quinta-feira, 17 de março de 2011

Mulheres de Atenas

Pois é, caros. Numa terça-feira que já passou, datada em 8 deste mês, se deu o Dia Internacional da Mulher, com iniciais maiúsculas e tudo o mais. Se é motivo para festejar, eu não sei. Não creio nisto. Mas assim que acordei, uma das mulheres de minha vida disparou: "Hoje é D.I.M.!" Não soube o que dizer ou fazer, ficando encabulado com minha falta de tato. Eu deveria ter lembrado, certo? Disto, também não sei. Nunca senti a necessidade de demarcar uma coordenada temporal para minhas mulheres. Sempre achei, caindo no clichê pop-rock, que todo dia podia ser dia de algo, de alguém, de alguma coisa ou de coisa alguma. Dia da Mulher, pois! Penso, então. Os outros dias não o são? Caso não, de quem o são? Do homem!? Sim, ao que parece, visto ser a única peça que falta no mosaico. Os dias todos são do homem, são coisa do homem, do homem-varão, do Hermes. E não há nada mais masculino que a criação dum dia para a mulher, intuo num raciocínio ligeiro. Deixo a idéia de molho.
Saindo do pensatório cotidiano, resolvo fazer uma rápida pesquisa sobre o que, afinal, se deu no 8 de março para que tal dia passasse a representar o feminino. A história. Em 08/03/1857, tecelãs nova-iorquinas ocuparam a Cotton, fábrica de tecidos na qual trabalhavam, para resistir às condições trabalhistas que regiam a produção de então. Devir-mulher a agenciar um mundo que ainda não tem o seu lugar. Utopia. A manifestação, violentamente reprimida, causou a morte de 129 mulheres que, trancafiadas na fábrica, acabaram carbonizadas pelo ataque incendiário da polícia local. Assusto-me. Continuando a pesquisa, ademais, descubro que só em 1975 - 35 anos atrás; 118 anos depois do acontecido! - a ONU resolve oficializar a data, visando sempre reavivar o espírito daquelas mulheres que, ardentes de fogo e de revolução, queriam problematizar a sua posição no mundo.
As mulheres de Nova York não se parecem muito com as suas congêneres gregas. Chico, o bento, dizia: Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas... Vivem pros seus maridos... Sofrem pros seus maridos... Despem-se pros maridos... Geram pros seus maridos... Temem por seus maridos... Secam por seus maridos. Muitos interpretam - e interpretar é coisa dos homens, dos sacerdotes de Hermes - que a canção destila ironia. Outros, numa hermenêutica ainda mais profunda (o homem profundo é a falsa mulher, é o falso sensível), falam que o estoicismo da ateniense é uma metáfora para a resignação do brasileiro frente à ditadura (blá-blá-blá-e-coisa-e-tal). O estudioso, o intérprete, o homem coloca essas duas possibilidades. Ou isto ou aquilo. Pode, ainda, ser aquele terceiro que esquecemos de considerar. Tanto faz. Mas o que diria a mulher, a ateniense, a esposa de sua própria situação!?
Nada. Pois a fala se dá na praça, sempre na praça, sempre entre outras falas, e a mulher de Atenas não sai de sua casa. Vida privada, privada do espaço público dos homens. Será? Idiota era o homem que permanecia em casa, com as mulheres, e não assumia o seu papel na assembléia, junto dos outros barbados. Mas a mulher, ela mesma, não era idiota. A mulher "suportava" o homem, dava suporte a seu homem e lhe criava as condições para que ele pudesse estar nos aerópagos. A mulher é o essencial invisível aos olhos. É o ser. Enquanto os falantes estavam lá fora no jogo da política e da ética, as mulheres - do lado de dentro - cuidavam dos pequenos, dos futuros varões a ocupar a praça do porvir; cuidavam da casa para acolher as línguas cansadas ao final do dia; cuidavam do seu homem a todo o momento de sua existência, enfim. Sorge heideggeriano. Era assim que participavam da cidadania grega. Não aos modos de suas colegas romanas, filósofas dos bastidores, a titeritar e manipular imperadores, mas com o silêncio e a imobilidade.
Não se trata de resignação. Helena não é Amélia! Há silêncio pois a mulher é indizível. Há imobilidade pois a mulher é o puro inefável. A língua divina é língua silente, inaudível aos ouvidos humanos. Hermes, então, traduz os ditos para que céu e terra se encontrem e se comuniquem. Hermes é deus-tradutor, deus-falador, deus-esmiuçador, mensageiro de seus irmãos divinos para os homens ao sopé do Olimpo. Socrátes muito deve suas habilidades de forja e escultura a Sofronisco, o senhor seu pai. Mas não existiria filosofia se não fosse Fenarete, sua mãe parteira. Chronos, deus-pai, precisa de Gaia, deusa-mãe, para que tudo corra nos conformes. Adão, homem-terra, precisa de Eva, mulher-semente, para arborescer. O próprio Todo Poderoso, para a realização de sua maior epifania, fez-se carne e submeteu-se a uma jovem menina que o suportou.
Pensadores de todos os tempos tentaram representar essa dualidade do real. Idealistas e materialistas, patrísticos e escolásticos, racionalistas e empiristas, dialéticos e positivistas, espiritualistas e fisiologistas, pós-modernos e experimentalistas. Problema mais mal colocado, este. Separa-se, desde sempre, o corpo de seu espírito e montam-se trincheiras para organizar os exércitos que defenderão um ou outro dos lados. Matéria visível e seu fantasma translúcido. Homem e mulher. Anér e Gyné. Spinoza fala que Deus é a alma do universo, sendo o mundo seu corpo. Deus que é corpo palpável e alma intangível. É tudo e todos. O homem é unidade, é matéria, é ser vivo, é a soma de todos os corpos reais e, mesmo, possíveis. Hermes. A mulher é o heterogêneo, é espírito, é a vida mesma, é o elã a atravessar todos os elementos e lhes dar uma evolução comum, um plano comum, um mesmo conjunto. Afrodite. Terrível. Bela. Amante. Mãe. Deusa. Incompreensível.
Dizer que Chico Buarque vende menos discos que o Luan Santana pelo fato deste possuir CD´s mais baratos é uma interpretação. Dizer que a noção skinneriana de comportamento operante é uma crítica mais bem colocada ao behaviorismo metodológico do que as estruturas merleau-pontyanas por estas serem menos famosas que aquelas é uma interpretação. Dizer que a educação das crianças parisienses é mais adequada ao gênero humano que os rituais de passagem dos Cherokee devido ao resultado dos francesinhos na Escala de Binet-Simon ser maior que o dos little indians é uma interpretação. Afrodite, porém, não interpreta. Ela manda a Psiqué aos infernos, lá onde Hermes não chega! Ao invés de preços, começa a falar de fomento à cultura, investimento libidinal midiático e ditadura militar. No lugar de argumentos mal ou bem elencados, diz de políticas departamentais nas academias. Em vez de buscar respostas nos testes psicológicos, fala de transculturalidade e antropologia simétrica. Hermes busca espaços seguros para pousar e fixar suas raízes. Afrodite temporaliza. Hermes quer categorizar. Afrodite diferencia. Hermes procura as soluções. Afrodite problematiza. Instituído e Instituinte? Nesta política da contrariedade ambos se igualam, tornam-se Instituição. Deus é Elemento do Mundo e Alma do Universo, é Hermes e Afrodite. Hermafrodita. Andrógino. Ser Integral. Corpo sem órgãos. O homem examina as peças, delineia os funcionamentos e esquadrinha os procedimentos. A mulher joga a questão para fora, articula as partes e produz o novo. Todos os dias - 1, 2, 3, 28, 31 - são do homem. O 8 de Março é da Mulher? Não. Esta não pode ter dia, hora, minuto, segundo que seja seu. Por mais que estrangulemos o tempo em intervalos menores e menores não encontraremos o invisível da mulher. Ela é o fluir. É o "entre", entre um e outro.
O 8 de Março é a mulher feita homem. É "O Feminino". Mulher hermética, fechada, que perdeu seu perfume afrodisíaco. A mulher entrou no mercado de trabalho. A mulher ganhou o direito do voto. A mulher tornou-se livre pensadora. Mentira. A mulher, aí, fez-se homem e tornou-se coisa visível. "O Feminino", repito feito professora maternal. A economia, a política e o pensamento não se tornaram mais silenciosos com isto. Ao contrário, ganharam mais corpos. Mais elementos a serem analisados e interpretados. O homem ganha e fortalece seu poderio. Mas a mulher, memória solar cada vez mais esquecida, continua a existir para além da luz de neón dos muitos planetóides hominais. O homem é ponto material. Sistema solar, no máximo. Mulher!? É Sol, calor, paixão. Homem é boca, mulher é o beijo dos enamorados; homem é olho, mulher é a visão da aurora; homem é nariz, mulher é o perfume de pintanga dela e o pós-barba dele; homem é face, rosto, identidade, mulher é falsidade, rostidade, afecção pura. É teia de aranha, é rede virtual, é conexão, é cyborg, é máquina desejante, é híbrido, é bricolagem, é a vida do vivo, é o movimento da bala de revólver, é a alma de Frankenstein, é a surdez de Beethoven, é a impressão nas molduras de Monet, é a expressão nas películas de Murnau. Homem é homem. E nada mais...

