domingo, 30 de agosto de 2009

O Escafandro e a Borboleta

Derrame. Paralisia. Desespero. Jean-Do, editor da Elle, é homem de imagens, aparências e movimentos que - inesperadamente! - se encontra enclausurado em sua própria carne. Escafandro! Seu pensamento quer ganhar o discurso; seus afetos, a ação; ambos querem correr, saltar e voar tal qual o verme melindroso a habitar o casulo. Borboleta! Longe das moralinas, o Sr. Bauby não faz de seu corpo frágil e indefeso um motivo justo para piedades e dramas afins. Afinal, não é a matéria que nos interessa - para longe com as quantidades! - mas os dois pilares que dão sentido à existência de nosso morimbundo: memória e imaginação! Com a primeira, fundamenta! É na memória que o corpo se liga ao passado, ao que já foi presente mas que - de alguma maneira - ainda é. Com a segunda, rompe! A imaginação é a quebra mesma dos esquemas pré-vistos e re-petitivos, lançamento rumo a um futuro que se faz no agora! O trampolim e o salto! E, mesmo na imobilidade débil de nosso agonista, vemos o seu tempo passar e passamos com ele. Passamos não rumo a um passado que já se desfez, mas a uma temporalidade perdida que ainda dura em nós. Vida! Jean-Do, mesmo sem corpo, é vida! É arte que não imita, mas produz! É movimento grácil, mesmo que em seu balé - belo, sôfrego e apaixonante - só hajam piscadelas...

sábado, 15 de agosto de 2009

Kant!


