domingo, 17 de junho de 2012

Carta a um viajante

Sempre que o sujeitinho empreendia uma viagem se referia ele ao deslocamento da sua terra natal até um ponto de destino, seja este qual for. A viagem equivalia ao movimento de saída, à própria caminhada daqui até ali, aos ventos no rosto, a chuva que assolou a caravana, os assaltos que a comitiva sofreu, a fome, a sede, o choro, o riso, a música, as amizades realizadas e as inimizades conquistadas, até que a chegada pusesse um fim à viagem e as histórias sobre o ocorrido pudessem, finalmente, se sedimentar. Kemp´s Jig. O destino não era o objetivo, mas o termo da viagem, a sua morte, fim e descanso. Com nossos aviões ultrapassando a velocidade da música e todas essas tecnologias da inteligência a facilitar a aquisição de dados e informações que lá se produzem, "viajar" e "conhecer" passaram a significar "sair dum lugar e ir para outro" ou "bem representar as coisas de lá", com estes lugares e caminhos situados no mundão extenso (res extensa) lá fora. "A verdade está lá fora", não é isto que dizia um já esquecido seriado da TV? Mas "ir pra fora" deixou de ser um desejo pelo ar fresco, pelo sol que escalda, e passou a operar como a saída de um dentro para outro dentro. Sai-se de casa para o trabalho, dos estudos para o mercado, de um país para outro, mas o fora parece que sumiu. Virou lugar de passagem, virou túnel. Que é este fora? Quem sabe!? Se se soubesse, seria um dentro. Achei bom, muito bom que você tenha se posto a nomadar, e achei bom, muito bom que você tenha aceitado a minha sugestão de "cartear" a nossa relação à distância. Os apóstolos carteavam. Os estóicos também. Os vagabundos todos adoram cartear. Beatniks, hippies, punkiesgrungies, indies, todos esses dentros que já foram foras, que já levaram foras, todos esses vagabundos que hoje são modulações de mercado demandam um fora, e demandam cartas, cartas que são como que placas sinalizadoras do caminho que já percorreram e, mais, sinalizadoras da tremulação que é olhar para o horizonte e não saber para onde se está indo. O vagabundo é o que vaga. Viajar à Paris e visitar a Torre, o Arco e o Louvre não é viajar, mas adquirir cartões-postais, adquirir dentros, e não sair pra fora. E os bares e cafés dos nauseabundos, as putas lânguidas da noite, as bibliotecas homéricas? Visitar Paris não seria conhecer a Paris que ninguém conhece, uma Paris que é só sua e que só existe por causa dessa sua vadiagem? Sair duma rotina é condição para a vida e a verdade que, como já dito, está lá fora; mas condiciona também a criação de outro dentro e, mais grave e crônico, condiciona a ilusão de que se está experienciando um verdadeiro fora, um verdadeiro ar fresco. Pobre viajor: mudou-se, mas sem se mudar. Antes, o contrário: permanecer em lótus, mas distinguir-se inteiramente de si - ah! o asceta, este ginasta da alma. A viagem é a criação dum fora e criar um fora é inverter a relação do dentro estável com o fora-que-passa. O sedentário - esse filósofo de gabinete, esse homem sentado - vive no dentro, e vai pra fora para se chegar a outro dentro; o viajante subverte esse esquema e faz do fora a sua rotina e do dentro - a cidade, a estalagem, o quarto - o seu lugar de passagem. O conhecimento de gabinete é ir ali, e só sair lá fora para que se chegue a um novo aqui, a um novo estabelecido, outro estabelecimento. Para o viajante, as cidadelas e seus conchavos muito pouco importam à verdade que ele busca, uma verdade que não é obtida na saída de um lugar para outro e nem é a boa representação, o álbum de fotografias, das coisas que por lá residem. O filósofo sentado vai pra fora em busca da verdade. O viajante, ao contrário, o viajante verdadeiro (mesmo estando imóvel), já vive no fora (mesmo fixado num dentro), já vive na verdade e na vida (que é o próprio caminho e a ele equivale, ponto por ponto) e faz apenas paradas ocasionais num e noutro dentro para descansar, tomar uma cerveja e ter mais uma história pra contar, até que, descansado, se canse de falar, de contar a história e se ponha em aventura, busca e construção de mais outra história, quer ela venha a ser narrada quer não. Vai lá, vai-te embora, vade retro, "bênça" à Deus e adeus...



quarta-feira, 16 de maio de 2012

A leitura como arte

Citação direta:

... não existe um tal substrato; não existe "ser" por detrás do fazer, do atuar, do devir; o "agente" é uma ficção acrescentada à ação - a ação é tudo. O povo duplica a ação, na verdade; quando vê o corisco relampejar, isto é a ação da ação: põe o mesmo acontecimento como causa e depois como seu efeito. Os cientistas não fazem outra coisa, quando dizem que "a força movimenta, a força origina", e assim por diante - toda a nossa ciência se encontra sob a sedução da linguagem, não obstante seu sangue-frio, sua indiferença aos afetos, e ainda não se livrou dos falsos filhos que lhe empurraram, os "sujeitos" (o átomo, por exemplo, é uma dessas falsas crias, e também a "coisa em si" kantiana).

Que dizer da sentença acima? Depende, eu diria. De quê? Depender é sempre pender para um outro, a coisa que depende sempre depende de outro, depende de coisas que não ela mesma. O interlocutor de Sócrates, ao ignorar que ignora, precisa dele, esse filósofo chato, esse tavão, esse inseto ferroso, para lhe apregoar a verdade na carne viva, uma verdade que não é um modelo de vida nem, tampouco, um saber a ser transmitido, mas um incômodo em relação ao seu ser mesmo de sujeito e à sua existência inteira. Algo parecido ocorre com o stultus do estoicismo, esse indivíduo que cuida de seus bens, cuida da família, cuida do corpo, cuida das coisas públicas, mas não pratica o cuidado de si mesmo; disperso de seu eu enquanto objeto de cuidado, essa atenção para si não pode vir de si, já que o que caracteriza a stultitia, esse estado do homem comum, esse homem tão longe da sapientia estóica, é, justamente, a desatenção de si, o que torna a presença do outro imprescindível numa tal prática filosófica. Depender é, repito, pender para um outro para ser um eu, para ser um. Ora, se peço ao senhor leitor que comente a citação inicial, e não lhe dou nenhuma informação auxiliar para a hermenêutica da citação, muito pouco se avançaria em nossa conversa, já que o máximo a ser feito seria reproduzir algumas frases do período acima com outros termos. Esbanjaríamos vocabulário, mas sem avançar na discussão.


Se digo, porém, que a citação é de F. Nietzsche (e, de fato, o é; pode ser encontrada na primeira parte de seu Genealogia da Moral), tudo muda. Um outro aparece e retira a sentença da ignorância e da estultícia. Um movimento se dá, uma relação se estabelece e o pensamento pode se desenrolar, agora. Pelo martelo de Nietzsche, a frase pretende destituir o sujeito psíquico de sua individualidade, independência e liberalidade, colocando o homem como fruto dum conjunto de forças históricas e propondo uma filosofia destituidora de toda origem e fundamento universais, articulando uma política da saúde e um pensamento do corpo, em oposição aos idealismos e moralinas exangues que sanguessugam o ocidente. Caso o acaso, porém, tivesse lançado essa sentença num dos poucos livros de H. Bergson, filósofo de estilo imagético, escrita-pincel, teríamos agora uma crítica a todas essas filosofias abstratas que não abordam o objeto nele mesmo, em sua duração concreta e temporal, mas em seu correlato espacial e linguajeiro, tomando por problemas reais mal-colocadas aporias, problemas insolúveis. O psicólogo B. Skinner, por fim, poderia pronunciar a mesma sentença e, com a mesma, quereria propor um ataque mordaz ao mentalismo e, ao mesmo tempo, ao comportamentalismo meramente metodológico, propondo noções como Operante e Evento Privado, constituindo uma filosofia do comportamento independente tanto da introspecção quanto da análise e mensuração descontextualizada do organismo a ser estudado.

Escrever é uma arte, dizem. Bilac "trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua" e, "longe do estéril turbilhão da rua", escreve. No segundo parágrafo do mesmo soneto, A um poeta, diz:

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

E, assim dizendo, o que o poeta talha e constrói? A poesia de e para o Bilac é análoga a um processo fabril, uma maquinação industrial ou, ainda melhor, um ofício de escultor, de ourives. Poesia como templo grego e vaso chinês, como forma feita e bem feita. Já completada, essa boa forma deve olvidar todo o sacrifício do santo beneditino ao conceber, gerar e dar luz a seu rebento de palavras. A poesia como objeto da arte, como obra da arte. Essa fabricação artificial, destarte, é pensada em dois instantes: há o trabalho do sujeito-artista e há o objeto-de-consumo resultante deste trabalho. A imaterialidade do trabalho do sujeito é recomposta por biografias, correspondências pessoais, rixas deste sujeito-artista com outros sujeitos (artistas ou não, humanos ou não). A materialidade do objeto é, por sua vez, alvo dos exegetas, teóricos e estetas a interpretarem e alocarem esta obra entre tantas outras obras que já atravessaram o crivo dos acadêmicos ("parnasianos aqui, simbolistas um pouquinho mais pra cá, românticos lá pra trás e modernistas... modernistas... deixa eu ver, os modernistas ficam... er...").