quinta-feira, 3 de março de 2011

Blocos de duração

A Empire, uma revista britânica de cinema, listou - em junho do ano passado - o que considera ser os 100 melhores filmes do cinema mundial. Britânicos e estadunidenses não entraram na lista. Au concours? Não creio. De qualquer maneira, fico feliz ao perceber que conheço - de vista ou de lida - mais da metade dos listados. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre Jeunet, França, 2000). A Liberdade é Azul (Krzysztof Kieslowski, Polônia, 1993). Akira (Katsuhiro Otomo, 1988, Japão, 1988). Asas do Desejo (Wim Wenders, Alemanha, 1987). Um Cão Andaluz (Luis Buñuel, Espanha, 1929). Solaris (Andrei Tarkovski, Rússia, 1972). Persona (Ingmar Bergman, Suécia, 1966). Acossado (Jean-Luc Godard, França, 1960). A Viagem de Chihiro (Hayao Miyazaki, Japão, 2001). Guardiões da Noite (Timur Bekmambetov, Rússia, 2004). A Regra do Jogo (Jean Renoir, França, 1939). Central do Brasil (Walter Salles, Brasil, 1998). Jules e Jim (François Truffaut, França, 1962). Os Idiotas (Lars Von Trier, Dinamarca, 1998). O Clã das Adagas Voadoras (Zhang Yimou, China, 2004). Persépolis (Vincent Paronnaud & Marjane Satrapi, Irã, 2007). O Vôo do Dragão (Bruce Lee, Hong Kong, 1972). Adeus, Lenin! (Wolfgang Becker, 2003, Alemanha). Oldboy (Park Chan-wook, Coreia do Sul, 2003). Nosferatu (F.W. Murnau, Alemanha, 1922). Os Sete Samurais (Akira Kurosawa, Japão, 1954).
A enciclopédia musical da Editora Moderna dedica a sua terceira parte a fazer uma historiografia da música brasileira. Começa com as influências lusitanas e africanas do Brasil colônia; passa pelos eruditos e modinheiros do império; chega ao final dos mil-e-oitocentos falando de choro e maxixe; adentra no nacionalismo brasileiro; passeia pelo modernismo; discorre sobre as vanguardas; prosa sobre a era do rádio; diz do surgimento do samba e de suas escolas; visita o baião, o coco e o forró nordestinos; põe um pé no fandango do sul e o outro no cururu do norte; destaca a música instrumental de caráter elitizado; ginga na bossa nova; divulga a era da TV e seus festivais; defende o tropicalismo; lista os grandes compositores e intérpretes ainda viventes; experimenta a vanguarda paulistana; detona no rock pós-80; e termina, engraçadamente, com um capítulo dedicado aos estilos populares - axé, pagode, rap, samba-reggae, hip-hop, funk - e outro, logo seguinte, apresentando o que há para ver e ouvir na música erudita contemporânea. Que festa! Carlos Gomes, Domingos Barbosa, Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Pixinguinha, Alberto Nepomuceno, Camargo Guarnieri, Radamés Gnattali, Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Mario Reis, Orlando Silva, Emilinha Borba, Cauby Peixoto, Carmen Miranda, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Adoniram Barbosa, Paulinho da Viola, Cartola, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Garoto, Dilermando Reis, Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Raphael Rabello, João Gilberto, Tom Jobim, Baden Powell, Roberto e Erasmo, Os Incríveis, Renato e seus Blue Caps, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, João Bosco, Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Ná Ozzeti, Arrigo Barnabé, Raul Seixas, Lulu Santos, Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo, Marcelo D2, Nelson Freire, Turíbio Santos, Bidu Sayão.
A revista Superinteressante, numa edição especial publicada em Abril de 2005, anuncia os 101 livros que mudaram a humanidade, dispondo-os numa linha temporal. Diz o nome original da obra, a sua nacionalidade, a área do saber na qual o livro se encaixa. As três principais informações, no entanto: do que trata o livro, quem o escreveu e, finalmente, porque o encadernado mudou o mundo. A Bíblia. Os tratados hipocráticos. A República. Confissões. O Corão. O Livro das Mil e uma Noites. A Divina Comédia. O Príncipe. Os escritos de Giordano Bruno acerca do infinito, do universo e dos mundos. Hamlet. Discurso sobre o Método. Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Tratado da Natureza Humana. A Enciclopédia, idealizada por Diderot e D´Alembert. Os Sofrimentos do Jovem Wherter. Crítica da Razão Pura. Ensaio sobre o Princípio da População. Manifesto Comunista. Madame Bovary. A Origem das Espécies. Assim falou Zaratustra. A Interpretação dos Sonhos. O Processo. Ser e Tempo. O Ser e o Nada. 1984. O Livro Vermelho. Simulacros e Simulação. Estante mais heterodoxa, esta.
Diferenças é o que não faltam nas listas acima listadas. Cinema, música brasileira e literatura. Que um pouco de fotografia nos ajude a imaginar - tornar imagem - nossos pensamentos. Vamos ao cinema, de início.

