terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Você acredita na realidade?

Esse questionamento, aparentemente absurdo, dá nome ao primeiro capítulo dum livro elaborado para dar conta da querela – A Esperança de Pandora – tratando de maneira original a já gasta discussão sujeito-objeto, inserindo nela a conceituação de humano e não-humano. Latour, recomodando suas interpretações iniciais ante semelhante pergunta - feita por um amigo psicólogo seu - e ao perceber a desconcertante diferença apregoada entre cientistas e “estudiosos da ciência” pelos organizadores da Wenner-Grenn Foundation, coloca que o fato de estudar um assunto não significa que se o esteja atacando. Astrônomos não desprezam as estrelas, imunologistas não se opõem aos anticorpos e biólogos não odeiam a vida.
Se seus estudos científicos vingaram em algo, pensava ele, seria justamente em ter trazido realidade à ciência, não o oposto. Ao invés duma objetividade pálida, Latour demonstrava que a prática de laboratório tinha história, cultura, vida, sangue! Mas percebeu sua ingenuidade pouco depois. O que chamava de “acréscimo de realismo à ciência” era chamado, pelos cientistas, de “ameaça ao apelo da ciência, um modo de reduzir-lhe o grau de verdade e as pretensões à certeza". Não há, no mundo inteiro, uma única situação na qual alguém possa ouvir, normalmente, a nossa pergunta inicial, a mais estranha das perguntas. “Você acredita na realidade?”. Perguntar se alguém crê na realidade só se dá no caso de alguém que se distancia a tal ponto do real que o medo de perdê-lo se torne justificável. E é a história intelectual desse medo que Latour esboça no desenrolar de sua escrita.
Essa pergunta esquisita já fora, de certa forma, posta por Descartes, ao inquirir como a mente podia estar “absolutamente” segura de um objeto do mundo exterior. Ao formular o problema, Cartesius inviabilizou a única resposta razoável: estamos “relativamente” seguros dos objetos com a nossa lida cotidiana dentro da prática laboratorial. O caminho traçado pelo francês – a título de curiosidade, Deus – para restabelecer o contato de sua mente sem corpo com o mundo exterior era um tanto longínquo. Em busca dum atalho, algumas pessoas se perguntavam se o mundo não poderia nos enviar, diretamente, informações capazes de gerar imagens estáveis do mundo em nossas mentes.
Entretanto, com este aparentemente novo problema colocado, os empiristas seguiram pela mesma estrada. A tábula rasa dos empiristas é tão desconectada quanto a mente cartesiana. O cérebro extirpado, exigindo equipamentos para a manutenção de sua vida artificial, troca um kit de sobrevivência por outro. Se antes tínhamos Deus, agora temos uma mente bombardeada por um mundo reduzido a estímulos sem sentido, mente que extrai destes mesmos estímulos todo o necessário para formar e reformar o mundo!
Os filósofos, para não voltarem atrás e tomarem um outro caminho até abandonam a exigência de certeza absoluta e improvisam uma solução para salvaguardar um pequeno pedaço da realidade exterior. Essa rede neural de associações dos empiristas mostra-se incapaz de fornecer, por si mesma, uma imagem do mundo exterior. Isso provava, para eles, filósofos, que a mente (ainda extirpada e separada da realidade, vale salientar), tira “de si mesma” tudo o de que necessita para construir suas histórias. O a priori kantiano, vendido como a revolução copernicana no pensamento, é uma ficção científica bizarra que nem Descartes, Hume ou Deus poderiam imaginar. Para Kant, é o mundo (exterior) que gira ao redor da mente (extirpada), sendo esta que dita as leis universais, mas leis que tirou de si mesma e sem a ajuda de ninguém!
As pessoas, não muito mais tarde, perceberam que esse tal sujeito transcendental – como Kant o chamava – era, tão somente, uma ficção explanatória, uma posição de compromisso num acordo para evitar a perda do mundo ou o abandono pela busca da verdade absoluta. Sai o planetóide kantiano e, em seu lugar, entra a “sociedade”. A mente escultora da realidade cede passagem às categorias e representações sociais. Latour, porém, faz quatro adendos quanto à substituição do Ego pelo Socius.
Em primeiro, tal substituição não refez a caminhada trôpega realizada até aqui e distanciou ainda mais o sujeito de seu mundo exterior; se antes as pessoas ficavam isoladas em suas próprias categorias, agora estão trancafiadas dentro de seus próprios grupos sociais. Segundo, esta mesma sociedade não passa dum agregado em série de mentes extirpadas; muitas e muitas mentes, mas todas funcionando isoladamente na contemplação do tal mundo exterior. Em terceiro, Latour pontua o comprometimento do que Kant propôs de melhor, a saber a universalidade de suas categorias a priori; as mentes individuais, desvinculadas umas das outras e do mundo, cedem às mentes coletivas e à cultura, tal qual prisioneiros que, antes separados uns dos outros por celas individuais, isolam-se cada vez mais em prisões diferentes e desconexas. Por fim, a razão quarta: o medo da tirania da massa! Em resumo, “é a ressonância desses dois medos, a perda de um acesso certo à realidade e a invasão da massa, que tornou a pergunta ao mesmo tempo tão injusta e tão séria”. Sobre o medo do governo da massa, discorreremos pouco mais adiante.
Um dos engodos em forma de solução tão comumente assumidos diante dessa trama é aceitarmos com prazer a perda das certezas. Possuímos uma velha posição e todo defeito dela é visto como qualidade. Perdemos o mundo, ficamos presos à linguagem, foi-nos tomada toda a certeza absoluta. E bate-se palmas à isso! Não avançamos um milímetro desde Descartes: a mente continua em sua cuba, desvinculada do resto e a contemplar o mundo através da parede de vidro de seu receptáculo. Há aqueles que gargalham gostosamente da situação toda, felizes pela sua livre construção de narrativas e histórias, mas continuam prisioneiros acorrentados a descer, jubilosamente, as escadas de sua danação.