A hermenêutica da atividade poética se divide em duas, então. Uma do sujeito (o que nos legará biografias, compêndios e relatos historiográficos) e outra do objeto (realizando interpretações sobre o que quis dizer a obra, qual a relação dela com as teorias de base da sua arte e como se pode categorizá-la num ou noutro movimento artístico, já estabelecido ou não). Um modo interessante de se recortar o problema - e que, usando o vernáculo husserliano, opera a distinção sujeito-objeto típica da atitude natural, compartilhada tanto pelo senso comum quanto pelo saber conceitual científico -, mas que põe no mesmo palco, em implícito, um terceiro personagem nesta historieta: de um lado, os especialistas do sujeito-artista; de outro, os especialistas do objeto-de-consumo; do lado de fora, como um terceiro excluído, está a figura do leigo. Que cabe ao leigo, este amador, este não-profissional, frente a esses latifundiários da arte? Consumir, apenas consumir, se nos mantivermos neste esquema no qual a arte se espartilha e se divide entre alguns como num conchavo de pós-guerra.

Este dualismo bilaquiano parece nos levar a uma contradição nos conceitos que subrepticiamente articula. De início, cria uma separação entre a linguagem poética - advinda de Apolo e das Musas, do Monte Parnaso, da ética, da estética, da noética, da ascética, palavra que dança, que musica, que teatra, que palavra, que palavra!, se insinua, nua, toda nua, nada sua, fora da rua, "No aconchego / Do claustro, na paciência e no sossego", palavra bela, forte e graciosa "na simplicidade" - e a linguagem prosaica, aquela mesma do "estéril turbilhão da rua". Temos, aí, não apenas duas apropriações da linguagem, ou dois usos duma mesma coisa chamada linguagem, mas duas coisas diferentes, duas noções da atividade linguística que diferem por natureza: uma voltada para a ação no cotidiano, a representação da coisa, a geometrização da experiência, a percepção do objeto, o dizer de algo; e outra que se dá como uma experiência nela mesma, uma intuição em velocidade infinita, um dito puro, uma primeiridade, um fluir, um submergir, um sufocar-se, um afogar-se nas águas espirituais da escrita artística. Neste ponto, duas metafísicas incompatíveis se desenrolam, já que o mundo prosaico não é nada além dum espaço vazio no qual coisas e homens constituídos se inserem e se comunicam, fornecendo uns aos outros informações e referências, ao passo que o mundo do poético, tomado e levado ao extremo, é, em verdade, uma infinidade de mundos, de existências, de atualidades e virtualidades, a se acoplarem, se interferirem e ressonarem mutuamente, ainda que cada um desses mundinhos se experiencie como um átomo, um individuum. A contradição que pretendo mostrar é uma outra, não obstante, é a sua consequente.

Se, como dito, escrever é arte, e arte é trabalho, constitui-se nessas equivalências um ambivalente produtor-operário do texto artístico e um consumidor dos objetos deste sistema de produção de bens. Mas, como a escrita tomada como trabalho artístico demanda uma metafísica da interferência, o leigo leitor de poesia vê-se na impossibilidade de consumir a obra como o homem consome a sua refeição, o modelo consome a sua moda, a família consome a sua novela, o percipiente consome o seu percipii ou o filósofo consome os seus princípios lógicos, por não se tratar duma monadologia, duma unidade atômica a apreender, cognitiva e cumulativamente, os dados lançados ao mundo, mas um mundo que, ele mesmo, se cria e se recria ao chocar-se com a alteridade, tornando o processo cognitivo um processo de invenção, de si e do outro. A contradição que tanto quero exprimir é a de que o leitor só pode ser entendido como um consumidor, um devorador, se nos mantivermos no registro da palavra que representa o mundo e faz a correspondência deste mundo no sujeito do conhecimento; mas se a palavra adentra no outro circuito, no circuito da arte e de sua velocidade infinita, saímos também da correlação produtor-consumidor, necessariamente, e caímos na relação produtiva ela mesma. O leitor de poesia não consome nada, já que a afirmação faz coligar duas metafísicas, dois partidos inconciliáveis. Aliás, a própria ideia de contradição só responde ao modelo geométrico da linguagem, no qual contradizer-se é sustentar uma representação e, no mesmo instante, a representação que lhe nega. Adendo: dizer que o leitor é um consumidor não é contraditório, já que a contradição se dá apenas no plano das formas, no plano das diferenças de grau. A poesia diferencia-se da linguagem cotidiana por natureza. O poético e o prosaico não são dois modos de abordar a palavra e as coisas, já que "as coisas" só existem, como realidades extensas e representáveis, no linguajar que comunica e referencia. Com a poesia, é a atividade criadora, o movimento inventivo e a produção que está em jogo, e em constante jogo.

Com a poesia cabe, tão-só, produzir. Escrever é arte e trabalho, sim, mas ler também. Cozinhar é arte (Culinária), mas comer, para além de consumir, também pode ser uma poética (o gourmet). Destilar a cerveja em quantidades ideais de água e álcool, de cevada e trigo e malte e lúpulo, é uma arte (Cervejaria), mas saber apreciar esta cerveja é, igualmente, uma arte (o sommelier). Organizar sonoridades de maneira agradável ou intencionalmente desagradável, harmônica ou atonalmente, visando este ou aquele efeito, esta ou aquela conjuntura, é uma arte (Música), mas saber acompanhar e recompor no espírito os movimentos articulados por estes sons demanda muita poesia. O cinema, considerado como o enquadramento, a decupagem e a montagem de diferentes imagens em movimento num plano-sequência virtual, configura uma superfície de legibilidade, como diria J-L Godard, que deve não apenas ser vista em sua evidência e obviedade, mas lida, criticizada. O crítico culinário, o crítico musical, o crítico de cinema, o crítico de poesia, o crítico de arte. O papel do leigo é criticizar, mas este leigo é tanto equidistante do leigo-senso-comum a devorar e tomar como óbvias as imagens que lhe são colocadas quanto do sábio de bon sens, o filósofo cartesiano que, aqui, assumiria aqueles papéis de especialistas do sujeito e do objeto artístico, de crítico de arte profissional, e não mais amador, o amador que ama e adentra no movimento da arte, tornando-se, ele mesmo, movimento, e não mais uma coisa-que-pensa. Se Kant criticava no sentido de colocar as condições formais de possibilidade do conhecimento - espaço, tempo, substância, relação de causalidade etc. - aos moldes de uma arquitetônica da razão, a crítica amadora e leiga investe numa "História da razão pura", aquela mesma que o prussiano diz ser uma lacuna a ser preenchida em sua doutrina transcendental. O filósofo-arquiteto busca fundamentar seus agregados sensíveis num sistema, apoiando e fomentando assim os fins essenciais da razão, isto é, a unidade dos conhecimentos diversos numa ideia; já o amador agencia ideias, faz com que pendam e se dobrem uma na outra, e produz sentido e calor ao atritar essas partículas moventes. O estilo, já dizia G. Deleuze, é o movimento do conceito, tanto em filosofia como alhures.

Félix Ravaisson - curador do Louvre de 1870 até a sua morte, em 1900 - utilizava da seguinte analogia para ilustrar essas duas críticas. Pensemos nas cores do arco-íris, do vermelho ao violeta. Há duas maneiras de se fazer filosofia em cima delas. A primeira é dizer que todas são cores (laranja, amarelo, verde, azul, anil...). Mas faz-se notável que, para obtermos esta idéia geral - o conceito de cor - apagamos do laranja o que faz dele laranja, do anil o que faz dele anil, do verde o que faz dele verde. "Cor" é uma definição negativa, visto que aponta para o vazio. O trabalho deste filósofo é unificar o plural, extinguindo a luz que diferencia as diferentes nuances e confundindo-as todas na treva do universal. A unificação segunda lida com os infinitos matizes e os faz convergirem, através duma lente, a um mesmo ponto. Este filósofo busca a luz branca, pura, do qual todos os raios multicolores provêm.