Quando, dentre as opções que me foram ofertadas no grupo de pesquisa, escolhi estudar e discorrer sobre Kant, não imaginava a seara na qual eu estava me metendo. Ao ler os títulos de suas obras, sessões e capítulos, espantei-me: doutrina transcendental dos elementos, arquitetônica da razão pura, analítica dos princípios, dialética da razão prática, juizo teleológico! Resolvi encarar a fera, mesmo temendo suas garras e presas, achando que tudo não passava duma finta para espantar aventureiros incautos. O bicho, no entanto, era poderoso, contrariando as minhas suspeitas! Golpes e mais golpes foram desferidos, mas o tarrasque continuava inabalável! Resolvi abandonar a arena e ir buscar ajuda naqueles que já o enfrentaram e sairam vivos da batalha. Depois de alguma instrução, voltei à caverna e - após algumas horas de mais sanguinolência - demos por empatado o combate. Revelo agora, aos amigos de campanha, minhas cicatrizes, queimaduras e demais marcas que o monstro imprimiu em mim.
Kant é figurado, pelos grandes corifeus da história da filosofia, como idealista crítico ou idealista transcendental, sendo sua filosofia considerada um ponto de ruptura com o saber ocidental, tal qual uma "revolução copernicana" na história do pensamento. Vários pontos da trajetória pessoal de Immanuel mereceriam ser comentados aqui, a título de colocar seu sistema como fruto da história. E - claro! - fofoquinhas acadêmicas nunca são demais! Mas evito tal empreitada, visto que a mesma não é essencial a uma exposição do corpo teórico kantiano (embora dê uma matizada no mesmo...).
O pensamento do filósofo era centrado no racionalismo de Leibniz e na física newtoniana, fato evidente em seus escritos iniciais, nos quais concebia o universo como um sistema harmônico regido pela matemática. Pouco a pouco, seu contato com os empiristas ingleses - David Hume, principalmente - levou-o a adotar uma posição crítica diante da relação conhecimento-realidade, típica do racionalismo.
Como dizia Hume, o conhecimento tem origem na experiência. Kant concorda. Foi até desperto de seu "sono dogmático" por Hume, chegou a afirmar. Mas, para Kant, isto não significa que o saber dependa unicamente da experiência sensível. Segundo ele, a realidade física é a posteriori - a partir da experiência, por indução - sendo um erro atribuir a este mundo de diversidades sensíveis algum princípio universal. Toda ciência racional, dizia, deve ser fundamentada em princípios a priori, dedutivos e independentes da experiência.
Os historiadores descrevem três Kants: o primeiro é dedicado às matemáticas e às ciências naturais; o segundo começa a se interessar pela filosofia e pelo conhecimento, confluindo nas temáticas que resultarão no criticismo do terceiro Kant. É este último, e seus três principais trabalhos, que nos interessam: A Crítica da Razão Pura (1781), a Crítica da Razão Prática (1788) e a Crítica do Juízo (1790), visto que neste período de sua obra, Kant sintetiza - e supera! - as duas grandes correntes de pensamento da sua época, a saber o racionalismo e o empirismo, além de pretender tornar a filosofia compatível com os saberes físico-matemáticos de então.
A Crítica da Razão Pura é a teoria do conhecimento de Kant, na qual formula uma filosofia com aspirações à validade universal, mas distante da metafísica racionalista. Kant nos diz que todo conhecimento sobre a realidade sensível vem, originalmente, da experiência, cujos dados se estruturam graças às intuições da sensibilidade - o tempo e o espaço - que não são propriedades das coisas mesmas mas formas segundo as quais o intelecto representa a realidade. Num segundo momento, tais representações se ordenam segundo as categorias do entendimento - formas a priori da razão - espécie de moldura das experiências singulares. Destarte, não há a coisa-em-si, a coisa tal como ela é, mas fenômenos, as coisas tais como são percebidas e elaboradas por nossa faculdade do entendimento. O conhecimento, aqui, torna-se síntese entre as formas do intelecto e os conteúdos da experiência. A ponte entre ambos - diria Kant - é a imaginação, entendida como faculdade criadora. No entanto, quando a razão se aplica a conceitos que não podem ser apreendidos pela sensibilidade ("Deus" ou "alma", em exemplo) são produzidas as "ilusões da razão" ou, mais diretamente, simples especulações metafísicas que devem ser distintas do conhecimento objetivo.
Na Crítica da Razão Prática está exposta a doutrina ética kantiana, base para a demonstração duma ordem transcendente sem que fosse necessário recorrer às especulações metafísicas. A ética, em Kant, não precisa dos dados da sensibilidade; logo, não pode cair em "ilusões". Para Kant, a consciência moral é um dado tão evidente quanto os corpos da física de Newton. Ela seria a razão aplicada à ação, uma ação que seria moral - razão pura prática! - quando regida por imperativos categóricos, e não por imperativos hipotéticos, tais quais as punições da lei. Deixemos que o próprio Kant enuncie o seu imperativo categórico: "Age de tal modo que o motivo que te levou a agir possa tornar-se lei universal". A aceitação pelos homens da lei moral é - diz Kant - prova de que existe uma ordem que transcende o sensível, cujo fundamento único é a existência de Deus. Deduz, assim, a metafísica; não da ciência e dos sentidos, mas da ética.
E, por fim, falemos da Crítica do Juízo. Sendo suscinto, aqui Kant analisa a "beleza" e a "finalidade" enquanto inerentes ao homem, mas também como não explicáveis pela experiência mesma. A intuição estética, enquanto faculdade, sintetiza a imaginação sensível e o entendimento da razão, possibilitando que a razão se torne sensível e a sensibilidade prove da razão.
O kantismo é etapa decisiva e fecunda na história do pensamento ocidental. Que nenhum profano o negue! Kant foi ponto de partida para a moderna filosofia alemã (Fichte, Schelling, Hegel, Schopenhauer...) e provoca ressonâncias em diversas correntes no hoje: os idealistas realçam o caráter criativo dado por Kant à razão humana, os positivistas assimilaram sua crítica à metafísica e os fenomenólogos beberam da problemática sujeito-objeto levantada pelo filósofo. Pena que seu pensamento, na busca por rigor e fundamento, seja extremamente absolutista e pretensamente universal. Coisa de filósofo, mesmo! Sua própria vida era caracterizada por uma rotina notável. Nunca viajou a mais de 100 Km da pequenina Königsberg, sua cidade natal; nunca se atrasou a um compromisso - salvo duas vezes, sendo uma delas durante acontecimentos revoltosos da Revolução Francesa; e, segundo dizem, sempre que aparecia à porta de casa para o seu passeio vespertino, os vizinhos podiam acertar os relógios: eram - exatamente! - três e meia da tarde...