Uma segunda solução, brilhante, foi proposta. Ei-la: retiramos apenas parte da mente de sua cuba, colocamo-a num corpo e lançamos este corpo no mundo que – coisa boa! – já não é mais uma realidade a ser contemplada, mas uma extensão viva de nós mesmos. Já não dispomos de uma mente em contato com o exterior mas sim de um mundo vivo ligado a um corpo intencional. Infelizmente... essa operação divide a mente em pedaços ainda menores. A fenomenologia, por tratar apenas do “mundo-para-uma-consciência-humana”, nos dá uma nova separação: de um lado, o frio e inumano mundo da ciência; doutro, o mundo humano das instâncias intencionais, rico e dinâmico, mas separado e ignorante ao que as coisas são em si e para si mesmas.
Caso a fenomenologia deixasse a ciência correr em sua própria trilha, o sentido oposto, seria ainda pior. A mente feita cérebro, o homem feito fenômeno natural e a filosofia feita neurologia. Trocaríamos a história humana por uma luta darwiniana pela adaptação a uma realidade que – vejam só! – nem conhecemos. Regressar o caminho tomado soa-nos perigoso por causa do medo do governo da massa já mencionado. Retomemos este ponto.
Como disse Latour, dois medos inspiraram seu amigo a fazer aquela estranha pergunta. O primeiro é o medo do cérebro extirpado em perder contato com o mundo exterior, cuja história acabamos de delinear. O outro, o medo da massa, tem uma história mais antiga, originada no velho “se a razão não governar, a força prevalecerá”. De onde se originou este debate pouco importa, mas no Górgias, de Platão, ele é apresentado com muita clareza. O que se afigura não é a simples oposição entre razão e força, o direito e o poder, filosofia e retórica, Sócrates e Cálicles, mas o poder de um, o patrício, contra a força de muitos, a massa. Sócrates é irônico quanto ao poder de Cálicles, mas ele mesmo defende e tenta manejar um poder maior, capaz de controlar os “dez mil papalvos”: o poder da igualdade geométrica, o poder da razão, ignorado por Cálicles e pelos atenienses. Latour, desconfortável no tocante à idéia dum mundo exterior, pergunta: “por que gravar essa mente solitária com a tarefa impossível de descobrir certeza absoluta ao invés de conectá-la a circuitos que lhe forneceriam todas as certezas relativas de que ela necessita para conhecer e agir?”. E aponta sua resposta: “é para evitar a multidão desumana que temos de confiar em outro recurso não-humano, o objeto objetivo intocado por mão de homem”.
Nem a massa lá embaixo, nem o mundo lá fora. Não se deve temer perder o acesso ao mundo ou uma força superior contra a massa. Não se deve sentir falta da certeza, a menos que queiramos dominar o povo. Quando nos recusamos a pôr as disciplinas científicas nessa querela sobre quem deve dominar o povo, o realismo retorna, mas um “realismo mais realista”, de um mundo híbrido de humanos e não-humanos, pessoas e deuses, estrelas e elétrons, usinas nucleares e políticas de mercado.
No entanto, a sensação de que uma guerra científica está em movimento é inegável. Os cientistas estão sempre atentando sobre a necessidade de lançar ponte entre essas duas culturas, debate este que tem sua origem numa divisão de trabalho entre os dois lados de uma trincheira bordeada no próprio Campus. A originalidade dos estudos científicos, propostos por Latour, é combater ao mesmo tempo estas duas purificações. Aos cientistas, afirma que quanto mais conectada ao coletivo uma ciência estiver, mais precisa, verificável e sólida tornar-se-á. Aos humanistas, diz que quanto mais não-humanos partilharem existência com humanos, mais humano um coletivo será. Indo de um partido a outro, e traindo a ambos, Latour insiste tanto na “história social das coisas” quanto na “história coisificada dos humanos”, contrariando as crenças e reflexos condicionados a que tanto epistemologistas e humanistas cultivaram em seus anos de adestramento.
Latour, incisivamente, fala da passagem da Ciência para o que chama de Pesquisa (ou Ciência Nº 2). A Ciência é fria, distante, objetiva e pretensamente necessária. A Pesquisa, sua irmã mais nova, é incerta, aberta e está sempre às voltas com coisas insignificantes para a Ciência, como dinheiro, condições de trabalho e reconhecimento entre pares, sendo indistinto a ela tanto o humano quanto o não-humano. Quando fala, no entanto, de híbridos e miscelâneas afins, Latour parece seguir o mesmo caminho daqueles prisioneiros acorrentados a empreender uma descida ao inferno e a não ligar muito se as palavras referem-se ou não às coisas. O mesmo, no entanto, coloca: assim como há uma batalha travada entre os resmungões de guerra fria da Ciência e o modelo da Pesquisa, há uma outra luta se desenrolando nas chamadas humanidades: o que, frouxamente, é chamado de pós-moderno versus aquilo que o Latour chama de não-moderno. Se o primeiro preza por uma “desconstrução”, a ordem do segundo é desenvolver, afirmar e construir.
A luta pró ou contra a verdade absoluta, o relativismo ou a construção social não é o importante. Não é a relação palavras-mundo que aqui interessa, mas a política de coisas decorrente da tarefa de extrair o “cosmo” de uma “desordem”. Latour não pretende reduzir a ciência à “mera construção social pela massa convulsa”, mas aposta neste seu meio de libertar as ciências da política ou, ao menos, dessa política apolítica da razão, acordo entre epistemologia, moralidade, psicologia e teologia que, em seus esforços para estabelecer fatos, refinavam a antiga questão de como controlar melhor as pessoas...

