domingo, 13 de novembro de 2011

Douze ou treze jours

 

O Sol titubeia por um microssegundo, um instante, um Kairós, e não sabe mais se estava a ir ou vir. É o momento dubitável por excelência, a Terra treme, os homens congelam, as pedras se calam. O crepúsculo se confunde com a aurora e o alaranjado tímido do céu não lembra se tem de avermelhar ou se vai amarelar de vez. É noite? É dia? Doze ou treze dias? Uma, dez ou cem vidas? Ao término da carta, o enamorado a lê, relê, edita, apaga, torna a escrever, volta a reler e, por fim, a sela num envelope. Pronto. Já pode atear fogo em sua obra. Zen? Não, nada de desprender-se dos desejos. Aporia budista: se a existência humana é sofrimento devido aos inúmeros desejos que não conseguimos trazer ao real, que acontece com o corpo pleno de realizações, com o corpo que tudo conseguiu realizar? Mais ainda, que acontece ao corpo cujo desejo não precisa vir à tona para ser saciado, um corpo que deseja, tão-só, desejar? O homem grego deseja cuidar de si - medicina, ginástica, dialética - para melhor cuidar dos seus; o romano, poeta do mundo privado, deseja a pax; o cristão deseja afogar o desejo e, mortos, ambos ganharão a vida e o gozo na eternidade (Chronos tomado por Aeon...); o humanista, descrente do presente e do futuro a que ele lhe condena, reinicia a ciranda de pedra e deseja um retorno a les bons moments helenos; o cientista, sobrinho-neto do humanista, deseja circunscrever o desejo dentro do seu campo visual (desejo = gado). E o enamorado - de todas as épocas, de todos os "tempos" -, aquele mesmo cujo corpo deseja, apenas, desejar? É fogo puro, este; o mesmo que, há pouco, incendiou a sua carta depois de lê-la, relê-la, editá-la, apagá-la et cetera. Ama o seu desejo, ama seu amor, o enamorado, mesmo que nada de sólido (ou líquido... ou gasoso...) lhe venha daí. O cancioneiro gagueja sua melodia, o poeta transborda versos de silêncio e o pintor enquadra o seu afeto pouco lúcido. E daí?  São todos o enamorado que esqueceu de destruir as provas deste crime monstruoso, desta anti-natureza, que é o sacrifício (sacrum facere...) do amor. O fogo é o elemento fátuo, é a invenção e a contravenção, matéria e luz. O enamorado é um incendiado e um incendiário. Tudo o que abraça retorna ao pó. Eis a paixão: consumir. E o amor?  E o enamorado? Não quer consumir o alheio mas sumir em seu desejo, como um suicida em plena queda livre.  É fluxo de graça e dívida, de beatitude e profanidade, de alma e de corpo. Sublime é o corpo capaz de atear o fogo do Sol num coração de homem e sublimar-lhe o espírito. Sim, o corpo sublime é epifania, é Deus feito mulher. Divina, diabolicamente divina, é a rainha amada. Ser-amada não é ser-objeto-de-amor. Assim como o cancioneiro, o poeta e o pintor são apenas o aspecto visível do enamorado, a rainha, que é fonte de amor, torna-se objeto-de-desejo quando vista pelos olhos dos aquáticos. Ser-amada é fazer o valete entregar-lhe as armas sem que este nada queira, nada deseje com isto - nem a paz, nem o reino, nem a rainha - além do amor ele mesmo, além do fogo. Arde de vida, o enamorado, e só quer crepitar. O enamorado pergunta: "doze ou treze dias?" Os homens lhe respondem: gregos, romanos, cristãos, humanistas, cientistas, cada um a sua maneira lhe dá o conselho, a resposta e o encaminhamento. O enamorado, pela primeira vez, pensa. E responde: "Que importa!? Quem se importa!?" Pra ele, sua rainha amada lhe basta. Não por a possuir, nem por ser o objeto dela - ainda que a possua, corpo e alma; ainda que por ela seja querido - mas por, devido a ela, sentir e ser, ele mesmo, o desejo sem um objeto-consumido-pelo-fogo, o fogo incansável e sibilante do Sol e o Sol a duvidar, no instante oportuno, de todo o universo. Menos do amor...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Tempos, espaços e zonas

