sábado, 22 de maio de 2010

Por um discurso vivo

A vida dói. Guerra! Viver é parto eterno, lançamento à diferença, salto no escuro, território desbravado, encontro de corpos. Produção de relações, atritos, choques, movimentos, intensidades. É sangue que pulsa. Explode, transborda e irriga! Viro a moeda, agora. O discurso anestesia. Paz! Discursar é tranquilizar inquietações, fixar identidades, construir caminhos, demarcar terrenos, separar joio e trigo. Produção de absolutos, ideais, separações, estáticas, quantidades. É vinho que paralisa. Deprime, nos faz falar demais e dá ressaca!
Depois da dramatização, conto minhas pessoalidades. Escrever, para mim, é tarefa por demais difícil. E não falo do ofício bilaquiano de tolher a palavra como se lapida um diamante. Não estou falando de métricas, harmonias ou de palavras pedantes. Mas falo da tentativa - sempre vã - de recriar a minhalma noutros corpos que não o meu. Sofro ao escrever como um asceta que faz seu sacrifício. Sofro porque trabalho e, na labuta, tento não só representar o pensamento em mim para os outros mas, no processo, criar um mundo em mim e para mim mesmo. É transformar em psicologia o vento que passa, o rio que corre, o fogo que canta e a terra que treme.
E, nessa onda, tento sempre usar uma terminologia diferente dos falatórios e escritórios cotidianos. Quando uma crítica ao positivismo começa a se tornar lugar comum, começo a discorrer sobre o progressivismo; quando a mobilização estudantil ganha ares de comício, passo a articular proposições; quando a política nos aparece como coisa grandiosa, chega o momento de falar das pequenas éticas. Social vira Coletivo, Identidade vira Subjetivação, Metodologia vira Deambulância. Daí, os senhores me perguntam: "Pra quê!?"
A questão não é tão elementar quanto o Sr. Holmes acredita. Não é (somente) a inflação de meu ego arrogante que está em jogo. Evitemos psicologizar os eventos sem necessidade e - diria o meu pensador favorito - coloquemos os conceitos em termos de Duração. O tempo que dura é um tempo que incomoda, angustia e impacienta. E é isto que a minha pessoa propõe quando fala pedantemente na praça com os seus convivas. A música não quer ser tocada - puro abuso! - mas sim tocar. A voz do profeta nada tem de ver com as ladainhas litúrgicas que, eras e eras após a enunciação do enviado, tentam reproduzir na assembléia passiva a atividade que se inventou a céu aberto!
Nossos bebês saboreiam muito bem esta verdade, visto sempre apontarem os objetos a que querem referenciar enquanto pronunciam seus primeiros balbucios. Recém emersos da vida, adentram no mundão das formas com a sabedoria excelsa do concreto. Quando crescem - triste, isso - aprendem o discurso. Sua palavra simples não mais aponta mundos, mas faz referência a si mesma. Blá-blá-blá, et cetera, tal, artigos acadêmicos, cartas teológicas, tratados artísticos. Vício de linguagem é ísso, aí! Piagetianos que me desculpem - ou não, tanto faz! - mas a criança não se des-envolve rumo a um adulto completo e perfeito, tal qual semente aristotélica a atualizar potencialidades; a gente grande é que ainda guarda um pouco da malinice do guri. Sendo pedante, falo da coexistência dos tempos ou - diria o meu pensador favorito [2] - da Memória.
Não se trata de representação, mas de sempre fazer presente o movimento característico da vida. Os livros mais vivos são aqueles viajantes, de leitura inicialmente árida ou que não pareçam fazer referência à nossa existência mesma. Mas é o contrário que se dá, pessoas! Acompanhem a receita: pegamos uma experiência ontológica, cósmica, coletiva, processual ou whatever e a transformamos numa competência psicológica; esta faculdade mental - unificação espacial dos processos - é, então, retirada do corpo; fora dum mundo e sem um corpo, a levamos ao fogo alto dos sistemas filosóficos para uma melhor purificação e deixamos descansar no mundo dos discursos. Tic-Tac, Tic-Tac e Tcharam! Uma mente quentinha, pronta para consumo. Uma mente que, justamente por não pertencer mais à vida, não reconhece quando apontamos para ela.
Se a vida dói, um discurso vivo deve - igualmente - causar dor. Deve ser difícil de escutar e pesado demais para se pronunciar sem gaguejos. Rasga gargantas e ouvidos, dedos e olhos. Um discurso vivo é sempre temperado com maionese; faz viajar pois exige um esforço para além do intelectual ou - diria o meu pensador favorito [3] - suscita Intuições. Blanchot fala do livro por vir; Deleuze, do escritor do futuro; Foucault, bêbado de Nietzsche, escreve por uma história efetiva. Todo discurso - seja fala, seja escrita - deve evitar cair no falatório ou no escritório do homem mediocrático. Superar a condição humana e trabalhar numa existência que faça nossas mais enraizadas certezas se tornarem arbitrariedade: esse é o trabalho do discurso vivo! Apontar à vida que corre e escorre enquanto falamos e escrevemos. O poeta escreve, mas cria e se cria numa existência poética antes de sacar a pena. O orador fala mas, antes de pôr em tópicos a sua alma, mergulha na vida comunitária que lhe dá o que falar. Calar nunca! Mas discursar sempre com a mente no corpo, com o corpo no mundo e com o mundo jogado entre tantos outros mundinhos...