Tomo quatro películas para uma demonstração ligeira: Um Cão Andaluz, filme surrealista de 1928, escrito e dirigido por Luís Buñuel e Salvador Dalí; Akira, um anime cyberpunk de 1988 baseado no mangá homônimo de Katsuhiro Otomo, e dirigido pelo mesmo; A Liberdade é Azul, filme de drama dirigido pelo polonês Kieslowski, em 1993; e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, comédia francesa de 2001 do diretor Jean-Pierre Jeunet. O que têm em comum: são filmes, todos. E o que é um filme? Qual a essência comum que os mantém reunidos nesta categoria una? Digo-lhes: nada. Simples e puramente. Temos decupagem e enquadramento, trilha sonora e roteiro, personagens e cenários. O que cada um destes filmes entende por cada uma destas coisas difere tão gritantemente dos demais que só com muita ignorância e mouquice de nossa parte podemos dizer que se tratam de uma mesma coisa, que se tratam de "filmes". Se todos nos apresentam 24 fotogramas por segundo, o modo como montam, modulam e enunciam tais imagens é díspare. Cada filme monta uma experiência diferente, configura uma noética muito particular e organiza um mundo de coisas assim e não assadas. Estética = Política? A mulher que tem a sua íris fatiada por Buñuel seria parte de um experimento na Neo-Tókyo de Akira. A viúva Julie não seria tão sorumbática caso vivesse na França de Jeunet. Kaneda não teria propósitos tão bem definidos no mundo onírico de Um Cão Andaluz. E a radiante Amélie não poderia co-existir com o mundo monocromático de Kieslowsli. Cada personagem, objeto, ator, jogo de câmera, plano de fundo é idêntico a seu mundo. Podemos dizer o mesmo da música e da literatura. O que faria Paulinho da Viola na orquestra de Carlos Gomes? Como soaria o piano de Ernesto Nazareth junto dos sintetizadores do Marcelo D2? E se pudéssemos ouvir a Ivete Sangalo cantando Chico Buarque junto da Bidu Sayão? Dowland, Buxtehude, Salieri, Beethoven, Listz, Debussy e Prokofiev - todos músicos clássicos, todos "eruditos", e todos dessemelhantes - fariam um bom jazz fusion, juntos? Jesus se inspiraria lendo o Manifesto do Partido Comunista? Como viveria o príncipe maquiavélico na politéia platônica? O que faria Kant para consolar as angústias de Werther? Como Freud interpretaria os sonhos de Josef K. e Gregor Sansa? O inimaginável, imagem impossível. Alocar um mundano para um mundo outro que não o seu causaria a entropia da parte recém-chegada, do ambiente a recebê-la ou de ambos. Choque de universos, de cosmos, de mundus, e mundos que não se colam (mas que podem se bricolar; a natureza da criação poética poderia ser investigada nestes termos, inclusive...). O que é uma música? E um livro? A resposta, mutatis mutandis, já foi dada no correr do parágrafo. Filmes, músicas e livros não são coisas, mas sim experiências políticas.

Podemos, insisto, definir a coisa tomada nela mesma, numa falsa imanência - assistimos comédia, ação, horror; ouvimos sambas, rocks, músicas clássicas; bebemos Skol, Brahma, Heineken; lemos Gogol, Wilde, Kafka; provamos yakissoba, macarronada, lámen -, o que nos legaria uma representação vazia, já que tomamos as coisas como elas se nos aparecem em sua obviedade fenomenal, já serializadas e entificadas em marcas, tipos, gêneros, categorias ("são todos filmes, músicas, cervejas, livros, comidas..."); ou dizer do modo como as suas partes se agenciam, configurando a sua totalidade, e como esta totalidade, imenso articulado de intensidades, produz essas mesmas partes. Falamos, agora, não em "filmes", mas em cinema expressionista por este jogar com contrastes (luz e sombra, forma geométrica e forma indefinida, bem e mal, belo e horrendo), ou em neo-realismo italiano (apresenta temáticas cotidianas em seus roteiros e, mais importante, constrói imagens puras, imagens que não demandam nenhuma ação, nenhuma resposta) ou outra estilística, podendo estas serem cômicas, de horror, que seja. Esse exercício de leitura, de inserção numa imanência pura pode e deve ser continuado para além dos procedimentos de montagem da imagem mesma (em exemplo, poderíamos supor que o neo-realismo surge produzindo imagens cinematográficas que não demandam reações dado o contexto pós-segunda guerra, a condicionar descrença quanto às ideologias totalitárias e organizadoras da vida, quaisquer que sejam). A imanência, então, clama uma filosofia da relação – filosofia da vida e de suas relações -, uma filosofia prática que não se pauta pela discussão do método (“como posso bem conhecer o objeto?”, “qual a melhor abordagem frente ao objeto?”...) mas da ação; se aquela pretende “conhecer absolutamente” antes de agir sobre as coisas (ou mesmo independente de tal ação), esta não quer conhecer para agir (visto que o mundo já é ação) mas inventar as articulações responsáveis por uma ação que já se dá, possibilitando mais e mais ação (logo, mais e mais conhecimento). Uma filosofia da imanência pura recusa as epistemologias identitárias (constituidoras das caixas-pretas do sujeito especialista, do objeto dominado e do leigo band à part) e transformam a teoria do conhecimento num exercício vital, de construção da vida, e vida construída à maneira duma obra de arte.

Arte, inclusive, vem de ars, termo latino que designa tanto um saber e as práticas, técnicas e obras que lhe são derivadas, quanto um ato, uma ação, uma energia, um movimento. Retomando Olavo Bilac, vemos que o poeta - tomado como o produtor de informações a serem fagocitadas por um terminal de recepção - deve enxugar o suor de sua testa, esconder as máquinas, guardar para si todo o trabalho hercúleo que teve na esculturaria de seu texto sacrossanto e só revelar, nos altares do templo, o objeto óbvio, a obra dada e acabada, pronta para o consumo do mortal. Os atos, ações, energias e movimentos que serviram de condição de suporte para o produto artístico nada tem de ver com ele, dizendo Bilac aos poetas que

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício

Este terceiro parágrafo do soneto desenvolve um pouco mais o que já foi prenunciado no segundo ("Mas que na forma se disfarce o emprego / Do esforço..."). Se a arte é a boa forma, o templo solidamente erigido, o crítico profissional deve buscar os "andaimes do edifício". Não é este o trabalho a ser desenvolvido pelo leigo amador, já que ele opera noutro regime de verdade. O profissional absolutiza, o profissional conhece a informação adequada, a que melhor corresponde e representa o mundo dado. O amador, o artista leitor, por sua vez, relativiza o saber; não o afrouxa mas, ao contrário, fabrica o seu rigor colocando-o em relação de dependência com outros saberes e, assim, estabelece um plano de tendências, uma inserção na história, uma reunião de imagens que não equivale a um conjunto de informações definitivas sobre um algo; ao invés de - pretensão de filósofo - fundar e findar o conhecimento, esta reunião de imagens demanda consistência, demanda mais imagens, mais criação.

Bergson e William James, em suas constantes trocas de cartas, já falavam desse modo de produzir conhecimento que demanda não só uma nova metafísica mas um novo modo de exprimí-la, deixando a dedução lógica à parte e investindo na metáfora, na criação de impressões de conjunto, intencionando levar o leitor para além dum simples convencimento, levá-lo a experimentar todas as nuances, cadências e tonalidades do pensamento, fazê-lo acompanhar os percursos e sinuosidades do pensamento, recriando-os em seu espírito. Escrita musical, pictural, escrita-dança, imagem-movimento (e não simples imagem-em-movimento, simples coisa-que-muda). O belo livro de Bergson sobre o riso cômico é um bom exemplo desta operação do espírito, no qual o filósofo recusa de pronto as concepções acerca do cômico que pululam em seu tempo. Dá atenção especial à definição de Yves Delage, que trata o riso como um relação abstrata entre ideias no espírito, uma desarmonia entre o efeito e a sua causa. Apresenta o trabalho de alguns psicólogos como Ribot, Stanley Hall e Kraepelin e diz que, embora as conceituações destes não se excluam, elas respondem o problema de maneira distinta. A inculcação de Bergson não se dá pelas respostas oferecidas – “estão certas, estão erradas” – mas pelo modo das mesmas abordarem a questão. O campo problemático é resolvido, sempre, com o cerceamento dum conjunto-solução, conjunto geométrico, a compreender este e aquele caso. Traça-se um círculo e, dentro dele, vamos jogando as experiências específicas. Duas estranhezas: teremos situações cômicas que não estão dentro do círculo demarcado (estreiteza conceitual) e situações desgraçadas que inapropriadamente estarão (generalização indevida).

Esta metodologia intelectual satisfaz as exigências da lógica no que toca à tessitura dum enunciado firme e vigoroso. Dão a “condição necessária”, mas abstém-se da “condição suficiente”. Bergson, daí, procura em fontes diversas - “uma careta de palhaço, um jogo de palavras, um qüiproquó de vaudeville, uma cena de comédia fina” – não uma essência generalista mas os procedimentos de fabricação do risível. Ao invés de encerrar o cômico numa gaiola conceitual, fala do funcionamento da comicidade (e, mais profundamente, da intenção da sociedade-que-ri), o que dará ao leitor de sua obra O Riso não uma formulação receituária, mas um conhecimento flexível e útil – como o de um amigo frente a outro – sobre o cômico, forçando-nos e nos incentivando a encontrar e produzir efeitos semelhantes ao cômico-ele-mesmo. Ao invés de sabermos sobre a risibilidade, teremos de trabalhar, teremos nas mãos trabalho e mais trabalho para criar o riso. Uma filosofia que demanda não só condições lógicas para o acesso ao conhecimento, mas condições práticas, éticas.