Cena clássica de Um Cão Andaluz, filme surrealista de 1928, escrito e dirigido por Luís Buñuel e Salvador Dalí.


Akira, um anime cyberpunk de 1988 baseado no mangá homônimo de Katsuhiro Otomo, e dirigido pelo mesmo.


Juliette Binoche em A Liberdade é Azul, filme de drama dirigido pelo polonês Kieslowski, em 1993.



O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, comédia francesa de 2001 do diretor Jean-Pierre Jeunet.


Penso eu que o surrealismo de Buñuel, as referências à cibercultura de Akira, o drama profundo de Kieslowski e o riso contido da menina Poulain pouco tem de ver uns com os outros. O que têm em comum: são filmes, todos. E o que é um filme? Qual a essência comum que os mantém reunidos nesta categoria una? Digo-lhes: nada. Simples e puramente. Temos decupagem e enquadramento, trilha sonora e roteiro, personagens e cenários. O que cada um destes filmes entende por cada uma destas coisas difere tão gritantemente dos demais que só com muita ignorância e mouquice de nossa parte podemos dizer que se tratam de uma mesma coisa, que se tratam de "filmes". Se todos nos apresentam 24 fotogramas por segundo, o modo como montam, agenciam e enunciam tais imagens é díspare. Cada filme monta uma experiência diferente, configura uma noética muito particular e organiza um mundo de coisas assim e não assadas. A mulher que tem seu olho cortado por Buñuel seria parte de um experimento na Neo-Tókyo de Akira. A viúva Julie não seria tão sorumbática caso vivesse na França de Jeunet. Kaneda não teria propósitos tão bem definidos no mundo onírico de Um Cão Andaluz. E a radiante Amélie não poderia co-existir com o mundo monocromático de Kieslowsli. Cada personagem, objeto, ator, jogo de câmera, plano de fundo é idêntico a seu mundo. Alocá-lo para um mundo outro causaria a entropia da parte recém-chegada, do ambiente a recebê-la ou de ambos. Choque de universos, de cosmos, de mundus.
Podemos dizer o mesmo da música e da literatura. O que faria Paulinho da Viola na orquestra de Carlos Gomes? Como soaria o piano de Ernesto Nazareth junto dos sintetizadores do Marcelo D2? E se pudéssemos ouvir a Ivete Sangalo cantando Chico Buarque junto da Bidu Sayão? O inimaginável, imagem impossível. Mundos que não se colam. Impossibilidade que não implica impotência, não obstante. Não se colam, mas podem se bricolar. O virtual entra em campo. Jesus se inspiraria lendo o Manifesto do Partido Comunista? Como viveria o príncipe maquiavélico na politéia platônica? O que faria Kant para consolar as angústias de Werther? Como Freud interpretaria os sonhos de Josef K. e Gregor Sansa? O que é uma música? E um livro? A resposta, mutatis mutandis, é a mesmíssima do parágrafo anterior.
As músicas linkadas ao texto nada tem de ver umas com as outras. Os livros apontados ativam realidades distintas. A parte não é pedaço constituinte de uma estrutura maior, mas é uma visão parcial do todo. É o todo coagulado num único ponto. O Tao Te Ching, Crepúsculo e Memórias do Subsolo são livros. Papel de celulose ou fibra de carneiro, impressão digital ou escrito à punho, livro religioso ou comercial. Todos os livros têm em comum algo a ser exposto (palavras, imagens, fotografias...) e uma tecnologia que lhes dê suporte (brochura, papiro, códex...). Livros, músicas, filmes ou qualquer outra coisa, são todos blocos de espaço-tempo. Blocos de um espaço contrátil, dilatante, dobrável, e de um tempo que escorre, nunca cessa e dura. Blocos, estes, que nunca param de se chocar, alterando-se mutuamente. Kant, não sabendo como proceder com o deprimido Werther poderia, ele mesmo, entrar em desespero. O príncipe de Maquiavel planejaria um golpe de estado na aristocracia filosófica da república de Platão. Hamlet, depois de ler Heidegger e Sartre, percebe que seu problema "Ser ou Não-Ser" deve ser recolocado.
A existência não é um mundo, mas a energia resultante do atrito entre muitos e muitos universos. Uno e verso. É uma orientação - nunca finalizável, deveras - da matéria buscar alguma ordem. Vai se juntando, juntando, juntando. Partículas, blocos, planos inteiros. O mundo tende a ignorar o fora, entretanto. Considera-o como não-eu. E o joga fora. Dom Quixote é impedido de receber as visitas do Dr. Freud, os anjos de Wim Wenders tem o seu passaporte negado para a China d´O Clã das Adagas Voadoras, Michel Poiccard - o Acossado - só é pego no final pois não conseguiu passagem para o Irã de Persépolis, não tinha amigos no Japão d´Os Sete Samurais e não conseguiu fretar um ônibus na Central do Brasil. Akira, um filme, se assemelha muito mais à música de Vangelis e aos livros de William Gibson do que a outros filmes. Compartilham temporalidades, compartilham planos. Mas os planos, dificilmente, deixam blocos que lhe são alheios adentrarem seus domínios. Adentram de contrabando, sempre! Sorrateiros e furtivos, os estrangeiros chegam pela porta dos fundos - fingindo ser de casa - e fixam sua morada. Contam histórias de uma terra natal que não aquela. O mundo invadido, porém, nunca mais será o mesmo. Nem o bloco, pobre coitado. É Zeca Pagodinho tocando com o Villa-Lobos. É a Legião Urbana invadindo uma gravação do Orlando Silva. É Arrigo Barnabé tocando à quatro mãos com Radamés Gnattali. É um tempo que se dobra, um rio que sobe a ribanceira, um pássaro que voa de ré. Sem saber, muito bem, aonde esses casórios inesperados podem dar. É a vida...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Melancolia