LATOUR, Bruno; “Você acredita na realidade?”; In: A Esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos; trad. Gilson C. C. de Souza; Bauru, SP: EDUSC, 2001; pp. 13-37.


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

domingo, 13 de dezembro de 2009

Vieira

Vieira é um homem bom. Desses nos quais todo mundo pode confiar e - mais notável ainda! - desses que confiam em todo o mundo. Vieira ama o mundo! Vai à missa todos os domingos, paga o IPVA em dia, resolve sempre seus deveres de casa e, quando o tempo faz uma gracinha e resolve se dar um pouco mais para ele, faz artes muitas com seus poucos amigos. É uma criatura modelo, o Vieira. Platão não inteligeria nada mais ideal. E, por ser ideal, Vieira não era apegado às coisas materiais. Nem um corpo o Vieira tinha! Amava o mundo, é verdade, mas não pertencia a ele. Via-o de cima. E dos lados. Falava "sobre" o mundo. Falava "acerca" do mundo. Mas nunca falava "no" mundo. Ah! Minhas condolências, caros. Esqueci a parte mais importante: Vieira é um cientista! Desses que usam jaleco branco e tudo o mais. Não tinha corpo, o Vieira, mas jaleco ele usava. Era sinal de sabedoria. Ao falar de jaleco - o que lhe dava o engraçado aspecto duma rouba branca flutuante ocupada por um fantasma de ninguém - todas as suas palavras tornavam-se coisas aos homens de boa vontade. Estes, no entanto, eram pobres de espírito. Acreditavam em tudo que Vieira lhes mostrava. Como ninguém lhe falseava o verbo, Vieira estava sempre contente e satisfeito consigo mesmo. Corolário: nunca se questionava. Afinal, tinha um método. Tinha amigos que, ao usar o mesmo método, comprovavam a logicidade de suas proposições. Tinha contatos que, ao incentivar suas produções, propagavam a veracidade de seus discursos. Tinha a massa a seus metafóricos pés que, usando e abusando de seus produtos finais, entrava no jogo produção-consumo das verdades. Palavras feitas coisas! Um dia, apesar de ser noite - lembro porque estava escuro - Vieira tomou posse de mais uma verdade do plano das idéias e a mostrou aos seus confrades cientistas. No entanto, seus amigos não lhe deram bola. Seus contatos não lhe deram crédito. E a massa acabou em pizza. Desolado, Vieira percebeu que estava sem jaleco! Sendo confundido com um corpo - mesmo não possuindo um - não houve vivalma que lhe desse atenção. Percebeu-se um juiz tirânico a ditar retóricas e retóricas aos sem-jaleco. Percebeu que, por ser juiz, tudo era juizo. Por ser um árbitro desse jogo, tudo era arbitrário! Bonito jogo de palavras, este. E, por ser bonito, tentou comunicá-lo aos cientistas - e vestiu o seu melhor jaleco para isso - mas não adiantou muito. Assim como ele, os cientistas não tinham corpos para lhe darem ouvidos. Retirou suas vestes, mas tornou-se invisível. Resolveu, destarte, falar com os outros. Mas os outros estavam interessados em seus próprios assuntos, muito mais materiais que uma especulação transcendente que nem aos cientistas interessava. Vieira caiu de tristeza. E, caindo, machucou-se. E, de tanto se machucar, ganhou um corpo. Abandonou o caminho das nuvens e lançou-se às profundezas da vida. Sua nova ética não lhe permitia pronunciar mais nenhuma palavra. Estavam todas carregadas de moralinas, para ele. Agora, só queria viver! Ver, ouvir, cheirar, tocar, saborear. Teoria era só um balbucio de alguém - alguém de jaleco, ele salientava - sobre alguma experiência que teve. Estudar era apenas lidar com a experiência de outrem. Falar era apenas comunicar o que, de tão sagrado, não deveria ser pronunciado: a vida mesma. Pobre Vieira! Se antes abandonara o mundo e a vida em nome duma pureza linguística, agora abandonava a palavra e os outros em nome duma ética torta e incomunicável. Tornou-se um imoralista cheio de "não-me-toques", o Vieira. Mudou-se das nuvens, terra de todo mundo, para o chão, terra de ninguém! Sozinho, Vieira tropeça e cai, mais uma vez. Põe-se a sangrar e, ao ver seu sangue, chora. No entanto, estava convicto de que a vida deveria ser vivida. Abandonar isto não poderia, assim como o broto não pode retornar a ser semente quando constata a aridez do terreno. Já estava condenado à vida mas, como não tinha talento para a solidão, resolveu falar. Falou, mas não como antes. E os cientistas o escutaram. E os outros corpos também. E todos sentaram ao redor de Vieira para o escutar. Entre tantos, ninguém o compreendia, visto que todos o seguiam! Mas não ficou desolado, desta vez. Sorriu, pois ao menos um e outro dentre a multidão entenderia o seu sermão, pararia de reproduzir as produções de outrem e viveria sua própria história. O mais ético dos mandamentos, para os verdadeiros discípulos de Vieira, é procurá-lo em todos os cantos da estrada. E, caso o encontrem, a ordem é imperiosa: Matem-no! Ou, como o próprio preferiria, não o levem muito a sério...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Eu e o outro... (revisitado)

Vejam que coisa! Acabo de fechar meu sexto período no curso de Psi, mas desde o período quinto que desejava compartilhar com vocês um trabalho realizado numa disciplina que cursei sobre Análise Institucional. Pois bem! Como o trabalho estava carregado de pessoalidades e implicações, resolvi recortar e apresentar apenas os aspectos teoréticos do mesmo. Resultado: um texto morto - retalhado e costurado! - tentativa profana de construir vida com pedaços avulsos de carne. Dêem uma lida no texto-Frankenstein, saboreiem sua insossidade e o comparem com o texto original que voz apresento agora. Faço um adendo, antes! Uma coisa e outra do que escrevi já não me pertence mais. Foi pensado e escrito noutro comprimento de onda. Mesmo assim, deixo o corpo do texto imaculado, sem cortes, implantes e suturas, desta vez. Um corpo que, mesmo não sendo inteiramente meu, ainda tem um coração seu! Inteiramente seu...

Foi-me incumbida a seguinte tarefa: associar os comentários dos senhores professores, sobre a experiência de estágio no curso de Psicologia da UFS, com o conteúdo de Análise Institucional, lecionado durante a disciplina Psicologia Social II. Enquanto a comissão de estágio proferia conteúdos, pululou na turma um discurso sobre o estágio extra-curricular e as disciplinas eletivas, visto que uma experiência fora da academia não entraria nesta contagem de créditos. Confesso que me senti impelido a suscitar diálogos em sala, mas temendo desgostar os alunos e interromper a retórica dos professores, calei-me.

No entanto, julgo como necessário o desenvolvimento duma tal problemática, sendo justamente este o plano sobre o qual discorrerei. O proferido por alguns – e silenciosamente acatado por muitos – é apenas a ponta atual dum movimento temporal, a forma dada e natural duma força processual e intempestiva. Destarte, caminharemos juntos pela constituição do sujeito moderno, atravessaremos suas implicações mercantis e desembocaremos na apoliticagem e falta de implicação do estudante Psi, nosso ponto de pouso inicial.

