadamente, claro. Mas por arvorarem seus discursos num esquema científico, cartelizado, laboratorial, acabam por despotencializar os saberes mais diretamente ligados à vida e ao cotidiano, relegando-os à categoria de alternativos e rudimentares. Não há, seguindo a trilha, necessidades naturais. A necessidade dum coletivo é produzida. A própria noção de necessidade é produzida. E a demanda da mesma é modulada de acordo com as tendências do mercado. A moda, maioria matemática, torna-se acessório de beleza (mas não de est-ética; nota para um outro post). As comunidades, através deste condicionamento moderno, acabam perdendo a noção do que aspiram em realidade. Por que?
Com o saber espartilhado, foi espartilhado, também, todo o sistema circulatório a carregar os nutrientes sem os quais não há corpo social: a arte vai para a cavernas do extremo norte, a ciência se refugia nas montanhas do sul, a religião erige seus castelos sobre as nuvens, a política se olvida nos subterrâneos. Mas nada disto se maquina, se conecta. Corpo social estripado e cada vez mais estripado, dissecado, "factuado". Continuando a biópsia. No pacote das artes, o músico não toca para o literato que não escreve para o pintor que não quer representar o dançarino que não se apresenta para o cineasta. Nas literaturas, o romancista não publica para o poeta que não compõe para o blogueiro que não posta para o filósofo que não teoriza sobre o historiografista. Na poesia, o modernista ri do parnasiano que despreza o romântico que não entende o concretista que só lê suas próprias artistagens. Matrioshkas. Cada um dos experts da modernidade é responsável por uma bonequinha e, quanto menor ela for, mais especialista é o sujeito do conhecimento. Piada velha: o verdadeiro sábio, numa sociedade segmentada e centralista, é o que sabe tudo de, absolutamente, nada!
É o médico que identifica a patologia e a normaliza, não o coletivo (antes dele, estávamos lançados à sorte, aos anti-corpos e às superstições); é o psicólogo que identifica os inaptos ao convívio social, não o coletivo (antes dele, convivíamos sem saber entre os vagabundos, esquizóides e desviantes afins); é o pedagogo que nos conduz à epísteme, não o coletivo (antes dele, não sabíamos nem "o que" aprender, que dirá "como"). É o advogado que conhece todos os mecanismos adequados para bem proceder "dentro" (antes dele, estávamos "fora", totalmente away à civilidade) do coletivo, e não o próprio coletivo. Todos estes sustentam a sua prática num saber acima dos homens - A Medicina, A Psicologia, A Educação, O Direito - assim como um navio que lança suas âncoras nas nuvens, e não na Terra. Em nome de Deus Pai! Para justificar relações de poder estratificadas (sempre há poder, controle e influência, da menor das células ao maior dos principados, do átomo à galáxia, residindo o problema apenas em sua estratificação permanente; nota para um segundo post futuro) invocamos alguém de fora da ciranda - o pai de alguém, geralmente - que irá valorar todo discurso e prática de alguns (só alguns) especiais. "Não fui eu, mas Ele quem disse".
Um retorno à Análise Institucional, agora. O objetivo dum analista desta natureza, grosso modo, não é o de levar um saber excelso para os infelizes e pobres de espírito, mas desencadear processos de auto-análise num coletivo em específico - uma empresa, um hospital, uma sala de aula - para que o próprio coletivo crie os dispositivos necessários a seu funcionamento. A este maquinismo imanente, e não transcendente ("mamãe mandou eu escolher este daqui"...) chamamos de auto-gestão ("mas como eu sou teimoso"...). Não a análise do expert que irá nos gerir, mas um processo de criação do novo pelos membros dum coletivo para o direcionamento de suas próprias articulações. Também não é a tomada de consciência marxista, mas a criação mesma de subjetividades outras, de novas mentalidades e agenciamentos do coletivo. A Análise Institucional não é uma profissão, mas uma atitude de todo e qualquer profissional frente às proposições e paradigmas que se lhe afiguram. O psicólogo e o médico, mas também o guarda e a atendente; a professora e a diretora, mas também o porteiro e a merendeira.
De um ponto de visão central e cheio dos estratos, o nerd clássico é um esquisitão, desleixado com as aparências, impopular com as garotas, possuidor de hobbies obscuros e, claro, sempre acompanhado por um e outro amigo, igualmente esquisitão. Ele não tem o seu lugar numa sociedade dos estratos. Anti-social!? Talvez. Fora do social não quer dizer excluído dos coletivos, entretanto. É o contrário, neste caso. O nerd, de todas as figurinhas escolares - o capitão do time de futebol, a líder de torcida, o representante da turma - é o mais bem articulado com seus próprios coletivos, é o que construiu planos de consistência fora dos aparelhos de Estado. O nerd que se interessa por computadores acaba comprando revistas especializadas, visita palestras sobre engenharia de software, compra livros sobre inteligência artificial, entra em contato com acadêmicos, faz amizade com mercadores de sucata, arruma dinheiros consertando os aparelhos da vizinhança e, como sombra de todo este corpo ao sol, acaba por tirar notas excepcionais em Matemática. O nerd RPGista arruma materiais sobre narratividade e interpretação, estuda sistemas representativos de personagens, visita museus para adentrar melhor noutras culturas, tenta montar grupos de jogo com desconhecidos, passa os momentos livres viajando em leituras, começa a redigir seus devaneios em contos, aprende diversos idiomas e, como consequência, é o melhor aluno de História e Literatura do colégio. O nerd quadrinista desenvolve um senso aguçadíssimo de organização ao catalogar todos os seus comic books, passa a acompanhar os últimos movimentos políticos por causa dum comentário do herói, faz uma pesquisa sobre termodinâmica para entender os superpoderes do vilão, tem contatos em livrarias e bibliotecas dentro e fora da cidade, desenha como ninguém, sabe explicar a relatividade restrita melhor que os seus professores colegiais e, como efeito, é o contraditório aluno com os melhores comentários nas aulas de Artes e Física.