Toda delimitação espacial é, necessariamente, asilar. Escola, hospital, prisão, igreja, manicômio. O teto não nos protege da chuva, tão só. Eis a logística da triagem dos corpos: na escola, o inculto (que, ao assumir-se como sabedor de coisa alguma, sairá de lá como douto e letrado em alguma coisa); no hospital, o doente (que, tratado, medicado e devidamente encaminhado, voltará esbanjando saúde); na prisão, o criminoso (que, depois de punido, terá a sua dívida expiada e o seu caráter reformado); na igreja, o pecador (que conseguirá, após uma e outra penitência, a redenção de seu espírito), no manicômio, o louco (que sairá convencido - através de eletrochoques, confinamentos, dietas forçadas, alguns tabefes e outros argumentos bem colocados - de que suas verdades não passam de delírio). E do lado de fora, que há? Há o homem. E não é à toa que, ao se falar "o homem", a imagem dum sujeito branco, adulto, bem alimentado, heterossexual, trabalhador e pai duma família de tradição nos venha à cabeça. E onde estão as mulheres? Os negros? As crianças? Os famintos? Os homossexuais? Os desempregados? Os desajustados, enfim? Estão "aprendendo" nas escolas, "se tratando" nos hospitais, sendo "reabilitados" nas prisões, "se confessando" nas igrejas e fazendo de tudo isto um pouco nos manicômios.
Um saber é a formalização duma série de dispositivos de poder. A pedagogia é a justificação das tecnologias escolásticas a modelar nossos garotos (colégios internos para preservar a pureza original do infanto, escolas técnicas que os preparam para o mercado...). A medicina é um conjunto de práticas que, mirando o corpo individual, visa fortalecer a nação (Staatsmedizin alemã), organizar as cidades (médecine urbaine francesa) e potencializar a produção (occupational medicine inglesa). O sistema jurídico põe nas tábuas da verdade as verdades que os vencedores ditaram aos povos pilhados ("Quid latine dictum sit, altum sonatur"). A metafísica cristã, através duma ladainha salvacionista, cria sujeitos ressentidos, alheios ao mundo do sensível e resignados com os sofrimentos que (acham...) não podem evitar e as asceses que (acham...) devem se submeter. A psicopatologia, por fim, assume a infeliz missão de racionalizar o que foi, previamente, excluído dos domínios da razão (a norma do anormal, a regularidade do desviante, o comum do monstro). A política, diz Michel Foucault, é a continuação da guerra por outros meios, e os saberes, antes de tudo, vêm da necessidade em se justificar as opressões a que o homem submete o ser. O Ser humano é a resultante duma malha de dispositivos; os saberes são a organização dos poderes num discurso unificado e centralista.

Indivíduos ou grupos, fala Gilles Deleuze, somos todos compostos de linhas, e é sobre (ou com...) essas linhas - produtoras de indivíduos, grupos, aléns e aquéns - que devemos nos ater (ou atar... ou desatar...). Já abordamos duas, em implícito: uma linha dura, estratificada, segmentada, institucionalizada; e uma linha flexível, linha de fuga, linha de ruptura. Infância-adultez-velhice (psicologias do desenvolvimento). Trabalho-casa-trabalho-casa-trabalho-férias (modulações do mercado). Casa-escola-universidade-mercado (projeto político-pedagógico). No entanto, não se envelhece do mesmo jeito, não se trabalha do mesmo jeito, não se aprende do mesmo jeito, não se descansa do mesmo jeito, não se vive e se morre do mesmo jeito. Há, por sob esses segmentos naturalizados (termo horroroso...), "diferenças" (que não são individuais, pessoais, privadas, mas tão coletivas quanto às identidades da linha dura, mas a sua maneira própria). São os devires revolucionários que adormecem por sob os Seres da Tradição. Dois movimentos: a territorialização (o sedentário, o agricultor, o homem da escrita, o espaço árido) e a desterritorialização (o nômade, o rastreador, o homem da oralidade primária, o tempo puro). Outro dos dualismos irresolvíveis a que a filosofia nos condena? Não desta vez.

A filosofia da diferença deleuziana é descendente direta da distinção grau/natureza feita por Henri Bergson, cuja metafísica da duração é fonte seminal à ontologia do virtual de Deleuze. A obra de Deleuze constitui-se como uma "filosofia da diferença" visto que faz movimentos críticos frente a todo pensamento "representativo". E por movimento crítico devemos assumir a distinção mesma entre dois "pensamentos": um pensamento moral/representativo/dogmático e um pensamento sem imagem (que não se identifica a mais uma nova imagem do pensamento; não é o novo, mas o inesgotado ou, antes, o inesgotável). Um ligeiro passeio pelo corpus deleuziano (o peccatum verum necessarium...).

Em Diferença e Repetição, Deleuze apresenta quatro postulados sobre a imagem dogmática do pensamento. 1) O Cogitatio natura universalis; o pensamento possui formalmente o verdadeiro e o busca materialmente; 2) tal pensamento é potencialmente compartilhado por todos os homens; 3) o modelo da recognição, exercício concordante das faculdades sobre um objeto suposto como sendo o mesmo; e, por fim, 4) a unidade de todas as faculdades no príncipio geral do "Eu penso". Já em Nietzsche e a filosofia, os caracteres que constituem o pensamento dogmático são um pensador que, enquanto pensador, quer e deseja a verdade, e um pensamento que, enquanto faculdade, é naturalmente e universalmente reto; este pensamento é desviado do verdadeiro devido às forças estranhas ao mesmo – "malditas sejam as paixões da carne e os erros dos sentidos!" – que nos fazem cair no erro, tomando uma coisa falsa por verdadeira, nos legando um princípio singelo: para pensar retamente, precisamos apenas dum método que nos adeque a caminhada. Com Proust e os signos, vemos Deleuze fazer dessa imagem dogmática do pensamento uma imagem racionalista da filosofia, filosofia moral e representativa, visto que constituída de pressupostos, analisando a temática do tempo em Recherche du temps perdu; Marcel Proust, pela leitura de Deleuze, contrapõe este pensamento dogmático a uma nova imagem do pensamento, que enfatiza a relação entre as chamadas "forças externas", fazendo o pensamento sair de sua imobilidade e lhe provocando encontros ou, como Deleuze os chama, intercessões.