Fala o grego: μελαγχολία. A tristeza de Chronos, o suor de Apolo, o cansaço de Hefesto, o peso de Átlas. Bílis negra, diria o estagirita. Nem Dionísio consegue mais gargalhar. Mostra os dentes, esse cavalo vendido. Fala o grego: μελαγχολία. Mais uma palavra a enumerar o meu vocabulário vasto; vastidão, essa, tristemente solitária. Árida, tal qual a areia melindrosa sob as carruagens do sol. Pior que atravessar o deserto é nele encontrar um ou dois oásis e não ter com quem os partilhar. Veja, veja, meu nobre colega! Enxergo lagos cristalinos de água e de vida a escorrer por aquela direção! Toma a minha mão e me segue. Não, me puxa! Não sei se tenho mais forças. Está tomado pelo cansado, também? Puxemos um ao outro, então. Não, não, não é uma miragem! Acredita em mim, acredita no meu delírio. Fica, por favor. Foi-se embora. Céus! Perco a terra mas, avoado que sou, nem ligo. O fogo crepita, ardente paixão, e me consome em febre. Tenho água, mas ninguém para bebê-la, comigo. Bebo só. Puxo as minhas cordas e toco algumas notas de silêncio. Cadê a platéia? A orquestra? O ouvido, atento e amigo, a capturar minhas composições mais frescas? Com-posição. Estar-com. Hermenêutica existencial. Valei-me! O sol sibila, assobia e sai de cena. Cadê a dor? O ardor? Foi-se embora!? Corro atrás do calor, antes que anoiteça de vez, e busco o fim do horizonte. O ponto final da reta. Percorro o infinito de Zenão e de Euclides, mas nada do Sol. Solitude. Sento e choro mas, desidratado, nada mais escorre. Meus olhos sumiram! Nem notei, pois. Não tinha nada para ver, ademais. Caio numa depressão - malditas dunas! - mas logo me levanto. Limpo-me da areia. Tropeço de boca - de novo!? - e me sinto envolto pelo frio. Frescor. Frescor!? É água! Espumante, gelada, saborosa. Cuspo-lhe. Sal demais. Mas volto a enxergar. Cheguei ao fim do horizonte: é a orla, a borda, a fronteira. É água e areia, céu e terra, é o grau-zero da escrita e o infinito da duração. Procuro um perdido para lhe contar minhas muitas histórias do deserto. Encontro um outro estirado ao chão, sendo banhado pelo lá e cá do branco oceânico. Mas ele nem se mexe. Estaria morto pelo deserto? Desistiu da caminhada!? Cutuco o corpo. Imóvel. Mas ainda respira. É pior do que eu pensava, então. Escolheu dormir. Dou-lhe a volta e continuo a caminhar. Coleciono as conchas do caminho e faço uma trilha com a palma dos meus pés. O marzão as apaga. E me trás conchas novas para a minha coleção. Penso em voltar e refazer os meus passos, que nem o obsessivo a checar suas portas trancadas. Escolho seguir adiante, porém. Viro-me, bruscamente, e me choco em algo, um algo forte o suficiente para me derrubar uma terceira vez. Não sei se fala meus dialetos, mas não consigo parar de lhe fitar seus olhos. Brilhosos, eles são. Olho para mim mesmo com os seus olhos e me espanto com a beleza do prosaico. O avermelhadamente lindo do céu crepuscular, o gostosamente frio das ondas e suas escumas, o vento morno que furtivamente me toma o ar. O crônico solta seus agudos. O tempo vira espaço. Já posso fixar morada. A minha busca por beleza acabou. Já encontrei um outro. Um tu. Você. Seus olhos. Paro por aqui. Nada do que possa dizer brilha mais que tuas retinas. Mel que escorre feito as águas do deserto. Puro mel, puro doce, puro outro. Sim, é aqui que resolvo parar. Tenho histórias do deserto para lhe contar, mas não agora. Conta-me uma história doce, me faz esquecer de mim mesmo, arranca-me os olhos e põe tua visão no lugar. Chronos dá lugar ao Kairós, Apolo corre atrás de Dafne e Hefesto resolve tirar um cochilo. Dionísio não gargalha. Mas sorri...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O mal que não é amor