domingo, 9 de maio de 2010

Da Fabricação à Realidade (II)

Um livro em meu colo; um computador pessoal em minha frente; uma cadeira a me sustentar; uma mesa, ao longe, sob uma pilha de textos que - preguiça dantesca! - tenho de ler ainda hoje. Todos estes objetos que me cercam são, ao mesmo tempo, "fabricados" e "reais". Fácil entender isso. Mas o problema que o Latour nos apresenta, no tocante aos objetos científicos, não se nos afigura tão simples assim. Sua tese paradoxal: é, justamente, por serem artificiais e fabricados que tais objetos científicos adquirem uma existência autônoma independente desta mesma artificialidade e fabricação!
A aparente viagem na maionese empreendida por Latour torna-se ainda mais paradoxa quando percebemos duas epistemologias contraditórias se justapondo no enunciado acima; a saber, um Construtivismo e um Realismo. Pra melhor preparar nossa salada, uma pitadinha a mais de Pasteur e de seu ácido lático não nos fará mal. Um experimento, como já coloquei em postagem anterior, é um ato - metáforas teatrais e musicais são válidas, aqui - montado pelo cientista/diretor/humano/Pasteur para fazer o objeto/atuante/não-humano/fermento aparecer por si mesmo. O labor e a oração do cientista fazem com que um outro plano de referência - uma transcendência absoluta, derivada dessa imanência relacional - se desenvolva. A referência do cientista-diretor delega, através de sua atividade, existência à referência do objeto-ator.
Esse é o momento em que invocamos nossos palavrões mais escabrosos diante de tão confusa explicação! É aqui que nos perguntamos: qual o problema da distinção sociedade-natureza, epistemologia-ontologia, palavras-coisas? Pra que precisamos dispender tanta energia intelectual nessa colcha de retalhos filosófica que o Latour nos traz se, ao que parece, o acordo moderno que distingue história de realidade é bem sucedido em trazer felicidade a todos nós? Por que não nos damos por satisfeitos com a clássica solução do paralelogramo, que considera o experimento científico como a resultante de dois eixos, o dos estados de coisas e o das tendências e teorias?
Segundo esse modelo, se nenhuma força for exercida pelo eixo das humanidades, teremos acesso ao estado primeiro das coisas. Se os cientistas acreditam nisso não sei, mas o seu Luís - afirma Latour - certamente não cairia nessa, pois sabe a trabalheira que deu tornar visível seu fermento e fazê-lo circular entre seus colegas da Academia. O contrário, caso a força exercida pelo eixo das coisicidades fosse nula, resultaria em que nossas sentenças sobre o mundo seriam configuradas unicamente por nossas teorias e paradigmas legadas pelo social. Pasteur, mais uma vez, não daria muita bola para essa assertiva. Como tão lindamente formulou o Latour, Pasteur autoriza o fermento a autorizá-lo a falar em nome dele. Nossa dificuldade em entender o encaminhamento de Pasteur está na relação de identidade que o próprio estabelece entre duas sentenças que consideramos contraditórias: "o fermento foi fabricado em meu laboratório" e "o fermento independe de minha fabricação" são sinônimas para o nosso amigo Luís! Um realismo construtivista nasce aqui!
Deixamos escapulir, uma vez mais, aquele palavrão inicial. Confusão dos diabos esse Latour causa com seus jogos de linguagem! Uma confusão esclarecedora, no entanto, assim como aqueles aforismos incompreensíveis que um sensei lança ao seu neófito gafanhoto, na esperança de que a flecha atinja seu espírito. Para melhor se fazer entender, Latour utiliza de metáforas outras, para além do paralelogramo. Fala do teatro, para mostrar os dois eixos operando ao mesmo tempo; mostra a metáfora do fetiche, que explica o porquê de esquecermos o trabalho que realizamos para completar a obra e de cedermos à sua autonomia; constrói um modelo ótico, visto fixarmos o olhar em coisas independentes; discorre sobre indústria, para falar da realidade como transformação; apresenta o modelo da trilha, colocando toda mediação em termos daquilo que torna possível o acesso às coisas; e, finalmente, apresenta a articulação - sua melhor metáfora - que enfatiza a independência da coisa, revela os dois eixos ao mesmo tempo, toca no experimento como acontecimento histórico e liga a realidade à quantidade de trabalho!
Não obstante, todas estas analogias bonitas estão erigidas no modelo linguístico das assertivas, no qual há o mundo mudo dum lado e o humano falador doutro. O que o Latour propõe não é mais uma engenharia ou metáfora para suprir o vazio existente entre estes dois mundos, mas um chamado "modelo de proposições", proposições estas que não são nem palavras nem coisas, nem um intermediário das duas. Proposições são atuantes (em exemplo, Pasteur ou seu fermento ou seu laboratório ou a Academia...)! Não são substâncias mudas com uma natureza, mas "ocasiões" de contato entre diferentes entidades, que permitem às mesmas modificar suas definições no curso dum evento (em exemplo, um experimento).
No modelo canônico das assertivas, referenciar é fazer a assertiva corresponder a um estado de coisas, embora criar uma tal semelhança seja impossível. A palavra "fermento" não fermenta! Já no modelo de proposições, não se trata de criar uma ponte por sobre o abismo sujeito-objeto, mas de articular (e aqui nos reapropriamos da metáfora da articulação, mas posta sobre um novo terreno). Aqui - espero que já tenham percebido - o Latour apresenta uma lida totalmente diferente para com a linguagem. Se nos aparatos linguísticos tradicionais a mente humana está cercada de coisas mudas, no novo modelo a articulação se torna não uma função humana, mas uma propriedade das entidades e coisas mesmas, ou melhor, das proposições! Quando Pasteur fala, ele não enuncia em palavras a natureza ontológica do fermento, mas "propõe" que consideremos aquele subproduto duma reação puramente química uma entidade viva e autônoma.
Os termos que o Latour utiliza - ação, testes, evento, articulação - ganham nova significância com o modelo das proposições. É graças à artificialidade do laboratório que o fermento de ácido lático se torna articulado, ganhando estatuto próprio devido à Pasteur, seus experimentos, alguns artigos seus, artigos de outros acadêmicos, ações e reações mil. Articular proposições, aqui, não é simplesmente falar. Nós falamos justamente porque as proposições do mundo são, em si mesmas, articuladas! Confuso? Não mais! Complexo? Talvez! Tal modelo coloca uma relação inteiramente diferente da visão tradicional do homem com o mundo; modelo este que, embora de difícil digestão, é muito mais exato no tocante a capturar a atividade científica que a simples correspondência estéril entre um discurso e um estado de coisas de um mundo "lá fora"...
LATOUR, Bruno; “Da Fabricação à Realidade";
In: A Esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos; trad. Gilson C. C. de Souza; Bauru, SP: EDUSC, 2001; pp. 148-167.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Menininha de vermelho


