sábado, 15 de agosto de 2009

Kant!


Quando, dentre as opções que me foram ofertadas no grupo de pesquisa, escolhi estudar e discorrer sobre Kant, não imaginava a seara na qual eu estava me metendo. Ao ler os títulos de suas obras, sessões e capítulos, espantei-me: doutrina transcendental dos elementos, arquitetônica da razão pura, analítica dos princípios, dialética da razão prática, juizo teleológico! Resolvi encarar a fera, mesmo temendo suas garras e presas, achando que tudo não passava duma finta para espantar aventureiros incautos. O bicho, no entanto, era poderoso, contrariando as minhas suspeitas! Golpes e mais golpes foram desferidos, mas o tarrasque continuava inabalável! Resolvi abandonar a arena e ir buscar ajuda naqueles que já o enfrentaram e sairam vivos da batalha. Depois de alguma instrução, voltei à caverna e - após algumas horas de mais sanguinolência - demos por empatado o combate. Revelo agora, aos amigos de campanha, minhas cicatrizes, queimaduras e demais marcas que o monstro imprimiu em mim.
Kant é figurado, pelos grandes corifeus da história da filosofia, como idealista crítico ou idealista transcendental, sendo sua filosofia considerada um ponto de ruptura com o saber ocidental, tal qual uma "revolução copernicana" na história do pensamento. Vários pontos da trajetória pessoal de Immanuel mereceriam ser comentados aqui, a título de colocar seu sistema como fruto da história. E - claro! - fofoquinhas acadêmicas nunca são demais! Mas evito tal empreitada, visto que a mesma não é essencial a uma exposição do corpo teórico kantiano (embora dê uma matizada no mesmo...).
O pensamento do filósofo era centrado no racionalismo de Leibniz e na física newtoniana, fato evidente em seus escritos iniciais, nos quais concebia o universo como um sistema harmônico regido pela matemática. Pouco a pouco, seu contato com os empiristas ingleses - David Hume, principalmente - levou-o a adotar uma posição crítica diante da relação conhecimento-realidade, típica do racionalismo.
Como dizia Hume, o conhecimento tem origem na experiência. Kant concorda. Foi até desperto de seu "sono dogmático" por Hume, chegou a afirmar. Mas, para Kant, isto não significa que o saber dependa unicamente da experiência sensível. Segundo ele, a realidade física é a posteriori - a partir da experiência, por indução - sendo um erro atribuir a este mundo de diversidades sensíveis algum princípio universal. Toda ciência racional, dizia, deve ser fundamentada em princípios a priori, dedutivos e independentes da experiência.
Os historiadores descrevem três Kants: o primeiro é dedicado às matemáticas e às ciências naturais; o segundo começa a se interessar pela filosofia e pelo conhecimento, confluindo nas temáticas que resultarão no criticismo do terceiro Kant. É este último, e seus três principais trabalhos, que nos interessam: A Crítica da Razão Pura (1781), a Crítica da Razão Prática (1788) e a Crítica do Juízo (1790), visto que neste período de sua obra, Kant sintetiza - e supera! - as duas grandes correntes de pensamento da sua época, a saber o racionalismo e o empirismo, além de pretender tornar a filosofia compatível com os saberes físico-matemáticos de então.
A Crítica da Razão Pura é a teoria do conhecimento de Kant, na qual formula uma filosofia com aspirações à validade universal, mas distante da metafísica racionalista. Kant nos diz que todo conhecimento sobre a realidade sensível vem, originalmente, da experiência, cujos dados se estruturam graças às intuições da sensibilidade - o tempo e o espaço - que não são propriedades das coisas mesmas mas formas segundo as quais o intelecto representa a realidade. Num segundo momento, tais representações se ordenam segundo as categorias do entendimento - formas a priori da razão - espécie de moldura das experiências singulares. Destarte, não há a coisa-em-si, a coisa tal como ela é, mas fenômenos, as coisas tais como são percebidas e elaboradas por nossa faculdade do entendimento. O conhecimento, aqui, torna-se síntese entre as formas do intelecto e os conteúdos da experiência. A ponte entre ambos - diria Kant - é a imaginação, entendida como faculdade criadora. No entanto, quando a razão se aplica a conceitos que não podem ser apreendidos pela sensibilidade ("Deus" ou "alma", em exemplo) são produzidas as "ilusões da razão" ou, mais diretamente, simples especulações metafísicas que devem ser distintas do conhecimento objetivo.
Na Crítica da Razão Prática está exposta a doutrina ética kantiana, base para a demonstração duma ordem transcendente sem que fosse necessário recorrer às especulações metafísicas. A ética, em Kant, não precisa dos dados da sensibilidade; logo, não pode cair em "ilusões". Para Kant, a consciência moral é um dado tão evidente quanto os corpos da física de Newton. Ela seria a razão aplicada à ação, uma ação que seria moral - razão pura prática! - quando regida por imperativos categóricos, e não por imperativos hipotéticos, tais quais as punições da lei. Deixemos que o próprio Kant enuncie o seu imperativo categórico: "Age de tal modo que o motivo que te levou a agir possa tornar-se lei universal". A aceitação pelos homens da lei moral é - diz Kant - prova de que existe uma ordem que transcende o sensível, cujo fundamento único é a existência de Deus. Deduz, assim, a metafísica; não da ciência e dos sentidos, mas da ética.
E, por fim, falemos da Crítica do Juízo. Sendo suscinto, aqui Kant analisa a "beleza" e a "finalidade" enquanto inerentes ao homem, mas também como não explicáveis pela experiência mesma. A intuição estética, enquanto faculdade, sintetiza a imaginação sensível e o entendimento da razão, possibilitando que a razão se torne sensível e a sensibilidade prove da razão.
O kantismo é etapa decisiva e fecunda na história do pensamento ocidental. Que nenhum profano o negue! Kant foi ponto de partida para a moderna filosofia alemã (Fichte, Schelling, Hegel, Schopenhauer...) e provoca ressonâncias em diversas correntes no hoje: os idealistas realçam o caráter criativo dado por Kant à razão humana, os positivistas assimilaram sua crítica à metafísica e os fenomenólogos beberam da problemática sujeito-objeto levantada pelo filósofo. Pena que seu pensamento, na busca por rigor e fundamento, seja extremamente absolutista e pretensamente universal. Coisa de filósofo, mesmo! Sua própria vida era caracterizada por uma rotina notável. Nunca viajou a mais de 100 Km da pequenina Königsberg, sua cidade natal; nunca se atrasou a um compromisso - salvo duas vezes, sendo uma delas durante acontecimentos revoltosos da Revolução Francesa; e, segundo dizem, sempre que aparecia à porta de casa para o seu passeio vespertino, os vizinhos podiam acertar os relógios: eram - exatamente! - três e meia da tarde...

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