As três figuras apresentadas seriam rotuladas, muito tranquilamente, como nerds pelas figuras centrais do representante, do quarterback e da cheerleader. No entanto, os três não se atravessam, necessariamente. Há a mesa dos estudiosos representantes de classe, há a mesa dos populares zagueiros do time de futebol e há a mesa das voluptuosas líderes de torcida. Não existe, por princípio, uma mesa dos nerds. Os três podem não estar sentados juntos, podem não se articular. Podem, cada um, ocupar a sua mesa solitária. Ou podem - espiões do cotidiano - se imiscuir em outras mesas, escondendo os seus obscuros segredos. O nerd-dos-computadores pode ser representante da turma 3A, o nerd-do-RPG pode ser o Offensive Guard do time da escola e o nerd-dos-quadrinhos pode ser o namorado intelectual de uma das meninas da torcida. O nerd não é, nunca, parte de um grupo de nerds. Não há o grupo nerd! Geeks, gamers, otakus e outras subdivisões são o nerd já capturado pelo esquema das mesas. É o marginal com um crachá, o delirante já medicado com a tarja preta. Ser nerd é encadear proposições que não as faladas pelas figuras centrais. É ser, por vezes, solitário, mas nunca está só em seu coletivo articulado e consistente. Às vezes se senta com outros nerds, às vezes se senta com as figuras centrais e, às vezes, se senta sozinho. Não importa. O que o define é o mundo marginal que o mesmo criou fora dos dispositivos dominantes, ainda que os adentre vez e outra.
O nerd clássico é, em si mesmo, a realização dum coletivo. O analista institucional adentra em coletivos já configurados, querendo levar-lhes a auto-análise e a auto-gestão. O nerd assume uma função semelhante: percebe-se como parte dum coletivo de inteligências embotadas, afetos anestesiados e respostas automáticas mas, ao contrário do institucionalista, não pretende fazer irromper as forças instituintes dali mas, sim, cair fora daquele ar denso e sufocante que lhe pesa os pulmões e voar noutros ares. O nerd é um devir, um informe, uma razão nômade, uma paixão sem objeto, uma atenção flutuante. É Platão que sai da caverna mas que esquece de retornar. Ilha deserta que não se comunica com os fluxos do continente. Saída válida. O nerd, no entanto, pode perigar e deixar de ser clássico, de ser grego, e desenvolver uma agorafobia típica dos modernos. Do nerd clássico caímos no nerd moderno. O sujeito-dos-coletivos vira o menino-dos-blogs. O elfo construtor e afirmador da diferença vira troll preconceituoso. Enquanto as figuras centrais navegam planejadamente nas redes sociotécnicas - virtuais, atuais, reais ou potenciais - e o nerd clássico deriva nas mesmas - deambulância nômade e inventiva - o nerd moderno, capturado pelos estratos, só sabe boiar. Nem estabelece relações centrais com os poderosos nem se articula com a resistência contra-conducente. É a marginalidade capturada e já executada.
É o nerd dos memes, dos sites de piadas prontas, dos vídeos virais, dos fóruns de discussão depreciativa. É Trollface, é Fuu rage, é Forever Alone. Este último, inclusive, é a síntese do nerd moderno. Enquanto o nerd clássico corre de lá para cá - mesmo sem se deslocar - atrás de conexões com fulanos e cicranos, puro movimento, o nerd moderno busca o conforto de sua poltrona e o alternar das realidades com um simples Alt+Tab, um Shift+Delete, um Ctrl+C/Ctrl+V. O homem dormente de Matrix e a humanidade imóvel de Wall-E são a máxima realização do nerd moderno ou mesmo do homem da modernidade. É estar imobilizado, em seu próprio canto, sem precisar mover um dedo sequer para resolver as problemáticas do real, já que delegou toda a responsabilidade pela sua alma aos muitíssimos experts da ciência, da arte, da política e da religião, cada um dono por direito divino de um pedacinho do mundo.
Chego, finalmente, onde queria chegar. E pergunto. Que é um Shopping Center? É o mundo inteiro concentrado num único espaço, respondo. Todos os estratos do universo dispostos para o nosso consumo. Conforto dos confortos. É o mundo, repito. Mundo, este, mais potencial que atual, percebam. É um mundo de espaço e tempo suspensos - mundo fora do mundo - no qual mais importa o nosso vislumbre frente a todas as possibilidades de ação disponíveis que a aquisição mesma dos produtos. Ademais, mesmo que consigamos levar um e outro objeto do nosso desejo para casa, não há relacionamento para além das lógicas do mercado. Todas as tribos a desfilarem suas modas pelos corredores dos Shoppings não são uma afirmação da diferença do mundo, mas a multiplicação de suas identidades. Não há afet-ação, não há outro, mas há sempre Um. Vários uns, encapsulados e insensíveis à diferença do outro. In-diferente é o Shopping Center aos devires de fora, às minorias, ao nerdismo clássico.