Curioso é pensar o psicopata como um afetado. Um afetado da cabeça, das idéias ou da mente, que seja. A nosologia - fisiológica, psicanalítica, cognitivista - enumera os seus caracteres: emoções superficiais, teatralidade, sedução, remorso ausente, intolerância a frustrações. O psicopata é um transtornado, um antissocial que - devido a desvios cerebrais, traumas na infância ou esquemas mentais inadequados - pode por em risco a boa vida de seus bons convivas. Certo. Mas não esqueçamos de pontuar o seu principal aspecto, aquele que o define em sua essência mesma. Quer o chamemos de Egoísmo, Narcisismo, Egocentrismo ou tantas outras nomenclaturas, todas elas falam do mesmo: o psicopata se ama por demais!
No final é o amor que vence, percebam. O final sempre é feliz, justo e ordenado, mesmo quando a mocinha morre no final ou mesmo que o casal predestinado não consiga ficar junto. Griffith entenderia. A vitória eterna do amor - quer queiramos, quer não; quer enxerguemos, quer não - diz, em implícito, de um circuito liberalista, burguês e capital, no qual os melhores são selecionados, os mais aptos sobrevivem e o mais sublime dos caminhos é o escolhido para dar continuidade a nossa História. O psicopata delira mundos e fundos de mentiras, ignora lágrimas e risadelas de outrem e pode agredir, machucar, matar o seu próximo por motivações que pouco nos convenceriam a fazer o mesmo. "Mas por que?", pergunta o espírito moderno e científico do século XIX, um século que - mais do que nunca - insiste em durar.
Tá! Não é de psicopatia, capitalismo ou ciência que quero tratar, necessariamente. Façamos um plot, com isto. O mal do mundo não vem de sujeitos de ego grande que acabam prejudicando o outro, no processo de se amarem por demais. Respostazinha confortável. Não é o pathos, o grande problema. Mas a apatia, sua irmã preguiçosa, sedutora e adolescente. Dizem os desenvolvimentistas que a adolescência é etapa de crises. Mentira. A vida, ela mesma, é pura crise, marulho incessante do qual nenhum de nós pode fugir. Somos cindidos a todo momento, das nossas primeiras mitoses embrionárias ao funesto e derradeiro momento no qual perdemos os numinosos 21 gramas. O adolescente é um intermédio, um entre-dois, um médio-único, como diria um amigo. É um ponto imóvel entre dois movimentos. Ele passa por crises, verdade, mas a criança malina, o adulto chato e o velho senil também têm os seus dias de inventividade e rupturas. Todos diferem de si mesmos a todo momento. O Adolescer só faz sentido para o patrão burguês que olha para o seu guri, não mais um infanto dividoso mas ainda inapto a tomar o seu lugar nos negócios da família. Okay.
Já que começamos a adentrar no pântano da psicologia - um atalho, somente um atalho - convido os senhores a chafurdar um pouco mais nessa lama pouco fértil. Dizem que o lótus nasce do lodo, não é verdade!? Pois bem: Freud. O aparelho da alma freudiano tem algo de interessante para a nossa discussão. Ao construir um sistema psicológico baseado num fluxo e refluxo libidinal, à maneira dum encanamento, o Sigmund nos faz pensar que o desejo é que move o mundo e nos move sobre ele. É o amor a força motriz a nos servir de elã. Seu oposto, entretanto, não é o ódio. Não irei discutir, aqui, pulsões de morte e as diferenças entre as tópicas psicanalíticas. Não sou apto a discorrer sobre tais, nem quero fazê-lo no momento. Além disto, o atalho já está se tornando mais longo que o caminho das retas. Anti-euclidiano deve ser o atalho. Bonito, isso. Certo, certo, pousando. O inverso do amor - o cimento de nossa cultura e de nossas relações - não é a fúria destrutiva, a entropia dos sistemas, o demolir das arquiteturas. A vida se opõe a morte. O movimento, ao repouso. O amor não se opõe ao ódio, mas sim à indiferença. E é essa indiferença que parasita os devires do mundo e lhe retira sua potência criadora.
Do átomo à via de leite, tudo é vida, movimento e diferença. Tudo é amor. E ódio, também. Tudo se faz, se refaz, se acaba e se reinicia. Por Tudo, entendo a soma de todas as coisas. O conjunto a conter todos os conjuntos a conter todos os elementos do cosmo. Do caosmo, diria o outro. Tudo, contudo, não equivale ao Todo. Já discuti isto em algum lugar - se neste blog, eu não sei - utilizando de filósofos vitalistas, pensadores da diferença e do cinema para a empreitada. Repito-me, mas serei contido. O Todo, em resumo, é o movimento entre as partes de um conjunto. É o que evita que cada parte do conjunto, ou cada conjunto em relação a outros conjuntos, não se fechem em si mesmos. O 2, em relação com o conjunto dos números naturais; e este em relação com os conjuntos dos números inteiros, reais, racionais, até mesmo imaginários. Um conjunto não é a soma de vários elementos com algo em comum. Con-juntar é criar um procedimento, um modo de relação, uma dança. O conjunto dos números naturais é um procedimento. O conjunto das frutas cítricas é um outro procedimento. O conjunto das proparoxítonas francesas é um terceiro procedimento. É um modo de unir e reunir as imagens do universo num plano comum, e fazê-los dançar numa espiral cósmica que as junta e as separa, as divide e as comunga numa única temporalidade.
Alguns desses elementos são especiais, não obstante. São dobras deste coletivo de matérias-fluxo. São como coagulações deste sistema circulatório e movente que é o mundo. O que não é mundo é imundo, diz o latino. Roma já sabia que havia uma certa pureza no mundo, mas que não era a pureza das imobilidades de Platão. O puro é o harmonioso e o decantado. E, em ambos, nunca se faz puro em solitude. Pureza é estar com os seus, logo, mas visando não a paz. Esta é para os moribundos: "Que descanse em paz"! Pureza é afetar e ser afetado. E, na dança eterna dos elementos, alguns destes resolvem dar uma paradinha para esticar as pernas. A este repouso da matéria, a esta reação retardada de um elemento frente a outro, temos como consequência a chamada consciência. Também não explanarei sobre isto, agora. Só digo que um ser consciente é um ser lerdo, que não reage frente à ação recebida, mas a ela percebe, a sente por dentro, e só depois age, indeterminadamente. Encaminhamento simples e provisório, este, que será modificado em posts futuros. Por enquanto, nos contentemos com esta definição precária.
Como qualquer outro elemento da existência, o humano coexiste. Existe com outros e só existe com outros. Afeta e é afetado. O que o difere da matéria dita não-viva é a sua lerdeza, como já dito. Alguma força lhe afeta e ele não reage imediatamente, tal qual bola de bilhar. Ele processa - ou melhor - um processo se dá e o arrebata. Não são as coisas que mudam, mas nós é que somos interiores à mudança mesma. Esse processo, - cognitivo/afetivo/perceptivo/ativo/que seja - por vezes, se perde em si mesmo, como um loading eterno. É um movimento que não referencia o mundo para o qual reage, assim como a palavra do erudito. O bebê balbucia uma e outra palavra, mas todas carregadas de reais elementos do mundo. É o recém-nascido o verdadeiro universitário. Chora imediatamente, sem mediações. As coisas o afetam e ele, indefeso frente à miríade de estímulos fora do útero oceânico de sua mamãe, não sabe como reagir. Não pode reagir. É tudo forte demais. Então, ele chora. E chora até que aprenda alguma palavra sem sentido pelos lábios de seu pai burguês, aquele mesmo que inventou a adolescência.
Esse pai inventa para o seu menino brinquedos para a boca lhe calar. Que é o brinquedo senão um anestesiador dos afetos, um anulador da percepção e uma dormência das ações? Criança que é criança brinca com os seus, brinca de inventar, de cair e chorar, de gritar, de quebrar o brinquedo do pai e de se quebrar. Todo e qualquer elemento desse mundão carrega uma história. Troquemos a nomenclatura, agora. Chamarei de blocos de duração toda e qualquer unidade identificável e diferenciável das demais. Cada um de nós é um bloco de duração. O monitor, a minha frente, é um bloco, também. Um livro é um bloco de duração. Um filme. Um videogame. Uma pintura. Esse pacote de biscoito aberto, do meu lado, é um bloco de duração. As coisas são a história do universo coaguladas num ponto do espaço. Coagulação sempre parcial, visto a duração do universo sempre fluir e fluir e fluir. Os blocos, todos, se chocam incessantemente. O bloco-homem, no entanto, pode adentrar em circuitos de nada, de vazio, de vácuo, circuitos improdutivos e circulares, isolando-se da evolução criativa imanente ao universo.
É o homem do capital, o corpo-psicopata, o filho de pai burguês. A vida se quantifica e passa a ser ranqueada. Melhor e pior. O melhor: é ficar cada um na sua, em paz, vivendo em conforto, silêncio e imobilidade. Procura-se e se produz blocos e mais blocos de apatia: o cinema de encadeamento óbvio, a música de sucesso, o livro que virou filme, a conversa besta demais, a conversa produtiva demais, o humor com fórmulas, o amor sem dor. O mal não é a dor, mas a dormência que, cedo ou tarde, nos obrigará a amputar nossos membros, arrancar nossos olhos e estirpar nossos corações. Quando não mais pudermos perceber, sentir ou agir sobre a beleza das coisas, seremos bons indivíduos, mas não mais humanos. Não mais "dividuais", moventes, éticos, artísticos, filósofos, crianças. Fabricar um corpo-psicopata: estamos fazendo isso corretamente!...

* * *

Post Scriptum: o texto saiu maior do que o esperado. Tempo demais sem visitar estas terras, suponho. Acabei nem desenvolvendo a noção de blocos de duração, que deveria ser o carro-chefe do escrito. Uma dívida que saldarei depois, promessa...