Não te amo mais! Grito do fundo de meus pulmões ofegantes. E choro. Lágrimas doces que umedecem o sal da terra. Afundo na lama. Acima de minha cabeça, você. Nas nuvens. Lá, lá longe onde Platão colocou suas idéias. Imagem reluzente, menina escarlatina, deusa da incerteza. Ideal era você. Amava eu sua perfeição. Parecia-me perfeita até demais, diriam os homens de pouca fé. Outros, mais atentos ao chão, diriam que você - tal qual forma geométrica - encaixava bonitinho em meu projeto de mundo justo. Weltanschaaung, como bradam os alemães. Povinho de lingua dura e de argumentação mole. Românticos por demais. Chega um momento em que o pescoço dói, de tanto que olho para as alturas. Por mais longos que sejam seus cabelos, não consigo tocá-los. Cansei! Chuto seu pedestal! Fatalmente, você cai. Se se machuca, não ligo. Estou fatigado demais pra me importar com as dores dum corpo que não o meu. Viro as costas, mas você - chata! - teima em cair em cima de mim. Desconfio que com propósito. Feridas se abrem e resultam numa hemorragia de verbos. Fico tingido de sua vermelhidão. E sinto teu corpo, agora. Deixo de te amar! Independe de mim mas, mesmo se quisesse, não poderia mais te jurar eternidades. Você deixou de ser e passou a existir. Saiu de minha cabeça, escapuliu de meu coração e tomou conta de mim por completo. Não mais amo, mas agora gosto. Gosto de você! De todas as suas inconstâncias, multiplicidades e temperamentos. Qual é a sua!? Fico tentado a perguntar. Num dia, gargalhamos. Noutro, um sorriso-nojinho acompanha teu aceno de mão. É típico desse mundo sensível ser incerto. A bela verdade da sua imagem deu passagem ao frio na barriga que as tragédias e seus finais imprevistos me causam. Troquei a segurança e a calmaria do céu pelas ondulações traiçoeiras do oceano. Não consigo voar, mas nadar eu sei. Desconheço seu intento mas, enquanto meu barquinho de papel aguentar, estarei derivando por aí. Com ou sem você...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

μουσική τέχνη

Expressividade e Técnica. Dois modos de operar frente às coisas e pessoas que recheiam e revestem o mundo. Ambas relacionam-se com outra dualidade, figurativa dos modos de como o sujeito se produz nessas operações; a saber, o Amor e a Fé. O Expressivo, em toda a sua dramaticidade profunda, é antípoda do Técnico, objetivo e pragmático; o Amador, criador e criatura de sua própria arte, é enantiomorfo ao Profissional que prega e é pregado pela sua liturgia. Quatro tipologias: o Técnico Profissional, o Expressivo Amador, O Técnico Amador e o Expressivo Profissional; não categorias psicológicas de aprisionamento do pensar mas nomes de ação que representam, retrospectivamente, atributos em pacotes de linguagem. Não conceitos, mas imagens! O que nos aparece como tipos de personalidade deve ser encarado como políticas de conhecimento que podemos agenciar. Para esclarecer este pensamento que acabou de se dar em mim, uso a música - arte das musas! - como norteadora de nossa reflexão.
De início, peguemos o Técnico-Profissional. O mais inteligente de todos! E, como sabem os bons leitores deste blog, isto não foi - necessariamente - um elogio. Assume um repertório padrão. Ele sabe o que deve tocar e o faz muito bem. Estudioso, compenetrado, ordeiro, leva seu trabalho muito a sério. Músico caro! O pianista solo, o violinista spalla, a primeira soprano. O maestro! Sua música é canônica; sua composição, acadêmica. Pensa em claves e sente em escalas. De costas à vida, o maestro é homem erudito. Com um gesticular, o maestro se constrói sujeito unificado de poder, detentor de varinhas mágicas a fazer calar as pessoas e a fazer falar instrumentos. Gramático instrumental! Seu ouvido é absoluto, visto não escutar nenhuma relação fora de seu próprio círculo. Ou quadrado!