Vou ao cinema, a uma loja de instrumentos e a um restaurante, todos dentro da mesma nave espacial. O que eu, nerd moderno, ganhei: um filme, um violão novo e um estômago cheio. O que eu, nerd clássico, sempre posto na "linha fora", fora do centro, fora do Shopping Center, ganharia: conseguiria algumas cópias de filmes daquele mesmo diretor com o projetista, amigo seu, para conhecer melhor essa tal de Nouvelle Vague; pegaria dicas com o luthier de como lustrar o violão, lixar o cavalete e afinar sem a necessidade dum diapasão, além de tomar emprestado algumas partituras do Renascimento, tão difíceis de encontrar na net; iria até a cozinha aprender a receita com a Dona do fogão, beberia com o garçom e chamaria o dono do restaurante para ir a sua casa, provar sua moussé de cappuccino. O nerd moderno é o herói da resistência capturado pelos aparelhos de Estado. É o Capitão América! Claro. O Shopping Center não é mau, assim como não são maus - por si mesmos - o saber médico, os sistemas psicológicos e os códigos penais. São as subjetividades produzidas por estes modos e seus dispositivos que aqui condeno. Subjetividades sem sistema circulatório, anêmicas, buracos negros nascidos para o consumo das coisas do mundo. Nota: eu pratico shopping window, eu visito sites de humor e eu utilizo da medicina, da psicologia e do direito quando necessitado. Não sou um ermitão da montanha, um Buda do Himalaia ou um santo cristão. O problema: ser capturado por estas lógicas e não saber dizer "sim" ou "não" à técnica quando se deve (Heidegger?...), é ser carregado no colo, levado pelo braço, não aprender a caminhar e nem se tocar do ocorrido. É isso e só isso. E tudo isso. Enfim...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mulheres de Atenas

Pois é, caros. Numa terça-feira que já passou, datada em 8 deste mês, se deu o Dia Internacional da Mulher, com iniciais maiúsculas e tudo o mais. Se é motivo para festejar, eu não sei. Não creio nisto. Mas assim que acordei, uma das mulheres de minha vida disparou: "Hoje é D.I.M.!" Não soube o que dizer ou fazer, ficando encabulado com minha falta de tato. Eu deveria ter lembrado, certo? Disto, também não sei. Nunca senti a necessidade de demarcar uma coordenada temporal para minhas mulheres. Sempre achei, caindo no clichê pop-rock, que todo dia podia ser dia de algo, de alguém, de alguma coisa ou de coisa alguma. Dia da Mulher, pois! Penso, então. Os outros dias não o são? Caso não, de quem o são? Do homem!? Sim, ao que parece, visto ser a única peça que falta no mosaico. Os dias todos são do homem, são coisa do homem, do homem-varão, do Hermes. E não há nada mais masculino que a criação dum dia para a mulher, intuo num raciocínio ligeiro. Deixo a idéia de molho.
Saindo do pensatório cotidiano, resolvo fazer uma rápida pesquisa sobre o que, afinal, se deu no 8 de março para que tal dia passasse a representar o feminino. A história. Em 08/03/1857, tecelãs nova-iorquinas ocuparam a Cotton, fábrica de tecidos na qual trabalhavam, para resistir às condições trabalhistas que regiam a produção de então. Devir-mulher a agenciar um mundo que ainda não tem o seu lugar. Utopia. A manifestação, violentamente reprimida, causou a morte de 129 mulheres que, trancafiadas na fábrica, acabaram carbonizadas pelo ataque incendiário da polícia local. Assusto-me. Continuando a pesquisa, ademais, descubro que só em 1975 - 35 anos atrás; 118 anos depois do acontecido! - a ONU resolve oficializar a data, visando sempre reavivar o espírito daquelas mulheres que, ardentes de fogo e de revolução, queriam problematizar a sua posição no mundo.
As mulheres de Nova York não se parecem muito com as suas congêneres gregas. Chico, o bento, dizia: Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas... Vivem pros seus maridos... Sofrem pros seus maridos... Despem-se pros maridos... Geram pros seus maridos... Temem por seus maridos... Secam por seus maridos. Muitos interpretam - e interpretar é coisa dos homens, dos sacerdotes de Hermes - que a canção destila ironia. Outros, numa hermenêutica ainda mais profunda (o homem profundo é a falsa mulher, é o falso sensível), falam que o estoicismo da ateniense é uma metáfora para a resignação do brasileiro frente à ditadura (blá-blá-blá-e-coisa-e-tal). O estudioso, o intérprete, o homem coloca essas duas possibilidades. Ou isto ou aquilo. Pode, ainda, ser aquele terceiro que esquecemos de considerar. Tanto faz. Mas o que diria a mulher, a ateniense, a esposa de sua própria situação!?
Nada. Pois a fala se dá na praça, sempre na praça, sempre entre outras falas, e a mulher de Atenas não sai de sua casa. Vida privada, privada do espaço público dos homens. Será? Idiota era o homem que permanecia em casa, com as mulheres, e não assumia o seu papel na assembléia, junto dos outros barbados. Mas a mulher, ela mesma, não era idiota. A mulher "suportava" o homem, dava suporte a seu homem e lhe criava as condições para que ele pudesse estar nos aerópagos. A mulher é o essencial invisível aos olhos. É o ser. Enquanto os falantes estavam lá fora no jogo da política e da ética, as mulheres - do lado de dentro - cuidavam dos pequenos, dos futuros varões a ocupar a praça do porvir; cuidavam da casa para acolher as línguas cansadas ao final do dia; cuidavam do seu homem a todo o momento de sua existência, enfim. Sorge heideggeriano. Era assim que participavam da cidadania grega. Não aos modos de suas colegas romanas, filósofas dos bastidores, a titeritar e manipular imperadores, mas com o silêncio e a imobilidade.
Não se trata de resignação. Helena não é Amélia! Há silêncio pois a mulher é indizível. Há imobilidade pois a mulher é o puro inefável. A língua divina é língua silente, inaudível aos ouvidos humanos. Hermes, então, traduz os ditos para que céu e terra se encontrem e se comuniquem. Hermes é deus-tradutor, deus-falador, deus-esmiuçador, mensageiro de seus irmãos divinos para os homens ao sopé do Olimpo. Socrátes muito deve suas habilidades de forja e escultura a Sofronisco, o senhor seu pai. Mas não existiria filosofia se não fosse Fenarete, sua mãe parteira. Chronos, deus-pai, precisa de Gaia, deusa-mãe, para que tudo corra nos conformes. Adão, homem-terra, precisa de Eva, mulher-semente, para arborescer. O próprio Todo Poderoso, para a realização de sua maior epifania, fez-se carne e submeteu-se a uma jovem menina que o suportou.