Do que escrevo, até aqui? De possibilidades para o exercício do pensar e de uma filosofia que não equivale à contemplação do mundo ou das ideias, nem à dialéticas intersubjetivas ou mesmo reflexões metódicas sobre istos e aquilos. O ofício do filósofo é forjar conceitos, é  produzir ideias, mas não a idéia do platônico, do pensamento representativo e da verdade dada, mas a diferença mesma produzida pelas intercessões, um rompimento das amarras da representação. Pensar é radicalizar, buscar a raiz, as gavinhas, os rizomas que dão consistência ao espaço e suas coisas. O conceito, em síntese, é a ferramenta do filósofo, e este se assemelha mais a um artífice cuidadoso a namorar o mármore (aquele mesmo que Platão tanto denegriu em sua politéia) do que a um mestre esteta (o padre no altar, o orador no púlpito, o professor na cátedra).

Galileu, Descartes, Newton, Leibniz, Einstein, Gödel, estes matemáticos, exemplificando, não recorreram à filosofia para problematizar questões que são próprias da matemática. O mesmo para o pensamento cinematográfico de Eisenstein, Bazin ou Godard. Todos pensaram os problemas colocados por seus próprios domínios, sem recorrerem, diretamente, aos "campos da filosofia". Deleuze, ao contrário, muito utiliza de outras regiões do Ser (usando um termo de Husserl) para tecer a sua palavra, para fiar a sua conversa. O que importa nessas intercessões não são as análises empreendidas sobre tal e qual obra mas os conceitos que estas liberam à atividade filosófica. Tanto o espaço filosófico quanto os espaços "de-fora" forçam-nos a pensar, seja a favor duma constante delimitação espacial dos poderes, saberes e sujeitos, seja contra essa imagem moral e dogmática do pensamento, em prol da invenção, do coletivo e do tempo. Se o primeiro visa capitalizar seus investimentos ("o capital é o corpo-sem-órgãos do capitalista"), este último preza pela capilarização dos seus afetos, numa teoria da imanência pura.

Duas lutas, então, que não equivalem às duas linhas (a linha dura e a linha de fuga) que Deleuze nos lega: uma luta pelos estratos, pelo instituido; e uma luta pela vida e seus movimentos. A vilania e o heroísmo? Ora, lutar pela vida não é pregar a desterritorialização, o que nos condenaria ao vazio, ao não-Ser. Mais ainda, poderia nos legar o tipo de resistência que fortalece àquilo que pretende combater (as bandeiras do drogado orgulhoso da sua condição marginal, do homossexual que assume para si a condição de anormal, do idoso que luta por "espaço" no mercado de trabalho...). Pelo outro lado, lutar pelos estratos é apoiar, ainda que ingenuamente (mas nunca em inocência), as máquinas a oprimirem e docilizarem os corpos, mas não se pode, como queria Descartes, derrubar os fundamentos do erro para, sobre uma nova base, fundar os edifícios da verdade sem que, no processo, desmantelemos a nós mesmos (o sujeito não é, pois, o seu objeto?...). Se o espaço é, já, a decadência (o Verfallen heideggeriano) e o tempo, por sua vez, é o fluxo indefinível, o anti-espaço e a anti-matéria (o devir de Heráclito), que podemos fazer neste mundo pendular no qual as únicas alternativas apresentadas são ou assumir-se um ego, um moi, e excluir dessa redoma da consciência toda a alteridade (marxismos, freudismos e sindicalismos vulgares) ou apostar na dissolução do eu-autoral, do ele-relacional, do nós-grupal e tomar um caminho que, a sua própria maneira, despreza a diferença (nietzscheanismos, deleuzismos e foucaultismos vulgares)?

A linha criativa, como sempre, é pensar o terceiro excluído, que não é o meio-termo, a média ou o consenso. Além do nômade (a condição originária do homem) e do sedentário (o homem capturado pelas tecnologias de si), há a figura do migrante, ora parceiro dos revolucionários nômades, ora aliado dos confederados sedentários. Se o nômade é o forasteiro (não o estrangeiro, que é o forasteiro, o "de-fora", já capturado) a caminhar pelas areias do tempo e o sedentário é o nativo da terra, o agricultor dos espaços, o migrante é o homem das zonas, do eu-fragmentado, da gestão coletiva do espaço-tempo. A zona é sempre uma criação parcial, demanda sempre um olhar precário e deseja, antes de tornar-se permanente (permanecer é perecer, é perder a potência), tornar-se ação. A zona não entra para a História, mas a constrói.

Foucault conta que a onda bergsonista que assolou a França na primeira metade do século passado causou um extremo esvaziamento do espaço enquanto categoria epistêmica e política. Todo espaço é um continente, é uma instituição de asilo e de captura; o tempo é a liberdade (liberdade pra quê, mesmo?...). A zona é o espaço destilando tempo, ou o tempo moldado em espaço. A zona é o movimento ainda em operação, é o corpo (indivíduo ou grupo, tanto faz) em atuação e contato com outros corpos - corpos e sujeitos vivos, não suas contrapartes de palha, como diria Bruno Latour -, é o conceito que não pretende representar, definir ou controlar, mas afirmar, conectar e libertar os povos aprisionados nos espaços desinvestidos. Quais as minorias que ainda fervilham nos espaços totalitários que habitamos (e que nos habitam) e como podem ser apropriados para a promoção das condições de felicidade de um coletivo (cito Latour, mais uma vez)?