Alguns aspectos desse brevíssimo ensaio devem ser trazidos à luz. Como coisa primeira e fundamental a ser dita, acredito que tal registro não foge do que foi pedido como trabalho de conclusão da disciplina, visto que continuo a parear falas da sala de aula com o conteúdo ministrado. Um segundo ponto é que evitarei, ao máximo, academicismos desnecessários, como as citações e referências ou até mesmo capas para o escrito, visando dar um caráter panfletário ao mesmo. Terceira e última instância: falarei sempre como pessoa primeira, como “eu”, como sujeito implicado, só utilizando a insossa linguagem impessoal dos eruditos como possível recurso retórico.

E, já que o “eu” se pronunciou, invoco o discurso cartesiano para fundar nossa discussão. Mas deixo claro que não pretendo atribuir a Descartes a criação do sujeito privado, da individualidade moderna ou do liberalismo. O francês apenas se nos afigura como um representante histórico, um resultante duma rede de tendências, como a alta da razão no Renascimento, o surgimento da imprensa e da leitura privada e os movimentos reformistas e contra-reformistas a valorizarem a interioridade individual.

No Discurso do Método, lemos o registro dum homem renascentista que, submetido a uma profusão de idéias e ideais a brotarem, prefere desacreditar a todas. Cético ao extremo, põe entre parênteses até mesmo a dúvida enquanto método – dúvida sobre a dúvida – dadas a falibilidade dos órgãos dos sentidos, a mutabilidade dos sentimentos ou, até mesmo, a suposta existência duma deidade maligna a nos enganar em todos os nossos juízos. Quando o pirronismo parece colocar Descartes numa seara insuperável, este encontra um fundamento para o conhecimento. Enquanto duvidava, existia ao menos o ato de duvidar e, para esta ação, supôs como necessária a existência dum sujeito pensante. Cogito, ergo sum!

Mudarei um pouco a trajetória, visando uma melhor colocação de nosso problema. Se pensarmos o comércio em termos de troca comunitária, podemos facilmente encontrar em todo agregado social alguma atividade comercial. É por demais comum o excedente de uma família ou clã ser trocado, eventualmente, pelo produzido por outros grupos, seja no medievo, numa aldeia indígena ou em cidades no interior de nosso Brasil.

Esta situação se altera, entretanto, quando a produção não mais intenciona o abastecimento dos feudos, voltando-se não à subsistência mas ao comércio mesmo. Já teríamos, aqui, um fundamento sólido o suficiente para sustentar o cogito cartesiano, visto que cada um procura identificar sua “especialidade” e nela aprofundar-se. Identifica-se com ela! Mas não paremos por aqui. O próprio mercado, enquanto lugar de compra e venda, cria a barganha, na qual o lucro dum torna-se o prejuízo doutro, e cada mercador deve defender seu próprio interesse. Quando todas as relações entre os homens se processam por meio da compra e da venda dum bem ou signo elaborado por particulares, quando – melhor dizendo! – o modelo do mercado é ampliado às demais esferas do relacionamento humano e o modelo do mercador torna-se experiência universal, naturaliza-se uma lógica egotista e individual na qual os interesses de cada um são mais importantes que os interesses do todo!

Antes de fecharmos nosso ciclo, farei breve comentário sobre o sistema de créditos para a aquisição de disciplinas, utilizado em nossas universidades públicas. Seria interessante pensar esse método, que se nos apresenta como supostamente indiferente – ou perigosamente natural! – como um dispositivo estatal para a prevenção contra movimentos instituintes, visto que dispersa o corpo dicente, seja durante um período dado, seja durante o desenrolar do curso em questão.

Voltemos à nossa sala de aula. À minha sala de aula! O ponto que captou minha atenção foi a importância em demasia dada pela turma à contagem de créditos. Antes de pousar por completo neste terreno, exponho o saber seguinte: um curso é feito de disciplinas obrigatórias (aquelas necessárias à formação do profissional, sua aessentia), disciplinas optativas (cursos alternativos à estrutura rígida, mas previamente estabelecidos por um departamento) e disciplinas eletivas (as matérias restantes a serem lecionadas no Campus e que, dentro desta lógica, pouco ou nada interessam à formação do indivíduo). Quando um aluno conclui todas as disciplinas obrigatórias e optativas de seu curso (aí inclusos trabalhos de conclusão de curso e experiências de estágio), o mesmo pode considerar-se graduado. Formado! Não obstante, cada estudante possui um limite de créditos referentes a disciplinas eletivas. Limite este que, caso seja ultrapassado, não entra mais na contagem de créditos. Esclarecendo: a disciplina ainda consta como conteúdo cursado, apenas não “gasta” créditos, no falatório do universitário!