domingo, 26 de julho de 2009

Pontos e Processos

Num primeiro momento, discutimos sobre a Boa Nova do Cristo - segundo João - e as implicações decorrentes de suas traduções várias. Em um instante segundo, falamos sobre Heidegger e - mais uma vez - sobre traduções. Com este post, viso criar uma terceira imagem para bem fechar nosso colóquio. Poderia até dizer que os três artigos criam uma única e mesma imagem, devendo ser lidos numa única torrente de pensamento.
Agora, pensemos não só em João ou em Heidegger, mas em todo e qualquer objeto de pensamento que se nos afigure em nossa alma. Fórmulas, pinturas, orações, sistemas, melodias, brasões, mapas, balés, ritos... Qualquer conceito científico-filosófico, qualquer produto poético-artístico, qualquer dito metafísico-teológico. Resumindo: qualquer coisa que se manifeste enquanto uma coisa! Um ente-imagem! Um conceito manipulável! Mas o conceito, enquanto categoria espacializada, é apenas uma organização arbitrária dum fluxo caótico, uma parada no fluxo do tempo, a ponta do processo. Pedirei emprestada, agora, uma metáfora do mirífico Schopenhauer para bem ilustar nosso texto-imagem.
Um acadêmico, ao registrar uma obra qualquer, passou por afetos e sentimentos muitos que não sobressaem na palavra escrita. Leu isto e aquilo, conversou com Fulano e Sicrano, descobriu algumas coisas e se confundiu com algumas outras. E tudo isto resulta numa obra! Suas experiências podem ser pareadas com um suculento banquete: frutas, carnes, sucos, vinhos e - claro - boa companhia. É por esta situação que um cientista, um artista, um místico ou um filósofo passam quando estão a produzir. Eles saboreiam! E o que a nós resulta é, tão somente, a "obra" depois do jantar. O cocô morto e inerte que, com muita pompa e orgulho, manipulamos, cheios de vaidades e arrogâncias.
E é nisto que poderíamos resumir todos as nossas filosofias, todas as nossas sinfonias, todos os nossos ritualismos, toda a nossa ciência e sapiência. Tudo é merda!!! Conhecer bem as "obras" de Platão e Bergson, Beethoven e Baden Powell, Jesus de Nazaré e Mahatma Gandi é apenas assumir-se possuidor de diversos cocôs! Somos escatologistas especializados! Por mais saborosos os alimentos consumidos, por mais saudável a dieta à mesa, por mais agradáveis as pessoas a dividirem o pão, tudo o que nós consumimos é o produto final de alguém que resolveu "obrar".
Mas apontar a natureza baixa de todos os nossos produtos conceituais não implica que devamos nos livrar de nossas obras - passadas e porvindouras - para todo o sempre. Estou apenas sugerindo que olhemos para as alturas. Esta metáfora do Schopenhauer, por exemplo. Ele a escreveu no gigantesco Parerga e Paraliponema, que foi editado e traduzido - aqui no Brasil - numa pequena coletânea de textos entitulada A Arte de Escrever, cujo volume foi comprado e lido por um amigo meu que, posteriormente, comentou-a comigo. Apenas um pequeno coliforme deve ter chegado a mim: este é o pensamento ao qual somos tentados a assumir. Se ele é verdadeiro!? Sim e não! Vejamos.
Estou estudando, de forma auto-didática, o idioma alemão. E muitos são os que se espantam quando o descobrem, geralmente por terceiros que aumentam ainda mais a importância do fenômeno. Mas imaginemos que este que vos fala seja, neste exato momento, transportado magicamente à Alemanha. Meu ridículo, grosseiro e teórico conhecimento da língua germânica de nada me servirá! E mesmo que eu consiga dominar o deutsch com fluidez e maestria antes do teleporte, este conhecimento em nada me diferenciará dos demais! Um saber que, de tão banal, nem seria considerado como saber por outrem.
O que não quer dizer, obviamente, que meu alemão seja inútil. E é este o ponto a ser apontado em nossa discussão. Aprender sobre platonismo, sinfonias românticas, cristianismo essênio, termodinâmica, estatuaria helenística, budismo tibetano ou qualquer outra merda não é, de todo,
um ofício vazio. Todos estes pontos não querem ser um em-si a nos glorificar diante dos homens. Os pontos querem ser ligados!
Aprender coisas e mais coisas, saberes e mais saberes, merdas e mais merdas, é como aprender um idioma! Tanto nos possibilita a comunicação com um sujeito outro quanto nos mostra uma nova forma de encarar as coisas mesmas. Aprender coisas, quaisquer que sejam, só nos é interessante quando nos dá aquele toque no espírito, um frio na espinha, uma sensação de ser lançado no desconhecido. A imagem, a palavra e o conceito são apenas obras. São pontos finais. Mas pontos que querem, em nós, desencadear processos originais. A imagem quer virar imaginação; a palavra, ação; e o conceito, afeto. O que a prosa deseja é ser um pouco mais de poesia...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O porquê de eu não ser inteligente...