A binaridade construída ao início do texto - linguagem poética, linguagem prosaica - pode dar a entender, como já colocado, que existem duas maneiras de se utilizar a linguagem, a mesma "coisa" chamada "linguagem" quando, em verdade, tratam-se de duas "linguagens" de naturezas distintas, duas metafísicas inconciliáveis em operação. Dito isto, não dá para reduzir a problemática, meramente, à proposição de duas modalidades de produção de conhecimento, já que fazer isto seria separar singularidades em duas categorias unitárias, visando bem identificá-las e representá-las (e este é o procedimento de apenas uma dessas modalidades). Como a poética pode se dar, então? Ela pode sempre se dar, oras, já que sempre se produz algo, mesmo no consumo. A exigência de exclusividade e separação fica para a geometria do cotidiano. A poética não como um modo de construír, mas de fazer, de facere, de sacrum facere, sacrificar e dissolver o objeto na temporalidade transespacial que lhe constitui. Um movimento rumo à interioridade das coisas, de ruptura com os hábitos intelectuais condicionados. Poetizar é, antes de estruturar poemas, de construir formas ditas poéticas, uma inversão no percurso natural do trabalho de pensamento. O ato de liberdade poética deve abandonar os conceitos prontos que estão à mão, no espaço, ou, melhor, deve temporalizá-los, reconstituir seu processo de constituição, de individuação, criar novas semânticas e até novas maneiras de se conceber o pensar, entendido não mais como a correlação de um sujeito com a realidade dada, mas, agora, como a inserção no movimento criador das imagens anteriormente tomadas por óbvias. Não é somente a verdade sobre o mundo que muda, mas é o próprio mundo, coletivo articulado de proposições, de homens e coisas, que muda, o próprio mundo é mudança, nos legando problemáticas, diferenciações e histórias. A poesia é apenas o ofício de não deixar a prosa, imersa em ignorância e estultícia, esquecer-se disto...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Sou do tempo em que Merthiolate© doía II (ou "Que é isto, o Conceito?")

A filiação seminal de Sartre e Camus se finda - o marco-zero da queda - quando este escreve o seu L´homme révolté. Freud e Jung, mesmo concordando sobre a existência dum inconsciente e de seus mecanismos de repressão, não conseguem mais suportar o relacionamento devido à fixação do primeiro pelo caráter sexual do desejo e pela coletivização e espiritualização do inconsciente estabelecida pelo segundo. Muitos concílios foram conjurados para resolver uma querela quase pessoal entre dois marmanjos da comunidade cristã, a saber, se o plano de salvação deveria ser restrito aos que abraçavam as tradições judaicas, como dizia Pedro da Galiléia, ou se a Boa Nova tinha de ser traduzida na realidade dos povos pagãos, como ensinava Paulo de Tarso. Como sujeitos tão próximos, tão unha-e-carne, ou mesmo os indiferentes - podemos pensar noutros exemplos: Agostinho e Pelágio, Schopenhauer e Hegel, Nietzsche e Wagner, Benda e Bergson, Habermas e Derrida, Beauvoir e Foucault - podem distanciar-se e inimizar-se, tão somente, devido a uma brigadela conceitual? E daí que um prefere pimenta e azeite, o outro? Que amizade chega ao fim porque um toma a sopa pelas bordas e o outro devora logo os nacos de carne que bóiam na cuia? Joãozinho acha que a coisa existe nela mesma e Mariazinha acredita que representa a coisa em seu espírito. O resultado: divórcio.

O que sempre esquecemos de notar - e esquecer é ignorar o passado que nos constitui, a história que nos suporta - é que o conceito de revolta talhado por Albert Camus, por exemplo, o colocava ao lado dos anti­mar­xis­tas, ao passo que o humanismo ateu sartreano o filiava aos soci­a­lis­tas e à União Soviética. A Guerra Fria, guerra de mentirinha, de trincheirismo político, de "agora eu era o herói...", articulou e configurou diversos outros conflitos de natureza aparentemente distinta da política de Estado, mas a ela atreladas: guerrinhas de mercado, guerrinhas midiáticas, guerrinhas pedagógicas, guerrinhas cinematográficas, guerrinhas literárias, guerrinhas fashionistas, guerrinhas científicas e, enfim, guerrinhas intelectuais, todas elas facetas dum grande conglomerado coletivo de práticas de submissão historicamente condicionadas e condicionantes (mas não determinadas nem determinantes). O capitalismo financeiro contemporâneo à Sartre e Camus cria condições para que noções como "o revoltado", "o existencialismo", "o intelectualismo engajado" tornem-se problemas interessantes à discussão dos intelectuais; discutir "revolta", porém, pouco sentido faria na Grécia de Sócrates, embora a democracia ateniense tenha criado condições - mas não determinado, remarco - para que conceitos como "ideia", "dialética", "sofisma" ou mesmo "verdade" tornem-se de interesse político, da pólis, e que ganhem os espaços de debate nas arenas do senado. Dizer, com Paulo, que o batismo está aberto aos pagãos é pactuar com uma política de universalização do divino e não mais restringí-lo aos filhos de Abrãao, Isaac e Jacó (e Pedro é escanteado). Ao anunciar o "je pense, donc je sui", Descartes dá consistência a uma governamentalidade ligada a um poder centralista e racional, como as monarquias absolutistas vindouras, em detrimento dum sistema político escolástico e doutrinário como o da Igreja medieval. Se toda essa conversa é fiada intencionalmente pelos conceituadores é uma outra discussão, que pode e merece ser posteriormente discutida, mas não agora.

O ofício do filósofo é criar conceitos, coloquemos assim. E conceituar não se opõe à "agir", não compõe um dualismo inconciliável à "ação". Essa mesma distinção, inclusive, já é conceitual, já é um conceito a operar. Se filosofar é conceituar, o filósofo é um senhor distinto, um senhor que distingue realidades, separa joios e trigos, define atuações e, mesmo em suas resoluções, coloca problemáticas. Se todo problema já encobre suas possíveis soluções, toda resposta é, já, o campo problemático atualizado, reduzido em sua complexidade coletiva, condicionante e criadora. Se canso de criar conceitos e digo que, a partir de hoje, me entregarei à ação, já estou colocando um campo problemático-conceitual e criando um dualismo filosófico entre o conceito, como simples devaneio sobre o mundo, e a ação, como mudança efetiva no mundo, o que pode desqualificar a intelectualidade como força de revolta frente ao cotidiano opressor; mas se digo que conceituar e agir são sinônimos estritos, posso estar desinvestindo os espaços de atuação coletiva (sindicatos, conselhos, diretórios...) em nome duma simples retórica solipsista. Que fazer, então, para sair desses dualismos que nossas conceituações mal colocam e com as quais não nos identificamos? Sou ateu ou teísta!? Erudito ou popular!? Duas saídas igualmente válidas mas politicamente distintas: 1) delimitar o conceito ainda mais, desenvolvendo novos conceitos para lhe fazer vizinhança e constituíndo um sistema que os correlaciona (o que pode afastá-lo ainda mais doutros conceitos), ou 2) criar novos conceitos, fazer um outro recorte do problema, uma outra colocação do problema. Temos, é verdade, intelectuais que se deram mui bem, ainda que seus sistemas de pensamento fossem como o norte e o sul, o sétimo dos céus e o quinto dos infernos (Lakatos e Feyerabend, Aristóteles e Platão, Guattari e Lacan...). Não são a maioria, contudo, e mesmo estas exceções raras possuem uma razão-de-ser que justifica e fortalece ainda mais a regra à qual resiste.

A pergunta inicial já deu sinais de sua resolução, o que poderia me desimplicar de escrever um texto maior. Gabarito: João e Maria se divorciam pois ambos investem (desejo, capital, cognições...) em mundos distintos e operam políticas distintas nesses mundos inconectáveis. Não pararei aqui, contudo, e levarei a discussão um pouco, e só um pouco, mais adiante, no que toca ao conceito não ser só uma ideia vaga, uma representação categórica de algo ou uma imagem mental dum objeto concreto. "Não!" para a palavra que referencia o mundo. Conceituar é operar cortes, é definir a realidade concreta nela mesma, é realizar políticas para o pensamento. As pessoas, no entanto, não gostam de pensar, nenhuma delas; pensar traz o tipo de dor que masoquista algum quereria experimentar. Pensar não é idealizar - embora o seja, no corte operado pelo idealista que separa o mundo da ideia, o discurso da prática, o conceito da ação - mas, ao contrário, é materializar e desmaterializar, é sacolejar as estruturas que condicionam os sujeitos e seus objetos, é inutilizar as distinções que oprimem arbitrariamente o corpo (homem-mulher, branco-negro, adulto-idoso, adulto-criança, heterossexual-homossexual, sudestinos-nordestinos) não dando as costas à temporalidade na qual foram criadas.

Daí o ditado de que não adianta explicar quando o outro está indisposto, indisponível, numa posição pouco privilegiada ao entendimento. "Não entender o conceito" pode ser pensado como "não ter cognição suficiente para apreender a ideia", se mantivermos o dualismo psicologizante do qual queremos fugir. "Não entender", prefiro, será equivalente a "não pactuar com a política do conceito, não conseguir adentrar no movimento do conceito, não conseguir acoplar-se ao sistema que o conceito constitui nem conseguir configurar um novo sistema com esse conceito", sendo a "apreensão da ideia" o seu fenômeno, a sua psicologia. Uma dessas montagens do Facebook, repassada a mim e a outros por um reacionário anônimo, dizia algo como "só leu o Manifesto e se acha marxista", precedida de um "Ui!" e duma versão memética do físico Neil deGrasse Tyson. Ora, não se trata de ler só um ou todos os livros escritos pela dupla M&E©; mais importante que ler coisas na íntegra, ler coisas verdadeiras, é fazer verdadeiras leituras, é saber acoplar-se ao conceito e dele fazer ferramenta, afeto e articulação. Pode-se ler, fichar, resenhar, escrever sobre toda a obra de Karl Marx, o que nos legará um saber acadêmico e um privilégio estatutário invejáveis. No entanto, o "uni-vos" a que clama o manifesto do partido comunista, longe de ser um objeto de análise intelectual, é um convite de revolução à determinada classe que compõe o social, alienada num modo de produção burguês e capitalista ("revolução", "proletariado", "burguesia", "luta de classes", "capital", "alienação", são todos conceitos, recortes); para adentrar na onda, para acompanhar os movimentos do conceito, por vezes, basta um só livro, capítulo, frase, ou mesmo nada em escrito. O conceito é a vida! Por vezes, para atingí-la, necessitamos de livros bolorentos e professores miopes que nos instruem na leitura, mas, noutras vezes, o muito ler só confunde o pensamento, nos obnubilando o tempo presente que corre pelo lado de fora da biblioteca, bastando um olhar à janela entreaberta para ver o que o livro quer apontar (tempo que, muitas vezes, já passou...).