Pensadores de todos os tempos tentaram representar essa dualidade do real. Idealistas e materialistas, patrísticos e escolásticos, racionalistas e empiristas, dialéticos e positivistas, espiritualistas e fisiologistas, pós-modernos e experimentalistas. Problema mais mal colocado, este. Separa-se, desde sempre, o corpo de seu espírito e montam-se trincheiras para organizar os exércitos que defenderão um ou outro dos lados. Matéria visível e seu fantasma translúcido. Homem e mulher. Anér e Gyné. Spinoza fala que Deus é a alma do universo, sendo o mundo seu corpo. Deus que é corpo palpável e alma intangível. É tudo e todos. O homem é unidade, é matéria, é ser vivo, é a soma de todos os corpos reais e, mesmo, possíveis. Hermes. A mulher é o heterogêneo, é espírito, é a vida mesma, é o elã a atravessar todos os elementos e lhes dar uma evolução comum, um plano comum, um mesmo conjunto. Afrodite. Terrível. Bela. Amante. Mãe. Deusa. Incompreensível.
Dizer que Chico Buarque vende menos discos que o Luan Santana pelo fato deste possuir CD´s mais baratos é uma interpretação. Dizer que a noção skinneriana de comportamento operante é uma crítica mais bem colocada ao behaviorismo metodológico do que as estruturas merleau-pontyanas por estas serem menos famosas que aquelas é uma interpretação. Dizer que a educação das crianças parisienses é mais adequada ao gênero humano que os rituais de passagem dos Cherokee devido ao resultado dos francesinhos na Escala de Binet-Simon ser maior que o dos little indians é uma interpretação. Afrodite, porém, não interpreta. Ela manda a Psiqué aos infernos, lá onde Hermes não chega! Ao invés de preços, começa a falar de fomento à cultura, investimento libidinal midiático e ditadura militar. No lugar de argumentos mal ou bem elencados, diz de políticas departamentais nas academias. Em vez de buscar respostas nos testes psicológicos, fala de transculturalidade e antropologia simétrica. Hermes busca espaços seguros para pousar e fixar suas raízes. Afrodite temporaliza. Hermes quer categorizar. Afrodite diferencia. Hermes procura as soluções. Afrodite problematiza. Instituído e Instituinte? Nesta política da contrariedade ambos se igualam, tornam-se Instituição. Deus é Elemento do Mundo e Alma do Universo, é Hermes e Afrodite. Hermafrodita. Andrógino. Ser Integral. Corpo sem órgãos. O homem examina as peças, delineia os funcionamentos e esquadrinha os procedimentos. A mulher joga a questão para fora, articula as partes e produz o novo. Todos os dias - 1, 2, 3, 28, 31 - são do homem. O 8 de Março é da Mulher? Não. Esta não pode ter dia, hora, minuto, segundo que seja seu. Por mais que estrangulemos o tempo em intervalos menores e menores não encontraremos o invisível da mulher. Ela é o fluir. É o "entre", entre um e outro.
O 8 de Março é a mulher feita homem. É "O Feminino". Mulher hermética, fechada, que perdeu seu perfume afrodisíaco. A mulher entrou no mercado de trabalho. A mulher ganhou o direito do voto. A mulher tornou-se livre pensadora. Mentira. A mulher, aí, fez-se homem e tornou-se coisa visível. "O Feminino", repito feito professora maternal. A economia, a política e o pensamento não se tornaram mais silenciosos com isto. Ao contrário, ganharam mais corpos. Mais elementos a serem analisados e interpretados. O homem ganha e fortalece seu poderio. Mas a mulher, memória solar cada vez mais esquecida, continua a existir para além da luz de neón dos muitos planetóides hominais. O homem é ponto material. Sistema solar, no máximo. Mulher!? É Sol, calor, paixão. Homem é boca, mulher é o beijo dos enamorados; homem é olho, mulher é a visão da aurora; homem é nariz, mulher é o perfume de pintanga dela e o pós-barba dele; homem é face, rosto, identidade, mulher é falsidade, rostidade, afecção pura. É teia de aranha, é rede virtual, é conexão, é cyborg, é máquina desejante, é híbrido, é bricolagem, é a vida do vivo, é o movimento da bala de revólver, é a alma de Frankenstein, é a surdez de Beethoven, é a impressão nas molduras de Monet, é a expressão nas películas de Murnau. Homem é homem. E nada mais...

quinta-feira, 3 de março de 2011

Blocos de duração

A Empire, uma revista britânica de cinema, listou - em junho do ano passado - o que considera ser os 100 melhores filmes do cinema mundial. Britânicos e estadunidenses não entraram na lista. Au concours? Não creio. De qualquer maneira, fico feliz ao perceber que conheço - de vista ou de lida - mais da metade dos listados. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre Jeunet, França, 2000). A Liberdade é Azul (Krzysztof Kieslowski, Polônia, 1993). Akira (Katsuhiro Otomo, 1988, Japão, 1988). Asas do Desejo (Wim Wenders, Alemanha, 1987). Um Cão Andaluz (Luis Buñuel, Espanha, 1929). Solaris (Andrei Tarkovski, Rússia, 1972). Persona (Ingmar Bergman, Suécia, 1966). Acossado (Jean-Luc Godard, França, 1960). A Viagem de Chihiro (Hayao Miyazaki, Japão, 2001). Guardiões da Noite (Timur Bekmambetov, Rússia, 2004). A Regra do Jogo (Jean Renoir, França, 1939). Central do Brasil (Walter Salles, Brasil, 1998). Jules e Jim (François Truffaut, França, 1962). Os Idiotas (Lars Von Trier, Dinamarca, 1998). O Clã das Adagas Voadoras (Zhang Yimou, China, 2004). Persépolis (Vincent Paronnaud & Marjane Satrapi, Irã, 2007). O Vôo do Dragão (Bruce Lee, Hong Kong, 1972). Adeus, Lenin! (Wolfgang Becker, 2003, Alemanha). Oldboy (Park Chan-wook, Coreia do Sul, 2003). Nosferatu (F.W. Murnau, Alemanha, 1922). Os Sete Samurais (Akira Kurosawa, Japão, 1954).