É engraçado ser visto como um arrogante por nutrir afinidades com um pensador hermético como o Heidegger. Ou - até pior! - ser considerado inteligente por esta razão. Fala o Goethe pelos lábios de Wherter que os prosaicos o consideram por demais devido à seu intelecto, seus dotes artísticos ou sua retórica, mas é de seu coração que ele unicamente se orgulha; e este ninguém conhece! Saint-Exupéry transborda vida através do Petit Prince: "L´essentiel est invisible pour les yeux"! Fala Paulo de Tarso dos ditos indizíveis. Comenta Sidarta sobre o silêncio do Nirvana. Proclamam homens e mulheres sobre a ilusão do eu pensante - do Ego Cogito Cogitatum! - que insiste em nos dar uma unidade egóica mesma a nos identificar e cristalizar a invenção em nós.
Antes de pôr em movimento o pensamento, peço desculpas por tanto tempo sem nada escrever. Fui acometido pela síndrome de final-de-período que costuma assolar os acadêmicos e universitários: avaliações, ensaios, artigos, relatórios. Diz Bergon que o tempo é aquilo que impede que tudo seja dado de uma só vez. Parece que dessa vez Chronos resolveu aloprar tal qual seu irmão mais novo e me enviou tormentas, geadas e chuvas numa mesma estação da colheita, o que frutificou numa enfermidade que ainda insiste em fixar morada em mim. Mas voltemos a nossa programação...
Seria interessante que processassemos nossa conversa na mesma viagem do texto anterior, sobre o versículo inicial do afectivo evangelho joanino. Vão lá, dêem uma lida e caiam aqui de novo, pois é justamente sobre processos, viagens e afetos que trata o "dificílimo, prolixo e incompreensível" Heidegger. Tomemos como exemplo dois termos sinônimos usados em sua fenomenologia hermenêutica: o Dasein e o Inderweltsein.
Dasein é normalmente traduzido por "Presença" nas edições brasileiras, o que corresponde - deveras - a uma transliteração fiel do vernáculo cotidiano. Façamos algumas observações, entretanto. Dasein é Da-Sein. Da é advérbio de lugar, e significa "aí". Sein é o substantivo "Ser". Isto fica ainda mais claro no conceito correlato Inderweltsein. In e der, juntos, formam um locativo e Welt equivale ao nosso substantivo "Mundo". Numa tradução mais proximal da terminologia utilizada, poderíamos usar "Ser-aí" para Dasein e "Ser-no-Mundo" para Inderweltsein. Estas, inclusive, foram as opções escolhidas em edições mais recentes - e felizes! - das obras heideggerianas. Outra opção de tradução, ainda, é manter a nomenclatura original dos conceitos. Muito comum é pegar algum texto do/sobre o Heidegger e encontrar o Dasein mesmo por lá.
Minhas ressalvas! Quando um alemão pronuncia, escuta e lê Dasein, ele não entra num mesmo estado de espírito que eu entrei, num exemplo particular, ao ler "Presença", dado o caráter individualista da palavra "Presença" a contrastar com a transcendência de si e o lançar-se ao outro que Heidegger quis sugerir com os nomes utilizados! Tampouco quando li "Ser-aí" ou "Ser-no-Mundo" eu entrei na mesma temporalidade do germânico do Dasein e do Inderweltsein, visto que os nomes brasis são notadamente artificiais, ao contrário dos cotidianos termos germânicos. Por fim, utilizar a terminologia original - Dasein, Dasein, Dasein - pode causar um efeito encantatório no leitor brasileiro, que se deixa sugestionar por uma palavreta nova a alimentar sua verborragia.
Como, então, transformar está dilemática que se nos afigura num problema resolvível? O Conjunto Solução que eu encontrei: procurar ler Heidegger no original, em alemão! E já imagino as caras, bocas, feições e perceptos que se deram nos senhores: "que arrogante-filho-da-puta!" ou "caramba, mó inteligente esse bicho!" ou, ainda, "esse daí quer mostrar que sabe mais do que realmente sabe!" Frases que - não só as creio como já as saboreei - pululam na alma de outrem! Mas não se trata de simples pedantismo, nem de intelectualismo elevado. Muito menos se trata de mostrar que sei mais do que sei em Espírito e em Verdade, visto que este movimento não ambiciona analíticas conceituais ou demais produtos da inteligência. O que viso é, simplesmente, atingir o movimento, o fluxo, a vida que tentou alcançar vôo através do filósofo numa gaiola de palavras.
Heidegger não é, simplesmente, "inteligente pra caralho" ou "desnecessariamente rebuscado" nem "quer esconder o vazio da sua interioridade psíquica numa retórica incognoscível aos intramundanos"! O que ele fala não é do plano do prosaico, do lógico ou do intelectual, mas sim do poético, do artístico e da intuição. Buscar ler Heidegger em alemão é, destarte, aproximar-se da criação original que se deu no autor, que se constitui na obra mesma que, nele, escolheu se manifestar! O que importa, aqui, não é o ponto inicial da ignorância total nem o ponto final da sapiência cósmica, mas o traçado feito duma coordenada à outra. O próprio Heidegger, saliento, faz constantes citações a textos em grego, com seus caracteres originais, como alguns diálogos platônicos e, principalmente, registros aristotélicos... E isto sem apresentar uma tradução! "Miserável!", gritam alguns. Mas ele sabe que nenhuma palavra, conceito ou imagem podem representar a pura presença do Ser no homem. Ele sabe que não se "pega" a idéia sem o esforço de se debruçar sobre livros, rever opiniões e substituir valores. Posso até melhorar minha assertiva: não é a taverna ao final da empreitada que alimenta o aventureiro, mas a caminhada angustiante é que o fez crescer...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Em Ritmo de São João


"Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος". É este o primeiro verso da boa nova joanina. Baseada nas compilações dos copistas, a transladação da sentença para o bom português apresentava o versículo como "No princípio era o Verbo". Já a edição pastoral, tradução mais recente que já tive em mãos, diz "No começo a Palavra já existia", seguida - logo após - de cinco parágrafos exegéticos sobre o contexto de enunciação do discurso!

O grego - principalmente o vernáculo Koiné, utilizado na escrita neotestamentária - é idioma por demais ligado ao cotidiano, ao concreto e à vida, mesmo em se tratando de abstrações, ontologias e metafísicas. Já o português - barroco em excesso - é cheio de cadências e floreios. A expressão "Ἐν ἀρχῇ" (transl. En arché) pode muito bem ser traduzida como "No princípio", mas o que um poeta heleno clássico entederia com "ἀρχῇ" não equivale ao que um prosaico brasileiro da modernidade significaria ao ler "princípio". Se transformássemos ambas as frases em conjuntos semânticos, pequena seria a área de intercessão entre ambos.

Por "princípio", entendemos o começo - seja espacial ou temporal - de alguma coisa. É aquele ponto a partir do qual uma realidade se inicia. Já "ἀρχῇ" quer figurar não o ponto de partida, mas aquilo que vem antes dele. Há uma regra de conduta clássica que valoriza aqueles que chegaram na frente (a logística da fila ou o nosso respeito pelos anciãos, por exemplo). "Aρχῇ" não é, como "princípio", o ponto de começo, mas é a zero-extensão e a zero-duração, anterior a tudo! É o mar arquetípico, anterior a todas as ondas tipológicas. Incluíndo a própria significância das coisas e - logo - as palavras e verbos que a manifestam.

É aqui que as traduções da tradição (e as interpretações corolárias a estas...) esbarram num dilema. Traduzir "Λόγος" (transl. Lógos) por "Verbo" ou - ainda pior! - por "Palavra" implica diferentes sentidos: uma semântica diferente, que aponta para uma sensação corpórea/constituição subjetiva diferentes, resultando numa política diferente que as gere e as gera! "Λόγος" pode, sim, ser traduzido como "palavra" ou "verbo", mas não neste dado contexto, no qual aquilo que é ("ἦν", terceira pessoa do pretérito imperfeito do verbo "Ser") vem antes de todas as coisas, incluindo as palavras e verbos que as designam!