Pergunta sem resposta. Não por ser mal-colocada ou por exigir uma tecnologia intelectual para além das atuais. É que a solução, por fim, não é discursiva, não encadeia proposições. Parodiando Kant, poderia dizer que a organização dos territórios, sem a experiência das proposições concretas com as quais pretendemos nos conectar para agir, é vazia (o Psicólogo, o Sociólogo, o Médico, o Pedagogo... áreas, campos, espaços...); mas a vivência bruta e imediata do cotidiano, sem a articulação necessária para atuar e construir, é cega. O espaço esvaziado, o monumento largado em plena praça, e o tempo cego sem saber se guiar neste coliseu dos discursos. O espaço-tempo é a zona, a barraca armada, a feira a se fazer no dito (e não só no escrito). A zona (Kairós) é ação, é batalha, que periga cair tanto nos aparelhos totalitários do espaço (Chronos, encarnado também em micro-aparelhos e pequenos fascismos a nos engolfar, nos legando novos totens e nos condenando a imperceptíveis tabus, segundo a segundo) quanto nos desmantelos informais do tempo (Aeon, a Grande Marcha descrita por Kundera). É a vida...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Pelo quê você luta?

Trabalho é amor feito visível. E o amor, Khalil? É a vida do morimbundo (zumbi ou fantasma?...), o gozo do santo (cínico ou estóico?...), o riso do palhaço (Chaplin ou Keaton?...), a lágrima da atriz (primeiro plano ou bastidores?...), o calor gelado do avermelhadamente lindo céu azul (aurora ou crepúsculo?...), a questão colocada e resolvida (filósofo ou sofista?...). Indecidibilidade. Trabalho é amor, e amor é luta, e luta constante, integral, cósmica, de corpo, alma, espírito e verdade. E essa verdade, precisa de estudo? Estudo é luta, também, assim como o trabalho e o amor. Luta-se contra o sono, contra a vontade doutras coisas (vontade minha ou das coisas?...), contra uma avaliação, contra o texto, contra a equação e contra o problema. E essa luta, tem o seu porquê? Qual a batalha maior na qual está inserida? Em qual guerra, nativista, colonial, mundial, cósmica, está metida? O esforço tem algum sentido?  Máquina, o ser (humano?...) é. Máquina que deseja. Tédio: a histeria contemporânea. Não se luta "contra", oras. Afinal, quem é o inimigo? Luta-se contra si!? E o que se é? Se lutar é ir de encontro, o que se constrói com o sangue derramado (alheio ou próprio?...)? Luta contra o luto, luta por um "a favor de". Planta-se para comer, caça-se para comer, colhe-se para comer. O trabalho e a luta constróem comilanças. O amor é um banquete (Platão ou Xenofonte?...). Quando se deu a alienação, a inversão, a reversal? O filósofo luta "contra" o sono, mas "pelo quê"? "A favor de quê" se luta (agora, sempre agora!..)? Uma graduação, uma carreira, um "mundo melhor"? Indecidibilidade, mais uma vez. Guarda a pena e vai descansar. Ou lutar "contra" essa indefinição até que um "a favor" apareça...



domingo, 2 de outubro de 2011

Darstellungssystem

"Se a teoria da arte se contentasse com isso, se se considerasse satisfeita com a recompensa proporcionada por uma busca sincera, nada teríamos contra ela. Porém, quer ser mais. Não almeja ser, tão-somente, uma busca para encontrar leis: afirma haver descoberto leis eternas. Observa um certo número de fenômenos, observa-os segundo alguns critérios gerais e deduz, disto, leis. Tal é correto pela simples razão de que, infelizmente, não parece ser possível de outra maneira. Mas, nesse ponto, começa o erro: chega à falsa conclusão de que essas leis, por corresponderem aparentemente aos fenômenos observados durante certos momentos, serão válidas também para todos os fenômenos que se produzirem no futuro. E eis aqui o mais funesto: acredita-se haver encontrado uma medida para o julgamento da obra artística que seja válida para as obras de arte futuras. E os teóricos, mesmo sendo constantemente desautorizados pela realidade, quando consideram antiartístico "o que não soa segundo as regras", ainda assim "não abandona a ilusão". Pois o que ocorreria se não possuíssem, ao menos, o monopólio da beleza, já que a arte não lhes pertence? Qual seria o resultado se, para todos e definitivamente, ficasse claro o que - mais uma vez - é aqui demonstrado? O que lhes significaria o fato de que, na realidade, a arte transmite-se e propaga-se através das obras artísticas e não por regras de beleza?"
SCHOENBERG, Arnold; Harmonia; Trad. Marden Maluf - São Paulo: Ed. UNESP, 2001, p. 43.