A enciclopédia musical da Editora Moderna dedica a sua terceira parte a fazer uma historiografia da música brasileira. Começa com as influências lusitanas e africanas do Brasil colônia; passa pelos eruditos e modinheiros do império; chega ao final dos mil-e-oitocentos falando de choro e maxixe; adentra no nacionalismo brasileiro; passeia pelo modernismo; discorre sobre as vanguardas; prosa sobre a era do rádio; diz do surgimento do samba e de suas escolas; visita o baião, o coco e o forró nordestinos; põe um pé no fandango do sul e o outro no cururu do norte; destaca a música instrumental de caráter elitizado; ginga na bossa nova; divulga a era da TV e seus festivais; defende o tropicalismo; lista os grandes compositores e intérpretes ainda viventes; experimenta a vanguarda paulistana; detona no rock pós-80; e termina, engraçadamente, com um capítulo dedicado aos estilos populares - axé, pagode, rap, samba-reggae, hip-hop, funk - e outro, logo seguinte, apresentando o que há para ver e ouvir na música erudita contemporânea. Que festa! Carlos Gomes, Domingos Barbosa, Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Pixinguinha, Alberto Nepomuceno, Camargo Guarnieri, Radamés Gnattali, Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Mario Reis, Orlando Silva, Emilinha Borba, Cauby Peixoto, Carmen Miranda, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Adoniram Barbosa, Paulinho da Viola, Cartola, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Garoto, Dilermando Reis, Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Raphael Rabello, João Gilberto, Tom Jobim, Baden Powell, Roberto e Erasmo, Os Incríveis, Renato e seus Blue Caps, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, João Bosco, Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Ná Ozzeti, Arrigo Barnabé, Raul Seixas, Lulu Santos, Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo, Marcelo D2, Nelson Freire, Turíbio Santos, Bidu Sayão.
A revista Superinteressante, numa edição especial publicada em Abril de 2005, anuncia os 101 livros que mudaram a humanidade, dispondo-os numa linha temporal. Diz o nome original da obra, a sua nacionalidade, a área do saber na qual o livro se encaixa. As três principais informações, no entanto: do que trata o livro, quem o escreveu e, finalmente, porque o encadernado mudou o mundo. A Bíblia. Os tratados hipocráticos. A República. Confissões. O Corão. O Livro das Mil e uma Noites. A Divina Comédia. O Príncipe. Os escritos de Giordano Bruno acerca do infinito, do universo e dos mundos. Hamlet. Discurso sobre o Método. Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Tratado da Natureza Humana. A Enciclopédia, idealizada por Diderot e D´Alembert. Os Sofrimentos do Jovem Wherter. Crítica da Razão Pura. Ensaio sobre o Princípio da População. Manifesto Comunista. Madame Bovary. A Origem das Espécies. Assim falou Zaratustra. A Interpretação dos Sonhos. O Processo. Ser e Tempo. O Ser e o Nada. 1984. O Livro Vermelho. Simulacros e Simulação. Estante mais heterodoxa, esta.
Diferenças é o que não faltam nas listas acima listadas. Cinema, música brasileira e literatura. Que um pouco de fotografia nos ajude a imaginar - tornar imagem - nossos pensamentos. Vamos ao cinema, de início.

Cena clássica de Um Cão Andaluz, filme surrealista de 1928, escrito e dirigido por Luís Buñuel e Salvador Dalí.


Akira, um anime cyberpunk de 1988 baseado no mangá homônimo de Katsuhiro Otomo, e dirigido pelo mesmo.


Juliette Binoche em A Liberdade é Azul, filme de drama dirigido pelo polonês Kieslowski, em 1993.



O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, comédia francesa de 2001 do diretor Jean-Pierre Jeunet.


Penso eu que o surrealismo de Buñuel, as referências à cibercultura de Akira, o drama profundo de Kieslowski e o riso contido da menina Poulain pouco tem de ver uns com os outros. O que têm em comum: são filmes, todos. E o que é um filme? Qual a essência comum que os mantém reunidos nesta categoria una? Digo-lhes: nada. Simples e puramente. Temos decupagem e enquadramento, trilha sonora e roteiro, personagens e cenários. O que cada um destes filmes entende por cada uma destas coisas difere tão gritantemente dos demais que só com muita ignorância e mouquice de nossa parte podemos dizer que se tratam de uma mesma coisa, que se tratam de "filmes". Se todos nos apresentam 24 fotogramas por segundo, o modo como montam, agenciam e enunciam tais imagens é díspare. Cada filme monta uma experiência diferente, configura uma noética muito particular e organiza um mundo de coisas assim e não assadas. A mulher que tem seu olho cortado por Buñuel seria parte de um experimento na Neo-Tókyo de Akira. A viúva Julie não seria tão sorumbática caso vivesse na França de Jeunet. Kaneda não teria propósitos tão bem definidos no mundo onírico de Um Cão Andaluz. E a radiante Amélie não poderia co-existir com o mundo monocromático de Kieslowsli. Cada personagem, objeto, ator, jogo de câmera, plano de fundo é idêntico a seu mundo. Alocá-lo para um mundo outro causaria a entropia da parte recém-chegada, do ambiente a recebê-la ou de ambos. Choque de universos, de cosmos, de mundus.