sábado, 15 de janeiro de 2011

A natureza da duração

Olho para os muitos objetos, ao meu redor. Deles, tenho noções que podem ser mais ou menos corretas, claras ou obscuras, distintas ou confusas. Posso não estar inteiramente certo da existência deles, tal qual o delírio cartesiano. Mas sei – disto, eu sei! – duma existência especial dentre as outras, uma que conheço profundamente, interiormente, indubitavelmente: a minha existência mesma. Nossa existência como a existência da qual estamos mais certos. “Qual é, neste caso privilegiado, o sentido preciso da palavra ´existir´?” (2006, p.1).
Assim começa a argumentação de Henri Bergson ao tratar da natureza da duração, no livro
Memória e Vida, uma coletânea de textos escritos pelo filósofo, mas editados – bricolados – pelo Gilles Deleuze, então mestre de conferências de Paris VIII. A sessão I do livro – A Duração e o Método – é feita a partir de recortes de quatro obras do Bergson: Ensaios sobre os dados imediatos da consciência (uma de suas teses de doutoramento, inclusive); Matéria e Memória; A Evolução Criadora e O Pensamento e o Movente, em ordem de publicação. Dentro da sessão I, temos estas quatro subdivisões: a) Natureza da duração; b) Características da duração; c) A intuição como método [cuja resenha já foi postada, cá neste blog]; e d) Ciência e filosofia. A resenha, embora corresponda a diversos textos do Bergson, escritos e publicados em separado, será disponibilizada como um exercício de escrita unificado, linear e homogêneo, assim como os nossos estados de consciência se nos revelam. Do calor ao frio. Da alegria à tristeza. Do trabalho ao ócio. Da ação ao devaneio. Mudamos sem cessar. Essa tal mudança, no entanto, é muito mais profunda do que parece e aparece a nós. Qual a natureza da duração, enfim?
Em geral, falamos de cada um desses estados como se fossem blocos. E, ao dizer que mudamos, entendemos a mudança como a passagem de um desses blocos para um bloco outro. No que se refere a cada estado, cada bloco, cremos que é idêntico a si mesmo durante todo o tempo em que dura. Tomarei um exemplo do próprio Bergson (2006), no entanto, para dizer que não há sensação, sentimento, representação intelectual ou desejo que não para de se modificar, a todo instante, visto que, se cessasse seu movimento, cessaria o próprio fluxo que constitui sua duração. Então. O mais estável – o mais “bloqueado” – de nossos estados psicológicos seria a percepção visual de um objeto exterior que permanece imóvel durante todo o tempo que o observamos. Fitemos este objeto de um mesmo lado, numa mesma angulação, com a mesma luminosidade. A visão que
tenho dele é idêntica à visão que tive dele, no instante imediatamente anterior, com uma única diferença. A imagem seguinte está um instante mais velha. A minha memória está presente no objeto, empurrando o passado – se meu ou do objeto, discutiremos depois – para dentro do presente. “Meu estado de alma, ao avançar pela estrada do tempo, infla-se continuamente com a duração que vai reunindo; por assim dizer, faz bola de neve consigo mesmo” (BERGSON, 2006, p.2).
A mudança, ininterrupta, só é notada quando imprime, no corpo, uma nova ação, uma nova atitude, uma nova atenção. Percebemos, assim, que mudamos de estado. Saltamos dum bloco a outro. Seria mais acertado afirmar que mudamos e mudamos, sem cessar, visto que o próprio “estado” já é mudança. A descontinuidade de nossa vida, de nossa experiência psicológica, só se dá em aparência, pois nossa atenção costuma operar através de atos, postos em série. “Nossa atenção se fixa neles porque a interessam mais, mas cada um deles vem inserido na massa fluida de nossa existência psicológica inteira” (BERGSON, 2006, p.3). Durante o sono, nossas funções orgânicas se vêem diminuídas, o que modifica a superfície de contato entre o eu e o mundo-lá-fora e nos priva da faculdade de perceber um tempo homogêneo. No sonho, não mais medimos o tempo, mas o sentimos. A quantidade dá seu lugar a um instinto vago. Marca-se a diferença entre um tempo que se desenvolve no espaço e a verdadeira duração, atingida imediatamente pela consciência.
Bergson (2006) distingue, assim, um eu múltiplo – cujos momentos heterogêneos se penetram, fundem-se e se organizam – de sua sombra projetada no espaço. Um eu que dura e um eu estanque, subdividido e substituído pelo símbolo; como este cabe feito luva nas exigências da linguagem – da vida social – vamos perdendo, pouco a pouco, o eu fundamental. A duração, no entanto, vai para além duma psicologia, sendo fato mesmo no mundo material, que se desenrola numa duração análoga à nossa.
Se eu quiser preparar-me um copo de água com açúcar, por mais que faça, terei de esperar que o açúcar derreta. Esse pequeno fato é rico em ensinamentos. Pois o tempo que tenho de esperar não é mais o tempo matemático que continuaria podendo ser aplicado ao longo da história inteira do mundo material, mesmo que esta se esparramasse de golpe no espaço. Ele coincide com minha impaciência, ou seja, com uma certa porção de minha duração própria, que não pode ser prolongada ou encurtada à vontade. Não é mais algo pensado, mas algo vivido. Já não é uma relação, é um absoluto.” (BERGSON, 2006, p.6)
O copo. A água. O açúcar. A dissolução do açúcar na água. São abstrações, diz o Bergson (2006), recortadas do Todo pelos nossos sentidos, recortes que progridem à maneira duma consciência. E continua. Quando a ciência isola um sistema de seu contexto, não realiza uma operação artificial, totalmente. Se esta atividade não tivesse um fundamento, não se explicaria porque ela é tão acertada em certos casos. E contra-indicada em outros tantos. A matéria tem uma tendência a constituir sistemas fechados, isolados, podendo ser tratados geometricamente. É por esta tendência, mesma, que Bergson (2006) a define. Mas não passa duma tendência, de fato. A matéria nunca se isola por completo, e se a ciência o faz é apenas pela comodidade do estudo, deixando as influências externas de lado. Essas influências, no entanto, são como fios que ligam tal sistema a um outro, que o engloba; a um terceiro, que os engloba a ambos; um quarto, que contém a todos estes, sendo “por esse fio que se transmite, até a mais ínfima parcela do mundo onde vivemos, a duração imanente ao todo do universo (BERGSON, 2006, p.7).
É o universo que dura! E durar é inventar, criar, elaborar, sem cessar. Todos os sistemas que delimitamos só duram porque estão ligados ao universo, que dura ele mesmo, havendo – neste universo – um movimento de queda (o aparecimento dos sistemas, tal qual o desvelar de um rolo, a fazer aparecer as palavras já inscritas nele) e um de elevação (um trabalho de maturação e de formação do “absolutamente novo”, inseparável do primeiro movimento).
Dá-se o mesmo seja com a matéria bruta seja com a organizada. Bergson (2006), inclusive, mostra que uma filosofia como a sua – preocupada em resguardar a especificidade dos objetos ditos vivos – não postula um dualismo da matéria, uma distinção entre duas matérias. Diz, ao contrário, que a vida é uma espécie de mecanismo. Mas não se trata do mecanismo das partes independentes e isoláveis, e sim o mecanismo do todo, do real. Os sistemas que recortamos, destarte, não seriam simples partes, mas visões parciais do todo. No entanto, dispor estas mesmas parcialidades, lado a lado, não recomporá o sistema, assim como mil fotos de um objeto sob diferentes ângulos não recomporão sua materialidade.
Ao analisarmos, minuciosamente, um processo orgânico, encontraremos inúmeros fenômenos físicos e químicos. Mas daí não se deve concluir, tolamente, que “a química e a física devam nos dar a chave da vida” (BERGSON, 2006, p.9). Pensemos numa curva. Um elemento muito pequeno, desta curva, é quase uma linha reta, e quanto menor for esse elemento da curva sobre o qual deitamos nossa atenção, mais similar a uma reta ele será. Em cada um dos pontos da curva, inclusive, a mesma coincide com a sua tangente. A vida, do mesmo modo, é “tangente” às forças físicas e químicas. Tais pontos, entretanto, não passam de abstrações, de paradas no movimento gerador da curva. Dizer da vida como resultante de elementos físico-químicos seria afirmar uma curva como composta por linhas retas.
Agora, não nos parece razoável perguntar se a nossa duração, nossa experiência psicológica, poderia ser a única a existir? E que esta história de um universo que dura possa ser pura balela? Talvez. Mas seria o mesmo que perguntar se poderia não haver no mundo uma outra cor além da cor laranja. Uma “consciência colorida”, que simpatizasse – profunda e internamente – com o laranja, que fosse ela mesma o laranja, não sentiria a si mesma ao modo de uma análise exterior, uma suspensão no vazio, mas intuiria estar entre um vermelho e um amarelo, intuiria o contato com toda uma multiplicidade de durações, seja pra cima seja pra baixo do espectro de cor. Rumo a durações cada vez mais dispersas, a consciência transcenderia a si mesma, em direção tanto à repetição, às nossas sensações imediatas divididas em quantidades, quanto ao eterno. Não a eternidade conceitual, que é morte, mas um eterno vivo e movente. “Entre esses dois limites extremos a intuição se move e esse movimento é a metafísica” (BERGSON, 2006, p.10).