Então, não precisamos mais ler e estudar, não precisamos mais participar da Santa Missa, não precisamos mais seguir imperativo moral algum? Não, mais uma vez! A santidade (sanctus, separado) não é para todos, é droga pesada demais pra ser vendida e consumida em larga escala. In facto, organismo algum suporta doses elevadas de espiritualidade, já que o que define a espiritualidade - para além de todas as organizações que a capturam - é um algo que põe em questão o ser mesmo do sujeito; não seu status, suas relações de amizade e parentesco, o seu emprego, formação acadêmica e outras egoicidades, mas um si-mesmo que, submetido ao trabalho duro (askesis) e aberto aos arrebatamentos (éros), é transfigurado e tornado receptível à verdade, às revelações, aos sussuros dos deuses. E esse sujeito pós-verdade, pós-revelação, é um sujeito santo, é o beato ético de Spinoza, o senhor de si e governador dos outros de Sócrates, o barco vazio de Lao-Tsé, o übermensch nietzscheano. Pois! Exatamente o contrário duma espiritualidade é que ocorre, por exemplo, nas chamadas "redes sociais".

Lembremos do velho Orkut: ao modo maçon, um membro participante da sociedade convidava um estrangeiro para que fizesse parte da irmandade iniciada pelo turco Orkut Buyukkokten (a entrada é free, agora, sem precisão de fiador); inseridos nessa irmandade, somos compelidos a delimitar o nosso perfil, nosso eu-virtual (quem somos, de quê gostamos, o que fazemos, blá, blá, blá...) e a participar de comunidades, fóruns de debate que costumam circundar uma temática específica (filosofia, música erudita, animes, turmas de graduação, grupos de trabalho...). É desnecessário dizer que um instrumento de conversação potente como este não funciona como deveria funcionar, não funciona como rede social. As comunidades, todos sabemos, estão soterradas de jogos pueris, de correntes, de assuntos bobos e pouco interessantes ao debate político (no sentido que coloquei alguns parágrafos acima), sendo todo o interesse na irmandade do Orkut depositado nos perfis, nos egos perfilados dos sujeitos ("eu sou assim, eu gosto disso, eu faço isso, veja, veja minhas fotografias, conheça minha intimidade, saiba quem eu sou..."), o que acaba contaminando, inclusive, a relação desse sujeito egóico com as comunidades, tornadas simples instrumento de identificação e reconhecimento ("eu sou corinthiano, eu gosto de chocolate, eu tomo banho pelado, eu conheço o professor Sofronisco...") e não mais um espaço de construção da vida.

Com o Facebook, a história é ainda mais assombrosa. Para o conforto de nossas identidades e referências, o próprio website, ainda mais que o Orkut, não sabe mais o que deve ser: rede social, fórum de discussão, chat de bate-papo, central de jogos e aplicativos, compartilhamento de fotos e imagens, mural de frases soltas e citações e veículo de publicidade e propaganda (enquanto escrevo a postagem, mesmo, recebo, na barra lateral da minha página de atualizações, links comerciais a me oferecer informações sobre o aniversário de 157 anos da cidade onde moro, a possibilidade de fazer mobilidade acadêmica no exterior, as melhores roupas esportivas da Dafiti, as eleições para deputados na Assembléia Nacional Francesa em Junho deste ano e viagens com 70% de descontos pelo Groupon). Sem uma página de perfil bem definida na qual os usuários possam lapidar e externar a sua interioridade, o ego dos usuários encontrou outra maneira para tornar-se público: as constantes atualizações de imagens (uma imagem aleatória, uma frase aleatória e um autor aleatório que, necessariamente, não tem de ver um com o outro), piadas (puta merda, sou o único que sente "vergonha alheia" ao ver alguém rindo com memes!?!?...), referências pseudo-políticas (se você é contra a invasão de pinheirinhos, se você é ciente das abusivas taxas tarifárias que tornam nossa gasolina cara, se você está acompanhando a aprovação do Ficha Limpa no Senado... Dá um curtir, aí!) ou qualquer outra coisa já pronta pra ser encaminhada e comentada ("fato"; "sad but true"; "quem ver, cagará tijolos"; "genial"; "só os fortes entenderão", e outras placas e bandeiras já preenchidas com frases feitas...) no próprio mural de atualizações, além de comentários esporádicos e pouco consistentes nas atualizações de seus "amigos" (um toma-lá-dá-cá, obviamente, e não uma conversa sincera).

A prática conceitual, hoje, assemelha-se ao Facebook. Sempre digo que a possibilidade e a facilidade de falar propiciada pela internet criou um monte de babacas (o troll, o fodão) a bancar e desbancar os discursos com os quais se esbarram por aí. Fala-se qualquer coisa pois deve-se falar qualquer coisa, levanta-se qualquer placa ou bandeira pois deve-se levantar uma placa e uma bandeira; uma ditadura às inversas, uma repressão que nos faz evacuar e vomitar e pôr todo o dentro para fora, ao invés de calcar e recalcar nossos fluidos que necessitam, antes, de amadurecimento. Articular o bom conceito e produzir uma coisa qualquer é insanidade, é pedir para ser incompreendido, visto que o pensamento já tem seus lugares e espaços demarcados de antemão. Quando a filosofia, enquanto estética da existência e prática de cuidado - de si e do outro -, torna-se disciplina acadêmica, o pensamento fica restrito ao decoro das aulas, aos discursos do magistrado e aos departamentos de pesquisa (você é behaviorista [curtir] ou cognitivista [compartilhar]?...). Pensar não é imaginar abstrações, publicar artigos, filiar-se a um grupo de pesquisa, afirmar-se partidário desta ou daquela filiação teórica, gostar ou não gostar de tal e qual autor, tal e qual metodologia, tais e quais termos. O filósofo, antes de ser um sábio, é um amigo, e amigo do pensamento, daquele pensamento que não cabe em nosso estado de coisas de outrora, tampouco no estandarte duma bandeira ou na moldura duma placa. Pensar é adentrar na vida e, como todo parto, causa dor e choro e sangue, muito sangue. Existem muitas e muitas teorias sobre o mundo, mas o pensamento e a verdadeira atividade conceitual - o conceito que corta e denuncia, conceito revolucionário, conceito-faca - não se identifica a nenhuma delas, já que pensar e conceituar é adentrar no mundo e nele operar. Desqualificar a força de um movimento concreto com um discurso é negar a dor de existir e inimizar-se com o próprio mundo. Tenho dito: uma teoria da vida é sempre posterior à vida ela mesma...

domingo, 1 de janeiro de 2012

Protocolo cíclico (ou Da inumanidade)

Dois-mil-e-doze é um ano que já começou a muito. É o protocolo de fim de mundo, o protocolo da eleição presidencial estadunidense, o protocolo astronômico do eclipse solar (dois; um anelar, em maio, e um total, em novembro), é o término do primeiro período de compromisso do protocolo de Kyoto, é o protocolo de implementação do acordo de Schengen. O protocolo do protocolo, afinal. Dentre todos, o protocolo mais praticado, que suscita mais mobilizações, mais implicação, mais-valia, mais gentes, é o protocolo das listas de responsabilidades para o ano vindouro. Claro, podemos sempre ignorar que, de um ano pra outro, nada, efetivamente, muda, visto que se trata da simples passagem de um dia a um outro dia. Ou não; como o humano e sua inteligência operam com repetições, ciclos e rotinas, o "Feliz Ano Novo" poderia, sim, marcar o ponto de virada para um outro estado de coisas (alegria, paz, saúde, dinheiro etc. ad nauseam). Que seja. É este o período das famosas promessas e penitências para o novo ano, já que, como reza o espírito do capitalismo (cristão, neoliberal e, mais do que nunca, de economia integrada e crowdfunding, economia Millennial), alegria, paz, saúde e dinheiro só vêm com tristezas, guerras, sacrifícios e suores (uma verdade que, contada pela metade, torna-se mentira alienante). Resolvi, então, fazer a minha própria lista, mas uma lista meio diferente (e, por ser uma meio-lista, é mentirosa, mas diferentemente mentirosa). O objetivo para 2012:  buscar a inumanidade. E o que o humano inumano se torna? Divino, diabólico, animal, maquinal, atômico, cósmico, tanto faz. Inumanizar é superar a condição atual, virtualizando-a; é sair das imediaticidades, grupalidades e identidades, e abraçar os devires sem sujeito, os devires que não se sujeitam à resposta imediata, aos grupos isolados ou à mesmice do idêntico. Sem mais delongas, lanço em tópicos algumas características avulsas (existem muitíssimas, infinitas características) desta tal condição humana, mas sem muitas explicações, apenas mostrando do meu compromisso em abandoná-las ou, tanto mais humilde (e menos humano), em reconhecê-las no que ainda resta de humano em mim e em nós. Todos nós...