Já o Expressivo-Amador funciona numa órbita desconectada às intelectividades do maestro. É um músico das intuições. O maestro se faz músico de platéia ao purificar e afastar sua obra da mesma; o Expressivo-Amador, tomando a via inversa, constrói seu império na solidão dum quarto, mas inspirado pela multiplicidade de afetos que lhe atravessam. É o auto-didata! Músico raro, o auto-didata não segue planejamentos, ementas e objetivos em sua caminhada. Toca sozinho, para si, mas leva o mundo em cada nota que atravessa sua garganta e em cada batida que trasteja seu violão. Tímido, treme frente a um outro. Tem medo das unidades, principalmente quando espreitam em grande número. Toca e, em cada toque, é tocado; compõe e, em cada composição, é destruído e recriado. O auto-didata quase nunca expressa o que os ouvintes lhe pedem, mas sempre toca os seus ouvintes com as músicas que pedem para ser expressadas!
O Técnico-Amador é uma outra figurinha que apresento em meus pacotes de linguagem. Costuma ser, embora nem sempre, uma derivação de um dos dois tipos anteriores. O Técnico-Amador é o músico de vanguarda! Tanto o maestro pomposo que passa a sentir enjoos da altura de seu pedestal quanto o tímido auto-didata que resolve melhor articular as suas práticas. O vanguardista tem a posse dum considerável acervo teórico e duma experiência prática invejável, mas tudo isso só lhe é de valor quando possibilita movimentos. Não gosta de fazer arte sozinho e abomina lugares fechados, sejam pequeninos quartos abafados sejam teatros titânicos. Toca no e para o mundo, mas - longe de fazer de sua produção um produto - é um músico sem público. Inteligente e intuitivo, o vanguardista compõe para um ouvinte ainda por vir!
Por fim, o Expressivo-Profissional. Deste, temos inúmeros exemplares saltitantes por aí e, mesmo sendo o mais numeroso dentre os quatro, é o mais desprezado dentre todos os músicos. O Expressivo-Profissional - dizem - é um preguiçoso lânguido que não possui rigor em suas práticas e não transborda sentimentos sinceros no seu interpretar. Pensemos num luau. É noite, uma lua minguando no céu, uma fogueira que quer se apagar, algumas garrafas abertas de vinho, melhores amigos e totais desconhecidos se acomodando em círculos e - não podia faltar! - aquele cara com um Kashima desafinado a destilar alegria em cada acorde mal feito que executa. O violeiro é odiado pelo maestro por não saborear o conhecimento acumulado que os deuses em forma de homem nos legaram; é odiado pelo auto-didata por maltratar o instrumento com harmonias pobres de vida interior; e é odiado pelo vanguardista por tratar a música como objeto de consumo. O violeiro, no entanto, toca para agregar amigos, selar amizades, sanar desavenças, suscitar risadas, improvisar coros, possibilitar o programa de final de semana. Sem o violeiro, o luau não teria Graça!
O maestro produz música pura mas dá as costas à vida. O auto-didata compõe com seu próprio sangue, mas nunca o faz para fora de seu quarto. O vanguardista cria sons nunca dantes escutados, mas nem sempre se esforça em criar um mundo para acolhê-los. O desprezado violeiro, por sua vez, embora não ligue para estudos, interioridades profundas ou inovações, tá no meio das gentes. É o mais real e vivo de todos os musicistas, embora nem músico o coitado seja considerado! Pobre de sistemas teóricos, intuições sentimentais ou arroubos criativos, o violeiro é alegria pregnante, rico de relações, prágmáticas e articulações. É o verdadeiro sacerdote das musas gregas, a cantar e a encantar as multidões. A cantar e a encantar junto das multidões! Isolemo-nos para intuirmos musicalidade; registremos nossas intuições; tragamos a revolução! Mas que ninguém se esqueça de, no final de semana, fechar livros e anotações, chamar chegados e desconhecidos, abrir garrafas e bocas. O discurso se cala, numa sexta-feira à noite - ainda que chuvosa - para dar lugar à vida...