BERGSON, Henri; A natureza da duração; In: Memória e Vida: textos escolhidos; trad. Cláudia Berliner; São Paulo; Martins Fontes; 2006; pp. 1-10.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Senhorinha


Dança comigo, moça! Que importa se você não tem um par de sapatos!? Posso ficar descalço, se quiser. Pronto. Fiquei. Vem cá, agora. Conta pra mim aqueles segredos que nem você conhece. O quê? Repete, que não entendi. Rouquidão. Deixa eu chegar mais perto. Mais. Um pouco mais. Isso. Fala no ouvido, agora. Um sussuro. Tremo. Continuo a não entender coisa alguma. Mas agora estou com um sorriso estranho, estranho e sem propósito, a estampar minha seriedade. Sorriso bobo. Palavra boba, esta. Bobo. Bobo! Bobo? O signo rachou. Qual o teu encanto, feiticeira? Um pouco de mel nos olhos, uma pitada de açucar nos lábios, algumas palavras sussurradas ao vento. Mágica das mágicas, a tua poesia. O cotidiano se torna o mais fantástico dos mundos. Teu olhar foge, entretanto, e não consigo desvendar-lhes o sabor. Por que? Por que não mira a mim!? Isso, devagar. Fugiu de novo! Olha mais uma vez. Sustenta. Sustenta a dor. Sorrimos. Mas você se vai. E vai para longe. Estico o braço mas não te alcanço. Distante, faço arte. O romântico enumera: uma dança, mas não tenho mais par, deveras; ponho e componho música, mas sem um instrumento para lhe carregar; faço poesia, então, mas não há livro que a suporte; pinto a beleza em você, mas as tintas não bastam; esculpo seu movimento, mas ele morre - inerte - congelado no mármore; um museu de infinitos quartos para guardar tudo isso. 15 minutos de fala e de fama. Os blocos do artista querem construir castelos no espírito de outrem. Não para aprisioná-lo, como se acostumam os estetas. Mas para fazer com que o espírito se perca e se encontre, ria e se desespere, espante-se e compreenda. Blocos sutis, os seus. Arte feita com os pedaços do cotidiano. Pedaços de mim, esmigalhado, esfacelado, disperso. Reunido, em suas mãos. Estou em suas mãos. Pequeninas. Não cabem muitos delírios, nelas. Principalmente os do futuro. Abomina-os. Escondo-os comigo, para não te afugentar. E continuamos no baile. Sem sapatos. E a banda toca, mais uma vez. Dança comigo, moça?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Três questões sobre ´Seis vezes Dois´