Podemos dizer o mesmo da música e da literatura. O que faria Paulinho da Viola na orquestra de Carlos Gomes? Como soaria o piano de Ernesto Nazareth junto dos sintetizadores do Marcelo D2? E se pudéssemos ouvir a Ivete Sangalo cantando Chico Buarque junto da Bidu Sayão? O inimaginável, imagem impossível. Mundos que não se colam. Impossibilidade que não implica impotência, não obstante. Não se colam, mas podem se bricolar. O virtual entra em campo. Jesus se inspiraria lendo o Manifesto do Partido Comunista? Como viveria o príncipe maquiavélico na politéia platônica? O que faria Kant para consolar as angústias de Werther? Como Freud interpretaria os sonhos de Josef K. e Gregor Sansa? O que é uma música? E um livro? A resposta, mutatis mutandis, é a mesmíssima do parágrafo anterior.
As músicas linkadas ao texto nada tem de ver umas com as outras. Os livros apontados ativam realidades distintas. A parte não é pedaço constituinte de uma estrutura maior, mas é uma visão parcial do todo. É o todo coagulado num único ponto. O Tao Te Ching, Crepúsculo e Memórias do Subsolo são livros. Papel de celulose ou fibra de carneiro, impressão digital ou escrito à punho, livro religioso ou comercial. Todos os livros têm em comum algo a ser exposto (palavras, imagens, fotografias...) e uma tecnologia que lhes dê suporte (brochura, papiro, códex...). Livros, músicas, filmes ou qualquer outra coisa, são todos blocos de espaço-tempo. Blocos de um espaço contrátil, dilatante, dobrável, e de um tempo que escorre, nunca cessa e dura. Blocos, estes, que nunca param de se chocar, alterando-se mutuamente. Kant, não sabendo como proceder com o deprimido Werther poderia, ele mesmo, entrar em desespero. O príncipe de Maquiavel planejaria um golpe de estado na aristocracia filosófica da república de Platão. Hamlet, depois de ler Heidegger e Sartre, percebe que seu problema "Ser ou Não-Ser" deve ser recolocado.
A existência não é um mundo, mas a energia resultante do atrito entre muitos e muitos universos. Uno e verso. É uma orientação - nunca finalizável, deveras - da matéria buscar alguma ordem. Vai se juntando, juntando, juntando. Partículas, blocos, planos inteiros. O mundo tende a ignorar o fora, entretanto. Considera-o como não-eu. E o joga fora. Dom Quixote é impedido de receber as visitas do Dr. Freud, os anjos de Wim Wenders tem o seu passaporte negado para a China d´O Clã das Adagas Voadoras, Michel Poiccard - o Acossado - só é pego no final pois não conseguiu passagem para o Irã de Persépolis, não tinha amigos no Japão d´Os Sete Samurais e não conseguiu fretar um ônibus na Central do Brasil. Akira, um filme, se assemelha muito mais à música de Vangelis e aos livros de William Gibson do que a outros filmes. Compartilham temporalidades, compartilham planos. Mas os planos, dificilmente, deixam blocos que lhe são alheios adentrarem seus domínios. Adentram de contrabando, sempre! Sorrateiros e furtivos, os estrangeiros chegam pela porta dos fundos - fingindo ser de casa - e fixam sua morada. Contam histórias de uma terra natal que não aquela. O mundo invadido, porém, nunca mais será o mesmo. Nem o bloco, pobre coitado. É Zeca Pagodinho tocando com o Villa-Lobos. É a Legião Urbana invadindo uma gravação do Orlando Silva. É Arrigo Barnabé tocando à quatro mãos com Radamés Gnattali. É um tempo que se dobra, um rio que sobe a ribanceira, um pássaro que voa de ré. Sem saber, muito bem, aonde esses casórios inesperados podem dar. É a vida...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Melancolia


Fala o grego: μελαγχολία. A tristeza de Chronos, o suor de Apolo, o cansaço de Hefesto, o peso de Átlas. Bílis negra, diria o estagirita. Nem Dionísio consegue mais gargalhar. Mostra os dentes, esse cavalo vendido. Fala o grego: μελαγχολία. Mais uma palavra a enumerar o meu vocabulário vasto; vastidão, essa, tristemente solitária. Árida, tal qual a areia melindrosa sob as carruagens do sol. Pior que atravessar o deserto é nele encontrar um ou dois oásis e não ter com quem os partilhar. Veja, veja, meu nobre colega! Enxergo lagos cristalinos de água e de vida a escorrer por aquela direção! Toma a minha mão e me segue. Não, me puxa! Não sei se tenho mais forças. Está tomado pelo cansado, também? Puxemos um ao outro, então. Não, não, não é uma miragem! Acredita em mim, acredita no meu delírio. Fica, por favor. Foi-se embora. Céus! Perco a terra mas, avoado que sou, nem ligo. O fogo crepita, ardente paixão, e me consome em febre. Tenho água, mas ninguém para bebê-la, comigo. Bebo só. Puxo as minhas cordas e toco algumas notas de silêncio. Cadê a platéia? A orquestra? O ouvido, atento e amigo, a capturar minhas composições mais frescas? Com-posição. Estar-com. Hermenêutica existencial. Valei-me! O sol sibila, assobia e sai de cena. Cadê a dor? O ardor? Foi-se embora!? Corro atrás do calor, antes que anoiteça de vez, e busco o fim do horizonte. O ponto final da reta. Percorro o infinito de Zenão e de Euclides, mas nada do Sol. Solitude. Sento e choro mas, desidratado, nada mais escorre. Meus olhos sumiram! Nem notei, pois. Não tinha nada para ver, ademais. Caio numa depressão - malditas dunas! - mas logo me levanto. Limpo-me da areia. Tropeço de boca - de novo!? - e me sinto envolto pelo frio. Frescor. Frescor!? É água! Espumante, gelada, saborosa. Cuspo-lhe. Sal demais. Mas volto a enxergar. Cheguei ao fim do horizonte: é a orla, a borda, a fronteira. É água e areia, céu e terra, é o grau-zero da escrita e o infinito da duração. Procuro um perdido para lhe contar minhas muitas