quinta-feira, 18 de março de 2010

Da Fabricação à Realidade

Palavras e coisas. Entre os dois, um abismo colossal que tentamos suprimir com nossas engenharias de correspondência e representação. Com o Bruno Latour, a conversação é outra. Não mais a verticalidade do abismo entre discurso e mundo, mas a transversalidade das artérias pelas quais circulam as cadeias de transformações. O único discurso razoável e verossímel de uma mente sobre o mundo seria aquele que considerasse o maior número de relações que possibilita à ciência - e a própria mente, não mais isolada - existir! Se numa epistemologia tradicional quer-se libertar a ciência da sociedade, trata-se agora de ligar nossos saberes ao coletivo.
É comum escutarmos, pelos salmos dos estudiosos da ciência, jargões como "construção", "fabricação" e símiles no tocante à ação da ciência no mundo. Bonito, isso! Coisas, objetos, mundo; tudo é construído! Não obstante, essa metáfora bonita nos passa a idéia de que, se algo é fabricado, construído ou qualquer coisa que o valha, então este algo é falso e merece ser descontruído! "Coisa de pós-moderno frouxo!", resmungam os soldados da ciência. "Construir" e "fabricar" devem - segundo o Latour - ganhar novas significâncias, para além da analogia do mundo enquanto playground vazio à espera dos humanos brincantes.
Para a tarefa de Hércules, Latour se apropria do Mémoire sur la fermentation appelée lactique, considerado um dos textos mais importantes de Louis Pasteur. Através deste, Latour põe em ação duas narrativas: uma primeira, ontológica, sobre a conversão de atributos/desempenhos em uma substância/competência coesa (o que se aplica tanto ao ácido lático quanto ao próprio Pasteur); e uma segunda, epistemológica, acerca da construção dos fatos (e as implicações humanas e não-humanas deste desenrolar).
Logo no comecinho de seu artigo, Pasteur dita que a fermentação do ácido lático não possui uma causa óbvia. Se há algum fermento no meio desse processo, seria apenas um produto acidental e desprezível envolvido numa fermentação puramente química. Mas deixem-me situar, ligeiramente, o cenário de nossa historieta! Século XIX, círculos científicos, química de Liebig. Afirmar que um organismo vivo é o responsável por um processo de fermentação seria dar um passo atrás nas contribuições do senhor Justus e retornar às antigas explicações vitalistas que colocavam mais entraves e problemas que soluções e encaminhamentos.
Pasteur, ao que parece, pega bem essa onda. Não obstante, numa escrita abrupta, Luís grita: É ele - sim! - é ele, o fermento, que desempenha o papel principal! E, com este grito mágico, o fermento - que não passava de uma massa cinzenta aderida nos lados superiores do recipiente - torna-se, deveras, um fermento; deixa de ser nada e passa a ser alguma coisa! E o Pasteur, assim como a massa cinzenta do recipiente, também é transformado num outro, diferente daquele de antes do experimento! Este último ponto, prometo, ficará claro logo mais adiante. Tenham paciência, caros, e continuem a acompanhar nossa aventura. De começo, o leitor do artigo encara um mundo no qual o fermento/matéria orgânica é um substrato irrelevante ou mesmo decadente ao processo químico. Ao final do artigo, o leitor é transportado a um mundo no qual o fermento é uma forma de vida bem identificada e essencial ao processo químico em questão. Latour põe o problema: como Pasteur fez surgir, daquelas manchas cinzentas, uma entidade coesa (a saber, o levêdo da fermentação do ácido lático...)? Sua resposta: a nova entidade é um objeto que circula campos e mais campos de provas e transformações!
Não falei coisa com coisa, eu sei! Tentei explicar e trouxe mais confusão à saga. Mil desculpas! Uma vez mais peço mansidão aos corações dos senhores. Toquemos o barco que, assim espero, esta questão também será clareada. Sério! E, para abrir a mata rumo à essa clareira, Latour nos apresenta o seu conceito de nome de ação: uma série de desempenhos precede a criação duma competência que, no futuro, será considerada a causa destes desempenhos mesmos! Pegadinha: posso ser polvilhado, provoco reações de fermentação, turvo líquidos, consumo giz, formo depósitos, produzo gases, gero cristais e sou viscoso. Quem sou eu? Em primeiro, isto é apenas uma lista de itens que o Pasteur, provavelmente, registrou em seu caderninho enquanto traquinava no laboratório. O máximo que conseguimos tirar desta lista de itens é um ente frágil e indeterminado que, por enquanto, não passa de fruto da imaginação do Pasteur!