As edições pastorais, num golpe de misericórdia no cadáver contorcido de João, traduzem o verbo "ἦν" por "existia" ao invés de "era", alterando essencialmente a semântica original. O cidadão grego possui todo um cuidado na lida do verbo "Ser", visto que aquilo que é, é! O Ser não equivale à simples existência factual, para o heleno. Tanto que o Ser nunca é negado na linguagem clássica (não se diria "Ele não é grego" mas "Ele é não grego"...). Logo, transliterar "Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος" por "No princípio era o Verbo" ou, ainda, por "No começo a Palavra já existia" é alterar a própria estrutura fundamental e fundamentante da mensagem. Se o heleno, com a frase, entenderia que existe um princípio infundado anterior a toda existência factual e ôntica, além da temporalidade mundana, da limitação espacial e do falatório cotidiano, o homem do português significaria a mensagem com a idéia de que, antes do mundo existir, Deus - enquanto Verbo - já existia antes dele, sendo o ponto de partida e desvelamento do mesmo. E esta confusão toda só no primeiro verso dum livro de 21 capítulos!

Minha intenção, com este post, não deve ter ficado explícita. Além, claro, de compartilhar minhas experiência com os senhores, viso sempre apontá-los a um certo sentido. Post enquanto "ação na Pólis". Política! Nosso diálogo, então, não foi encerrado, visto que considero ter feito, aqui, apenas uma introdução a outras discussões que estão por vir...

sábado, 6 de junho de 2009

O Bêbado

O homem se levanta. Um banho gelado e um café quente fazem companhia a ele e a seu pão diário, ambos meio dormidos. Toma, religiosamente, seu desjejum. Veste, metodicamente, sua farda. Ruma, asceticamente, ao seu trabalho. E trabalha! E produz! E registra! E consome! E deseja! E - depois de tanto rodar - cai! Cansa de ficar parado e resolve diferir de si mesmo. O homem - então! - resolve aloprar. Sai do trabalho e escolhe se perder no caminho de volta pra casa. Conhece gente importante: poetas e pensadores, santos e sujeitos, corifeus a figurarem como ruas, avenidas, praças e travessas desconhecidas. O homem se perde na imensidão de seus novos amigos e se esbarra no Zé. Resolve - por ele, com ele e nele! - tomar uma ou outra dose de poesia. E - fraco e desacostumado que era à vida - embebeda-se! O homem se percebe bêbado quando não consegue mais contar quantas já virou. Foi-se embora o número, coitado! Bom moço, mas por demais exato para agüentar o homem e seu copo a transbordar. O homem se levanta e vai ao mictório. Cambaleia, tal qual o capoeira, talvez porque tentou caminhar reto quando não devia. Bêbado, percebe que não deve mais nada! Alivia-se do peso inútil do seu dia e, pronto para mais arte, encontra-se com o espelho. O homem percebe a si mesmo. Igualzinho, mas totalmente diferente! Fita os seus olhos semi-cerrados, sua tez rosada, um filete de saliva a lhe escorrer pelos cantos da boca, o cabelo desalinhado, o zíper da calça ainda aberto e uma porta que esqueceu de se fechar! Mira sua imagem destruída e rí como uma criança rí da piada velha. O bêbado percebe que - embora tenha de ser homem - ainda é um menino. Caule ancião, mas que ainda insiste em fazer brotar flores e cores. O homem, senhor de si, perde o controle da criança traquina. Bebe, bebe e bebe, até tombar. E se levanta! O banho não mais acorda e o café já não mais desperta. Sua cabeça dói e suas pernas fraquejam. Do topo à base, o corpo avisa: não quero trabalhar! Nem produzir! Nem registrar! Nem consumir! Quero abandonar o homem velho e beber o vinho novo. De novo! De novo! E de novo. Desejar, transbordar, apaixonar. Ser criança outra vez. Mas é só até o homem, à sua casa, voltar...

segunda-feira, 25 de maio de 2009