Re-pousando em nossa arena, deixo em explícito os comentários em sala de aula. Os estágios clínicos e institucionais figuram como atividades obrigatórias no currículo de cada estudante Psi, mas um estágio extra-curricular é considerado atividade eletiva. O falso problema apresentado pelos meus colegas: após ultrapassar o limite de créditos eletivos, um estágio além-universidade não entra na contagem dos créditos! Soou-me estranha tal melodia, tanto que custei a acreditar quando vi tantas cabeças meneando positivamente frente a tal ladainha. Ora! Um estágio não institucional daria experiência profissional e pessoal ao estudante, isto quando não lhe garante alguma remuneração! E, dadas tais fortunas, é de se perguntar o porquê do apreço excessivo do universitário para com os números. Ouso apontar a direção.

O homem – no agora! – se fez indivíduo. Livre para defender seu interesse. A sanha do mercador contaminou a relação entre os saberes do mundo, a relação entre este mundo e o homem e o modo como este homem cria laços com outros homens. O Ser humano torna-se sujeito puro, e o estudante, ao crer-se como unidade, pouco liga ou se liga aos movimentos do socius. Para o aluno Psi, o que não compete a sua formação – a formação de si! – não possui valor!

Não lhe importam as precárias condições do Serviço de Psicologia Aplicada, pois ainda não é o seu tempo de estagiar; não lhe interessa uma discussão sobre reforma curricular, contanto que esta não interfira em suas notas; não lhe envolvem experiências fora da universidade, desde que estas acelerem a sua graduação. Os poucos implicados são tomados por arrogantes – metidos e intrometidos – isto quando não recebem a epítome de desajustados e subversivos, de acordo com um vocabulário psicológico tecnicista, experimental e positivista, reedição da verdade neutra e objetiva das revelações. Homens que se constroem fora da pólis, do público e do mundo, entorpecidos por uma interioridade subjetiva e privada que, mesmo sendo a maior riqueza do homem moderno, pouco dá de si para o bem do outro...

Jameson Thiago Farias Silva, aluno do 5º Período de Psicologia

domingo, 29 de novembro de 2009

Será?

Seguro minha onda no terminal rodoviário e não luto por sombra e água fresca. Perder um lugar ao sol pode me dar a sua companhia cá na terra dos homens em pé. Você não chega, entretanto. Torço, então, para que você ainda esteja a esperar seu sempre demorado ônibus no outro terminal de integração. Demorar a chegar em casa é um bom preço a pagar por esperar sua carruagem contigo. Não obstante, seu ponto está vazio de você. No caminho a minha morada, torço para que o acaso me presenteie com algum esbarrão. Distrair-me da caça de ti me oferece a surpresa do encontro. Tristemente, não vejo suas madeixas vistosas balançarem por aí. Chato, isso. O que quer que "isso" queira significar! Será? Será mesmo!? Curioso, "isso"...

domingo, 22 de novembro de 2009

Eu e o outro...

Tento, sempre que posso, falar e escrever como pessoa primeira, como “eu”, como sujeito implicado, só utilizando a insossa linguagem impessoal dos eruditos como possível recurso retórico. E, já que o “eu” se pronunciou, invoco o discurso cartesiano para fundar nossa discussão. Mas deixo claro que não pretendo atribuir a Descartes a criação do sujeito privado, da individualidade moderna ou do liberalismo. O francês apenas se nos afigura como um representante histórico, um resultante duma rede de tendências, como a alta da razão no Renascimento, o surgimento da imprensa e da leitura privada e os movimentos reformistas e contra-reformistas a valorizarem a interioridade individual.

No Discurso do Método, lemos o registro dum homem renascentista que, submetido a uma profusão de idéias e ideais a brotarem, prefere desacreditar a todas. Cético ao extremo, põe entre parênteses até mesmo a dúvida enquanto método – dúvida sobre a dúvida – dadas a falibilidade dos órgãos dos sentidos, a mutabilidade dos sentimentos ou, até mesmo, a suposta existência duma deidade maligna a nos enganar em todos os nossos juízos. Quando o pirronismo parece colocar Descartes numa seara insuperável, este encontra um fundamento para o conhecimento. Enquanto duvidava, existia ao menos o ato de duvidar e, para esta ação, supôs como necessária a existência dum sujeito pensante. Cogito, ergo sum!

Mudarei um pouco a trajetória, visando uma melhor colocação de nosso problema. Se pensarmos o comércio em termos de troca comunitária, podemos facilmente encontrar em todo agregado social alguma atividade comercial. É por demais comum o excedente de uma família ou clã ser trocado, eventualmente, pelo produzido por outros grupos, seja no medievo, numa aldeia indígena ou em cidades no interior de nosso Brasil.