Seu Luís, não obstante, esmera-se para dar um estatuto ontológico à massa cinza que bordeia o recipiente. Mas do mesmo jeitinho que não basta ao bom candidato mostrar seu talento para ser considerado um ator, não basta fazer coisas para ser uma coisa! É necessário um contato, um peixe, uma ação por fora do palco, um ato por detrás das cortinas! Pasteur não hesita em mexer seus pauzinhos para pôr seu candidato sob os holofotes e compara o seu funcionamento, seu estilo de atuação, ao do já consagrado lêvedo de cerveja. A massa cinzenta recorre a um ator já estabelecido nos palcos da academia e, de mancha viscosa, passa à condição de entidade biológica, podendo inclusive ser organizada taxonomicamente. Não é, tão somente, um caso de transporte de informações que se transformam, mas é o próprio fermento que possui sua história de alterações ontológicas, passando de uma lista de atributos vagos à uma substância plena e viva!
Um ator se define através de suas atuações. Inferência simples, esta. E, para que o fermento bem-atue, o cientista elabora testes para o atuante mostrar quem é e como interage com outros atuantes. As cortinas do laboratório-cenário são levantadas por Pasteur para que seu novo candidato possa ser testado nesse mundo artificial. Desempenhos agregam-se numa competência! A mancha torna-se "O Lêvedo do Ácido Lático"! Num movimento posterior, a peça é encenada aos colegas acadêmicos de Pasteur, que dão o veredito quanto ao espetáculo. Noutros termos: há um primeiro teste, que se resume num conto de fadas, uma historieta linguística; um segundo teste, que é a configuração duma situação (aparentemente) não-linguística (tubos de ensaio, o fermento, o próprio Pasteur e seus ajudantes); e um terceiro, que é a tentativa de Pasteur - nos dois testes anteriores - em atribuir a competência do fermento ao próprio fermento, e não a sua habilidade retórica em inventar um teste para revelar um novo ator!
Um experimento, destarte, é um texto escrito para ser avaliado por outros para saber se é, tão somente, um texto. Caso a prova final seja bem-sucedida, entende-se que o texto não é, simplesmente, literatura ficcional, e que há verdade por detrás dele. O ator prova sua competência e o autor da novela, claro, também é modificado no processo; se Pasteur, através de seus testes, ajudou o fermento a se revelar para o mundo, o fermento ajudou Pasteur a ganhar uma medalha, a publicar um artigo e a se afamar na academia!
O fermento muda, Pasteur muda, a academia muda. Mas o que é exigido, no meio de tanta mudança, é a estabilidade do fermento. Não importa o quão engenhoso foi Pasteur ao criar seus dispositivos artificiais, os testes de seus colegas devem atribuir a invenção do fermento ao próprio fermento. Fato e artefato. Deste lado, as coisas são construidas; daquele, não há artificialidade nas coisas. E aqui esbarramos no principal entrave dos conceitos "construir" e "fabricar": tudo o que acontece, no vocábulo da ciência, é a descoberta do que já estava lá, seja "lá" a natureza ou a sociedade ou o que quer que seja. Um experimento - fabricado e não-fabricado ao mesmo tempo, saliento - enquanto "descoberta do que já estava lá" sempre vai apresentar um buraco, uma incógnita para a compreensão da originalidade na ciência. Para tampar este buraco, temos numerosas arquiteturas: a natureza exterior, sujeitos transcendentais, paradigmas sociais. A novidade científica, entretanto, se dá porque o experimento não é um "jogo zerado" ou um playground vazio à nossa espera; desvelamentos, a priorismos e potencialidades são apenas rebocos para sustentar um prédio destinado a ruir.
A ciência evolui por meio do experimento. Verdade. Mas o experimento não é uma descoberta, mas um evento circunstancial e histórico; história, esta, de humanos e não-humanos. Um evento no qual todos os envolvidos saem diferentes de como entraram: vide o fermento e Pasteur e mesmo a química acadêmica! Experimento enquanto evento e evento enquanto transformação. Espero, com este post, ter trazido alguma luz - ou, ao menos, não obscurecido de vez - à discussão desempenhos/competência para, assim, poder entrar de vez na temática de construção de fatos e o conflito - enfrentado pelo Pasteur - entre construtivismo e realismo...
LATOUR, Bruno; “Da Fabricação à Realidade"; In: A Esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos; trad. Gilson C. C. de Souza; Bauru, SP: EDUSC, 2001; pp. 133-148.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O Almoço dos Barqueiros