sábado, 13 de agosto de 2011

Carta a um rato

Tenho as mesmas dores no fígado que tu, camarada. E, assim como tu, sou um sonhador. Desses que perdem dias, anos, vidas inteiras a planejar vinganças para aqueles que, num tempo perdido, neles se esbarraram. Gastamos litros de saliva para condenar os homens brutos - sim, os homens brutos! - impulsivos e desapegados à prudência. Homens de ação, como tu o chamas! Mas não são eles os abençoados pela natureza? Não são esses homens pouco sensatos os filhos da verdade? Se lhes ofendem, já se encontram dispostos para o chiste, o soco, a faca, o sangue, a morte e a vida; nós, os de consciência refinada, nos pomos a pensar. Se lhes suscitam desejos na carne, já se encontram dispostos para o cortejo, a bebida, as risadelas, o beijo, o coito e o gozo; nós, os de consciência refinada, nos pomos a pensar. Se lhes... Creio que tu não precisas de mais imagens e exemplos. Tuas barbas não são maiores que as minhas à toa, fato. Mas veja só: a natureza e a verdade pariu esse homem desarrazoado. Eu e tu, do contrário, fomos concebidos numa biblioteca ou num laboratório ou sabe-se lá em qual lugar alheio ao império do real. Somos um império dentro do império. Olhamos para esse homem, esse búfalo ignorante, de cima, de lado, mas nunca de frente. Não sabemos lhe afrontar e, mesmo de cima (ou de lado), sempre lhe cedemos passagem. Somos ratos, eu e tu, e por isto nos damos tão bem. A ignorância, aí, é benção, amigo. Ignorar passados, presentes e futuros não é tarefa para nós, homens de memória e de decoro. Homens de gnose e de pensamento. Devemos desenvolver a ignorância? Não, não é isso que lhe recomendo, meu velho. Temos a mania de tagarelar (ainda que seja só para nossa própria consciência) astuta e maliciosamente de tudo, de todos e além. Mas nossa maldade não ultrapassa as fronteiras da lalação. Arquitetamos nossas torturas, mas não sabemos erigí-las. Somos arquitetos, e não pedreiros. Pena. Nem a estupidez conseguimos realizar. Somos potentes, mas não reais. Cheios das virtudes, mas sem boas ações. Não temos a maldade da vida: não comemos a carne, não comemos a folha. Viveríamos de luz, se pudéssemos. Mas a vida nos devora a todos, vorazmente, insaciávelmente. A vida nos come, e nos come por detrás, a mim e a tu, também. Desconhecemos a força da ignorância e a alegria da maldade. Somos bons e, por isso, somos feios. É a feiúra do estupor, da flor que brochou, do coito que se interrompeu. Que nos resta a fazer neste mundo, já que nada sabemos fazer? E, para piorar, ainda somos feios. Só sabemos falar, eu e tu. Água numa peneira, como tu mesmo o dizes. Devemos nos calar? Sim. Sim!? Não, claro que não! Devemos é falar, mais e mais. Se é impossível (ou pior: sé é inútil!) falar das coisas - já que a coisa nos escapa a nós, homens da inteligência - falemos, ao menos, sobre essa impossibilidade de se falar das coisas. Se não sabemos usar as espátulas, preparar os rebocos e equilibrar os tijolos, que as palavras nos sirvam de ferramentas, então. Eu escrevo para tu, agora. E escrever não é apontar um estado de coisas, mas sim montar uma armadilha para o leitor, um alçapão de enunciados, como um marujo que não leva o tesouro consigo, mas rabisca e marca xis num papelão velho a habitar garrafas. Tudo isso para que seus convivas refaçam sua caminhada trôpega e povoem a ilha deserta na qual habita solitário. O ignorante não quer saber de nós, porém. Sejamos malvados, pois, e montemos nossas armadilhas para retirar-lhes o que nos foi negado: uma vida de plácida e translúcida ignorância. Se eu desejo ser um ignorante? Não. Só quero receber as visitas do continente, em minha ilha. E sorrir. E não mais ser feio. Se a ignorância do homem-búfalo não é negativa, não é ausência, a malvadez do homem-rato também não o é. É a nossa virtude maior, a armadilha, o veneno e a furtividade. Não empunhamos espadas, e sim punhais. Somos ratos e gostamos de sombra e água fresca, como todo bom punguista. Uma ode e uma recomendação à maldade, essa minha carta, caro camarada. À maldade, sim, e não à ruindade. Esta é coisa de búfalo medíocre. Nossa ontologia roedora não nos dá coragem, certezas e caminhos. O rato é um jogador, todo bom jogador é um ratinho, e um ratinho malvado. A melhor das coisas que o rato pode aprender do seu irmão búfalo: a aposta. É substituir a sua covardia exangue não por uma coragem estúpida e ignóbil, mas pelo jogo. Malvadear não é desconstruir e prejudicar. Malvadear é armar alçapões, inúmeros alçapões, que nos suspendam da solidez e nos tornem menos ignorantes; e, ao mesmo tempo, não nos façam perder contato com a crueza do mundo que nos come por detrás. Bebe, companheiro, bebe. E piora tuas dores do fígado. Aposta. Perde tudo. Bebe mais para não esquecer de tudo isso, das tuas dores, de tuas apostas, de tua vilania. És um vilão, mas não és gente ruim, amigo. Nem eu o sou. Mas somos ratos, e ratos malvados, e ratos que apostam, e ratos que bebem. Nunca seremos búfalos: a graça não nos brindou com o dom da ignorância. Mas não tenhais inveja. Deixe-a para os simplesmente ruins. Vamos beber - vamos! - e produzir nossas próprias doenças, tirar delas nossas forças e fazer ruir as tábuas da verdade. Um brinde. Um abraço. E adeus...