1. Não mais confundir o não gosto com o não presta, o não entendo com o não está correto, o não me serve com o não serve a nada, seja em filosofia, em música, em política, em cinema... Gosto e entendimento são acoplamento estrutural, não evolucionismo cultural;

2. Não mais lutar contra um inimigo (Charles Chaplin versus Buster Keaton, Barcelona versus Real Madrid, Machado de Assis versus Dostoiévsky, Clarice Lispector versus Virginia Wolff, Sergipe versus Confiança, idealismo representacionista versus realismo materialista, ateus versus teístas versus agnósticos), mas pela vida (abandonando o um-contra-outro, luta-se pela comédia, pelo romance psicológico, pelo esporte, pela prosa poética, pela pluralidade do pensamento, pelo espírito, pela existência);

3. Não mais psicologizar os eventos, substancializar os verbos, essencializar os acidentes ou individualizar as proposições coletivas (modelos em que um crime = um criminoso; um movimento artístico = um punhado de artistas; uma corrente de pensamento = um bando de pensadores; um gol = um craque; o amor = dois enamorados; uma governabilidade corrupta = políticos corruptos);

4. Não mais trocar pense nisto por pense isto, realizando a parte mais difícil dos regimes (os dietéticos, os estatais, os eclesiásticos): a de não impô-los aos de-fora;

5. Não mais desqualificar o já desqualificado ou qualificar o já qualificado (falar mal, como toda a gente, da música emo; comentar, como toda a gente, que "o livro é melhor do que o filme"; dizer, como toda a gente, que a reforma psiquiátrica é o que há em substituição ao modelo manicomial), visto que tanto a crítica quanto o elogio perdem sua potência quando articulados a uma rede produtora de imagens e palavras prontas, buscando, isso sim, não mais a resposta para a situação mas algo que problematize e opere no contexto inicial (dizer da história do emotional hardcore e sua proposta político-afetiva de rompimento com o punk; falar que a adaptação d´O Senhor dos Anéis pelo Peter Jackson - ainda que tenha hiper-dimensionado alguns personagens e excluído outros - manteve o sabor épico-geográfico e a valorização da amizade trazidos pela narrativa de Tolkien; perguntar, inocentemente, se o militante já visitou um CAPS ou uma residência terapêutica alguma vez em sua curta vida);

6. Não mais aceitar, em excesso, os rebotes do afeto; rio de algo que me lembra uma situação engraçada, gosto de uma música que uma pessoa querida me apresentou, não vou com a cara daquele professor que o meu veterano detesta. O fato do afeto operar por rebotes fala muito de seu caráter relacional e articulador mas, ao mesmo tempo, este rebote pode servir como ferramenta de submissão - implícita ou explícita, consciente ou não - dum corpo ao outro (ele gosta, então é bom; ele não gosta, então não o é); o perigo deste rebote é a inércia, a aprendizagem vicária a substituir os comportamentos operantes, é rirmos eternamente da mesma piada ("Alguém disse memes, por aí? Não!?..."), não possuirmos gostos (musicais, cinematográficos, culinários, indumentários...) que mobilizem nossos sentidos ou prezar mais pela galera pop que pelo amigo sincero;

7. Não mais valorizar os processos quando o que importa é o seu produto final (prezar pela saúde e pela boa aparência elas mesmas, sendo que o seu valor vem da ação coletiva tornada possível por um corpo saudável e belo) nem valorizar os produtos finais quando o importante for o seu processo (afinal, uma boa pontuação ao fim duma avaliação nem sempre se correlaciona com o entendimento do alunado);

8. Não mais sofrer pelo inevitável mas, ao mesmo tempo, não se resignar a ele, compreendendo-o. Se a doce esposa do sujeito sempre acorda de mau-humor, ele não deve esperar os comentários graciosos que ela, de praxe, lhe faria; se tenho um copo de leite, em mãos, e o torno, voluntariamente, de ponta cabeça, não faz sentido eu chorar de raiva pelo leite que a gravidade derramou; se a casa do estudante sempre ferve de visitas, é insensato ele reclamar - consigo e com os seus - da impossibilidade que é fazer uma leitura atenta e minuciosa das suas apostilas, e isto enquanto continua no mesmo espaço, na mesma estrutura contextual.

9. Não mais identificar o movente com o movimento; interessar-se pela arte não te obriga a idolatrar o artista, concordar com uma política pública não te obriga a filiar-se ao partido e gostar daquele post não te obriga a gostar daquele blog, nem daquele blogger.

10. Não mais levar os protocolos a sério. Ou não (dupla negação: lógica, dialética ou duração?...).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Salto quântico


E, num instante, tudo muda. Não se é mais o Mesmo. O que o Mesmo se torna? O totalmente Outro, o divino e numinoso Outro, o diabólico e bacante Outro. E o que o Mesmo se torna, mesmo!? Ainda não se sabe. Não se é mais o Mesmo, mas ainda não se é um outro Mesmo. É o salto no escuro do homem de fé, do cavaleiro kierkegaardiano, esse tal Outro. É o movimento do eu, o Outro. O inverso nos esclarece: quando um outro se movimenta, o eu sente que algo efetivamente real acontece, quer um objeto tenha passado em frente a seus olhos, quer ele-Mesmo, o eu, esteja se movendo frente a este outro (que não é o Outro, atenção, atenção). Essa certeza-de-realidade do movimento fica ainda maior quando o eu-Mesmo o produz, depois de ter querido fazê-lo. A contração dos seus músculos reforça ainda mais a consciência deste movimento. Significa isto que apreende, ele-Mesmo, o movimento, internamente, como mudança. Quando distingue o som do silêncio, ou mesmo de outro som, o mesmo se dá. A passagem de um estado para outro é um fenômeno real. Absolutamente real. A vida se realizando como uma sucessão de estados, como um metacinema. Do frio ao calor, da alegria à tristeza, do trabalho ao ócio, a vida muda sem cessar. Uma mudança profunda, mudança que é muito mais do que parece e aparece no telão do cinema-da-consciência. O cartesiano, ele-Mesmo, sabe que existe. Sabendo disto, que existe, pergunta o que ele-Mesmo é: uma coisa que pensa, conclui pensando. Mas quem disse que ele-Mesmo, de antemão, era uma coisa? Ser é ser-alguma-coisa? O que é Ser? Ser é pensar um objeto, Ser é conhecer o mundo extenso, Ser é o caralho, escreve Descartes. Ora, Ser é mudar, é o movimento, diz a vida, canta a vida, pois. As gentes falam do tempo - está quente, está frio, está assim, está assado (o não-assim) - como uma sequência de momentos, de estados, e de cada um desses estados como se fossem blocos. E, ao dizer que mudam, entendem a mudança como a passagem de um desses blocos para um bloco outro (que não é o Outro). No que se refere a cada estado, cada bloco, creem que é idêntico a si mesmo durante todo o tempo em que dura. Uma preleção bergsoniana: o mais estável - o mais “bloqueado” - dos estados psicológicos seria a percepção visual de um objeto exterior que permanece imóvel durante todo o tempo em que é observado. Fita-se este objeto de um mesmo lado, numa mesma angulação, com a mesma luminosidade. A visão que dele se tem é idêntica à visão que dele se teve no instante imediatamente anterior, com uma única diferença: a imagem seguinte está um instante mais velha. A memória está presente no objeto, empurrando o passado para dentro do presente. Sensações, sentimentos, pensamentos, desejos, nunca param de se modificar, a todo instante, visto que, se cessasse seu movimento, cessaria o próprio fluxo que constitui sua duração. A psicologia cotidiana diz que a mente - seu objeto de estudo, sua coisa-que-pensa - salta dum bloco a outro. Seria mais acertado, no entanto, afirmar que se muda e se muda, sem cessar, visto que o próprio “estado” já é mudança. A descontinuidade da vida, da experiência psicológica, só se dá fenomenalmente, pois a atenção costuma operar através de atos, postos em série. A mudança, ininterrupta, só é notada quando imprime, no corpo, uma nova ação, uma nova atitude, logo, uma nova atenção. Percebe-se, assim, uma mudança de estado. É, pois, uma violência que demarca o ponto de mutação, que separa o frio do calor, o santo do apóstata, o anjo do diabo. E se o anjo caído vira diabo, um deus caído se vira em quê? Ganha corpo e vira gente. Mas Deus deposto não chora por perder seu trono, assim como o santo não chora por ser excomungado e o poeta não chora por ser incompreendido pelo gramático. Mas, sem choro, sem reação, como Deus, o santo e o poeta saberão que mudaram de natureza e se tornaram Outro? Não se sabe (mas eles sabem). O Mesmo sabe dele e do outro (que não é o Outro...), mas só o Outro sabe de si-mesmo (que não é o Mesmo, atenção), sem pensar muito sobre isso. Se pensar, vira outro, vira o outro de um Mesmo qualquer, vira um Mesmo qualquer e esquecerá que um dia já foi Outro. O melhor a fazer é esperar. E ver o Outro subir aos céus, mais uma vez, e virar outro Mesmo. Até que, num instante, num instante Outro, tudo possa mudar...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sou do tempo em que Merthiolate© doía