Esta situação se altera, entretanto, quando a produção não mais intenciona o abastecimento dos feudos, voltando-se não à subsistência mas ao comércio mesmo. Já teríamos, aqui, um fundamento sólido o suficiente para sustentar o cogito cartesiano, visto que cada um procura identificar sua “especialidade” e nela aprofundar-se. Identifica-se com ela! Mas não paremos por aqui. O próprio mercado, enquanto lugar de compra e venda, cria a barganha, na qual o lucro dum torna-se o prejuízo doutro, e cada mercador deve defender seu próprio interesse. Quando todas as relações entre os homens se processam por meio da compra e da venda dum bem ou signo elaborado por particulares, quando – melhor dizendo! – o modelo do mercado é ampliado às demais esferas do relacionamento humano e o modelo do mercador torna-se experiência universal, naturaliza-se uma lógica egotista e individual na qual os interesses de cada um são mais importantes que os interesses do todo!

O homem – no agora! – se fez indivíduo. Livre para defender seu interesse. A sanha do mercador contaminou a relação entre os saberes do mundo, a relação entre este mundo e o homem e o modo como este homem cria laços com outros homens. O Ser humano torna-se sujeito puro e, ao crer-se como unidade, pouco liga ou se liga aos movimentos do socius. Os poucos homens implicados são tomados por arrogantes – metidos e intrometidos – isto quando não recebem a epítome de desajustados e subversivos, de acordo com um vocabulário psicológico tecnicista, experimental e positivo, reedição da verdade neutra e objetiva das revelações. Homens que se constroem fora da pólis, do público e do mundo, entorpecidos por uma interioridade subjetiva e privada que, mesmo sendo a maior riqueza do homem moderno, pouco dá de si para o bem do outro...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Intuição como Método