O pessoal da Cahiers du Cinéma, interessado em saber das opiniões dum filósofo sobre os recentes programas do Jean-Luc Godard para a televisão, entrevistou o Gilles Deleuze com este propósito, posto que este muito admirava os trabalhos do diretor. A entrevista saiu na edição de número 271 da revista, em novembro de 1976, e foi publicada no Conversações, uma coletânea de "entrevistas que se estendem por quase vinte anos", e que "não sabemos mais se ainda fazem parte da guerra ou já da paz" (p.7). É com esta entrevista - Três questões sobre Seis vezes Dois (Godard) - que realizamos o exercício de escrita abaixo disposto, à maneira duma resenha.
Deleuze diz de como imagina Godard. Um homem só, sozinho, solitário. Uma solidão povoada, no entanto, mas não de sonhos, projetos, fantasias e sim de coisas e atos e mesmo pessoas. Solidão criativa. Godard-força! Suas perguntas nos espantam, nós espectadores, mas não incomodam a quem são dirigidas. Fala com os delirantes, mas não com as falas do psiquiatra. Nem com as do louco. Nem com as de alguém se fingindo doido. Fala com os operários, mas não com as falas do patrão. Nem com as do próprio operário. Nem com as falas dum intelectual. Nem como um diretor para com os seus atores. Godard gagueja. Não gago da fala, mas gago da própria linguagem. Só se pode ser estrangeiro numa outra lingua mas Godard, diz o Deleuze, é estrangeiro em seu próprio idioma. Antecipa-se a todos, mas não pelo sucesso. Visto sempre estar só, continua sempre em sua própria linha, ativa, quebrada, fugidia, ziguezagueante. Caso único, o Godard, visto não ser capturado pela TV. Não satisfeito em somente mostrar o seu cinema, fez esta série - o Seis vezes Dois, ocupação da TV por seis vezes com dois programas - que em muito toca a própria TV. Entrevistas, mas entrevistas que povoavam a televisão duma outra maneira. Uma outra TV possível.
Pedem ao Deleuze que dê uma resposta mais diretiva, à maneira duma aula, sobre os programas do Godard. Como os percebe, os sente, como explicaria seu entusiasmo para com o programa. Deleuze aceita a encomenda, mas adverte, usando uma fórmula do próprio Godard: "não uma imagem justa, justo uma imagem" (p.53); não a ideologia, mas a prática. E diz o mesmo do filósofo: não idéias justas mas, justo, idéias. Continua. A idéia justa - significativa, dominante, ordeira, estabelecida - sempre verifica algo, ainda que seja algo-por-vir, a revolução! O "justo idéias", enquanto isso, é a gagueira nas idéias, é a questão colocada que faz calar as respostas. Devir-presente.
E, sendo assim, o Deleuze sugere duas idéias que se atravessam, uma a outra, nos programas do Godard. A primeira diz do trabalho, e de como há por demais abstração na noção duma tal "força de trabalho", que se venderia/compraria em condições tais que estabelecem seja uma tal justiça social seja uma injustiça social de base. A pergunta do Godard, mas formulada pelo Deleuze: "o que ao certo se compra e se vende? O que é que alguns estão dispostos a comprar, e outros a vender, que não é forçosamente a mesma coisa?" (p.53). Um soldador vende a sua "força de soldador", mas não a sua força sexual, ao tornar-se amante duma senhorinha. Uma faxineira vende horas de limpeza, mas não o trecho musical que solfeja enquanto faxina. Um relojoeiro - pago pela sua "força relojoeira" - recusa pagamento pelo seu hobby de cineasta amador. Diria o relojoeiro que não quer ser pago pelo seu cinema pois "existe uma grande diferença de amor e de generosidade nesses gestos" (p.54). Mas e o cineasta, pago pelo seu ofício? Não o ama, destarte!? E um fotógrafo, que ora paga o seu modelo e ora é pago por ele? Guattari propôs, num congresso de psicanálise, que os analisandos fossem pagos tanto quanto os analistas, visto que, para além do serviço de escuta do psicanalista, há o trabalho do inconsciente do paciente. Godard pergunta, na mesma onda, qual o porquê de não se pagar aos que assistem TV, visto que as mesmas exercem um verdadeiro serviço público, ali. Todas essas questões - imagens - escanteiam a noção de força de trabalho, posto que esta isola o trabalho de seus próprios produtos, do ato criativo no trabalho, do amor ao trabalho. O trabalho não como uma criação mas como uma força produtora de bens e consumos, força abstrata reprodutora de si mesma.
A segunda idéia diz da informação. Uma professora, ao explicar uma operação matemática ou ensinar ortografia aos seus meninos, transmite informações. Nada mais improvável que isto, para o Deleuze. "Ela manda, dá palavras de ordem. E fornece-se sintaxe às crianças assim como se dá ferramentas aos operários, a fim de que produzam enunciados conformes às significações dominantes" (p.55). A linguagem não como "meio de informação", mas como um "sistema de comando". A informática criou o seguinte esquema: dum lado, a informação pura, máxima; doutro o puro ruído, interferência; entre ambos, a redundância, informação ruidosa. Deleuze, com o Godard, aponta para uma inversão deste esquema: coloca a redundância no topo, transmissão, repetição, ordens, comandos; a informação pura vem abaixo, como o mínimo necessário para que a ordem seja bem recebida; e, mais abaixo, o ruído. O silêncio. A gagueira. O grito. Um algo que escorre por entre os dedos da linguagem. "Falar, mesmo quando se fala de si, é sempre tomar o lugar de alguém, no lugar de quem se pretende falar e a quem se recusa o direito de falar" (p.56). Assim dispondo a situação, coloca Deleuze o problema: como falar sem dar ordens, sem representar algos e alguéns? E como fazer falar os que não tem esse direito, como lhes devolver os sons, e como devolver aos próprios sons seu poder contra o poder, seu valor de luta? "Sem dúvida é isso, estar na própria lingua como um estrangeiro, traçar para a linguagem uma espécie de linha de fuga" (p.56).
Godard questiona duas noções correntes: a Força de Trabalho e a Informação. Mas, Deleuze deixa claro, não se trata de dar informações verdadeiras, nem de pagar bem pela força do trabalho. Grifos do autor. O bom e o verdadeiro apontam para "idéias justas", ele diz, e Godard escreve FALSO do lado delas! Deleuze começa a "bergsoniar", traçando a seguinte história paralela: existem imagens. As coisas são imagens. Mas as imagens não estão no cérebro, na "cabeça". O cérebro, percebamos, é que é mais uma imagem entre tantas outras. As imagens do mundo não cessam de agir, de reagir, de produzir, de consumir entre si. Imagens, coisas, movimento. Idênticos. As imagens, no entanto, possuem um "dentro". São "sujeitos". Entre a ação sofrida e a ação executada (reação) pela imagem, há uma certa defasagem. Essa defasagem é a percepção, é a subtração da imagem do que não interessa. Perceber é subtrair. Existem imagens, ao contrário, que não são sentidas por "dentro", mas como "avesso", imagens capazes de capturar outras imagens, tomando-lhes o poder e centralizando-as. Voz de Hitler, diz o Deleuze! Graças à defasagem, destarte, configuram-se dois movimentos opostos: um, das imagens exteriores, por si mesmas, às percepções; outro, das idéias dominantes, "golpes centrais", às percepções.
Num único ato, Godard desdobra-se em dois. Quer tanto restituir a plenitude das imagens exteriores - fazer com que percebamos não menos que a imagem, mas coincidir a percepção com a imagem mesma - quanto tomar da linguagem o seu poder e fazê-la gaguejar, destilando das idéias "justas" uma e outra gota de, "justo", idéias. O primeiro capítulo do Matéria e Memória - obra-prima do Bergson - trata duma querela semelhante, ao tratar a fotografia como já tirada no interior das próprias coisas e em todos os pontos do espaço. Não que Godard seja bergsoniano ou o renove. Melhor dizer que Godard, em sua própria trajetória para renovar a TV, encontrou pedaços de Bergson pelo caminho. Godard e Bergson. E Deleuze.
O "e", para o Godard - e para a filosofia deleuziana - é o que importa, ao contrário das embotadas discussões sobre o atributo das coisas, sobre sua existência, suas possibilidades e afins, sempre pautadas pelo ser, pelo verbo "ser", pelo "é". O "e" não é uma simples conjunção, uma simples relação, mas arrasta consigo todas as relações, equilibrando-as e desequilibrando-as todas. A gagueira criadora: "e... e... e...", uso estrangeiro da língua, a se opor ao seu uso conforme, dominante, comme il faut, fundado sobre o ser. Diversidade e multiplicidade a destruir as identidades. Godard diz que tudo se divide em dois. Mas quando fala da manhã "e" da tarde, não diz de um ou de outro, nem de um que vira outro, nem dos dois. A multiplicidade não mora nos termos ou em seus conjuntos, por mais detalhados e numerosos que sejam. Reside, isso sim, no "e", de natureza diversa dos elementos e dos conjuntos destes. A força não residiria num ou noutro lado do campo, mas na fronteira, nesta um-outreidade. Godard quer fazer ver as fronteiras, tornar percebido o imperceptível. Uma fronteira que não é nem um nem outro, mas um-outro, o hífen, arrastando a ambos numa evolução em fluxo, na qual não se sabe quem está em cima ou embaixo, quem vai na frente ou atrás, nem qual o destino de um e do outro. Uma política da um-outreidade é uma micropolítica das fronteiras, a combater as macropolíticas dos conjuntos fechados. A fronteira, o hífen, o "e", "onde as imagens tornam-se plenas demais e os sons fortes demais. É o que Godard fez em seis vezes dois: 6 vezes entre os dois, fazer passar e fazer ver esta linha ativa e criadora, arrastar com ela a televisão" (p.61)...
DELEUZE, Gilles. Três questões sobre ´seis vezes dois´; In: Conversações; Trad. Peter Pál Pelbart; Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992, pp. 51-61.