Não, o post não vai discutir o quanto o passado é melhor que nosso presente, o quanto a tradição é mais valorosa que as vanguardas atuais, o quanto a minha infância é superior à dos infantos atuais etc., etc. (esse dualismo ingênuo, que anda pululando nas imagens compartilhadas do Facebook, poderia ser temática dum texto futuro, inclusive...). O que venho conversar aqui é, num resumo, a compressão espaço-temporal proporcionada pelas tecnologias do cotidiano. Ou seja, venho conversar sobre resumos. O abstract de um artigo científico, por exemplo, é a redução extrema doutra experiência textual maior; a sinopse dum blockbuster hollywoodiano é a síntese da crise pela qual o cenário e os personagens da película passam e têm de atravessar para retornar a sua organicidade original; um manual teórico é a concatenação de diversos pensamentos em pequenos preconceitos sobre um e outro conceito desses sistemas. A ideia pronta é um mal irrefletido, é o mal da falta de reflexão? Não exatamente.

A ideia pronta é como uma ferramenta e uma ferramenta, redundando, é um algo pronto, um algo acabado, que às vezes nos convém e às vezes não. Claro, quando o primeiro sujeitinho percebeu que amarrando aquele pedregulho num pedaço de madeira firme teria ele maiores chances de abater a caça, não deu outra: todo o bando se pôs a usar e abusar do invento, quer os usuários tenham muita noção ou não da fagulha de genialidade que brotou em nosso cientista selvagem. Quando o martelo (mesmo o nietzscheano) não nos serve em nosso ofício, não se deve destratá-lo, nem jogá-lo fora, e sim guardá-lo na caixa e buscar uma outra ferramenta. Ou seja, a ferramenta é subserviente ao problema e não o inverso (o psicanalista que estupra o sofrimento do paciente e lhe deturpa os dizeres em nome do Pai teria muito o que aprender com o ferreiro pré-totêmico).

Qual é a treta em se usar os martelos sem a intuição direta de suas experiências originárias? Nenhuma. Mas, ao se usar o martelo, perde-se a inserção no campo problemático que lhe serve de condição. E daí? E daí se a motricidade é a inimiga do afeto? Não é a ação que importa, no fim das contas? Talvez no fim das contas, mas não no desenvolvimento da demonstração geométrica e na postura da equação. O esquema de Schopenhauer: se o talentoso é aquele tribal que tão bem sabe usar o martelo, o genial é aquele caçador meio desengonçado que, sem pontaria para arremessar pedras no animal, constrói uma técnica de caça - ainda que acidentalmente; principalmente em acidente - que exige mais da sua força que da sua pouca destreza; e, nessa, o martelo se faz; fiat lux. O martelo se faz mas poderia não se fazer. Poderíamos ter outra ferramenta ou o caçador poderia ter sido expulso do bando devido a sua inaptidão e morrido ao relento, solitário. Mas foi essa a solução que o problema encontrou e produziu, legando àquele coletivo um novo membro, um novo atuante, ator carregado de histórias.

Um resumo que pode nos ajudar a pensar este princípio (se problematizo, não resolvo; se resolvo, não problematizo) na História é a abordagem inédita do cinema realizada pelo dromólogo Paul Virilio, que diz da participação das técnicas cinematográficas nos grandes conflitos do século XX. Não se está a falar, tão somente, duma fusão câmera-arma. De fato, temos aparatos de mira indireta, visores telescópicos nos aviões artilheiros, veículos travelling, satélites espiões. Para além disso, temos o já sabido “serviço cinematográfico dos exércitos”, a propaganda militar dirigida aos civis, através do cinema. Mas a novidade da crítica cinematográfica viriliana reside em seus comentários acerca do “serviço militar das imagens”, o conjunto das representações táticas e estratégicas dos conflitos. As “distâncias” vão sendo anuladas a partir de métodos cada vez mais rápidos de comunicação, como a estratégia militar de abreviação das informações, as fotos instantâneas e as sequências fílmicas de reconhecimento aéreo. O uso indiscriminado de materiais de transmissão instantânea promove uma maior elaboração na codificação das mensagens mentais e uma redução do tempo de retenção dessas mensagens e da possibilidade de recuperação ulterior, numa virada das antigas estratégias de combate para uma logística da percepção. Antes, tínhamos o espetáculo das “armas de teatro” (mísseis, foguetes, bombas nucleares), verdadeiro princípio guerreiro de dissuasão; temos, assim, uma inversão: se a arma de destruição em massa deve ser conhecida para dissuadir, aposta-se, agora, na furtividade, na incerteza e no ocultamento.

Vemos, aí, subsídios para uma epistemo-técnica, uma postura frente à compressão espaço-temporal propiciada pelas tecnologias, já que, para Virilio, caberá ao homem enredado por esta logística da percepção apenas o consumo das informações produzidas pelas máquinas de cálculo e visão. Filósofo do tempo real, critica a imediaticidade que as tecnologias produzem e demandam. Neste sentido, Virilio caracteriza o cibermundo – mais atrelado ao percepto contemporâneo que as imagens cinematográficas, salientamos – como um totalitarismo global, sem fronteiras, que, justamente por ter perdido suas delimitações espaciais, não se restringe ao território (à maneira dos colonialismos, do fascismo italiano ou do nazismo). Quatro imagens fáceis de serem visualizadas que abordam os efeitos dessa logística: repassar o e-mail sem conferir a veracidade do mesmo; curtir uma citação ou compartilhar uma imagem no Facebook sem, de fato, ter gostado ou sentir-se parte de nada; parabenizar, genericamente, um aniversariante que seja seu contato numa rede social qualquer; achar que o post novo daquele weblog que você visita poderia ter sido menor. Se uma ameba numa solução aquosa tem um feixe de luz incidido sobre ela, imediatamente volve seu corpo para a fonte luminosa; a percepção do feixe e a ação sobre o feixe é um único e mesmo movimento, é a afirmação maior de um esquema sensório-motor, supressor do contexto, do tempo e do pensamento (logo, da subjetividade, da problematização e da invenção).

Pierre Lévy discordaria desse anti-instrumentalismo. Numa abordagem tradicionalista da comunicação, o comunicar teria, como função primeira, a transmissão de informações, o contexto intervindo, apenas, como um auxiliar na interpretação das mensagens dirigidas. Mas, para Lévy, o ato de comunicar define, fundamentalmente, a situação que significa e valora a troca de mensagens; agir e comunicar são sinônimos, sim, mas apenas quando consideramos o contexto como o próprio alvo da comunicação, dos atos-de-comunicação. Dentro de escalas variáveis (pessoas, aparelhos, técnicas, organizações), os atores da comunicação e os elementos das mensagens que emitem (falas, objetos, planejamentos, dispositivos) criam e recriam universos de sentido, mundos de significação. Para Lévy, essa estrutura hipertextual não dá conta, tão somente, dos processos comunicativos, mas sobretudo dos processos sociotécnicos. O hipertexto como uma metáfora para todas as esferas do real que tratem da produção e do consumo de bens e significações. Se Virilio condena a cibercultura por considerá-la a terrível encarnação dum totalitarismo desterritorializado, Lévy aposta, justamente, nesta ausência de chão para investir numa nova cultura centrada em coletivos inteligentes.  Falo, por telefone e Live Messenger, com um amigo residente no Japão enquanto tomo uma xícara de café para não dormir devido ao horário já avançado; o celular separa a minha voz do meu corpo e a faz viajar distâncias inalcançáveis às minhas pregas vocais e numa velocidade maior do que a velocidade dos ventos (a conversa se dá aqui ou lá?...); a xícara de café noturna não me deixa dormir e me faz experimentar a vigília para além de seu alcance dito natural (as ferramentas são extensões de meu corpo?...); enfim: meu eu, minha alma, minha luz natural está aqui ou lá, lá longe onde a minha escrita chega, minha voz atinge, minha visão alcança? Onde estou presente? E quando? Onde está meu corpo? Sou um corpo? Sou um corpo (e não dois, dez ou infinitos)?

Tanto na imagem cinematográfica (filmes, seriados, documentários, telejornais) quanto nas hiper-mídias (websites, chats, blogs...) temos redes sociotécnicas produtoras de significação, que se entrecruzam o tempo todo em suas potências (a televisão interativa, o spam comercial, o domínio virtual privado). O problema: como saimos de devoradores de imagens para produtores de sentido? Lévy e Virilio personificam dualidades que não são as de um Zaratustra: a potência revolucionária das tecnologias (o martelo a abater o bisão, o Facebook a abater Mubarak) e a anestesia dos encontros e afetos propiciada pela velocidade das tecnologias (o professor especializado em dar aulas sobre a boa utilização do martelo, o internauta perdido em movimentos circulares e inengendrados no Facebook). São excludentes? Deverasmente não.