Lembro duma agonia que me trespassava o espírito - sim, era mais inquietante do que consigo relatar, mas menos dramática do que estão a imaginar - durante os períodos iniciais do curso de psi. Estudava práticas experimentais e estatística, naquele momento. Daí, encontro o mesmo pensamento, dia desses, ressoando nos versos iniciais duma poesia do Bergson. O menino, inclusive, tomou conta de meu vocabulário, tal qual aquele amigo com quem trocamos trovas, provas e prosas diárias. Canta o filósofo que nossas reflexões brincam com termos e conceitos que não correspondem às articulações do real. Sujeitamo-nos a problemas tais como são formulados pela linguagem. Corolário: dentro da própria pergunta que - previamente - formulamos, já se encontram as possíveis respostas que podem saná-la, respostas coexistentes ao problema colocado. Seja na filosofia especulativa, seja na ciência empírica, sejam em nossas práticas do cotidiano, trata-se mais de encontrar um verdadeiro problema que de resolvê-lo. O conjunto-solução é irmão gêmeo da função-problema e encontra-se coberto, em toda a sua simplicidade, pela complexidade de termos e conceitos da questão. Trocadilha o menino, então, que - posto o problema - resta des-cobrir a resposta.
Coisa bonita de se ver na obra de Bergson é a sua crítica aos falsos problemas. Lembrem de nossa conversa sobre o Zenão. Mudança, movimento e tempo postos em termos de imutabilidade, imobilidade e espacialidade. Zenão põe problemas que emperram, travam, dão bug. Melodia que cai no ritornelo, igual àquelas sonatas do Beethoven "executadas" num celular. Problemas que não levam à lugar algum, visto estarem bem fixados em espaços mal definidos. Igualmente mal colocado é o problema da origem do Ser. Quer o chamemos de matéria original, de razão espiritual, de princípio motor, de Deus ou de qualquer outra palavreta, caímos numa mesma querela. Para esta causa primeira, deve - seguindo a mesma lógica que rege seus consequentes - ter havido uma causa a lhe servir de antecedente. E uma causa da causa. E uma causa da causa da causa. E assim vamos desenrolando o novelho, como um gatinho brincante, até ficarmos totalmente paralisados numa rede caótica de pontos a nos emaranhar. Implícito a este problema está a seguinte crença: o Ser veio preencher um vazio, um nada que preexistia à existência deste Ser mesmo. Antes do Ser, não tinha nada. Ou, dito doutra maneira, antes do ser não tinha "coisa alguma"; ou, refinando ainda mais nosso pensamento, tinha o Nada!
O Nada, neste esquema, preexistia ao Ser como que de direito, sem exigir explicação. A superioridade de Bergson não está na sua inteligência. Ele não resolve o problema! Mas - garoto esperto - ele não o coloca. Sabe que quando se fala em Nada, caminhamos no terreno da pura especulação; lidamos, assim, com uma idéia pura feita para fazer funcionar o problema anteriormente posto. O Nada é só uma miragem, uma idéia, uma palavra. Pensar nestes termos vazios, nos quais o Ser brinda o Nada com a sua chegada seria - usando uma metáfora do próprio - supor que há mais numa garrafa bebida pela metade que numa garrafa cheia, pois nesta última há apenas vinho e, na primeira, vinho e vazio! Outra querela muito semelhante - e igualmente falsa - é a batalha dialógica em cima da Ordem universal e do Caos que o precede. A mesmíssima peça que, embora contracenada com atores outros, mantém os mesmos personagens.