histórias do deserto. Encontro um outro estirado ao chão, sendo banhado pelo lá e cá do branco oceânico. Mas ele nem se mexe. Estaria morto pelo deserto? Desistiu da caminhada!? Cutuco o corpo. Imóvel. Mas ainda respira. É pior do que eu pensava, então. Escolheu dormir. Dou-lhe a volta e continuo a caminhar. Coleciono as conchas do caminho e faço uma trilha com a palma dos meus pés. O marzão as apaga. E me trás conchas novas para a minha coleção. Penso em voltar e refazer os meus passos, que nem o obsessivo a checar suas portas trancadas. Escolho seguir adiante, porém. Viro-me, bruscamente, e me choco em algo, um algo forte o suficiente para me derrubar uma terceira vez. Não sei se fala meus dialetos, mas não consigo parar de lhe fitar seus olhos. Brilhosos, eles são. Olho para mim mesmo com os seus olhos e me espanto com a beleza do prosaico. O avermelhadamente lindo do céu crepuscular, o gostosamente frio das ondas e suas escumas, o vento morno que furtivamente me toma o ar. O crônico solta seus agudos. O tempo vira espaço. Já posso fixar morada. A minha busca por beleza acabou. Já encontrei um outro. Um tu. Você. Seus olhos. Paro por aqui. Nada do que possa dizer brilha mais que tuas retinas. Mel que escorre feito as águas do deserto. Puro mel, puro doce, puro outro. Sim, é aqui que resolvo parar. Tenho histórias do deserto para lhe contar, mas não agora. Conta-me uma história doce, me faz esquecer de mim mesmo, arranca-me os olhos e põe tua visão no lugar. Chronos dá lugar ao Kairós, Apolo corre atrás de Dafne e Hefesto resolve tirar um cochilo. Dionísio não gargalha. Mas sorri...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O mal que não é amor

Curioso é pensar o psicopata como um afetado. Um afetado da cabeça, das idéias ou da mente, que seja. A nosologia - fisiológica, psicanalítica, cognitivista - enumera os seus caracteres: emoções superficiais, teatralidade, sedução, remorso ausente, intolerância a frustrações. O psicopata é um transtornado, um antissocial que - devido a desvios cerebrais, traumas na infância ou esquemas mentais inadequados - pode por em risco a boa vida de seus bons convivas. Certo. Mas não esqueçamos de pontuar o seu principal aspecto, aquele que o define em sua essência mesma. Quer o chamemos de Egoísmo, Narcisismo, Egocentrismo ou tantas outras nomenclaturas, todas elas falam do mesmo: o psicopata se ama por demais!
No final é o amor que vence, percebam. O final sempre é feliz, justo e ordenado, mesmo quando a mocinha morre no final ou mesmo que o casal predestinado não consiga ficar junto. Griffith entenderia. A vitória eterna do amor - quer queiramos, quer não; quer enxerguemos, quer não - diz, em implícito, de um circuito liberalista, burguês e capital, no qual os melhores são selecionados, os mais aptos sobrevivem e o mais sublime dos caminhos é o escolhido para dar continuidade a nossa História. O psicopata delira mundos e fundos de mentiras, ignora lágrimas e risadelas de outrem e pode agredir, machucar, matar o seu próximo por motivações que pouco nos convenceriam a fazer o mesmo. "Mas por que?", pergunta o espírito moderno e científico do século XIX, um século que - mais do que nunca - insiste em durar.
Tá! Não é de psicopatia, capitalismo ou ciência que quero tratar, necessariamente. Façamos um plot, com isto. O mal do mundo não vem de sujeitos de ego grande que acabam prejudicando o outro, no processo de se amarem por demais. Respostazinha confortável. Não é o pathos, o grande problema. Mas a apatia, sua irmã preguiçosa, sedutora e adolescente. Dizem os desenvolvimentistas que a adolescência é etapa de crises. Mentira. A vida, ela mesma, é pura crise, marulho incessante do qual nenhum de nós pode fugir. Somos cindidos a todo momento, das nossas primeiras mitoses embrionárias ao funesto e derradeiro momento no qual perdemos os numinosos 21 gramas. O adolescente é um intermédio, um entre-dois, um médio-único, como diria um amigo. É um ponto imóvel entre dois movimentos. Ele passa por crises, verdade, mas a criança malina, o adulto chato e o velho senil também têm os seus dias de inventividade e rupturas. Todos diferem de si mesmos a todo momento. O Adolescer só faz sentido para o patrão burguês que olha para o seu guri, não mais um infanto dividoso mas ainda inapto a tomar o seu lugar nos negócios da família. Okay.
Já que começamos a adentrar no pântano da psicologia - um atalho, somente um atalho - convido os senhores a chafurdar um pouco mais nessa lama pouco fértil. Dizem que o lótus nasce do lodo, não é verdade!? Pois bem: Freud. O aparelho da alma freudiano tem algo de interessante para a nossa discussão. Ao construir um sistema psicológico baseado num fluxo e refluxo libidinal, à maneira dum encanamento, o Sigmund nos faz pensar que o desejo é que move o mundo e nos move sobre ele. É o amor a força motriz a nos servir de elã. Seu oposto, entretanto, não é o ódio. Não irei discutir, aqui, pulsões de morte e as diferenças entre as tópicas psicanalíticas. Não sou apto a discorrer sobre tais, nem quero fazê-lo no momento. Além disto, o atalho já está se tornando mais longo que o caminho das retas. Anti-euclidiano deve ser o atalho. Bonito, isso. Certo, certo, pousando. O inverso do amor - o cimento de nossa cultura e de nossas relações - não é a fúria destrutiva, a entropia dos sistemas, o demolir das arquiteturas. A vida se opõe a morte. O movimento, ao repouso. O amor não se opõe ao ódio, mas sim à indiferença. E é essa indiferença que parasita os devires do mundo e lhe retira sua potência criadora.