Se quero aprender um pouco de música, posso encontrar muita informação disponível pela internet: história dos estilos, os instrumentos e a organização duma orquestra, leitura de pautas, cifragem européia, luthieria; uma simples busca no Google me apresenta bibliotecas e compêndios sem fim. Pesquiso um manual de teoria musical, leio um artigo sobre o nascimento da noção de harmonia, assisto interpretações históricas no Youtube, baixo CD´s diversos, converso com outras pessoas numa comunidade do Orkut dedicada à música instrumental. Depois disto tudo, quando, numa roda de conversa, me perguntam onde eu aprendi sobre, sei lá, "as diferenças entre o Tango e o Flamenco" ou onde eu - sei lá, mais uma vez - aprendi a interpretar Luiza, do Tom Jobim, daquele jeito, respondo: "na internet, oras". E esta resposta, embora correta, pode nos levar a colocar um problema inexistente, visto lidar com este misto mal-analisado que é a noção de espaço (o onde da questão).

Pensar a internet como um espaço no qual impera a livre produção de conhecimento e o compartilhamento de informações é assumir-se ingênuo se não remodelamos a própria ideia de espacialidade. Afinal, se aprendo japonês com aquele meu amigo nipônico (por telefone e Live Messenger, repito) e me perguntarem na mesma roda de conversa "onde você aprendeu o idioma?", seria estranho se eu respondesse "no telefone" ou "no msn". O telefone e o msn estruturam, isso sim, a rede cognitiva que condiciona o aprendizado (que não é o aprendizado simples de um organismo, de um eu, mas a atualização dum coletivo em virtualidade). Idem para a internet. A noção de internet pensada como um lugar só é válida se pensarmos o telefone, o livro, a televisão, a fala e tantas outras tecnologias da informação como outros lugares (o que logo nos soa como estranho, sem sentido). Se a internet for espaço seria um espaço trans-local, trans-lugar, espaço-trans-espacial, espaço ciborgue, ciber-espaço. Logo, o sujeito conectado, o ciborgue, é trans-egóico e identifica-se com o coletivo articulado de tecnologias que o condiciona.

Neste sentido, não há nada de mais antigo que a internet (rede-entre-redes) já que essa condição ciborgue é que funda a condição humana (je est un autre, diria Rimbaud). E o outro, a diferença, o trans-identitário, é sempre incômodo, doloroso e hostil. Se Beethoven tinha de dar seus pulos-de-gato para assistir os concertos de Mozart ou conseguir cópias bem transcritas da obra de Bach, o musicista de hoje só precisa visitar o Youtube e o IMSLP, que está tudo lá. Tanto este tem quanto Beethoven teve acesso a informações, a redes de significação que permitem ao meu contemporâneo e permitiam ao Ludwig van produzir e consumir música, com a distinção de que o repertório de conhecimento legado ao estudante de hoje é alarmantemente maior e de mais fácil acesso que o do cão da Renânia. Seriam os músicos da atualidade, então, potencialmente, melhores artistas que Beethoven? Não, nem ouso pensar em nada semelhante. O padre proibe o excesso pois este inibe a sensibilidade; Beethoven, na correria e no esforço ascético para ouvir e fazer som, produz afetos, encontros, coletivos inteiros. Toda a geração atual de músicos e ouvintes internautas - incluo-me aí - só precisa apertar o play dum executor de mídia qualquer em seu próprio PC e é isso. A música de Beethoven dói. A minha é um esquema sensório-motor. Beethoven é profundo não por conhecer a música em demasia, mas por tecê-la em rede e por conectá-la a outras redes produtoras de vida e de diferença. Ele é a engrenagem; eu (o eu...), o botão.

Se pareço pactuar com Virilio, não o faço rompendo com Lévy. Eles aprovariam essa promiscuidade maquínica e poligâmica que faço com ambos, acredito. Se a velocidade tecnológica sequestra e captura a subjetividade, ela também pode ser apropriada para a produção de liberdade (não o livre-arbítrio, que é apenas o ego de barriga cheia, plenamente saciado e anestesiado pelo seu coletivo). Com o martelo, o campo problemático instalado pelo bisão não mais existe; o caçador pode entregar-se à luxúria, à preguiça e ao conforto; mas, aí, já coloca possibilidades para a instauração de um novo problema (logo, de novas possíveis invenções; invenções do eu, dos objetos, do espaço, do tempo, do mundo). O Facebook-rede, que promoveu no dia 25 de Janeiro deste ano uma mobilização de centenas de milhares de pessoas na praça Tahrir em protesto ao abuso das forças de segurança e das políticas do governo que empobreceram o povo egípcio, fazendo o presidente-ditador Hosni Mubarak renuciar aos seus 30 anos de poder; e o Facebook-coisa, o que você utiliza pra ficar derivando improdutivamente nos espaços virtuais ("estou no Face, estou no msn, estou no Twitter...") e rindo dos mesmos memes num ritornelo infinito. Se perceber, aja: é o lema do esquema sensório-motor. A subversão desse esquema não é a imobilidade, o vazio, o caos, a entropia. O oposto do chão sólido e de sua segurança não é uma morte agonizante no mar revolto, mas os diversos barquinhos e navios, tábuas e iates, botes e trans-atlânticos, que nos levam a paragens antes desconhecidas. Revolucionar não é demolir o esquema S-M, mas apenas colocar o afeto entre um e outro e fazer a resposta durar, dar tempo à solução para que ela se mature e nos mature, nos legando não mais uma reação previsível e mecânica, mas uma ação propriamente dita. Invenire...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Carta a um intelectual


Sou poeta, antes de qualquer coisa; mas poeta por incapacidade. Tenho certa inabilidade para com a ordem e o decoro. Olho pra você: engomado, perfumado, todo penteado. Escreve como um anjo. É encadeado, objetivo, cirúrgico e, como tal, é um enviado do divino. É a nossa diferença maior, inclusive. Indo direto ao assunto – o que não costumo fazer – digo que não partilhamos da mesma caneta. Escrevo para te dizer isto, e é só (somente, mas não sozinho, e por não ser sozinho, vou teimar e continuar a escrever, pra povoar isto aqui de gentes, bichos, monstros, demônios). A sua caneta aponta para as coisas, é caneta de adequação ao mundo, de referência ao real. Se eu te chamo de resignado? Sim! Claro! Mas não tenho muita certeza. A paixão, sim, mas não a certeza. Duvido, mas não como filósofo. Minha dúvida não é uma epoché, tampouco uma ignorância, mas uma doença. Você fala e escreve para informar um segundo sobre um terceiro. Seu mundo é um triângulo, seu mundo é uma trindade santíssima. Já eu não tenho um mundo meu. Sou incapaz de organizar e decorar a vida, e faço questão de não te deixar esquecer isso. Vê só, acabei de ler um texto seu; você fala de alguma-coisa usando o pensamento de não-sei-quem e aproximando com a escola de não-sei-onde. Seu texto é uma aula: todos os alunos calados (ou dormindo, já que calar é colocar os demônios pra dormir), uma cadeia de argumentos em desenvolvimento e alguma temática obscura  a se esclarecer. Quando escrever se resume a informar e comunicar, quando escrever se torna dar uma aula, a única lida que podemos ter com um enunciado é dizer da verdade ou da falsidade dele. Sintaxe, morfologia, semântica, gramáticas etc, etc. É verdadeiro, é falso, é ruído (o aluno que acorda). À sua fala que representa o mundo (epistêmica e politicamente), apresento a minha que o constrói. Minha linguagem é ferramenta, no literal. Um martelo para pregar, um violão para cativar, um punho para derrubar. Eu não “informo sobre o real”,  mas me insiro nele e o afeto. Gastar saliva para só dizer da verdade (ou da mentira, que é a verdade pelo  avesso; “desconstruída”, como diria você) é muito custo para pouco benefício. Salivo e faço poesia, e isto pela minha incapacidade de organizar a casa. Sou incapaz, já o confessei, e se sou um poeta é porque também não sei cuspir (o melhor custo-benefício da saliva,  inclusive;  nem Sócrates nem Cálicles, mas Diógenes). Você procede pela educação (a melhor das hipóteses), pela propaganda (o mal-por-vir) e pelo fascismo (os desejos de tirania; e falo dos cotidianos, mesmo) para construir um Mundo Melhor. O que faço em minha anti-filosofia é trabalhar, e trabalhar coletivamente, no incessante ofício de enxugar gelo que é construir nossas próprias histórias. Se o aluno acorda, isso não é lá algo ruim. Os ruidosos não precisam de educação, informação, punição, que seja; precisamos, isso sim, construir corpos que suportem esses ruídos e mundos nos quais esses ruídos possam tornar-se voz. Se sou incapaz de submeter os infinitos mundos e transformá-los num 3, é porque os próprios mundos não se prestam a essa tarefa. Minha incapacidade é respeito por esse desejo. Não sou parteiro das almas, mas um mago do câncer, um terrorista biológico. Você ajuda a dar a luz; eu, incito gangrenas. E isto porque amo, acredita? Já desisti de instruir o aluno, contextualizar o leitor e ler os textos de outros com os meus próprios olhos, e passei a trabalhar, inserido em meu próprio mundinho (e atento aos demais, que são bem mais que três), com minhas próprias ferramentas, numa história (e não mais num Mundo...) melhor.