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Silence

Uma vez em Amsterdã um músico holandês me disse: "Deve ser muito difícil pra você escrever música na América estando tão longe dos centros da tradição". Fui obrigado a lhe responder: "Deve ser muito difícil pra você escrever música na Europa estando tão perto dos centros da tradição".
John Cage

terça-feira, 26 de julho de 2011

Événementialisation!

A vida é um jogo. Uma coletânea de jogos, na verdade. Infinitos jogos, corrigindo, todos imbrincadinhos, se anulando, se fundindo, se clivando. E um jogo é um conjunto de eventos. E um evento, tomado isoladamente, é um conjunto de outros tantos jogos que, por sua vez, são estruturados, cada um, pela articulação de vários outros eventos. Parece que estou a cometer o erro a que os lógicos chamam "Círculo", deveras. Mas não. Esse círculo é virtuoso, produtor de diferença, alegria, movimento, potência e vida.
Falo de Deleuze, de Spinoza, de Bergson, de Nietzsche e de todos eles, invisíveis, na última frase do parágrafo anterior. Cada um desses filósofos, mesmo, é um jogo fechadinho, com suas regras, seu tabuleiro, seus peões, suas estratégias. Eu sou um jogo, igualmente. Sou diferença, alegria, movimento e potência. Você, idem. Mas também somos - eu, você e eles - repetição, tristeza, imobilidade e ressentimento. Somos sacrifício ético e obediência moral, criatividade e tecnicismo, espiritualidade e ritualismo, a gargalhada e a cara-de-paisagem.
Jogos e eventos parecem manter entre si uma reciprocidade atômica, na qual um é parte componente do outro, e esse outro é parte componente do primeiro. Mas não é bem isso que eu quis dizer. Jogos e eventos falam muito mais de um ponto de vista - ou de uma postura cognitiva - que de uma relação entre o todo e as suas partes. Dizer de algo como jogo ou evento é dizer de um posicionamento nosso frente a esse algo. Peguemos um jogo de cartas simples - o Solitaire, vulgo Paciência - para explicar o que digo.

Colocamos sete pilhas de um baralho enfileiradas em ordem crescente de quantidade (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, totalizando 28 cartas da esquerda para a direita), sendo que as cartas da superfície de cada monte tem a sua face voltada para cima, ao contrário das cartas embaixo dela. As 24 cartas restantes são colocadas num bolo, à parte desses sete montes. O objetivo do jogo é colocar todas as 52 cartas em quatro montes - um para cada naipe - em ordem crescente de valor e numeração (Ás, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, Valete, Rainha, Rei), manuseando as cartas das sete colunas e do bolo, que serve de "fuço". As cartas podem ser agrupadas numa destas sete colunas em ordem decrescente de valor (Rei, Rainha, Valete, 10, 9...) mas os naipes devem ser de cores opostas para que a truncagem se dê. Enfim, é um jogo cheio das minúcias, das regras implícitas e das estratégias e, mesmo que não saibamos expô-las todas, sabemos jogá-lo quando abrimos o game disponível em toda e qualquer versão do Windows. Mesmo sem saber o jogo, entramos no jogo e nos divertimos! Só este fato já nos fala muito, mas vou guardar meus comentários nessa direção, por enquanto, e continuar com o baralho.
Digamos que eu faça uma jogada específica enquanto me divirto no Paciência; por exemplo, que eu encontre uma Rainha de Espadas, negra, no fuço e a coloque por sobre um Rei de Ouros, vermelho, que está numa das 7 colunas. O movimento é esse: pego uma Rainha de Espadas e a ponho sobre um Rei de Ouros. Este movimento simples é um evento e o que define todo evento é, pois, a sua simplicidade, no sentido cartesiano duma realidade subsistente, que baste a si mesma. O mesmo evento pode fazer parte de um outro jogo, atentem. Caso eu estivesse jogando Black Lady - a versão tradicional do jogo de Copas - com um amigo meu que pôs o Rei na mesa (e eu não tinha nenhuma carta de Ouros, em mãos), este mesmíssimo movimento seria uma jogada extremamente desvantajosa para ele, já que num único movimento eu o faria ganhar 13 pontos (e, no jogo de Copas, quanto menos pontos você fizer, melhor)! Caso, ao invés de Paciência ou de Copas, estivéssemos jogando Burro, eu não poderia fazer essa jogada; este evento é uma realidade impossível dentro do universo do Burro, mas é real (ainda que não se atualize, ainda que continue sendo apenas uma realidade virtual), provável e possível dentro dos universos de Paciência e Copas.
Não é à toa que o baralho use como ilustração as figuras de um reino. Uma das versões sobre o nascimento do baralho, como o conhecemos hoje, fala de um pintor francês - Jacquemin Gringonneur - que inventou as figuras e os naipes das cartas sob encomenda do rei Carlos VI, o louco. Cada um dos naipes representa uma posição social (copas para o clero, espadas para a nobreza, paus para os plebeus e ouro para a burguesia) e as imagens, de um naipe a outro, representam soldados e peões (grupos de 2 guerreiros, de 5 guerreiros, de 10 guerreiros, o "Ás" do exército...), reis (K, de King), rainhas (Q, de Queen), valetes e cavaleiros (J, de Jack) e, mesmo, a curiosa figura do bufão, do bobo-da-corte ou, se preferirem, do Coringa ("why so serious?"), que não tem razão alguma no jogo (e, por isso, é a mais perigosa de todas). Estamos em pleno século XV, aí: como lidar com os constantes levantes dos camponeses, a quem a nobreza faz morrer e deixa que vivam? E a igreja em decadência, como funciona? O absolutismo monárquico, ganha o quê com isso tudo? E que nova classe de mercadores é essa, a fazer fortuna com viagens e comércios!? Velásquez faz o rei e sua dama - refletidos no espelho ao fundo - se confundirem com o observador anônimo que, no momento, fita a tela. O olho do qualquer e a pompa da realeza se confundem como sujeitos teoréticos, em diversos jogos, mas jogos que não operam sozinhos: pintor-pintado, olho-quadro, sujeito-objeto, detalhe-foco.
Jogos, jogos, jogos. Cada um desses problemas são jogos que demandam respostas, movimentos, eventos, posturas, etiquetas para que continuemos a viver (com diferença, alegria, movimento e potência, de preferência). Jantar é um evento. Jantar com o bispo para que ele abençoe o condado antes da colheita é um jogo. Jantar com o duque e pedir a mão de sua filha para agregar territórios de nobreza é outro jogo. Jantar com a esposa, os cinco filhos, o cachorro e os dois cavalos, ao calor duma fogueira no quintal é um terceiro jogo. Um quarto jogo seria jantar numa taverna, quando se é um viajante e não se conhece ninguém na região. Ficar sem jantar por não conseguir esmolas o suficiente, naquele dia, é mais um jogo. Ficar sem jantar por não conseguir realizar penitências o suficiente, naquele dia, é um sexto jogo. Cada um desses jogos possui um regulamento próprio (ainda que não saibamos ou possamos listar regra por regra), personagens próprios, tabuleiros próprios, estratagemas próprios e - como não haveria de ser!? - modos próprios para a trapaça.