"Depois de tantos anos, o único personagem que ainda não consegui captar é a moça com o copo de água. Ela está no centro e, no entanto, está fora."
"Talvez seja diferente dos outros..."
"Hã? Em quê!?"
"Não sei."
"Quando era pequena, não devia brincar muito com outras crianças. Talvez nunca!"
"..."
"..."
"...talvez seja porque está pensando em alguém."
"Em alguém do quadro?"
"Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar, e sentiu que eram parecidos."
"Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes."
"Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
"
E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?"

terça-feira, 9 de março de 2010

Fabuloso Destino

"Psiu... Psiu... Queria saber mais, hein?"
"Vocês a conhecem?"
"Claro que a conhecemos
. Ela nos colocou no bolso da sua blusa! Contra o seio!"
"Ela
é bonita?"
"Nada mal! Nada mal. Nada mal... É linda! Não, é bonitinha. Não, é linda!... Não, é bonitinha..."
"E o que ela quer de mim?"
"Está dura. Quer uma recompensa pelo álbum... Ou também coleciona fotos 3x4... Isso! E, como já tem a gente, quer nos trocar por um zarolho de óculos!"
"..."
"Claro que não, cretino! Ela está apaixonada!"
"Mas nem a conheço..."
"Claro que a conhece!"
"Desde quando!?"
"Desde sempre!... Em seus sonhos..."