Ambas as ilusões - tanto o Nada quanto o Caos - velam um mesmo erro. O erro de que há menos no vazio e na desordem que no Ser e na Ordem. Se forçarmos a vista só um pouquinho, veremos que há mais "idéias" no vazio que no Ser, na desordem que na Ordem, quando os primeiros representam algum conteúdo intelectual. Dois exemplos podem elucidar tal assertiva: um clássico, do Bergson; e outro meu, vividamente meu. Primeiro, o do menino. Se eu levo um brother para um cômodo de minha casa que ainda não mobiliei, direi a ele que no quarto não tem nada, mesmo sabendo que o ambiente está cheio de ar. E de poeira. E de teias de aranha. E de micróbios. Mas como não é sobre nada disso que sentamos nem é nenhuma dessas coisas que estamos a esperar ou precisar, nada disso conta. Tanto pra ele, quanto pra mim. Agora o meu exemplo, o qual já vivenciei pelos seus dois gumes. O professor que formula uma questão para seus alunos! Ao colocar um problema a ser resolvido pela classe, o docente espera uma determinada solução, aguardando que determinados pontos sejam cobertos pela escrita do alunado. Caso um respondente entenda a pergunta duma maneira inesperada ao professor, sua resposta será totalmente vazia de sentido a este. Será o mesmo que Nada! E é aí que caímos num outro termo mal-analisado: o possível. Com o desenrolar imprevisível da realidade, tendemos a projetar para o passado - retrospectivamente - aspectos que consideramos no presente. O possível é a miragem do presente no passado!
As questões, para Bergson, devem - antes de qualquer coisa - ser postas em termos temporais, não espaciais. Os conceitos e termos devem colar no objeto, respeitando a sua duração mesma. No entanto, se quisermos analisar a duração, seremos obrigados a entrar no jogo programático da inteligência e a seguir sua natureza. Devemos tentar recompo-la numa multiplicidade de estados de consciência sucessivos. Infelizmente! Sucedâneo de instantes, assim como a flecha de Zenão! Esta sequência de pontos - tão numerosos quanto mais obsessivo for nosso esforço intelectual - forma uma trajetória unitária. É o colar de contas bergsoniano! Essa multiplicidade abstrata e essa unidade abstrata, combinadas, não devem pretender sintetizar a duração num conceito, mas sim nos causar uma tensão bem determinada, nos instalar no ponto exato onde uma intuição pode ser apreendida. Intuição, esta, que é o "de-fora" da inteligência, visão sintética que, para ser objetivada, deve passar pelas analíticas conceituais - ponto por ponto - da linguagem intelectiva.
Se a linguagem, típica da inteligência, reúne todas as diversidades num único pacote conceitual pelas suas similitudes, a intuição tem, como objeto, a diferença. E aqui utilizo - Oh, menino que gosta duma poesia! - mais uma metáfora do Bergson (que ele pede emprestada de Ravaisson, na verdade) para nos indicar a clareira desta floresta negra. Pensemos nas cores do arco-íris, do vermelho ao violeta. Há duas maneiras de se fazer filosofia em cima delas. A primeira - inteligente - é dizer que todas são cores! Laranja, amarelo, verde, azul, anil. Mas faz-se notável que, para obtermos esta idéia geral - o conceito de cor - apagamos do laranja o que faz dele laranja, do anil o que faz dele anil, do verde o que faz dele verde. "Cor" é uma definição negativa, visto que representa o vazio. O trabalho deste filósofo é unificar o plural, extinguindo a luz que diferencia as diferentes nuances e confundindo-as todas na treva do universal. A unificação segunda - intuitiva - lida com os infinitos matizes e os faz convergirem, através duma lente, a um mesmo ponto. Este filósofo busca a luz branca, pura, do qual todos os raios multicolores provêm! Enquanto o primeiro pensa "o que é isto?", o segundo se questiona "o que faz com que isto seja isto e não aquilo?", "de onde provém isto?", "que se faz disto?" ou "como isto é possível?". Bergson, figurado como anti-intelectualista, não nos convida a abandonar nossas razões, mas a abrir os nossos olhos para uma casualidade para além do causal, do fixo e do determinado. Um convite que, embora ainda receoso e deslocado, eu já aceitei. Grita o menino em meus ouvidos: menos conceitos e mais vida!...