Falei que o lance da Rainha de Espadas por sobre o Rei de Ouros era uma jogada impossível no mundo de Burro. Proposição falsa, a minha. A trapaça é, justamente, isto daí. É o jogo que, ao impor seus movimentos e entraves, seus podes e não-podes, coloca também buracos nos quais a ação demanda uma reação imprevista. A trapaça é a invenção no sistema fechado. Quem, ao jogar Banco Imobiliário, nunca "fuçou" o caixa indevidamente, quando todos os outros banqueiros e especuladores de imóveis estavam distraídos? Quem, ao perceber uma fila grande demais, nunca se pôs a procurar "aquele" amigo para, com isto, ganhar dois ou dez minutos do dia?

O jogo de Copas, o Burro, um jantar, o Banco Imobiliário, uma fila, são todos políticas de guerra. Uma guerra é um evento (o choque da espada na armadura do inimigo) e um jogo (anexação do território sarraceno às propriedades papais). O evento de golpear o inimigo faz parte de diversos jogos: a guerra santa dos templários contra os infiéis do oriente; o treinamento marcial para aprender a manusear a montante enquanto se segura um broquel; a garantia de ter a alma salva, mesmo que o corpo se perca no calor das lutas. Vários jogos, operando todos num mesmo e único instante, num mesmo e único evento. O subir e descer da espada é a atualização e o movimento de diversos jogos imbrincados a produzir soldados santos, lâminas e cotas mais leves para viagem, reservas no paraíso para os que perderam a vida na santidade e coisa e tal. Os jogos produzem eventos (verbos, o que ocorre, o que "tá pegando"), que são a manifestação dos jogos. Neste lá e cá dos jogos e dos eventos é que nascem as coisas (substantivos, indivíduos, sujeitos, objetos) e suas qualidades (adjetivos, o bom golpe de espada, o homem santo, o muçulmano feio, o mangual abençoado).
Entremos na fila, mais uma vez. Estou com pressa e utilizo do meu amigo para, assim, passar à frente de umas 20 pessoas. "Mas isto é um desrespeito a essas 20 pessoas", diria você. Discordo. Mas discordo, apenas, quanto aos números contidos na premissa. Não são 20 os desrespeitados mas, no mínimo, 21. Vinte pessoas e uma fila. Ou, ainda, poderia substituir todos esses desrespeitados por uma fila que não foi levada a sério. "Mas você está desrespeitando a fila" seria uma proposição mais adequada. Não são os sujeitos humanos, simplesmente, que são os afetados, mas é ela, a fila, que emperrou, deu bug, foi ela que não operou como deveria, por um motivo ou por outro. A fila é uma tecnologia, é um armistício, uma política de guerra construída para que possamos viver com diferença, alegria, movimento e potência nesta vida cheia de encontros. A fila, muito provavelmente, se inventou quando tínhamos muitas pessoas desejando uma mesma coisa ao mesmo tempo (mas um objeto que está disponível a todos eles; o único porém é quem irá ter um primeiro, um segundo e um terceiro acesso a eles). Se fossem só um, dois, três os desejosos, o problema poderia ser resolvido ali, cara-a-cara, no informal. Com 10, 20, 50, a situação muda. Cria-se um critério, então, acima de todos nós. "Quem chega primeiro, é atendido primeiro; quem chega em segundo, é atendido depois; quem chega em terceiro..." E a guerra assim se vai, a guerra se apazigua, até que um novo encontro coloque um novo problema. "E aquele senhorzinho de 92 anos, ali? Vai ter de esperar na fila como todos nós!?" Tá, tudo bem, deixamos esse senhorzinho passar à nossa frente, mas só ele. "E as mulheres grávidas? E os pais com crianças de colo? E os obesos? E..." E assim a vida se vai, em nosso ofício infinito e eterno de criar e recriar as filas. Fila versão 1.0, 2.0, 2.3... Versão beta, pois. Nenhum senhor saudável - ainda que tenha ultrapassado a marca dos 65 anos - deixará de ceder seu lugar a um jovem que esteja a passar mal, no ônibus, com o argumento de não querer desrespeitar o belo e sublime princípio da fila. Vejam só. Nossa vida consiste num trabalho de engenharia, de construir aparatos tecnológicos que bem representem, quase matemáticamente (aliás, retirem o "quase"), nossas posturas que, num momento em específico, foram adequadas ao encaminhamento da vida e da paz. Homo faber. Mas a paz, aqui, não é entendida como ausência de guerra, como puro armistício, mas como invenção, como principia individuationis, nos dizeres do Jung alquimista.