Do átomo à via de leite, tudo é vida, movimento e diferença. Tudo é amor. E ódio, também. Tudo se faz, se refaz, se acaba e se reinicia. Por Tudo, entendo a soma de todas as coisas. O conjunto a conter todos os conjuntos a conter todos os elementos do cosmo. Do caosmo, diria o outro. Tudo, contudo, não equivale ao Todo. Já discuti isto em algum lugar - se neste blog, eu não sei - utilizando de filósofos vitalistas, pensadores da diferença e do cinema para a empreitada. Repito-me, mas serei contido. O Todo, em resumo, é o movimento entre as partes de um conjunto. É o que evita que cada parte do conjunto, ou cada conjunto em relação a outros conjuntos, não se fechem em si mesmos. O 2, em relação com o conjunto dos números naturais; e este em relação com os conjuntos dos números inteiros, reais, racionais, até mesmo imaginários. Um conjunto não é a soma de vários elementos com algo em comum. Con-juntar é criar um procedimento, um modo de relação, uma dança. O conjunto dos números naturais é um procedimento. O conjunto das frutas cítricas é um outro procedimento. O conjunto das proparoxítonas francesas é um terceiro procedimento. É um modo de unir e reunir as imagens do universo num plano comum, e fazê-los dançar numa espiral cósmica que as junta e as separa, as divide e as comunga numa única temporalidade.
Alguns desses elementos são especiais, não obstante. São dobras deste coletivo de matérias-fluxo. São como coagulações deste sistema circulatório e movente que é o mundo. O que não é mundo é imundo, diz o latino. Roma já sabia que havia uma certa pureza no mundo, mas que não era a pureza das imobilidades de Platão. O puro é o harmonioso e o decantado. E, em ambos, nunca se faz puro em solitude. Pureza é estar com os seus, logo, mas visando não a paz. Esta é para os moribundos: "Que descanse em paz"! Pureza é afetar e ser afetado. E, na dança eterna dos elementos, alguns destes resolvem dar uma paradinha para esticar as pernas. A este repouso da matéria, a esta reação retardada de um elemento frente a outro, temos como consequência a chamada consciência. Também não explanarei sobre isto, agora. Só digo que um ser consciente é um ser lerdo, que não reage frente à ação recebida, mas a ela percebe, a sente por dentro, e só depois age, indeterminadamente. Encaminhamento simples e provisório, este, que será modificado em posts futuros. Por enquanto, nos contentemos com esta definição precária.
Como qualquer outro elemento da existência, o humano coexiste. Existe com outros e só existe com outros. Afeta e é afetado. O que o difere da matéria dita não-viva é a sua lerdeza, como já dito. Alguma força lhe afeta e ele não reage imediatamente, tal qual bola de bilhar. Ele processa - ou melhor - um processo se dá e o arrebata. Não são as coisas que mudam, mas nós é que somos interiores à mudança mesma. Esse processo, - cognitivo/afetivo/perceptivo/ativo/que seja - por vezes, se perde em si mesmo, como um loading eterno. É um movimento que não referencia o mundo para o qual reage, assim como a palavra do erudito. O bebê balbucia uma e outra palavra, mas todas carregadas de reais elementos do mundo. É o recém-nascido o verdadeiro universitário. Chora imediatamente, sem mediações. As coisas o afetam e ele, indefeso frente à miríade de estímulos fora do útero oceânico de sua mamãe, não sabe como reagir. Não pode reagir. É tudo forte demais. Então, ele chora. E chora até que aprenda alguma palavra sem sentido pelos lábios de seu pai burguês, aquele mesmo que inventou a adolescência.
Esse pai inventa para o seu menino brinquedos para a boca lhe calar. Que é o brinquedo senão um anestesiador dos afetos, um anulador da percepção e uma dormência das ações? Criança que é criança brinca com os seus, brinca de inventar, de cair e chorar, de gritar, de quebrar o brinquedo do pai e de se quebrar. Todo e qualquer elemento desse mundão carrega uma história. Troquemos a nomenclatura, agora. Chamarei de blocos de duração toda e qualquer unidade identificável e diferenciável das demais. Cada um de nós é um bloco de duração. O monitor, a minha frente, é um bloco, também. Um livro é um bloco de duração. Um filme. Um videogame. Uma pintura. Esse pacote de biscoito aberto, do meu lado, é um bloco de duração. As coisas são a história do universo coaguladas num ponto do espaço. Coagulação sempre parcial, visto a duração do universo sempre fluir e fluir e fluir. Os blocos, todos, se chocam incessantemente. O bloco-homem, no entanto, pode adentrar em circuitos de nada, de vazio, de vácuo, circuitos improdutivos e circulares, isolando-se da evolução criativa imanente ao universo.
É o homem do capital, o corpo-psicopata, o filho de pai burguês. A vida se quantifica e passa a ser ranqueada. Melhor e pior. O melhor: é ficar cada um na sua, em paz, vivendo em conforto, silêncio e imobilidade. Procura-se e se produz blocos e mais blocos de apatia: o cinema de encadeamento óbvio, a música de sucesso, o livro que virou filme, a conversa besta demais, a conversa produtiva demais, o humor com fórmulas, o amor sem dor. O mal não é a dor, mas a dormência que, cedo ou tarde, nos obrigará a amputar nossos membros, arrancar nossos olhos e estirpar nossos corações. Quando não mais pudermos perceber, sentir ou agir sobre a beleza das coisas, seremos bons indivíduos, mas não mais humanos. Não mais "dividuais", moventes, éticos, artísticos, filósofos, crianças. Fabricar um corpo-psicopata: estamos fazendo isso corretamente!...

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Post Scriptum: o texto saiu maior do que o esperado. Tempo demais sem visitar estas terras, suponho. Acabei nem desenvolvendo a noção de blocos de duração, que deveria ser o carro-chefe do escrito. Uma dívida que saldarei depois, promessa...