Todos os nossos processos legais são jogos, jogos iguaizinhos aos da fila. Todos os nossos sistemas teóricos são jogos. A arte, então! É jogo que não acaba mais. As religiões, mesmo, são conjuntos de jogos a atualizarem eventos. O Padre levanta o pão ázimo, já bento, e diz: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." O que este momento tem de ver com o tal Cristo, reunido secretamente com seus 12 amigos e à vespera de sua já sabida morte? O Padre opera jogos que atualizam eventos. Um homem benzendo o pão e tornando-se um com os seus, durante um banquete (tradição muito mais grega que judaica...). Qual a ligação entre os dois? Há uma ligação entre o evento original e o seu jogo correlato? Este jogo, hoje, ainda tem a sua razão de ser para os homens de boa vontade!?
Não há uma resposta, visto que não há uma maneira correta de se jogar os jogos da vida. De Paciência à Filosofia Moderna, de Banco Imobiliário à Teoria da Gravitação Universal, da fila ao Código de Direito Canônico. Daí o coringa. Daí o café-com-leite! É um modo do próprio jogo dizer para não levá-lo, assim, tão a sério. De que adianta jogar corretamente se, com isso, deixamos os jogadores infelizes? De que adianta seguir a risca todo o regulamento do Banco Imobiliário se o seu irmão menor não está acompanhando vocês? De que nos adianta tomarmos todos os remédios e pípulas que embotam nossos delírios se estabelecemos uma relação de tristeza com eles? E de que adianta tocar o instrumento perfeitamente, respeitar os comandamentos, fazer uma resenha exemplar do filósofo e, enfim, ser um modelo de vida, evento, jogo e procedimento se, com isso, não nos tornamos felizes, não trazemos felicidade para os outros nem tornamos a própria vida, ela mesma, mais alegre e jovial?
O "peso leve" e o "jugo suave" do messias. Não adianta a virtude individual (virtu, força) se não atingimos, com isto, o universo inteiro (cosmos, beleza). O cristo, o buda, o santo, o gênio, o mahatma, não são sujeitos esforçados, mas eventos est-éticos. O jogo é a atualização dum evento. E evento, aqui, já deixou de ser um simples enxerto da totalidade. O movimento da espada, o jantar, o movimento da carta não são partes de um todo, não são pedacinhos de Lego que usamos para montar nossas tecnologias frágeis. O movimento, ele mesmo, é a expressão da mudança de um todo. O evento deixa de ser uma coisa: é, agora, evento-ação, é eventualização! Uma espada em movimento é uma guerra em movimento. Uma colherada suscinta na sopa é uma boa maneira para conquistar o sogro. A Rainha de Copas por sobre o Rei de Ouros é uma noite de bebedeira, música e muita risada entre dois ou três amigos chegados. São todos jogos. E jogos que permitem - que incentivam - a trapaça, a invenção de movimentos fora dos jogos jogados (o que pode suscitar, mesmo, a montagem de novos jogos), quando estes não mais nos colocam no movimento da vida. Não digo para jogarmos todos os jogos fora e nos entregarmos a um suposto espontaneísmo humanista. Que nada! Digo do contrário!
Aprendamos todos os jogos que conseguirmos - das cartas ao Código Penal, da Psicologia Experimental à Análise Institucional, do Cristianismo ao futebol, passando por física dos quanta, filosofia da mente, robótica, pintura renascentista, música orquestrada do século XX - mas não para sermos especialistas do saber. Isto seria jogar o jogo e ser engolfado pelos algorítmos do mesmo sem saber aonde iremos chegar com nosso esforço todo (igual ao menino que, mesmo sem saber como montar a mesa para o Paciência, dá um clique duplo no programa e se põe a mexer as cartas, pra cá e pra lá). Estudemos os jogos, construamos os jogos, joguemos os jogos. Mas saibamos trapacear. Não quando for necessário, já que necessidade é a regra, mas quando a vida demandar, pedir, nos convidar a embelezá-la, a torná-la cada vez mais diferente, alegre, movimentada e potente. E quando saberemos o momento certo? Nunca. Quem sabe é quem tem o poder, quem conhece o manual de regras que veio junto do tabuleiro, e o momento - a eventualização - não consta na programação. Aposta-se. Um jogo de apostas, é essa vida. Vamos nos divertir, então...